sábado, 30 de dezembro de 2017

Antônio Pinto dos Reis

(com Leandro Quintela)

Meu avô veio de Portugal
Para o Brasil tentar a vida
Já com trinta anos
Quase sem estudo
Formal
Mas curioso
Aprendeu sozinho
A fazer de tudo um pouco:
Trabalhava com marcenaria,
Trabalhava com obra,
Trabalhava com eletricidade,
Trabalhava com hidráulica,
E acabou ficando muito bom nisso.

Conheceu aqui no Rio minha avó
Maria Virgínia,
De pais nordestinos,
Quase sem saber ler,
Sem sobrenome,
Ambos sem família
Perto,
Casaram,
Quatro filhos.

Meu tio fotógrafo
Em busca do melhor ângulo
Em cima de uma cachoeira
Na Floresta da Tijuca
Morreu.

O Virgínia acabou passando
Da vida para os filhas,
O Antônio de seu nome
Para os filhos
Os filhos tiveram filhos,
Os netos agora esperam bisnetos.

Ele que nunca reclamou de nada,
Que sempre estava sorrindo
Mesmo passando
Dificuldades,
Em um quarto e sala com quatro crianças e um neto criado pela minha tia que engravidou jovem do meu primo,
Com um pai sumido como tantos.

Mas hoje estão todos encaminhados.

O aniversário dele eu não perco por nada
Pois sei que falta pouco.
Ele é o porque da família ser
O que é hoje,
É dele que vem
Nossa união.

Com 77 anos ele fez toda a obra
Da casa da minha mãe
De 8:00 às 19:00,
Com 80 anos fazendo os armários
Projetados de lá
Desenhando tudo
Antes de montar
Sem nunca pedir nada
Em troca
E ele hoje com 92
Apesar de não acompanhar
Tanto,
Seu sotaque permanece,
Nas reuniões
De família
Ele transborda
De felicidade,
Presente,
Em seu sorriso uma inspiração
Silenciosa
No agir e no viver
Para todos.

domingo, 24 de dezembro de 2017

Rasgam-se os ventos

Os carros rasgam o vento
Que toca o rosto
Em um passeio na Av Atlântica,
Esse vento de seda quente,
Esse vento de mil línguas
E noites sem fim.

A bicicleta rasga o vento
E a boca de sal e de sol
E o azul turquesa do mar
E ao fundo os Dois Irmãos
Verdes,
Estamos no 11, o 12 no horizonte,
Na avenida quase vazia
Do domingo à tarde.

A bicicleta rasga o vento
E os corpos e as saias e os óculos,
A bicicleta rasga o vento
E os toques e os beijos e os tantos
Caminhos em meio ao mar.

É certo, é certo
É chegada a hora,
Da dissolução.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Mais uma noite

Mais uma noite em Santa
Mais uma noite que canta
E dança,
Mais uma noite que dia,
Mais uma noite não fria
Mas quente,
Não um espaço mais pouco,
Não um espaço que rouco
E surdo,
Não um espaço pequeno,
Não um espaço ameno
Mas tensionado
Mas em busca
Mas sem sombra,
Mais uma noite em Santa,
Mais uma noite que canta.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Giram

E giram as saias
E giram os cabelos
E giram os vestidos
E giram
E giram.

E giram as flores
E giram os sorrisos
E giram os abraços
E giram
E giram
E giram.

E giram os sonhos
E giram os perfumes
E gira o amanhã
E gira
E gira
E gira
E gira.

Luta

Por um mundo mais justo,
Por um mundo mais sincero,
Por um mundo
Mais mundo
Acordo cada manhã.

Por um dia
Em que estudar não seja barreira,
Em que trabalhar não seja sonho,
Em que a dignidade
Seja o mínimo
Entrego meus dias e noites.

Pela certeza
De devolver um pouquinho do privilégio que tive,
De garantir um pequeno sorriso em quem o mundo não faz sorrir,
De buscar aquela pequena diferença que talvez ainda seja insuficiente,
Mas seja alguma diferença,
Quero dedicar
Meu ontem
E meu amanhã.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O quase

Um quasepoema
Como um
Poema
Que não aconteceu.

Que ficou à beira de
Mas não,
Que tocou a margem
Mas não mergulhou.

Um quasepoema
Como um quaseacontecimento,
Um quasepossível
Mas não.

Um quaselampejo
Quaselá
Quaseprovável
Um porpouco.

Logo vê-se:
Sem sangue não há vísceras,
Sem dor não há glória,
Sem sono ou travesseiro
A acalmar a história
Recém inventada.

Sem horizonte não há amanhã,
Sem noite não há dia,
Sem quimera não há sonho,
Sem luz não há possível
Manhã.

Sem carne não há pele,
Sem sopro não há vida,
Sem céu não há nada
A se esperar.

Mas sem qualquer aguardo há o hoje
Frio, amargo e quente
A borbulhar doce e transparente
No túnel sem qualquer
Fim.

Roy, o poeta

Roy, o poeta,
Esse epíteto vazio,
Esse aposto
Com vírgula,
Esse talvez
Distante,
Esse tão outro,
O poeta,
Mas o que é ser
Poeta,
Essa dúvida,
Esse talvez,
Ser poeta
Quem sabe é sofrer
Enquanto todos riem,
Ser poeta quem sabe é sorrir
Enquanto acaba
O mundo,
Mas não há
Mundo
Então pode se acabar,
Ser poeta quem sabe
É ver sempre
O fundo do copo,
A guimba
E o sangue
Pisado,
Ser poeta
Quem sabe
É fazer perguntas
Quando todos tem
Respostas,
Ser poeta
Quem sabe
Talvez seja
Amar o mundo
Que te faz
Ser outro,
Que te faz
Ser pária,
Que te faz
Ser algo
Distante,
Ser poeta quem sabe
Talvez seja
Isso:
Um constante talvez
Em meio a um mundo
Dúbio,
Uma constante certeza,
Uma sempre esperança
Em meio a um mundo
Frio,
Ser poeta é isso:
Ser quente
Enquanto é oceano
O mundo.

domingo, 19 de novembro de 2017

Garimpo

(Com Reinaldo Gomes Santos)

Comecei com
Dezesseis anos,
Em 1982.
Não tinha como continuar os estudos
Aqui em Igatu.

Meu pai me levava
Pequenininho
Para ficar lá no garimpo com ele
A brincar,
Junto do meu avô, minha avó, minha sogra,
Além de quatro
Dos meus seis irmãos.

Às vezes um ano inteiro sem nada
Até encontrar um grão de feijão
Que mal pagava os gastos todos.

A emoção
De poder pagar as dívidas,
De poder comprar alguma coisa
Que precisava lá em casa.

Meu primeiro sonho
Era comprar uma bicicleta:
Consegui uma 79,
Com apenas três anos de uso.
Depois trocava de bicicleta todo ano.

Em 84 comprei um carrinho usado,
Um Corcel 77,
Com dois diamantes
Lá do rio Baiano
Lá perto de Andaraí,
Um com dez
Outro onze quilates.

O patrão não vendeu eles brutos
Mas lapidou
E ganhou uma grana.

O carro acabou vendido por outro patrão
Em Goiás
A uma borracharia.

Os patrões sempre passavam a gente para trás.

Ja garimpei em Goiás,
Na Bahia e no Piauí.

Quando vieram as dragas
De Mato Grosso, Minas Gerais,
Trabalhávamos em grupos de sete,
Seis no garimpo e um na cozinha.
Cada um ficava com 5%
E o patrão com 65%.

Mas o patrão comprava por três mil
Um diamante que valia dez
E a gente tinha que aceitar.

O rio Paraguaçu é muito rico.

Quando era época
Para ajudar na renda
A gente colhia sempre-viva,
Uma flor
Que o pessoal vinha e comprava.

A sensação de estar no garimpo
É muito boa,
Às vezes dormia na serra cinco, seis noites,
Ia dormir tarde contando histórias,
Comendo feijão com mocotó,
De manhã café e farofa
E cada um para o seu garimpo.

Às vezes dá saudades
Daqueles momentos bons
Que a gente passou com os colegas.

Garimpei até 2000
E vim para o turismo.
Minha casa mesmo
Eu construí depois de garimpar.

Meus irmãos parou primeiro que eu,
Dois foi para São Paulo
Um para Aracaju,
E mais três em Igatu.
Meu pai hoje aposentado.

Amigo que se deu bem
Eu nunca vi não,
Nem os próprios compradores:
Não sei o que acontece com o diamante.
As nossas riquezas
Os gringo levou tudo para fora.

Tem garimpeiro
Que não volta nem pra visitar
De tanta raiva.

É uma febre,
É um jogo,
É uma aposta,
Conseguir o próximo diamante.

Se alguém me pedir um conselho
Para garimpar
Ia dizer para não fazer,
Não é boa ideia não:
Não ia conseguir nada
E ia destruir a natureza.

Já perdi um amigo
O gaúcho Ademir Fontana
Quando garimpava com um motor
Na gruta da Serra Alta.
Sua mulher tinha largado ele
Porque ele não voltava do garimpo.

Hoje tem um gringo
Da Dinamarca
Que já vendeu tudo
Para continuar garimpando
Com a peneira manual.

Meu primeiro patrão,
Baiano que tinha Mercedes
E trocava de carro todo ano,
Perdeu tudo e
Acabou vendendo coisas
Na rodoviária.

Outro,
Um patrão que chegou a ter oito dragas,
Vendeu tudo para continuar garimpando
E hoje vive de aposentadoria.
Os filhos estão por aí.
O que está melhorzinho
Abriu uma pequena
Borracharia.

No garimpo
É assim:
Não tem final feliz.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Paris

O vento frio
Penetra as várias camadas
De roupa e de pele,
O céu nublado
Vindo diretamente de um quadro de Monet,
De Sisley, Van Gogh ou Manet,
O outono chegou
À Paris.

Os museus, tantos,
D'Orsay, Louvre, Orangerie,
Il n'est pas possible de toute les connaitre
Dans un seule vie,
Il n'est pas possible de les pas connaitre.

Os cafés prometem
Um descanso para o olhar
E um pouquinho de calor.

Il n'est pas possible
De n'etre pas hereux
Nous sommes à Paris.

Les velos roullent rapide
Il n'y a pas aucun du temp
À perdre.

Os ratos são tantos
A transmitir a Peste
Aos pés de Notre Dame.

Os turistas são tantos
Com suas câmeras e selfies,
Os olhos fechados pelo flash.

A tensão, o exército,
Uma ameaça de bomba
Filha da desigualdade.

As línguas, a sombra
Dos excluídos da felicidade,
Do banquete e do pão.

Mais il n'est pas possible
De n'etre pas hereux
Nous sommes à Paris.

Un héroe dans le metro
Chante son vers,
La famine feraux
Est oublie pour la fête.

As bandeiras da França,
A arquitetura monumental
Feita de distância e luz,
Os prédios com blocos de gelo
Amarelo, as bailarinas de Degas,
O Quartier Latin
Erguido por vidas e páginas,
O Senna e as pontes
Cheias de pedidos aprisionados
Talvez para sempre.

