sábado, 30 de abril de 2016

Cinza

Naqueles dias
De horizonte cinza
E cores azuis,
Você quer sonhar
Mas está cansado,
Você quer viver
Mas está cansado,
Você quer pular
Mas está cansado,
E pergunta a deus,
Já com a alma adormecida,
Por que?
Mas sua ligação
Cai na secretária eletrônica
Pois ele não trabalha
Em dias chuvosos.

A única luz
É a brasa do cigarro
Que te consome
Ao lado do copo
Já vazio,
O vento gelado
Te arrepia,
E você pergunta
E pergunta
Mas não há resposta.

Com os cabelos brancos
Fustigados
Você olha e não vê,
Você pensa e não sente,
Apenas distância
E intempérie.

Mas você procura
No íntimo
E sabe
Que o inverno é estação passageira,
Que a terra só seca é morta,
Que o tempo é círculo
E que o frio é frio pois há o quente,
E então entrega
E dorme
O sono dos justos.

domingo, 24 de abril de 2016

Lua

Lua
Sua linda
Sua clara
Suas manchas
Embelezam
O seu sorriso
O seu brilho
Redondo
Sua presença
Ofusca
Suas estrelas
Dialogam
Seu tempo
Imemorial
Suas marés
E mares
Seus filhos
E mães
Suas cores
Amores
Sua alva
Contente
Tão perto
E distante
Berço
De loucos
Sãos
Ao seu lado
Um torpor
Tranquilo
Perpassa
Minha alma.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

A descoberta

Descobrir,
Entender,
Se colocar.

Começar as perguntas
Expressas em um cabelo colorido,
Começar o conhecimento
Do outro, do todo e de si.

Um riso já nem tão inocente
Ainda marcado
Por um quê de pureza
E malícia.

Uma foto,
Uma experiência,
O enfrentar do limite,
O desvelamento do novo.

As roupas rasgadas,
Não mais,
E de novo.

Os amigos para sempre,
Não mais,
E de novo.

Caminhar
Rumo ao desconhecido
Vivendo a aventura
Da vida.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Utopia

Nascida no esterco,
Feita de carbono e sonhos,
Forjada em corações sedentos
De algo mais, de algo melhor,
Ela periga.

Geneticamente modificada
Pela guerra atômica,
Uma flor de dois bulbos,
Ela periga
Pelo jogo de Lear.

Suas pétalas caem
Nesse inverno duradouro,
Inverno sem dia nem sol,
Frio para os ossos e a alma.

Mas ela é maior que nós,
Ela sobrevive à história,
Ela é hidra de infinitas cabeças,
Ela é medusa sem escudo,
Ela é o caminho que virá,
Mais tarde, mas virá.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

São Paulo

O horizonte de retângulos
Branco-cinzas,
Vias, marginais, rodovias,
O condomínio de luxo
E a favela desleixo
Do Estado,
Proposital.

Lá longe algumas árvores,
Lá longe alguns rios,
Lá longe alguma esperança
Misturada a uma fumaça tóxica.

Os relógios indicam a qualidade do ar,
Os relógios indicam o engarrafamento
Que se alimenta guloso
Dos seus dias de vida.

Em uma garrafa um pedido de socorro,
Em um muro uma paisagem urbana,
Em um grafite um profeta,
Em uma sala economia,
Em uma indústria negócio,
Em uma cidade cidadãos,
Uns mais,
Uns menos.

Na Cantareira não há água,
Nos lagos não há água,
Nas nuvens não há água,
Nem o céu triste
Consegue chorar.

Paulicéia possibilidade,
Paulicéia de 22,
Desvairada e louca,
Paulicéia bandeirante,
Paulicéia imigrante,
Paulicéia quebrada e rap,
Paulicéia linda e megalopolítica,
Tão perto e distante.

Me despido, já volto,
Guardo suas contradições,
São as minhas,
Guardo suas questões,
Me as faço,
Guardo rostos distintos
Enquanto a sombra desse avião passeia
Beijando a terra das oportunidades
Desiguais.

domingo, 17 de abril de 2016

E então

E as luzes do horizonte,
E as cores do horizonte,
E os caminhos do horizonte
Chamam.

