domingo, 29 de outubro de 2017

O trem é engraçado

O trem é engraçado:
Quando se senta você escolhe
Para onde olhar.

Você escolhe o presente
A partir de trás, para o modo
Como chegamos até aqui, ou
A partir da frente, em busca
De alguma coisa a surgir.

A partir da dúvida curiosa
Sempre sedenta e peregrina,
Ou da lembrança saudade
No momento exato
Em que é saudade.

Não se pode olhar
O presente,
Isso não!

O trem inclemente
Rasga a noite fria com seus faróis e luz e máquina
Solta fumaça cheiros suspiros e lamentos
Rodas metálicas deslizando em trilhos afiados
E em você existe a árvore que será passado
Ou a árvore passada que se tornará borrão.

Às vezes na sua frente
Uma pessoa olha para o outro lado
Atenta
Até que desatenta
Seus pés encontram os seus
E de repente a história toda é contada.

Mas o presente é sempre fugaz
Há que olhá-lo de soslaio no trem
Enquanto nos esquecemos
Ou enquanto não queremos esquecido.