Os garçons secos
Oferecem sonhos para a boca
Du cannard, du patisserie, du frommage, du foie
Gras, a tantos e tantos
Olhares febris.

Dans le Jardín des Tulleries
Les oiseuaus chantent
Son cri étranger et patethyque
Mais sont les plus sympathiques
Quand il a du pain.

Les courbeaux chantent
Et nous rapellent tout le temp
Qui la mort est froide
Et proche.

Mais il n'est pas possible
De n'etre pas hereux
Nous sommes à Paris.

No horizonte a torre
Com seus halos
Brancos em meio à escuridão.

À noite passamos a porta
Do inferno e todos
Os gatos são pardos
À procura de alguma diversão,
De vinho e tabaco,
Absinto e corpos.

Il y a Le Chat Noir, Le Moulin Rouge,
Et une infinité d'opcions
Qu'il ne será pas vrai
Si on dit qu'il n'avait pas sourri
Un petit peu
À Paris.

Trinquons à la vieille dame

(avec Mariette Coat)

Avant de faire du marketing
J'étais infirmière
Et un jour
Dans un service de pneumologie
Quelque chose est arrivée.

Je m'occupais d'une vieille dame,
Elle était très malade
Avec beaucoup d'eau dans ses poumons
Mais étrangement tout le temps
Souriante.

Je l'ai vu toute les matins
Pendant trois semaines
Mais petit a petit
La maladie
A gagné du terrain.

Elle était bien entourée
Avec ses enfants.
Mais bizarrement, personne n'était triste dans sa famille.

Une jour
Je parlais avec elle,
"C'est étrange que vous soyez souriante
Devant la mort"
Elle m'a dit
"Je n'ai pas peur de la mort,
J'ai eu tout ce dont je rêvais
Dans ma vie"

"J'ai eu une mari
Qui m'aimait,
J'ai eu des enfants"

Dans son regard
On pouvait voir
La sérénité
C'est comme ça,
C'est bien comme ça.
Pas de fatalité.
Ses yeux m'on dit
"Je ne changerais
Rien".

Une matin
Elle est décédée
On m'apelle.
Autour de son lit
On se donnait la main
On priait pour elle.
On s'est embrassé
Et on m'a dit
Que ce n'était pas un moment triste
Et que toute les années
Ils iraient boire une verre
Pour célébrer ce moment.

J'espère qu'un jour
Je serai comme elle
A la fin de la vie,
Heureuse avec des choses simples,
Consciente des choses importantes,
Reconnaissante des moments partagés.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Gare de Lyon

(com Alexandre Cavalcante)

Aqui trem é algo mais fundo,
É despedida, reencontro.

Às vezes vendo o amor
Parado na estação
Talvez para sempre
E o trem te levando
Involuntariamente.

A força de um trem,
Uma máquina
Desse tamanho
A mais de 300 km/h,
É fantástico.

Repare na luz,
Repare nas gárgolas,
Repare na suntuosidade
Do teto do Le Train Bleu.

Aqui penso num tempo em que
Eu não vivi
E de repente estamos em uma foto
De Doisneau
Sem qualquer dificuldade,
Os beijos, as cartolas.

O trem do futuro
Vence as distâncias há tanto tempo
Que já é passado.

A cicatriz do vento no rosto do trem,
Maltratado pela intempérie
Com suas tantas moscas mortas
Esmagadas em instantes invisíveis.

Uma senhora
Apanhada
A roubar e a gritar
Nos transporta para o presente.

O relógio antigo
Ao lado do painel eletrônico,
A poeira de veludo,
As colunas, o teto,
A luz do sol,
Como uma mulher
Tão bela em suas rugas
Essa estação nos aguarda
Para um último adeus.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Três pontos

(com Sara Martinho)

Eu ia para uma colônia
De férias quando era mais nova
E houve um ano em que eu fui
Era 1998, quando conheci um rapaz lá.

Tinha aquelas coisas de adolescente,
Tive uma grande panca por ele,
Mas eu nunca lhe disse.

Éramos só amigos.

Nós continuamos a encontrarnos
Algumas vezes
Apesar dele morar no Barreiro
E em 29 de novembro
Desse ano de 1998
Fomos a um concerto do Marylin
Manson,
Foi a última vez que eu me lembro
De tê-lo visto.

Eu sou muito chegada a datas,
Muito fixa,
Então todos os anos me lembrava dele
Pelo menos em seu aniversário.

Então no ano passado,
Em 2016,
Fui a Paris.
Estava a ler um livro
E dizia a pedir alguma coisa que parecia impossível.

Foram dezoito anos a procura,
A falar com toda gente,
Mas nada.

Foi isso que eu pedi.

Então em 29 de novembro de 2016
Encontrei-o nas redes sociais,
Mas no dia 4 de dezembro fui para o Brasil
E ele a morar na Inglaterra.

Todos os dias nos falávamos,
A tirar o atraso dos dezoito anos
Até que chegamos
Nas pancas da adolescência.

Ele me disse que no concerto
Esteve a um passo de me dar um
Beijo mas teve medo.

O medo é sempre um estraga prazeres.

Depois eu fui lá visitá-lo
A Leeds quando voltei do Brasil
E voltamos a nos conhecer
Não mais como adolescentes mas
Como adultos
Só que isso
Acabou a estragar o que construímos
Como amigos.

O que é certo é que todas as semanas
Ele me manda uma mensagem a perguntar
Como estou.

Ontem eu percebi
Que devo aceitar,
Me acostumar
O que espero dele,
Ele sentimentalmente indisponível
Antes e agora disponível
Mas não sou
A pessoa que ele procura,
Segundo me disse.

Eu tinha muito isso com ele
De acabar as frases,
De pensar nele quando
Me ligava.

'Estou a tentar desapegar,
Não funciono bem com amizades
Coloridas, estou a procurar a mulher
Da minha vida',
Me disse ele.

Eu lhe respondi:
'Tu pediste-me que te deixasse ir,
E eu deixe-te ir,
Neste momento, sinto que és tu
Que não me deixa ir'.

É isso a minha história:
Houve um princípio, um meio
E um fim com três pontos.

domingo, 5 de novembro de 2017

Guimarães x Benfica

(no clube de Tancos)

Não sei se dava.

Vai vai vai vai caralho,
Golooo!

A um metro e meio.
Não sei, ele apitou antes.

Eu que o ensinei.
Fostes tu?

Foi falta aonde caralho?

Ou sai ou não sai,
Não pode ficar a meio do caminho.

Tu não tens melhor para ficar na baliza,
Tu não tens melhor.

Só os bons guarda redes
É que tomam frango caralho.

Ui, ui.
Olha olha olha olha.

Vamos perder a bola,
A perder a bola.

Tu não vistes o jogo ontem?
Então caralho.

Ui, foda-se.

Então, não está a ouvir as pessoas?
Tira uma Sagres.

Marco, uma Sagres.

Deixa andar o jogo,
Deixa andar o jogo.

Olha ali
Não é pênalti,
Não é pênalti.
Não é?
Foda-se.

É pênalti?
Era.

Tá com cara de mau,
Tá com cara de mau.
Vai vai vai vai vai,
Ah caraças.

Eia, foda-se.

Os gajos vão ganhar
O segundo amarelo.
Não há nada,
Nada nada nada.

Tá aí João,
Me dá essas duas.

Vai cara,
Vai embora.
Isso isso isso.
Golooo!
I love you.

Estás a ver?
O gajo mandou uma bola no jogador do Guimarães.
Estás a ver?

Vai vai vai vai vai vai,
Chuta, chuta.
Goloooo!
Foi o miúdo foi?

Três vezes que o Benfica vai à baliza do Guimarães,
Três gols.

Olha olha olha olha olha olha,
Ah.

O cinco? O cinco?

Tu não és belga?
Vês o jogo,
Vês o jogo.

Mal mal, mal mal mal.
Estás a ver, estás a ver?
Ai ai, ai ai ai.

Tipo assim, tipo assim,
Vai vai vai vai,
Ah, já está.

Benfica está a ganhar,
Então tá.

Andiamo, andiamo,
Tonga
Aiiii.

O melhor jogo que o Benfica vai fazer
Vai ser ganhar ao dragão.
O próximo jogo recebemos o Setúbal
E depois ao dragão.
Mas não é agora,
É depois do feriado.

Eia,
Pênalti.
Como é que este gajo faz um pênalti?
Sem necessidade nenhuma.
Tem nada, o árbitro é um ladrão.

Lado esquerdo ao guarda redes.
Ih, para fora.

Fim de jogo,
3 Benfica, 1 Guimarães.

Vamos a jogar?

Paisagem outonal

À sombra das oliveiras
Balançando com o vento de outono
Passa quase seco
O rio a separar Portugal.

O sol quase aquece as mãos frias,
As árvores quase sombra fazem
Nos bancos vazios,
O canto quase idílico se ouve
Dos pássaros invisíveis.

O castelo do Almourão compõe a paisagem,
Ocre, vertical, retilíneo,
Imponente sobre a curva do Tejo
E seus tantos bancos de areia.

As moscas a zumbir compõe a paisagem,
Impertinentes, afoitas,
Nascidas aflitas no esgoto do Tejo
Despejado calmamente in natura.

Lá longe um trem passa
A marcar as quase estáticas horas,
Lá longe um carro passa
É a Paula a voltar para o almoço,
Lá longe um cão late, dois, três,
Do outro lado do rio.

Do outro lado do rio casas brancas de telhado marrom-vermelho,
Uma igreja a badalar seus sinos,
Um ancoradouro quase vazio
A não ser por um barco herói
Ou esquecido.

No Tejo já se ouviu risos de crianças,
Não há mais,
No Tejo já se fizeram navegações,
O calado é demais,
No Tejo já se aprendeu a nadar,
Não se pode mais,
O Tejo é grande parte lembrança,
História, paisagem
E saudades.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Sonho

(com Cristiano Fonseca)

Eu estava a jogar
A marcar gols.

Eles me passavam a bola
E eu passava a eles.

Eu é que marcava
Os golos todos.

Ganhamos
Com cento e um golos
A zero.

Se tu tivesses o meu sonho,
Ias sorrir,
Ias ficar contente,
Feliz.

A minha história já acabou
Sabias?

É só isto a minha história.

Era uma história fixe.

Ok, agora podemos ir jogar?

Sueca

(com uma mesa de jogadores)

Vou a mostrar
O que está a acontecer.

Um jogo de cartas
À luz fria de um bar de Tancos
Em Portugal.

O olhar atento
Do seco corte preciso
E agora o que é que jogo?

Oh, es tu?
A puxada é de espadas

Cigarros
Acesos,
Cervejas
E vinhos.

Cartas na mesa.

Ói.
Eeee.

Vieram com todos os pontos.

Ao fundo um pembolim,
O som de um jogo qualquer.

