A expressão
De um outro
Possível
Em minha frente,
Quase dúvida
Quase não
Mas enfim outro
A se desenrolar
E a brilhar na noite escura.
A expressão enfim clara
O possível enfim agora
O outro enfim outro.
A expressão
De um outro
Possível
Em minha frente,
Quase dúvida
Quase não
Mas enfim outro
A se desenrolar
E a brilhar na noite escura.
A expressão enfim clara
O possível enfim agora
O outro enfim outro.
Na parede quase branca
Da igreja
A luz
Da noite
Do samba de coco.
A dança
O corpo
O gozo
Forte.
A dança
A dança
O corpo
Música.
A dança
A dança
A dança
O corpo.
A dança
A dança
A dança
A dança.
A pororoca poética
Está acontecendo
Em esquinas e praças e becos e ruelas
Em palavras e versos e rimas e gritos.
A pororoca poética
Está fluindo a contrapelo do mundo
No contrafluxo desse rio sem margem
Na contracorrente desse horizonte
Que nos dão como dado.
Está acontecendo
A porra
Da pororoca poética
Em leituras como essa
Em poemas como esse
Em leitores e ouvintes
Como esses
Que são vocês.
A pororoca poética,
Aaaaah
A pororoca poética
Está acontecendo
Agora.
Nesta rua de pedras
Rio de olhos e gentes
E pernas e vento
E passos e toques,
Nesta rua de pedras
Rio de sons
Doces
E colares e passagens
E conversas e vento
Quanto vento!
Nesta rua de pedras
Rio de sonhos e chapéus
E cocares e brincos
E apitos e flautas,
Nesta rua de pedras
Rio de pulseiras e borboleta
E bolsas e cantos
E caminhares
Sem fim,
Nesta rua de pedras
Uma esquina de pedras
Com colunas de pedras
A lembrarem sólidas
Que ainda há mundo
Que ainda há rio
Que ainda há tanto
A se viver.
Muita coisa está acontecendo pra trás,
Muita coisa está acontecendo pra frente
Mas o que
Está acontecendo
No momento presente?
Vejo olhos e cores
E rua e praça
E poema e zine
E sorriso e brilho
E início sem fim.
Muita coisa está acontecendo pra trás,
Muita coisa está acontecendo pra frente
Mas o que
Está acontecendo
No momento presente?
Vejo gritos de dor
Vejo gritos de gozo
Vejo a rua e o todo
Vejo o alto e o lodo.
Muita coisa está acontecendo pra trás,
Muita coisa está acontecendo pra frente
Mas o que
Está acontecendo
No momento presente?
Vejo rua! Vejo rua!
Vejo noite
Vejo gozo vejo gozo
Vejo escuro tão claro
Vejo horizonte tão grande.
(com Juliana Alvim)
Olhando as plantas
Da minha avó
Imaginava
Um outro eu
Diferente
Do que eu vejo agora.
Olhando as brigas
Da minha mãe
Eu via: sua dependência
Financeira
Era o seu algoz.
Minha independência
Afirmativa
Transforma
A sensibilidade ao outro
Em dureza.
Deitada na rede
Olhando o céu
E as plantas da minha avó
Eu sentia a terra
E via a vida
E as possibilidades.
Hoje
Quando penso
Nas plantas da minha avó
Penso passado,
Penso possibilidades
Se esgotando,
Penso poucas definições à frente,
Pois cheguei em algumas
E estou satisfeita.
O espaço público,
A troca,
O outro,
A música,
O álcool
E a fumaça.
O espaço público,
A noite,
As luzes,
Os gritos,
Os sorrisos
E os olhos.
O espaço público,
Democrático,
Potencialmente multicultural,
A decadência apropriada,
A vontade de pertencer
O choque latente
Ainda desejo.
O espaço público,
A intenção do encontro,
O desejo de aproximação,
A paixão pelo encontro,
O encontro consigo
Mas ainda nem tanto
Coletiva.
Em suas encostas íngremes
Me apoio,
De seus cumes altos
Vejo mais
Longe,
De suas matas
Respiro mais
Fundo,
Junto a você
Sou ainda
Mais
Eu.
Mar de árvores em meio ao carbono do mundo,
Nesga de sol em céu nublado,
Sopro doce em noites quentes,
Troca em meio à superfície dos dias.
