A mente brilha
Em meio à noite
É dia.
O mundo balançando
Em meio à noite
Dançando.
O mundo de padrões
Inexistentes
Dulções.
É noite é noite,
Até enfim
Transporte
Para algo além
Do trilho
Tão estreito.
A mente brilha
Em meio à noite
É dia.
O mundo balançando
Em meio à noite
Dançando.
O mundo de padrões
Inexistentes
Dulções.
É noite é noite,
Até enfim
Transporte
Para algo além
Do trilho
Tão estreito.
O prazer do círculo
Da medida perfeita
Do cálculo restrito
Do corte de sangue
Purulento.
O prazer do beijo do sublime
Tão pequeno
Tão mesmo
Como abrir o peito
A deus a dois e ao mundo.
O prazer da construção perfeita
De repente
De dominós
Inteiramente
Desmantelada.
E se você aguentar
A sujeira humana
E se você engolir a sujeira humana
Em uma noite suja
Funda e impossível
Em um gole tão fundo
E se você fungar
A fundação do fundante do mundo
Do corte preciso
Do corte lâmina
Da pele que abre
Da vida que escorre
Putrefata
Rumo ao concreto
No rio
Agora.
Os rostos da noite
Eu quero os rostos da noite
Quero-os esfumaçados
Rostos esfumaçados da esfumaçada noite.
O cheiro da noite
Eu o quero deslizando sob meus pés
Acariciando o brilho frio e máquina
Da esfumaçada noite.
As dúvidas da noite
Eu quero as dúvidas da noite
Quero-as amargas
Dúvidas amargas da amarga noite.
Mas o doce da noite
Eu o quero possível e vero
Possível em verso
Mas nunca, nunca
Tão doce
Em prosa.
(com Anaê Veronrsi)
Com a barriga inchada
Trabalhei em turno dobrado
De dia escritório,
De noite foto,
Até a inauguração
Do mural do menino do dedo verde.
No primeiro dia
Sem a vida prática
Senti um respiro de liberdade.
Na análise
Às 11 da manhã
De repente a barriga diminuiu:
Chuaaaaaa!
No restaurante
Às 15 horas
Com as minhas guias
Me protegendo.
Às 16 horas
Entrei em um túnel,
No quarto
De joelhos
Com um mantra de fundo
A cada contração:
Relaxa e cede.
Enquanto as entidades
Me protegiam,
E protegiam essa Elis
Que estava a chegar,
Beto ao meu lado,
E eu apenas
Esperava,
Esperava,
Entregue.
A parteira me disse:
Vamos, precisamos
Ir para o hospital.
No carro, o primeiro medo:
Eu posso não ver
A minha filha, será que
Ela vai nascer bem?
Essas dúvidas,
Esses medos,
Permaneceram
Até o Marcos
Obstetra e guia
Chegar a mim do outro lado,
Me dar a mão,
E me trazer para fora do túnel.
O impulso final
É tão fora da lógica
Que não apenas um filho nasce
Mas se toca um dos limites da vida,
Vida e morte, alívio e amor,
A sensação da borda.
Ao nascer
Os seus olhos de jabuticaba
Sem lágrimas
Me olharam
E nunca mais fui eu.
Morri e renasci
Com a Elis.
A sempre busca
Por um instante de ar
Bem longe desses dias de merda
E morte e dor
Sempre desigualmente
Distribuídas.
A sempre busca
Por um intervalo no tempo
Bem distante dessa rotina
Massacrante, estafante
E imbecil
Sempre pior
Para alguns.
A sempre busca
Por um pouquinho só
Do que a propaganda nos diz
Cheia de sorrisos e sexo
E viagens e coisas
Sempre exclusivas
Para poucos.
A sempre busca
Por algum sentido nesse mapa sem placas
Nem rotas, vias ou caminhos
Apenas uma grande avenida
Rumo ao vazio
Esquecido
Por muitos.
(com Alvaro Braga)
A possibilidade total
Do infinito,
A possibilidade de ser
Qualquer coisa,
Possibilidade linda
E amedrontadora,
A dificuldade do ser livre,
A facilidade do espaço
Predefinido,
Mas o reconforto
Da autenticidade,
Do próprio caminho,
Da voz de si,,
Filha de lutas e pesos,
Como amadurecimento da vida
Para ser finalmente vivida.
A vossoroca da mesmice
Como pântano magnético,
Sempre a buscar mais um
Robô, mas e se o mundo
Fosse feito de pessoas possíveis
Nessa causalidade tão incrível
Que é uma vida na Terra
Por uma condição tão benéfica
Do acaso, de deus, ou de qualquer
Outra possibilidade que explique
Essa aleatoriedade toda
De uma possibilidade de vida
Tão negligenciada
Como bilhete premiado
Nunca resgatado,
Que você tem,
Não perdeu,
Mas se esqueceu
Em uma gaveta velha.
O poema é aquele
Que te pergunta
Sobre aquela gaveta velha,
Sobre o oxigênio daquele bilhete
Rumo ao mar e ao sol.