Eu tenho seis trunfos
Eu tenho quatro.

Fiquei quase a jogar aquela.

Vocês são umas bruxas,
O Halloween já passou.

Essa é nossa
Eu joguei a dama.

Você já tinha o jogo livre
Foi isso que fiquei a pensar.

Ainda pensei que estivestes em bisca.

Um grito,
Gol no pembolim.

Tome o teu ponto.

Ganharam
Dez a cinco.

Ser bombeiro

(com João Mesquita)

Ser bombeiro
É bom,
Mas às vezes é um bocado
Desvalorizado,
Somos um bocado
Criticados
E às vezes até um obrigado nos ajuda:
É como se ficássemos ricos.

Nunca sabemos para que sitios vamos.

Quando eu estou no fogo
Apenas um
'Obrigado por aquilo que fizeste'
'Obrigado por nos ajudares'
Nos basta.

Aprendemos a salvarmos uma vida
Apesar de nem sempre conseguirmos
Pela nossa infelicidade.

É uma experiência frustrante
E ainda somos criticados
Apesar de tentarmos de tudo.

Quantas pessoas já salvaste na vida?

Salvar é o dever de nós próprios
E quando o fazemos
Nos sentimos bem.

Infelizmente eu tive o meu melhor amigo
Que andava a aprender a ser bombeiro
Que sempre me diste 'vai ser bombeiro'
E eu dizia 'não',
Mas sua morte súbita
Aos dezesseis,
Me movimenta.

Vou ser bombeiro
Pois eu sinto amor
Me sinto um herói
Necessário
Porque muita gente diz
'Eu faço e aconteço'
Mas não se movimentam.

Nós sentimos
Na pele
O que é o calor,
O que é o frio,
O que é a vida
Apesar de muitas vezes
Não conseguirmos salvar
Aquela que temos nos braços.

Continuo pois
Devo isso às gentes
Como dever meu
De ajudar as pessoas
Seja em que momento for.

A experiência do quintal

(com Filipe Miguel Reis Pelarigo)

O meu quintal
É como um jardim zoológico.
Tem várias espécies de animais
No quintal.
Tenho patos, galinhas, cocós, pintos, galos e rolas turcas.

E durante o ano
Aparecem diversos
Estorninhos, a dormir lá.
Pardais, pintassilgos e melros também.

Quando minha mãe vai para o quintal
Vai com um balde ou com um saco
Os animais quase todos vão todos atrás dela.

Também temos lá gatos,
Paí, sem exagero, vinte gatos.
Eles até parece os reis
Que nem os ratos vão a caçar.
Parece que estão na explanada do Hawaii
A comer e a dormir.

Temos também lá muitas árvores
De fruto, todo ano quase
Há fruta, o gosto
É bom.

Temos tangerinas, laranjas, pêssegos, pêras, uvas, romãs, diospiro, oliveiras,
E acho que é tudo.

O movimento dos animais
A brincadeira que eles fazem
E o convívio que eles tem
Tudo bem
É o que se chama uma verdadeira
Irmandade.

Às vezes lá vemos os gatos atrás
Dos patos, os patos atrás
Dos gatos em
Brincadeira.

Temos um pato mudo
E uma galinha
Ambos andando como
Pinguim
E amigos.

Eu gosto de estar lá
Para apanhar aquele cheiro
Que é mesmo
De quintal.

Estar em um sítio onde se gosta
Às vezes a um
Acontecem melhor
As coisas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Ajuda-me a morrer

(com Maria de Fátima Sousa)

Após 53 anos casados, dos quais
49 morando em França,
Morando de emigrado,
Um telefonema:
'Irmã?'
'O que é que se passa?', digo eu
'Tô cá em Portugal, logo à noite vou aí', me respondeu.

Então ele apareceu e contou-me o que estava a passar.
Sua mulher o havia deixado há três meses,
Fruto de um enredo de mentiras
Criada para esconder o amante dela.

Duas semanas depois,
Ainda em fevereiro, no dia 25,
Ele que sempre vinha jantar
Não veio, e lhe telefonei.
Ele disse que não estava bem
E estava na cama.

Fui ao Entroncamento e ao ver sua falta
De ar, fomos ao hospital, e de lá saímos
Com a certeza
De um cancro em seu pulmão.

Uma semana internado,
Seu filho veio,
'Gostaria de ser tratado
Em França?'

'Não, aqui tenho amor e
Carinho, que é o que não tenho tido.
Se eu morrer, que eu morra
Perto da família
Que me ama.'

Eu, irmã 14 anos mais nova,
Era por ele chamada
De mãe.

Fez cá a quimio,
Levei-o a Torres,
Fez cá a rádio,
Levei-o a Santarém,
Cá ficou em casa
Em Vargos,
Por 11 meses
Até quase a morrer.

No natal
Seu filho visitou,
Sua ex-mulher visitou
Antes de ir para uma discoteca em Açores
Com foto divulgada
Com alegria
No Facebook.

Depois, pouco durou.
Em 11 de janeiro
Ele se foi.

A fé me mantém viva,
Por tudo que já passei.

Pelo que fiz por amor
Seu filho Christophe,
Muito querido,
Conseguiu a bênção do papa
Francisco.

Eu acho que fiz o meu dever como irmã
E como pessoa. Sentir que ajudei alguém a partir
Em paz, me faz bem.

domingo, 29 de outubro de 2017

Pisoteo

(con Mustafa)

Olvidar
A esta chica
Por lo que te gravas en la retina
No se puede
Aunque haya otro amor igual o más
Fuerte.

Y no lo sé porque.

Es así el amor
Un sentimiento incontrolable
Siento por dentro como si fuera pisoteado
Por ella.

Y en el próximo minuto
Diciendo vamos a tomar uno?

Te digo de pisoteado.

Hay más mujeres en el mundo
Pero se puede repetir
Pues el hombre tropieza dos veces
En la misma piedra.

Solo los hombres
Los animales no.

No veo malla intención en ella
Es más allá
Con esa persona sientes seguro tus secretos
Más secretos

Pero el camino es otro
Y así es
Casi quatro años.

El pingüino japonés cuya hembra murió
El canto del corteo él seguía haciendo
Pero no comía hasta
Que le pusieron al lado
Su foto.

Y por eso que sigo aquí
Viniendo tan lejos
Para decirle
Que aún puedo
Vivir.

Pero por más que intento
Mis pasos no son pasos de ella.

Fue solo una noche
De pocos besos.
Nada más.

Y hasta hoy
Sigo aquí
Con la cabeza en los 19 años de España.

O trem é engraçado

O trem é engraçado:
Quando se senta você escolhe
Para onde olhar.

Você escolhe o presente
A partir de trás, para o modo
Como chegamos até aqui, ou
A partir da frente, em busca
De alguma coisa a surgir.

A partir da dúvida curiosa
Sempre sedenta e peregrina,
Ou da lembrança saudade
No momento exato
Em que é saudade.

Não se pode olhar
O presente,
Isso não!

O trem inclemente
Rasga a noite fria com seus faróis e luz e máquina
Solta fumaça cheiros suspiros e lamentos
Rodas metálicas deslizando em trilhos afiados
E em você existe a árvore que será passado
Ou a árvore passada que se tornará borrão.

Às vezes na sua frente
Uma pessoa olha para o outro lado
Atenta
Até que desatenta
Seus pés encontram os seus
E de repente a história toda é contada.

Mas o presente é sempre fugaz
Há que olhá-lo de soslaio no trem
Enquanto nos esquecemos
Ou enquanto não queremos esquecido.

The quiet train

The train is quiet
Nobody makes a whistle
Nobody says a word
And the greenish horizon flows like sea
Waves braking on the shore.

The train is quiet
Somebody has a book
Somebody has earplugs
But the bluish horizon gets filled with windmills
Turning arround without knowing time.

The train is quiet
But the mind isn't
But the soul isn't
And the parallel tracks passes like an endless
River to any uncertain destination.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Para os nossos seis anos

(com Paulo Lontra)

Nosso futuro é tão
Expectativa
Mas na verdade
Estamos dando um puta
Passo.

Ela é uma pessoa
Com a qual basta comunicar
Sempre aberta, sempre em
Parceria, com conversas importantes,
Com uma profundidade que ultrapassa em muito
A página dois.

Ela que consegue olhar a pessoa e ver
O rosto atrás de qualquer
Máscara, ela, com quem eu vou
Me casar.

Pensar na família
Como um time, buscando crescer
Melhor juntos, sempre disposta a falar
O que é preciso, querendo um dia
Algo mais.

A cada ano com mais
Confiança, entendimento, somos duas partes
Independentes e ainda partes,
De algo que cresce.

Dicionário de Bolso

(com Paulo Lontra e Tatiana Cohen)

Amor:
Uma experiência interior
Que olha pra dentro olhando pra fora.

Família:
A proteção de valores
De gerações e gerações.

Generosidade:
O dar sem nada
Esperar de volta.

Prazer:
A efemeridade dos sentidos,
O equilíbrio difícil.

Viagem:
Olhar de fora
Para dentro e ressignificar.

Cultura:
Óculos para
O mundo.

Fim:
Um conceito abstrato, inexistente,
O esquecimento.

Para Rogério Cohen

(com Tatiana Cohen)

Seu temperamento forte
Quase egoísta
Explosivo
Irritado
E ao mesmo tempo tão
Emotivo, inconstante,
Separado tão cedo,
Fazia o básico
Mas eu sei
Eu sei do seu amor.

Eu fortemente ligada à minha mãe,
Ele instável, eu filha única,
O medo de cuidar dele,
Tanto amor e ódio
Até que ele descobriu uma fibrose
No pulmão
Ele pouco a pouco mais cansado
Internado uma vez
Pneumonia
Hospital
Internado uma segunda
Mas na terceira
Na terceira ficou.
Entubado
Sem poder se despedir
Em coma induzido
Um dois três doze dias
Até que sem traqueostomia
Pedido por ele por áudio uma semana atrás
'não deixem',
Não deixamos,
O rim falhou
E ele se foi.

Apesar de achar que eu não iria sentir tanta
Falta,
De repente senti
Tanto mais que eu qualquer dia soube reconhecer
Vi que ele teve depressão
Vi o seu lado generoso
Vi o seu lado bem humorado
Que quando amava amava loucamente
Reafirma todo dia te amo
E eu não dava valor mas sentia
Vergonha, vi como não
Valorizava o seu amor,
Esse seu lado presente mas não enxergado por mim,
O avisar toda viagem 'pai,
Cheguei', pois você estava
Lá.

A toca da onça pintada

A comunidade
Tudo
A seis mãos
No mercado
Na guloseima
Na cerveja
No gasto
Em busca
Dos outros quatro,
Nas derrotas
Nas conversas,
Só sexo não,
E política
Como zona de tensão.

Mas os filmes a seis olhos
As séries,
Todo dia a vida amorosa do Ricardo
É conversada,
No Raul e no Giorgio do Daft Punk,
Pela vida possibilitada
Por esse espaço.