Estou aqui a sorrir
A certeza do infinito
Presente em um pequeno instante
De um espaço sem nome.
Tapete de veludo em tempo frio,
Vela acesa em escuro sem luz,
Alegria funda em vida cinza,
Flauta transversa em bibliotecas vazias.
Estou aqui a sentir
O toque das musas
Dissolvendo qualquer certeza
Na beleza do sentido do absoluto.
Buscava alguma certeza
Tão pedra que me permitisse
Fugir desse mar de dúvidas
Que nos cerca, mas encontrei
O olhar desse outro
Que me sorri,
Encontrei o abraço desse outro
Que quente abraça,
Encontrei a música desse outro
Que me ecoa e continua.
Buscava alguma solidez
Tão leve que me permitisse
Voar acima das nuvens
Mas ela é bota de ferro
Voluntariamente posta,
Gaiola aberta em que se escolhe ficar,
Fazenda marinha onde, por medo,
Se escolhe nadar.
Buscava algum norte
Para poder me perder
Sem temer nunca mais
Me encontrar,
Mas encontro esse outro
Sem nome que me indefine,
Sem rosto que me ilimita,
Sem nada além
De ser um outro
Tão outro
Que não cabe
Em qualquer palavra minha
E parei de buscar
Para me encontrar
Nesse outro
Que me apequena,
Me perspectiviza
E me agiganta.
Eu busco os seus olhos na multidão
Eu busco o seu cheiro nesses corredores
Vazios, eu busco o seu corpo
Nessas noites intermináveis,
Eu busco, eu busco.
Eu busco lembrar
Do seu rosto mas não consigo,
Das suas palavras mas não consigo,
Do seu riso, mas não consigo.
Eu buscava, mas cansei
De buscar, agora estou
Aqui, longe, sorrindo.
A certeza da revolta
Em compassos violentos
Gritando palavras
Sem ordem em ecos
De vozes e refrões
Mal alinhavados.
O horizonte buscado
Como tentativa última
De algum sentido
Nesse mar de merda.
O estar em grupo,
O estar em troca,
O estar tentando
Escapar
Da rotina massacrante
Da semana útil.
Ainda há alguma substância
Indiscernível
Inominável
Inacabada
Que vale a pena
Ser perseguida.
Morreremos tentando.
Nossos restos ficarão por aí
Misturados à estrada
E a esse pó de estrelas
Que nos formou.
(com Juliana Couto)
Em meio a um baile
Em meio ao nada
Em meio à noite
De meus dezessete anos
Aconteceu.
Ele fazia as minhas vontades
Tratava bem
A mim,
A minha família,
Seu bom humor,
Mas acomodado
Fui pouco a pouco
Ocupando seus espaços.
Esse gostar morno
Esse sentimento sempiterno
Acomodei-me também.
'Ano que vem eu caso com você
Ou sem você'
Ele me disse,
Ele fazia as minhas vontades,
Ele me conhecia,
Aceitei.
'É de livre e espontânea
Vontade
E de todo o coração
Que pretendeis fazê-lo?'
O padre me perguntou.
'Então...'
(Todos ouviram
Não,
Suspiros na igreja)
E terminei:
'Sim né'.
Doze anos depois
Do primeiro beijo,
Casamos.
O medo do novo,
O medo do que os outros
Vão pensar,
O medo de ficar sozinha,
O medo de começar uma
Nova vida,
O medo de ser
Eu.
Em meio aos problemas
Da vida,
Ajudando os meus pais,
Não nos conversávamos mais,
Não havia tolerância
De nenhum dos lados,
Apenas a sua traição
Dezessete anos depois
Me libertou.
Sofri
O luto de um relacionamento falido,
Mas me senti leve,
De mãe de um homem
Supostamente crescido
Voltei a ser mulher,
A felicidade de uma nova vida,
O valor que descobri em mim,
A solidão de uma vida
Com as próprias pernas
E o frescor
De um novo horizonte.
(com Roberta Lage)
Minha avó
De séria,
Calada,
Ficou alegre,
Tudo rodava
Em torno dela.
Dos 80
Aos 96,
Ela começou se perdendo,
Se esquecendo,
Às vezes eu era mãe,
Era vizinha, era sobrinha,
Era desconhecida,
Ao sumir da vista,
Recomeçava,
Não veio falar comigo?
Até o final
Cantava suas músicas:
Trem das onze,
Amélia.