E você escuta,
E você vive,
E você vive
O infinito do horizonte.

E então tudo é sim,
E então tudo é eco,
E então tudo é simples
O singelo sentir.

E eis o sentido,
E eis o convite,
E eis o perdão,
E eis o todo,
Que se afirma,
Que confirma,
O perfeito
Sentir.

sábado, 9 de abril de 2016

Sim

Elas estão cantando,
Elas estão chamando,
Elas estão pedindo
O momento do sim.
O tempo sem tempo,
O tempo sem dor,
O tempo enfim
Do saber e do sim.
E o sim é sentido,
E o sim é convite,
E o sim é certeza
De um brilho sem fim.
Então é tão claro,
Então é tão certo,
Então é tão perto
Do todo a sorrir.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Adiposo

Ou o sentido,
A busca constante,
O horizonte e o mar,
Ou nada.

Ou a arte,
A poesia da vida,
A liberdade,
O infinito,
O grito,
A busca,
A busca,
Ou nada.

O caminho do meio
Seguro,
Medíocre
E adiposo
Já nos é garantido.

Ou a expressão,
A possibilidade,
A sinestesia,
A rima,
A metáfora perfeita,
Ou nada.

Ou a plenitude,
O vôo,
A graça,
A busca,
A libertação,
Ou nada.

Assim,
Quando a escuridão última chegar,
Poderemos sorrindo dizer:
Venha, vivi.

sábado, 2 de abril de 2016

A Casa

Como contar o que se passou naquela casa? Como contar o que não consigo entender? Como contar o que não se pode entender? Como contar todos aqueles momentos passados, como contar todas aquelas histórias nas paredes, nos móveis, no espelho, na mesa, na cama, na cama, na cama, como contar as lágrimas sorrisos alegrias saudades que a contaminam? A porta se abre e um mundo de histórias emerge. Por quê? Por quê? Estou tentando entender. A moça do brinco de pérola me olhava. No café da manhã, no almoço, no jantar. Lá estava ela, de perfil, aqueles olhos negros que me perguntavam, me pediam, me davam bom dia e boa noite. Os ciprestes holandeses em brasas queimavam galhos folhas o céu e minha alma. A loucura a loucura a loucura. Escrevia. Escrevia para aliviar o peso, escrevia para buscar o sentido, escrevia para poder respirar. Escrevia. Mas a casa-caverna deixava só uma nesga de céu. A luz lá fora incomoda. Casa-túmulo. Casa-refúgio. Aquele espelho recordação onde mais de uma vez perguntei ‘quem é aquele?’ quando sabia já ser impossível a resposta, espelho-mar espelho-ilusão. Aquela poltrona-abraço-leão-de-chácara da qual não se podia sair. Aquela parede recortes fotos textos citações poemas sobrepostos do piso ao teto. A possibilidade-expressão e a mudez. A horrorosa mudez, intragável. É preciso contar, é preciso e as cinzas e a casa. Uma noite semiluz amigos cigarros bebidas música sorriso, uma noite desejo suor toque prazer, uma tarde almoço bem-vindos sentem-se é um prazer. Mas o passado o passado o passado. Casa-pretérito-imperfeito. Casa por quê? Casa como aconteceu? Casa sem tempo no hoje. E aqueles quadros, e aqueles olhares, e aquela mulher cubana sem nome que me convidava e aquela menina cubana que me olhava e aquela família a óleo. A escada que subia rumo ao centro da terra. Mas a mesa, a mesa-café mesa-almoço mesa-jantar mesa-amor mesa-conversa mesa-suja mesa-suor mesa-sexo mesa-sala mesa-bem-vindos mesa-mesa mesa-madeira-e-vidro-e-textos-e-lembranças. Precisava sair, mas não podia. A casa uma porta só de entrada, casa-labirinto casa-minotauro casa-medusa. Comia as migalhas de pão que havia deixado no caminho para não morrer de inanição. E na floresta comia os livros, devorava-os. Livros-sede livros-água-do-mar, livros-incêndio. Mas atravessei uma ponte de palavras, e agora um sorriso quando do outro lado da rua vejo a casa rubra em chamas.