A limpeza a seis braços,
Na feira de comida
No kebab
No suor
Na toca da onça pintada.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Como (2)

Como tudo é amplo
Para o homem que busca.

Como do buraco estreito
Da agulha se faz sol.

Como do completo
Improvável se faz hoje.

Como do complexo
Rio se faz grande.

Como do nublado
Céu se faz simples.

Como da sede infinita
A boca é enfim doce.

Como

Como construir
Um mundo um pouco mais justo,
Um pouco mais belo,
Só um pouquinho mais
Acolhedor?

Como construir
O amanhã apesar de tudo,
O horizonte apesar de tantos
Pesares,
O sol da amanhã apesar
De tantas luas novas?

Nas estrelas
A certeza que somos tão
Pequenos,
Tão parte de um vazio
Muitíssimo maior
E que o tempo inclemente
Nos atravessará.

Stateless era a exposição de hoje,
Literalmente
Os sem Estado,
Sem pátria documentos ou direitos,
Exibidos num museu
Para nos lembrarmos
Que ainda não está bem.

A memória da criança Síria,
Daquela foto da criança Síria,
Morta de bruços em uma praia européia de areias brancas,
Morta pelas nossas mãos cegas.

A certeza que aquele país que chamo de casa,
Aquele país da madeira de lei, ouro, cana de açúcar, soja, carne e minério,
Aquele país da commodity, primária,
Merece chegar no futuro que há tanto
Tempo lhe prometeram.

Como então não gritar
Pela justiça
Nem buscar
Um dia onde
Nunca se negará
Um pedaço de pão e de céu
A ninguém?

Cálculos

O mundo é o modo
Como você olha pra ele.

O muro é o modo
De mastigar a parede.

O mudo é o monge
Sem fome nem sede.

O muito é o monge
Deitado na rede.

O molho é o morto
Injustiçado e verde.

O molho é o morto
Incalculavelmente verdadeiro.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ato

As pessoas
Estão por aí
O que fazem
O que querem?

As telas
Estão por aí
O que fazem
O que querem?

Nós ainda
Estamos por aqui
E fazemos,
E queremos.

A vida me interesa

A vida me interesa.
Não existe arte sem vida,
Não existe vida sem arte.

sábado, 14 de outubro de 2017

Aeroporto

Aeroporto
Sores
Cores
Dores
Flores jogadas ao vento.

Aeroporto
Frio
Cio
Vadio
Aberto e fechado.

Aeroporto
Línguas
Mínguas
Cíntias
E tantos outros a esperar.

Aeroporto
Asas
Ares
Olhares
Esgueiros, abras os teus braços.

Aeroporto
Passagem
Imagem
Coragem
De alguma coisinha nova que seja.

Começou

Começou
O infinito
Espaço
Dentro
De mim.

Começou
A infinita
Dança
Da noite
E do dia.

Começou
O rio
Sem margem
Sem início
Nem fim.

Começou
O mar
Do sol
Do vento
E do gozo.

Começou
O lábio
Sangrando
De prazer
E lâmina.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Lembrança

Queria um poema que pudesse
Lembrar de todos os poetas esquecidos,
Um poema cujas palavras e sangue
Fossem a sombra e o som
Daqueles invisíveis que nos atravessam,
Daqueles sonhos impossíveis sonhados
Tantas vezes quanto as gotas de chuva
Em uma tormenta de verão,
Gotas pesadas e sólidas
De uma tormenta de verão.

Queria um poema que transpirasse
Bile, que atravessasse fígado e estômago,
Para que em cada verso sejam
Lembrados,
Para que em cada rima estejam
Guardados
Todos aqueles que viram a vida comum
E sorridentes viraram as costas,
E altivos buscaram algo
Além, e inconsequentes viveram
A vida, certos que somente o impossível
Importa.

Queria um poema que gritasse
A cada espaço em branco,
Branco intervalo entre dois silêncios,
Que gritasse a cada passo em falso,
Passo em falso na procura de algo além,
Um poema que falasse
Que tudo vai ficar bem,
Apesar da certeza que não,
Que falasse que amanhã será um novo dia,
Apesar da dúvida se a manhã um dia
Ainda chegará,
Mas só consigo em um poema
Titubear
Procurando
Guardar a lembrança de tantos poetas
Que beberam todas as nossas
Contradições e ebrios pelo gosto
Doce nos fizeram chegar
Até aqui.

domingo, 8 de outubro de 2017

Eco

A incrível impossibilidade
Do acontecer
Da vida,
O improvável revelar
Da luz
E da cor,
O inacreditável eco
Do som
Do infinito.

Mar

De movimentos mais pesados,
Mais lentos,
Como uma onda
No mar,
Correndo sob uma gelatina,
O pensamento muito antes
Da fala,
Entorpecimento,
Dormência da pele,
O corpo sensível
De percepção aguçada,
A alma leve pois livre
Do peso, liberdade.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Lázaro, levanta-te!

Levanta-te Lázaro!
Já é mais que tarde
Eu aqui a fazer alarde
O sol na vista arde
Enquanto tu continuas
Deitado aí.

Levanta-te Lázaro!
Aqui fora o teu pai continua louco
Aqui fora o ouvido continua mouco
Aqui fora o rogo continua rouco
De tanto pedir.

Levanta-te Lázaro!
Levanta-te e anda!
Usa essas pernas que são suas
Corra pelos caminhos e ruas
Veja o dia antes que as luas
Passem acima de ti.

Levanta-te Lázaro!
Queres fazer-me repetir até quando
Queres rir-se enquanto eu clamando
Queres sempre faceiro que eu brando
Continue a carpidar.

Lázaro, levanta-te!
Esses dez minutos no soneca nada
Te trarão, até quando nesta maçada
Ficaremos, a tia tão boa que fada
Parece, da escola recebi sua rosada
Caderneta, integralmente anotada
'Atrasado', parece até uma piada
Sem o riso, nessa conversa fiada
Ficamos, mas conheço-te, cobra criada
Sois e conseguiste, está acabada
Minha paciência.

Lázaro Silva, pela última
Vez, levanta-te!

sábado, 30 de setembro de 2017

Onda

A mente brilha
Em meio à noite
É dia.

O mundo balançando
Em meio à noite
Dançando.

O mundo de padrões
Inexistentes
Dulções.

É noite é noite,
Até enfim
Transporte

Para algo além
Do trilho
Tão estreito.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Sublime

O prazer do círculo
Da medida perfeita
Do cálculo restrito
Do corte de sangue
Purulento.

O prazer do beijo do sublime
Tão pequeno
Tão mesmo
Como abrir o peito
A deus a dois e ao mundo.

O prazer da construção perfeita
De repente
De dominós
Inteiramente
Desmantelada.

E se

E se você aguentar
A sujeira humana
E se você engolir a sujeira humana
Em uma noite suja
Funda e impossível
Em um gole tão fundo
E se você fungar
A fundação do fundante do mundo
Do corte preciso
Do corte lâmina
Da pele que abre
Da vida que escorre
Putrefata
Rumo ao concreto
No rio
Agora.

domingo, 24 de setembro de 2017

O doce da noite

Os rostos da noite
Eu quero os rostos da noite
Quero-os esfumaçados
Rostos esfumaçados da esfumaçada noite.

O cheiro da noite
Eu o quero deslizando sob meus pés
Acariciando o brilho frio e máquina
Da esfumaçada noite.

As dúvidas da noite
Eu quero as dúvidas da noite
Quero-as amargas
Dúvidas amargas da amarga noite.

Mas o doce da noite
Eu o quero possível e vero
Possível em verso
Mas nunca, nunca
Tão doce
Em prosa.

domingo, 10 de setembro de 2017

Mario Martinho

(com Natacha Martinho)

O vazio da morte
Fria
Impessoal
Do mestre
Que era o meu pai.

"Vai, salta",
Ele dizia.
Eu sempre tentei
Saltar,
Até certo dia
Em que não saltei
De cabeça
No Tejo
Pois no último degrau
Já de tanto mergulhar
A cabeça doía.

A indignação
Quando tive que voltar
Para casa. 

O homem que nunca chorou,
Militar,
"Vai para o teu quarto
Chorar", ele dizia,
Mas já perto do fim após
Terem lhe tirado um pedaço
De intestino
Chorou o que nunca havia chorado
Em sua vida.

Ele sabia que havia
Soprado o anjo frio,
Não mais queria
Incomodar,
Mas despedir-se, sim:
Contou que viu os horrores
Da guerra e do pouco que faltou
Para o seu sangue encharcar
A terra quente de Moçambique.
Ele deu as mãos à família,
Pediu um caderno para escrever a quem
Faltava,
E agradeceu a vida
Que teve.

Um amor bruto
De apertar até doer,
Um coração puro,
Sempre disposto
A compartilhar:
Os doces
Da mercearia da mãe
Eram roubados
Para os amigos.

Herdei esse roubo puro,
Essa vontade de sorrisos,
Esses despojos de infância
Da mercearia da vó Fernanda
Até que a minha mãe
Apanhou-me.

A distância da terrinha
Faz-me esquecer
Dos nomes e caras
Tão próximas.

Ele suava, suava,
Com a pele fria,
E amarela,
Seus pontos que deveriam ser tirados,
Achava eu,
Pela filha heroína,
Que não queria deixá-lo
Morrer,
Mas ao tentar salvá-lo
Sem nunca conseguir
A angústia e o medo
Por nunca mais ver
Essa pessoa que me ensinou
A pular
Para a água,
Para o nada incerto,
Para o desconhecido.

Nessa noite
De sexta para sábado
Após aquele impessoal amarelo
Ele não reclamava mais de nada,
Seu silêncio ausente de incômodo,
O sonho de uma lembrança
De um funeral,
O abraço em minha mãe,
Até que a minha irmã falou:
"Papá está no hospital".

No CTI apenas duas pessoas
Durante dez minutos
Pela coragem
De vê-lo morrer.

Ao chegar
O maquinal daquelas máquinas,
Daquele corpo não presente,
Até o suspiro final 
Daqueles olhos cheios,
Daquele rio de águas claras,
Daquele corpo
Que ali ficou
Sem nunca mais pedir
Para eu pular,
Sem nunca mais pedir
A aventura,
Sem nunca mais pedir
Um pouco mais
De vida.

Com a Elis

(com Anaê Veronrsi)

Com a barriga inchada
Trabalhei em turno dobrado
De dia escritório,
De noite foto,
Até a inauguração
Do mural do menino do dedo verde.

No primeiro dia
Sem a vida prática
Senti um respiro de liberdade.

Na análise
Às 11 da manhã
De repente a barriga diminuiu:
Chuaaaaaa!

No restaurante
Às 15 horas
Com as minhas guias
Me protegendo.

Às 16 horas
Entrei em um túnel,
No quarto
De joelhos
Com um mantra de fundo
A cada contração:
Relaxa e cede.

Enquanto as entidades
Me protegiam,
E protegiam essa Elis
Que estava a chegar,
Beto ao meu lado,
E eu apenas
Esperava,
Esperava,
Entregue.