O amor
Que vem do cuidado,
Daquela que de matriarca
Que não falava palavrão
E cuidou de três filhos
Sozinha,
Após morrer de tuberculose
O marido,
Virou a criança da família.
Mesmo na cadeira de rodas,
Com outras quarenta pessoas
Na ceia de Natal.
As saudades
Dessa mulher forte,
A velhinha resistente,
Acarinhada por todos
No hospital:
Só vou morrer com 120 anos.
Me leva para a minha casa?
Não vó, essa é a sua casa.
Me mudei hoje?
Sim vó, foi hoje.
(mesmo após vinte anos)
Quantos anos a senhora tem?
Trinta, às vezes quarenta.
Nunca mais de cinquenta.
O espelho
Estranho,
As fotos em que não se reconhecia,
Quem é você vó Branca?
Qual é o seu nome?
Essas perguntas impossíveis
Em meio a alguns
Raios de sol.
Após as responsabilidades da vida,
Os filhos criados,
A Cabo Frio em viagem,
Um grupo de pagode
Cantou o Trem das Onze:
Ela se levantou,
Bateu palmas
E foi feliz.
O horizonte curvo,
Sorridente,
Do hoje.
A noite
Desejo
Do hoje.
A música
Certeza
Do hoje.
É hoje,
Que bom,
Ainda bem.
(com Alvaro Braga)
Remorso
É o meu pai
Que nunca, jamais,
Em nenhuma esfera da vida,
Me fez fazer o que eu nunca havia feito.
(com Alvaro Braga)
A biblioteca
Como porta do paraíso,
À beira de um mar
Sem fim,
A experiência
De entrar
No intervalo,
Uma porta
Portal,
A possibilidade
A esmo,
O acervo
Aberto,
A flauta
À noite,
A abertura
À descoberta,
Os livros
Te chamam,
As lombadas
Mergulho,
O cilindro
De oxigênio
Para a mente.
Segurando as águas de um rio
Com palavras
O poeta agarra
O que quer fugir.
Fotograma de um filme,
Fotografia apressada
Quase borrada
Mas com atenção
Nítida,
Precisa
E funda.
Nuvem parada
Pairando acima de nós
O vento no rosto
A música na alma
E o sentido da meia-luz.
Raio de sol
Em dia escuro,
O seu sorriso
É certeza
De que a vida
É possível.
(com Danielle Tavares)
A dança
Em meio
A 150 pessoas,
A mandala
De elementos
Em que entro
Cética.
Mas a imensidão me atravessa
Do quebra-cabeças a última peça,
Sorrindo, sem pressa,
Já que estou no infinito.
De repente
O trivial
Começa a ganhar corpo
Em uma mescla
De beatitude e gente
E sou atravessada
De uma forma
Quase insuportável.
Rios de lágrimas e leveza,
A imensidão me abraça,
Acolhe e nina,
A beleza sem fim
Nem margem nem fora,
Apenas agora
Em que me entrego
Líquida.
A imensidão me atravessa
Do quebra-cabeças a última peça,
Sorrindo, sem pressa,
Já que estou no infinito.
Quero me agarrar a esse momento
Segurá-lo e mordê-lo,
E eu me desespero:
Como?
Mas me rendo,
Abandono esse impulso primeiro
E gozo
E pulso.
A imensidão me atravessa
Do quebra-cabeças a última peça,
Sorrindo, sem pressa,
Já que estou no infinito.
O conceito falta,
A palavra falta,
Falta a voz.
O momento escorreu,
A beleza escorreu,
O infinito escorreu,
Mas algo fica
Como uma lembrança linda
Do luminoso
Impossível.
(com Nanda Eskes)
O medo de não se gostar,
O medo de não se amar,
A insegurança,
O prazer de não gostar
De si mesmo,
O território de si mesmo,
A defesa de si mesmo,
O não colocar-se,
O anular-se.
Há algo para dar,
Há algo consistente
Para dar,
Há algo
Que traz a troca,
A árvore semeada,
A admiração,
No mergulho
Da troca
Em que se submerge
E morre.
O chegar ao outro,
A barata de Clarice,
O olhar-se no espelho
E enxergar-se,
A polimorfia,
A certeza
Das linguagens
Sem fim.
Colher os frutos da própria árvore,
O bastar-se,
A completude
Na não imagem,
No respirar
E alimentar
Que inteiros
Não pedem mais
Nada.