A parteira me disse:
Vamos, precisamos
Ir para o hospital.

No carro, o primeiro medo:
Eu posso não ver
A minha filha, será que
Ela vai nascer bem?

Essas dúvidas,
Esses medos,
Permaneceram
Até o Marcos
Obstetra e guia
Chegar a mim do outro lado,
Me dar a mão,
E me trazer para fora do túnel.

O impulso final
É tão fora da lógica
Que não apenas um filho nasce
Mas se toca um dos limites da vida,
Vida e morte, alívio e amor,
A sensação da borda.

Ao nascer
Os seus olhos de jabuticaba
Sem lágrimas
Me olharam
E nunca mais fui eu.
Morri e renasci
Com a Elis.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A sempre busca

A sempre busca
Por um instante de ar
Bem longe desses dias de merda
E morte e dor
Sempre desigualmente
Distribuídas.

A sempre busca
Por um intervalo no tempo
Bem distante dessa rotina
Massacrante, estafante
E imbecil
Sempre pior
Para alguns.

A sempre busca
Por um pouquinho só
Do que a propaganda nos diz
Cheia de sorrisos e sexo
E viagens e coisas
Sempre exclusivas
Para poucos.

A sempre busca
Por algum sentido nesse mapa sem placas
Nem rotas, vias ou caminhos
Apenas uma grande avenida
Rumo ao vazio
Esquecido
Por muitos.

Bilhete

(com Alvaro Braga)

A possibilidade total
Do infinito,
A possibilidade de ser
Qualquer coisa,
Possibilidade linda
E amedrontadora,
A dificuldade do ser livre,
A facilidade do espaço
Predefinido,
Mas o reconforto
Da autenticidade,
Do próprio caminho,
Da voz de si,,
Filha de lutas e pesos,
Como amadurecimento da vida
Para ser finalmente vivida.

A vossoroca da mesmice
Como pântano magnético,
Sempre a buscar mais um
Robô, mas e se o mundo
Fosse feito de pessoas possíveis
Nessa causalidade tão incrível
Que é uma vida na Terra
Por uma condição tão benéfica
Do acaso, de deus, ou de qualquer
Outra possibilidade que explique
Essa aleatoriedade toda
De uma possibilidade de vida
Tão negligenciada
Como bilhete premiado
Nunca resgatado,
Que você tem,
Não perdeu,
Mas se esqueceu
Em uma gaveta velha.

O poema é aquele
Que te pergunta
Sobre aquela gaveta velha,
Sobre o oxigênio daquele bilhete
Rumo ao mar e ao sol.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Sonhos

Hoje a noite é fria
Hoje a noite é daquelas cheias
De dúvidas, hoje a noite
Parece que vai ser
Interminável.

Ao fundo ouço um instrumento
Elétrico que se toca sem ser tocado:
Parece um violino
Ou um instrumento de cordas e arco
Mas não possui cordas,
Não possui arco,
Apenas antenas
E circuitos.

Enquanto ouço
No violão e teremim
O número 5 das bachianas brasileiras
Me lembro que hoje o Ministro da
Fazenda
Anunciou em documento oficial
A sugestão de acabar
Com o ensino superior gratuito
Das universidades estaduais do Rio.

Ao fundo Clair de Lune
Tocado em um instrumento
Que não se toca,
Ao fundo Once Upon a Time in the West
Tocado sem cordas nem arco,
Ao fundo a modernidade,
Mas hoje foi oficializada
A intenção de acabar
Com o sonho de UERJ que um dia sonhei.

Penso nos veículos elétricos
E lembro da sua mecânica
Tão mais simples,
Nos avanços em baterias,
Nas células a combustível,
E sei que eles já chegaram
E que um dia, talvez tarde demais
Para esse planeta agora tão pequeno,
Após vencer tantos lobbies batalhas jurídicas obstáculos
Vão substituir aqueles outros
Com motor a combustão.

Teremim, ele se chama, e não é sinal
Subproduto ou invenção
Posmoderna, mas filho russo
De quase um século atrás.
De antena circuitos capacitores.

Penso na exploração da lua,
Que não é sonho, já existe,
Inclusive se tornou algo comum,
Penso no computador de bordo
Que carrego no bolso,
Que não é sonho, já existe,
Penso na estação espacial internacional
Que pesa 400 toneladas
E dá uma volta na Terra a cada 90 minutos,
Que não é sonho, já existe,
Penso no carro
Movido a água salgada
Que não é sonho, já existe,
Mas hoje,
Além de apresentar em documento oficial
A defesa pelo fim da UERJ
Enquanto universidade pública estadual
O Ministério da
Fazenda
Também comemora
Uma nova taxa de juros
Que vai aumentar ainda mais
A taxa de juros de um banco público
Nivelando-a ao mercado privado
E às taxas de juros reais mais caras
Do mundo.

Norwegian Wood
Acompanhado de guitarra:
I once had a girl, or should I say,
she once had me.
She showed me her room, isn't it good,
Norwegian wood?

O que vai acontecer na Coreia
Do Norte? Como os Estados
Unidos e a China
Vão se comportar? Que mundo
Restará para os meus filhos?

She asked me to stay
and she told me to sit anywhere,
So I looked around
and I noticed there wasn't a chair.

Duas semanas atrás
O Governo
Federal
Anunciou a privatização
De mais de cinquenta empresas públicas
Inclusive a Casa da Moeda.

I sat on a rug, biding my time,
Drinking her wine.
We talked until two and then she said,
"It's time for bed".

Quanto tempo
Ainda deveremos esperar
Para chamarmos
Esse país de nosso?

She told me she worked in the morning
and started to laugh.
I told her I didn't and crawled off
to sleep in the bath.

Penso no motor de dobra,
Que ainda é sonho,
Na exploração de Marte,
Que ainda é sonho,
Na cura da AIDS,
Que ainda é sonho,
Na erradicação da fome
Que por opção
Ainda é sonho,
E no Brasil república,
Que ainda é sonho.

And when I awoke, I was alone,
this bird had flown
So I lit a fire, isn't it good,
Norwegian wood?

domingo, 27 de agosto de 2017

Bolinha de Gude

(com Stefanie Pereyra Peralta)

O câncer:
Uma bolinha de gude
Autogerada
Aqui no seio esquerdo
Bem junto
Ao coração.

Eu que queria me sentir necessitada,
Queria ser mãe,
Cuidar amorosamente
Bem junto ao meu colo quente,
Agora triste descubro
Uma nova maternidade
Não do útero
Mas de uma bolinha de gude
Autogerada
Feita de células
Vorazes e imperdoáveis.

Os tratamentos
Sem fim,
Remédios
Sem fim,
Cansaço
Sem fim,
Só o cabelo
Tem fim.

Esse pedaço mutilado de mim
Que quer levar junto a si
O meu ser mulher.

Mas em meio à lama
Descubro
Algo novo,
Em meio às dúvidas
Da maternidade
De uma bolinha de gude irregular
Autogerada,
De repente pude
Ver
A oportunidade de me
Conhecer e ser mais.

Descobri
Algo novo
Que havia dormido
Com a morte da minha mãe.
Ela, que também morreu de câncer,
Quase levou
Meu desejo de viver.
Ela, também mãe de uma bolinha de gude,
Autogerada,
Minha irmã defeituosa,
Me deixou com um ano de dolo,
Um ano de dor,
Até aceitar a sua distância sem fim.

Passaram-se os anos
E de repente a notícia:
Era 2 de setembro de 2016,
Ao lado de Felipe.
Entrei sozinha no consultório
Com a esperança
De não ser nada.
O médico triste:
Seu rosto me disse tudo:
Nena, te dio mal.
Sí, tenés cáncer.

Silêncio, muito silêncio.

A partir disso, tudo mudou.
Tudo foi duríssimo,
Um vidro para o qual se corre
Sem se ver,
Um espelho sem ninguém
Do outro lado,
Cacos
Que rasgaram tudo
Dos pés à cabeça.

O tempo me trouxe
Da morte companhia calma,
Mas por ver a minha mãe,
Tinha medo da dor.

Pouco a pouco alguns focos de luz
Em meio aos óculos baços,
Pouco a pouco alguma nesga de céu
Em meio aos dias chuvosos:
Deixei as pessoas os pesos as correntes
Que me afastavam de mim
E busquei aqui dentro
O diploma de psicóloga,
Busquei aqui dentro
Mais fundo que qualquer agregado imperfeito,
A oportunidade de ajudar as pessoas
Nisso que passo.

O câncer é uma porcaria,
Não posso agradecê-lo,
Mas o que posso agradecer
É estar viva
E poder seguindo a fazer algo
Não só por mim
Mas por outros,
Outros pais e mães
De filhos autogerados,
O que posso agradecer
É estar viva
E poder seguindo a fazer algo
Ao lado de Felipe, meu anjo aqui na terra.

Assim, em meio às lágrimas e às dúvidas,
Compreendi que tudo o que fiz
Até hoje
Fiz para ter paz
No momento de partir.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Desejo

Quero aquecer minhas mãos em suas coxas
Morrer no cheiro de shampoo do seu cabelo
Tocar o seu corpo entre lençóis e suor
E dentes e línguas
E sentir o seu gozo
Brotando consistente
Do paraíso perdido
Que borbulha em seu baixo ventre
Ondulando entre gemidos
Até acontecer o impossível sorriso
Da entrega sólida
Entre os braços meus.

Sítio Alto da Alegria

(com Luciara Mota)

O valor da liberdade,
Do brincar com terra,
Dos sete irmãos,
Da argila passando entre os dedos.

Certo dia a descoberta:
Mãe, a terra não é suja.
A cor dela que é marrom.

Sem medo cadeado crueldade cobra animal,
Fazendo brinquedos
De galhos folhas frutas.

A minha uma boneca
Dançando em seu concerto
Enquanto a família observava
E eu tocava um piano imaginário de pedra.

Ser diferente
Em meio a um mundo diferente
Em meio aos sorrisos da Biliu
Em meio ao gnocchi da Biliu
Em meio às histórias do sítio
Tão verdades quanto lendas.

Gravei a frase
Que lembra a minha infância:
A liberdade é um vento em que tudo cabe.

Essa fase mágica
Como parte da minha história,
Como parte de um eu que está comigo aonde vou,
Como paredes coloniais descascando,
Como uma jabuticaba farta,
Como um bougainville em flor,
Como uma árvore sem nome que plantei e abraço,
Como um sonho vivo
Enquanto viva
Eu estiver.

Certa Noite

(com Luciara Mota)

O reflexo da luz
Na água
Certa noite me encontrou,
Certa noite me contou
Sobre o seu nome
Incomum,
Certa noite me disse
Sobre a busca do brilho
No outro,
Certa noite me trouxe
Um prisma
A espalhar a luz,
Certa noite me disse:
Eu vivo as histórias fundas todos os dias.

O reflexo da lua na água
Certa noite me disse,
Que a luz está mais funda
Do que nessa superfície,
Certa noite contou
Do dia em que descobriu
Que além de imagem era história,
Além da ilusão há um real,
Além do espelho há o sonho.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Meta

Breve intervalo entre dois silêncios,
Luz de vela em um quarto escuro,
Fôlego em meio ao mar bravio,
Trovão que acende o horizonte,
Terceiro pé do homem, concreta.

Espaço entre o eu e a coisa,
Possibilidade ínfima de troca,
Fundação sólida da Torre de Babel,
Fiel de balança nas mãos da Justiça,
Veneno e remédio, raiz, terra fecunda.

Dela somos servos e senhores,
Escravos e feitores, as dores
Do parto e a beleza do novo.

O ódio só continua vivo
Alimentando-se de si mesmo.
O amor resiste ao tempo e à morte.
A palavra é um instante de amor na língua.

Para o Vô Armando

(com Aline Figueiredo)

Aos domingos
Em Jacarepaguá
A ver
Os bois.

Através das grades
Fazíamos
Juntos
Mu
E sorríamos.

De madeira
E lençóis
As cabanas
No quintal.

Depois do almoço,
Histórias de chapeuzinho
Vermelho
Deitados
Em seu quarto
Na casa dos mananciais,
Na Avenida dos Mananciais.
Quem dormia
Era você
Enquanto eu
Pulava o seu ronco
E corria a brincar por aí.

Eu crescendo
À sombra do seu carinho.

Apenas mais velha
Vi os anos te mastigando
Até aquela prisão
Do seu corpo
Tremendo,
O caminhar
Comprometido,
A fala
Comprometida,
A memória
Comprometida,
A lógica
Abandonada.

A agonia
Da sua tentativa de expressão
Dentro desse escafandro
Vibrando incessantemente.

Levávamos fotos,
Histórias,
Em busca daquele pequeno sorriso
De quando víamos o boi
E fazíamos
Mu.

Foram mais de vinte anos nessa
Descida.
Ao final o sentimento duplo
De te querer perto
E te querer bem
Ainda que para sempre
Longe.

Agora
Apenas a lembrança
Dos seus bigodes cheios,
Do seu abraço protetor
E dessa herança
De um amor
E afeto
Incondicionais.

sábado, 12 de agosto de 2017

Gabriela

(com Ricardo, Marcelo e Andrea)

Nasceu fugida
Da ditadura
Em Tel Aviv
Aconteceu.

Em Berkley
As primeiras letras.

Aos cinco
Campinas.
Então
Araraquara,
São Paulo,
Até o Rio.

Gabriela
De tesouras
E beijos
De altos
E baixos
De amor
E ódio
Simultâneos.

De coração
Grande
O cuidado
Como afeto
Ao outro.

Esse afeto
Amoral
Impensado
De valores
Firmes
Inflexíveis
Talvez exagerado
Pelo outro.

Sua ligação
Intensa:
A oportunidade
De ver
A família
É alegria
A transbordar.

O prazer
De gente,
O encanto
Para um alguém
Novo,
Para um alguém
Outro.

A possibilidade
Da transição
Para um novo eu
Em um novo horizonte,
A paixão
Em um rio de sorrisos
Sem caminho do meio
É ela
Gabriela.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Onde está esse outro?

Neste caderno de pele
E suor e lágrimas
E sorrisos e dor
Olho e penso
Onde estaria
Esse outro
Com um corpo
De suor e lágrimas
E sorrisos e dor
Onde estaria
Esse outro
Vivo
Sob o rio de palavras que corre rápido
Onde estaria
Esse outro
Que me olha e pergunta
Onde estaria esse outro
Antes tão perto e distante
Ao alcance da tinta que jorra
Onde estaria esse outro
Nessa noite insone
Onde estaria o poema
E esse outro
Em qualquer outro lugar
Se não aqui?

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Catarse

(Com Ana Donato)

Em um final de tarde
Em uma cidade memórias
Em um espaço transporte
A catarse.

Dois grandes amores
Atravessaram o espaço da lembrança,
Atravessaram o espaço em trânsito
E olhando a paisagem urbana
Pela janela
Após ler poesias
No avião
A catarse.

O choque
A incredulidade
Das palavras nascentes
Tão íntimas
Tão sólidas
Tão concretas
Em meus olhos pálidos
E enfim
Agora tão públicas
Pois fui
Atravessada
Pelo poema.

Andando pela Rua

(com Livia Mund)

Estava eu
Na Costa
Rica:
Deitei
Na minha cama
Na casa
Do hotel.

Quando acordei
Sozinha
Só de calcinha
Preta
Desnorteada
Acordei
Em um país estranho
Acordei à frente
De um varal
Vi uma fronha
Usei de saia
Cobri os peitos
Acordei
Encontrei uma referência
E voltei para a casa
Do hotel.

Em um quarto
Vizinho
Gritava
'Yo necesito ropas'
Alguém me gritava
De volta
Até que na porta ao lado
Minhas amigas abriram a porta
E me confortaram.

Desde então
Todos trancavam
O quarto a casa
E se avisavam:
"A chave está
Naquele lugar que combinamos".

Já tomei banho,
Já andei por aí
E de repente
Os olhos abertos.
À distância
Tem graça,
Mas de perto
Pânico:
O que fizeram comigo?

domingo, 30 de julho de 2017

Outro enfim outro

A expressão
De um outro
Possível
Em minha frente,
Quase dúvida
Quase não
Mas enfim outro
A se desenrolar
E a brilhar na noite escura.

A expressão enfim clara
O possível enfim agora
O outro enfim outro.

Na parede quase branca

Na parede quase branca
Da igreja
A luz
Da noite
Do samba de coco.

A dança
O corpo
O gozo
Forte.

A dança
A dança
O corpo
Música.

A dança
A dança
A dança
O corpo.

A dança
A dança
A dança
A dança.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A pororoca poética

A pororoca poética
Está acontecendo
Em esquinas e praças e becos e ruelas
Em palavras e versos e rimas e gritos.

A pororoca poética
Está fluindo a contrapelo do mundo
No contrafluxo desse rio sem margem
Na contracorrente desse horizonte
Que nos dão como dado.

Está acontecendo
A porra
Da pororoca poética
Em leituras como essa
Em poemas como esse
Em leitores e ouvintes
Como esses
Que são vocês.

A pororoca poética,
Aaaaah
A pororoca poética
Está acontecendo
Agora.

Nesta rua de pedras

Nesta rua de pedras
Rio de olhos e gentes
E pernas e vento
E passos e toques,
Nesta rua de pedras
Rio de sons
Doces
E colares e passagens
E conversas e vento
Quanto vento!
Nesta rua de pedras
Rio de sonhos e chapéus
E cocares e brincos
E apitos e flautas,
Nesta rua de pedras
Rio de pulseiras e borboleta
E bolsas e cantos
E caminhares
Sem fim,
Nesta rua de pedras
Uma esquina de pedras
Com colunas de pedras
A lembrarem sólidas
Que ainda há mundo
Que ainda há rio
Que ainda há tanto
A se viver.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Muita coisa

Muita coisa está acontecendo pra trás,
Muita coisa está acontecendo pra frente
Mas o que
Está acontecendo
No momento presente?

Vejo olhos e cores
E rua e praça
E poema e zine
E sorriso e brilho
E início sem fim.

Muita coisa está acontecendo pra trás,
Muita coisa está acontecendo pra frente
Mas o que
Está acontecendo
No momento presente?

Vejo gritos de dor
Vejo gritos de gozo
Vejo a rua e o todo
Vejo o alto e o lodo.

Muita coisa está acontecendo pra trás,
Muita coisa está acontecendo pra frente
Mas o que
Está acontecendo
No momento presente?

Vejo rua! Vejo rua!
Vejo noite
Vejo gozo vejo gozo
Vejo escuro tão claro
Vejo horizonte tão grande.

domingo, 16 de julho de 2017

As plantas

(com Juliana Alvim)

Olhando as plantas
Da minha avó
Imaginava
Um outro eu
Diferente
Do que eu vejo agora.

Olhando as brigas
Da minha mãe
Eu via: sua dependência
Financeira
Era o seu algoz.

Minha independência
Afirmativa
Transforma
A sensibilidade ao outro
Em dureza.

Deitada na rede
Olhando o céu
E as plantas da minha avó
Eu sentia a terra
E via a vida
E as possibilidades.

Hoje
Quando penso
Nas plantas da minha avó
Penso passado,
Penso possibilidades
Se esgotando,
Penso poucas definições à frente,
Pois cheguei em algumas
E estou satisfeita.

sábado, 15 de julho de 2017

O espaço público

O espaço público,
A troca,
O outro,
A música,
O álcool
E a fumaça.

O espaço público,
A noite,
As luzes,
Os gritos,
Os sorrisos
E os olhos.

O espaço público,
Democrático,
Potencialmente multicultural,
A decadência apropriada,
A vontade de pertencer
O choque latente
Ainda desejo.

O espaço público,
A intenção do encontro,
O desejo de aproximação,
A paixão pelo encontro,
O encontro consigo
Mas ainda nem tanto
Coletiva.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Montanha

Em suas encostas íngremes
Me apoio,
De seus cumes altos
Vejo mais
Longe,
De suas matas
Respiro mais
Fundo,
Junto a você
Sou ainda
Mais
Eu.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O espaço da arte

Mar de árvores em meio ao carbono do mundo,
Nesga de sol em céu nublado,
Sopro doce em noites quentes,
Troca em meio à superfície dos dias.

Estou aqui a sorrir
A certeza do infinito
Presente em um pequeno instante
De um espaço sem nome.

Tapete de veludo em tempo frio,
Vela acesa em escuro sem luz,
Alegria funda em vida cinza,
Flauta transversa em bibliotecas vazias.

Estou aqui a sentir
O toque das musas
Dissolvendo qualquer certeza
Na beleza do sentido do absoluto.

Buscas

Buscava alguma certeza
Tão pedra que me permitisse
Fugir desse mar de dúvidas
Que nos cerca, mas encontrei
O olhar desse outro
Que me sorri,
Encontrei o abraço desse outro
Que quente abraça,
Encontrei a música desse outro
Que me ecoa e continua.

Buscava alguma solidez
Tão leve que me permitisse
Voar acima das nuvens
Mas ela é bota de ferro
Voluntariamente posta,
Gaiola aberta em que se escolhe ficar,
Fazenda marinha onde, por medo,
Se escolhe nadar.

Buscava algum norte
Para poder me perder
Sem temer nunca mais
Me encontrar,
Mas encontro esse outro
Sem nome que me indefine,
Sem rosto que me ilimita,
Sem nada além
De ser um outro
Tão outro
Que não cabe
Em qualquer palavra minha
E parei de buscar
Para me encontrar
Nesse outro
Que me apequena,
Me perspectiviza
E me agiganta.

Buscas

Eu busco os seus olhos na multidão
Eu busco o seu cheiro nesses corredores
Vazios, eu busco o seu corpo
Nessas noites intermináveis,
Eu busco, eu busco.