(com Mariana Lima)
O vestido estampado
Rodando
Rodando.
O vestido estampado
Olhando
Olhando.
O vestido estampado
Sorrindo
Sorrindo.
O vestido estampado
Brincando
Brincando.
É um vestido estampado
Que prendeu o meu olhar.
É um vestido estampado
Que eu quero cantar.
O vestido estampado
Rodando
Rodando.
O vestido estampado
Olhando
Olhando.
O vestido estampado
Sorrindo
Sorrindo.
O vestido estampado
Brincando
Brincando.
É um vestido estampado
Neste xote colado
É um vestido estampado
No triângulo e zabumba.
O vestido estampado
Rodando
Rodando.
O vestido estampado
Olhando
Olhando.
O vestido estampado
Sorrindo
Sorrindo.
O vestido estampado
Brincando
Brincando.
É um vestido estampado
De saia arrastando
É um vestido estampado
Azul rodopiando.
(com Bruna Ribeiro)
O palpitar do coração,
O carinho incomensurável,
As saudades de lembranças
Tão vivas e presentes.
A loucura da paixão,
De pensar-se toda hora,
De lembrar-se toda noite,
De falar-se todo dia,
De encontrar-se quase
Todo dia:
A angústia do intervalo.
O afeto quente,
A troca recíproca,
Os seus olhos
Encontrando os meus,
Penetrantes,
Acesos.
Mas a vida estava em risco
Nessa sociedade violenta,
Eu em comunidade,
Ele policial,
Mas a paixão estava em risco
Nesses dois mundos distantes,
Mas o sonho estava em risco
E atravessei a rua.
Esse ano ele,
Já casado,
Amando,
Foi levado,
Esse ano eu,
Já casada,
Amando
E com filhos,
Tenho meu porto
Seguro,
Esse ano nós
Somos apenas
Palavras e memórias.
(com Cris Chagas)
Em outubro
O sonho
Desceu o ralo
Para não voltar mais.
Quem sabe Ana
Quem sabe André
Quem sabe Sofia
Nos viria
Presentear
Com seu sorriso.
Mas o destino não quis
O corpo não quis
Esse ou essa
Quem sabe Ana
Quem sabe André
Quem sabe Sofia.
O vaso secou,
Não há mais água,
A fonte secou,
Não há mais água,
A chuva secou,
Não há mais água.
Todo esse amor
Que guardávamos
Para esse ou essa
Quem sabe Ana
Quem sabe André
Quem sabe Sofia
Gabriel e eu
Juntos
Decidimos
Que não poderia
Morrer.
Todo esse amor
Que guardávamos
Para esse ou essa
Quem sabe Ana
Quem sabe André
Quem sabe Sofia
Agora espera
Quem sabe Breno
Quem sabe Bruna
Quem sabe Luna
Que já está por aí pelo mundo
Correndo e pulando
Como toda criança deve,
Sorrindo e brincando e sonhando
Como toda criança deve,
Mas ainda
Sem uma casa para chamar de sua
Como toda criança deve.
Aguardamos esse ou essa
Quem sabe Breno
Quem sabe Bruna
Quem sabe Luna
Para dar a ele ou ela
Todo o amor
Que não cabe em nós.
O amargo pulsante
Docemente
Veloz
Em direção
Ao fígado,
À espessa
Alma
Dissoluta
No mundo.
O sorriso grosso
Da luz
Do instante
Incomparavelmente
Belo,
Forte
E absoluto.
O brilho
Da noite
Brilhante,
A noite
A noite
Lateja,
É noite
É noite
Tão funda,
É noite
É noite
Tão bela,
À noite
À noite
É mais belo,
À noite
À noite
Sorri.
(com Débora Rolando)
Após tanto
Buscar
A noite
Encontrei
A sorte,
Coloriu o que era cinza
Coloriu o que era preto,
Tudo mudou,
Não quero
Mais
Nada
No contra-esteriótipo
À vida de ontem,
A mais simples
E pura felicidade
No anti-sistema
No possível rebelde
No isolamento
Amoroso
E sincero
No anti-diabo
Que desconstrói
Condicionamentos
Em um novo par
Significado-significante
Na distância
De qualquer imagem
E apesar de tantas
Impossibilidades
O prazer
De ter você
Na minha vida.