Eu busco lembrar
Do seu rosto mas não consigo,
Das suas palavras mas não consigo,
Do seu riso, mas não consigo.

Eu buscava, mas cansei
De buscar, agora estou
Aqui, longe, sorrindo.

Certeza

A certeza da revolta
Em compassos violentos
Gritando palavras
Sem ordem em ecos
De vozes e refrões
Mal alinhavados.

O horizonte buscado
Como tentativa última
De algum sentido
Nesse mar de merda.

O estar em grupo,
O estar em troca,
O estar tentando
Escapar
Da rotina massacrante
Da semana útil.

Ainda há alguma substância
Indiscernível
Inominável
Inacabada
Que vale a pena
Ser perseguida.

Morreremos tentando.
Nossos restos ficarão por aí
Misturados à estrada
E a esse pó de estrelas
Que nos formou.

Dezessete

(com Juliana Couto)

Em meio a um baile
Em meio ao nada
Em meio à noite
De meus dezessete anos
Aconteceu.

Ele fazia as minhas vontades
Tratava bem
A mim,
A minha família,
Seu bom humor,
Mas acomodado
Fui pouco a pouco
Ocupando seus espaços.

Esse gostar morno
Esse sentimento sempiterno
Acomodei-me também.

'Ano que vem eu caso com você
Ou sem você'
Ele me disse,
Ele fazia as minhas vontades,
Ele me conhecia,
Aceitei.

'É de livre e espontânea
Vontade
E de todo o coração
Que pretendeis fazê-lo?'
O padre me perguntou.
'Então...'
(Todos ouviram
Não,
Suspiros na igreja)
E terminei:
'Sim né'.

Doze anos depois
Do primeiro beijo,
Casamos.

O medo do novo,
O medo do que os outros
Vão pensar,
O medo de ficar sozinha,
O medo de começar uma
Nova vida,
O medo de ser
Eu.

Em meio aos problemas
Da vida,
Ajudando os meus pais,
Não nos conversávamos mais,
Não havia tolerância
De nenhum dos lados,
Apenas a sua traição
Dezessete anos depois
Me libertou.

Sofri
O luto de um relacionamento falido,
Mas me senti leve,
De mãe de um homem
Supostamente crescido
Voltei a ser mulher,
A felicidade de uma nova vida,
O valor que descobri em mim,
A solidão de uma vida
Com as próprias pernas
E o frescor
De um novo horizonte.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Vó Branca

(com Roberta Lage)

Minha avó
De séria,
Calada,
Ficou alegre,
Tudo rodava
Em torno dela.

Dos 80
Aos 96,
Ela começou se perdendo,
Se esquecendo,
Às vezes eu era mãe,
Era vizinha, era sobrinha,
Era desconhecida,
Ao sumir da vista,
Recomeçava,
Não veio falar comigo?

Até o final
Cantava suas músicas:
Trem das onze,
Amélia.

O amor
Que vem do cuidado,
Daquela que de matriarca
Que não falava palavrão
E cuidou de três filhos
Sozinha,
Após morrer de tuberculose
O marido,
Virou a criança da família.

Mesmo na cadeira de rodas,
Com outras quarenta pessoas
Na ceia de Natal.

As saudades
Dessa mulher forte,
A velhinha resistente,
Acarinhada por todos
No hospital:
Só vou morrer com 120 anos.

Me leva para a minha casa?
Não vó, essa é a sua casa.
Me mudei hoje?
Sim vó, foi hoje.
(mesmo após vinte anos)

Quantos anos a senhora tem?
Trinta, às vezes quarenta.
Nunca mais de cinquenta.
O espelho
Estranho,
As fotos em que não se reconhecia,
Quem é você vó Branca?
Qual é o seu nome?
Essas perguntas impossíveis
Em meio a alguns
Raios de sol.

Após as responsabilidades da vida,
Os filhos criados,
A Cabo Frio em viagem,
Um grupo de pagode
Cantou o Trem das Onze:
Ela se levantou,
Bateu palmas
E foi feliz.

sábado, 8 de julho de 2017

Hoje

O horizonte curvo,
Sorridente,
Do hoje.

A noite
Desejo
Do hoje.

A música
Certeza
Do hoje.

É hoje,
Que bom,
Ainda bem.

Pai Projeto

(com Alvaro Braga)

Remorso
É o meu pai
Que nunca, jamais,
Em nenhuma esfera da vida,
Me fez fazer o que eu nunca havia feito.

Acervo Aberto

(com Alvaro Braga)

A biblioteca
Como porta do paraíso,
À beira de um mar
Sem fim,
A experiência
De entrar
No intervalo,
Uma porta
Portal,
A possibilidade
A esmo,
O acervo
Aberto,

A flauta
À noite,
A abertura
À descoberta,
Os livros
Te chamam,
As lombadas
Mergulho,
O cilindro
De oxigênio
Para a mente.

O poeta agarra

Segurando as águas de um rio
Com palavras
O poeta agarra
O que quer fugir.

Fotograma de um filme,
Fotografia apressada
Quase borrada
Mas com atenção
Nítida,
Precisa
E funda.

Nuvem parada
Pairando acima de nós
O vento no rosto
A música na alma
E o sentido da meia-luz.

Raio de sol
Em dia escuro,
O seu sorriso
É certeza
De que a vida
É possível.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Mandala

(com Danielle Tavares)

A dança
Em meio
A 150 pessoas,
A mandala
De elementos
Em que entro
Cética.

Mas a imensidão me atravessa
Do quebra-cabeças a última peça,
Sorrindo, sem pressa,
Já que estou no infinito.

De repente
O trivial
Começa a ganhar corpo
Em uma mescla
De beatitude e gente
E sou atravessada
De uma forma
Quase insuportável.

Rios de lágrimas e leveza,
A imensidão me abraça,
Acolhe e nina,
A beleza sem fim
Nem margem nem fora,
Apenas agora
Em que me entrego
Líquida.

A imensidão me atravessa
Do quebra-cabeças a última peça,
Sorrindo, sem pressa,
Já que estou no infinito.

Quero me agarrar a esse momento
Segurá-lo e mordê-lo,
E eu me desespero:
Como?
Mas me rendo,
Abandono esse impulso primeiro
E gozo
E pulso.

A imensidão me atravessa
Do quebra-cabeças a última peça,
Sorrindo, sem pressa,
Já que estou no infinito.

O conceito falta,
A palavra falta,
Falta a voz.
O momento escorreu,
A beleza escorreu,
O infinito escorreu,
Mas algo fica
Como uma lembrança linda
Do luminoso
Impossível.

Passagem

(com Nanda Eskes)

O medo de não se gostar,
O medo de não se amar,
A insegurança,
O prazer de não gostar
De si mesmo,
O território de si mesmo,
A defesa de si mesmo,
O não colocar-se,
O anular-se.

Há algo para dar,
Há algo consistente
Para dar,
Há algo
Que traz a troca,
A árvore semeada,
A admiração,
No mergulho
Da troca
Em que se submerge
E morre.

O chegar ao outro,
A barata de Clarice,
O olhar-se no espelho
E enxergar-se,
A polimorfia,
A certeza
Das linguagens
Sem fim.

Colher os frutos da própria árvore,
O bastar-se,
A completude
Na não imagem,
No respirar
E alimentar
Que inteiros
Não pedem mais
Nada.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Vestido estampado

(com Mariana Lima)

O vestido estampado
Rodando
Rodando.

O vestido estampado
Olhando
Olhando.

O vestido estampado
Sorrindo
Sorrindo.

O vestido estampado
Brincando
Brincando.

É um vestido estampado
Que prendeu o meu olhar.
É um vestido estampado
Que eu quero cantar.

O vestido estampado
Rodando
Rodando.

O vestido estampado
Olhando
Olhando.

O vestido estampado
Sorrindo
Sorrindo.

O vestido estampado
Brincando
Brincando.

É um vestido estampado
Neste xote colado
É um vestido estampado
No triângulo e zabumba.

O vestido estampado
Rodando
Rodando.

O vestido estampado
Olhando
Olhando.

O vestido estampado
Sorrindo
Sorrindo.

O vestido estampado
Brincando
Brincando.

É um vestido estampado
De saia arrastando
É um vestido estampado
Azul rodopiando.

Paixão

(com Bruna Ribeiro)

O palpitar do coração,
O carinho incomensurável,
As saudades de lembranças
Tão vivas e presentes.

A loucura da paixão,
De pensar-se toda hora,
De lembrar-se toda noite,
De falar-se todo dia,
De encontrar-se quase
Todo dia:
A angústia do intervalo.

O afeto quente,
A troca recíproca,
Os seus olhos
Encontrando os meus,
Penetrantes,
Acesos.

Mas a vida estava em risco
Nessa sociedade violenta,
Eu em comunidade,
Ele policial,
Mas a paixão estava em risco
Nesses dois mundos distantes,
Mas o sonho estava em risco
E atravessei a rua.

Esse ano ele,
Já casado,
Amando,
Foi levado,
Esse ano eu,
Já casada,
Amando
E com filhos,
Tenho meu porto
Seguro,
Esse ano nós
Somos apenas
Palavras e memórias.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Para Bento

(com Eduardo Marino)

Um dia
Meu irmão ganhou um presente.
Eu não.
Chorei.

Posso isso,
Não,
Você me dá,
Não,
E se,
Não,
Perguntei à mãe:
Por que tanto não
E tão pouco sim?

A distância que o seu não me trouxe,
O vazio impreenchível entre nós.

Em uma ótica o dia inteiro,
À noite, banho, jantar,
Mais trabalho, em seu quarto,
Uma hora por dia
De televisão
Na sala:
Eu não precisava de muito
Mas aquilo
Era tão pouco!

O tempo aumentou a distância,
Os dias aumentaram a distância,
Até chegarmos a uma distância
Que imaginei impossível.

Os anos me faziam pensar,
Por que ainda,
Por que continuar
Nisso?
A vida me fazia pensar,
Por que ainda,
Por que então
Assim?

Escrevi uma carta, a você
E a mãe,
Agradecendo,
Mostrando como você era o espelho
Do homem que eu queria ser,
Como eu admirava
A sua correção,
A sua integridade.

Era domingo,
Segunda-feira a ligação
Em que ouvi "eu te amo"
Após tantos e tantos anos.

Pouco tempo nos restou para
Aproveitar aquilo o tempo nos tirou.

Não demorou muito
O dia em que o seu coração parou.
No Miguel Couto enquanto
Quebravam as suas costelas
De tanto bater no seu coração já parado
Eu sentado
Com meu livro de orações.
Você quase voltou, mas foi.
Era sua hora.

Aceitei.
De você a lembrança
De termos conseguido
A reconciliação.

O nascimento invisível

(com Cris Chagas)

Em outubro
O sonho
Desceu o ralo
Para não voltar mais.

Quem sabe Ana
Quem sabe André
Quem sabe Sofia
Nos viria
Presentear
Com seu sorriso.

Mas o destino não quis
O corpo não quis
Esse ou essa
Quem sabe Ana
Quem sabe André
Quem sabe Sofia.

O vaso secou,
Não há mais água,
A fonte secou,
Não há mais água,
A chuva secou,
Não há mais água.

Todo esse amor
Que guardávamos
Para esse ou essa
Quem sabe Ana
Quem sabe André
Quem sabe Sofia
Gabriel e eu
Juntos
Decidimos
Que não poderia
Morrer.

Todo esse amor
Que guardávamos
Para esse ou essa
Quem sabe Ana
Quem sabe André
Quem sabe Sofia
Agora espera
Quem sabe Breno
Quem sabe Bruna
Quem sabe Luna
Que já está por aí pelo mundo
Correndo e pulando
Como toda criança deve,
Sorrindo e brincando e sonhando
Como toda criança deve,
Mas ainda
Sem uma casa para chamar de sua
Como toda criança deve.

Aguardamos esse ou essa
Quem sabe Breno
Quem sabe Bruna
Quem sabe Luna
Para dar a ele ou ela
Todo o amor
Que não cabe em nós.

sábado, 1 de julho de 2017

Absoluto

O amargo pulsante
Docemente
Veloz
Em direção
Ao fígado,
À espessa
Alma
Dissoluta
No mundo.

O sorriso grosso
Da luz
Do instante
Incomparavelmente
Belo,
Forte
E absoluto.

28 x 32

No ano de 2014
Tínhamos trinta e dois
Partidos políticos brasileiros.

Não foi um, não foram dois,
Vinte e oito dos trinta e dois
Partidos políticos brasileiros de então
Receberam dinheiro de empresas ligadas à Lava Jato.

Isso não é
Novidade.
Isso está
Na internet
Por exemplo,
Na Gazeta do Povo:
http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/empreiteiras-da-lava-jato-doaram-r-277-mi-para-28-dos-32-partidos-egpx8vt2orj4e7n1qyu80iw5q

Apenas quatro
Partidos registrados
Nas eleições de 2014
Não receberam
Dinheiro de empresas ligadas à Lava Jato.

Apenas Psol, PCB, PSTU e PCO
Não receberam
Dinheiro de empresas ligadas à Lava Jato.

Dizem que o problema são os comunistas,
O problema é a esquerda
Que não seria nacionalista,
O problema é o PT.
Mas não.

Dos partidos existentes
Nas eleições de 2014
Apenas Psol, PCB, PSTU e PCO
Não receberam
Dinheiro de empresas ligadas à Lava Jato.
Todos os outros,
Todos,
Receberam
Dinheiro de empresas ligadas à Lava Jato.

PT, PSDB, PMDB, PSB
PP, PR, DEM, PDT
PTB, PCdoB, PSD
PPS, PSC, PV
SD, Pros, PRB
PRTB, PTN, PMN, PEN
PTdoB, PTC, PSL
PHS, PSDC, PRP e PPL
- noticia a Gazeta -
Receberam dinheiro de empresas ligadas à Lava Jato.

Na última eleição
Para cargos legislativos,
PCB, PSTU e PCO
Não elegeram nenhum deputado federal
Ou senador.
Mesmo sem senador,
O Psol elegeu
Deputados:
Cinco deputados
Em um total
De 513
(http://www2.camara.leg.br/deputados/pesquisa/bancadas/bancada-na-eleicao),
(http://www.senado.leg.br/senadores/senadoresPorPartido.asp).

Quando penso
Nessa desproporção
Não sei o que virá depois
Pois não foi um, não foram dois
Vinte e oito dos trinta e dois
Partidos políticos brasileiros de então
Receberam dinheiro de empresas ligadas à Lava Jato.

O TSE informa
No ano de 2017
Trinta e cinco
Partidos políticos registrados
(http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos/registrados-no-tse)
Três a mais
Do que nas últimas
Eleições legislativas.
Os deputados
E senadores
Se movimentam.
O Psol já teve um senador
Que mudou de partido.
Outro senador
Está sem partido.
Alguns deputados
Também mudaram de partido.

Quando penso
Nisso
A realidade me grita:
Nas eleições de 2014
100% dos senadores
e 99% dos deputados federais
Vieram de partidos
Que receberam dinheiro
De empresas ligadas à Lava Jato.

O desemprego está no recorde histórico,
A miséria está aumentando,
Nesse país do caixa dois
Choro quando me lembro
Que não foi um, não foram dois,
Vinte e oito dos trinta e dois
Partidos políticos brasileiros de então
Receberam dinheiro de empresas ligadas à Lava Jato.

Não foi só a Lava Jato.
O Globo, que tem um editorial
Afirmando o apoio
Desde o primeiro instante
Ao projeto reformista do presidente Michel
Temer
- apesar de agora pedir a sua renúncia -
(https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial-renuncia-do-presidente-21365443),
Noticiou que as delações do Joesley
Mostram que a JBS
Também apoiou 28 partidos
(https://oglobo.globo.com/brasil/delator-diz-que-dinheiro-da-jbs-irrigou-1829-candidatos-de-28-partidos-21366155).
A lista dos partidos não aparece,
Mas não parece
Coincidência
Não serem um, não serem dois
Mas vinte e oito dos trinta e dois
Partidos políticos brasileiros de então
Receberem dinheiro
da JBS.

Estamos em julho de 2017,
Contra o atual presidente, uma denúncia da PGR,
A favor da democracia
Algumas parcas vozes,
Pouco se fala da reforma política,
A reforma tributária está em terceiro plano,
A reforma federativa
Nem sequer
Entra em pauta.

Penso nesse país em que vivo,
Penso qual será o seu futuro,
Penso nessas ruas
Cada vez mais cheias
De mãos em concha,
Esperando uma moeda,
Um pão,
Ou um milagre.

A violência aumentando,
A desigualdade social aumentando,
A desolação
Se espalhando como um câncer
Enquanto em Brasília
Se organizam jantares.

Penso nesse fardo
Que o destino nos impôs,
E fico puto,
Pois não foi um, não foram dois,
Vinte e oito dos trinta e dois
Partidos políticos brasileiros de então
Receberam dinheiro de empresas ligadas à Lava Jato.

Noite

O brilho
Da noite
Brilhante,
A noite
A noite
Lateja,
É noite
É noite
Tão funda,
É noite
É noite
Tão bela,
À noite
À noite
É mais belo,
À noite
À noite
Sorri.

Glaucio

(com Débora Rolando)

Após tanto
Buscar
A noite
Encontrei
A sorte,
Coloriu o que era cinza
Coloriu o que era preto,
Tudo mudou,
Não quero
Mais
Nada
No contra-esteriótipo
À vida de ontem,
A mais simples
E pura felicidade
No anti-sistema
No possível rebelde
No isolamento
Amoroso
E sincero
No anti-diabo
Que desconstrói
Condicionamentos
Em um novo par
Significado-significante
Na distância
De qualquer imagem
E apesar de tantas
Impossibilidades
O prazer
De ter você
Na minha vida.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Controle

(com Rodrigo Carrijo)

por que o controle?
o manifesto do inconsciente
guardado,
a expectativa do mundo:
doar e receber
num rompante sempre
o aquém.

a razão
onde o racional não prescinde.

como lidar
com o presente
de forma mais
plena,
sem o intermédio
de um hipotético futuro?

a ansiedade,
a paralisia,
a falta
de vitalidade,
a impossibilidade de desejo,
a falha do entusiasmo,
a sonolência,
a resistência ao
contato íntimo
consigo.

a sensação do branco,
deste presente,
a possibilidade
de ser incapaz de cumprir o desejo
ou a impossibilidade
no espelho um modelo,
a autoconfiança frágil:

que pensarão
de mim?

o desejo:
dizer
livre
do que o outro
espera.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Para Sebastião

(com Carolina Luisa Costa)

Esse grande amor
Que você foi,
Essa grande estante
Que você tinha,
Naquele dia
Quando você foi trabalhar
E não voltou,
Apenas uma ligação,
Um motociclista repentinamente
Acabou com a conexão
Minha,
Sua
Com a Priscila
E a Célia.

Naquele dia de céu azul
Depois de duas semanas de hospital,
A minha mãe Célia me disse:
Esse céu azul é para receber seu pai.

Ele era uma pessoa bonita,
Ele sempre buscava
Entender
Com seu olhar terno,
Com sua compreensão,
E sua não violência.

Minha mãe
Durou dois anos e meio.
Ela foi te buscar Sebastião,
Ela te entendia.
A Priscila está com a Carol
E aqui,
Desse lado,
Seremos felizes
E continuaremos
A criá-las.

domingo, 25 de junho de 2017

Trintei

O momento
Da poesia
Intensa
O momento
Infinitamente
Belo
O momento
Absoluto
E doce
O sorriso
Contente
Do ar.

O retorno
Ao curvo
Horizonte
O retorno
À mais bela fonte
O retorno
Ao primeiro
Olhar.

A graça
Tão funda
De entranhas
E gozo
Da vida
Ondulante.
Trintei.

Beleza

Aquela parede gelada
De interior quente
Na qual me apoio silente
Certo do horizonte brilhante
Beleza que não cabe em mim
Beleza que só cabe em nós.

Livro Verde

Onde antes solo seco
Agora plantação,
Onde antes pobreza
Agora inclusão,
Onde antes apenas silêncio
Agora cooperação.

Onde antes agiota
Agora crédito e produção,
Onde antes apenas cópia
Agora pesquisa e inovação.
Onde antes São José
Agora avião,

Onde antes São Bernardo
Agora tecnologia e exportação,
Onde antes legendas no escuro
Agora a mais bela animação.

Onde antes de fora o óleo
Agora submarina solução,
Agora de rios, ventos e sol
O que era de fuligem e carvão.

Agora engenharia
O que antes era importação,
Agora biomassa e cana
O que antes era preocupação,
Agora coleta e aterros
O que antes era lixão.

Agora vias, portos e trens
Onde antes faltava opção,
Agora um o homem e a natureza
No que antes era devastação.

Neste livro verde
Caro leitor
Queremos lhe mostrar
Onde antes dúvidas
Agora uma missão:
O que já foi colônia
Há de se tornar uma Nação.

Perguntas

Nesta noite de sombras,
Luzes sempiternas
E reflexos,
Pergunto
Onde está
O calor,
O absoluto
E a certeza
Do amanhã?

Nestes ecos de um barulho
Sem fim
Não importa quão longe
Se olhe,
Pergunto
Por que
Tanta superfície
Quando a vida
Apesar de tanto sofrer
Continua funda
Em seu constante desenrolar?

Nesta vista em perspectiva
Buscando qualquer
Solidez
Para se agarrar
Pergunto
Será solução
Essa felicidade
Simples
Ou será
Que o brilho
Do sangue quente
Na boca
Promete prazeres
Incomensuráveis?

É tarde
E o homem atrás
Dos óculos e do bigode
Precisa dormir.