sábado, 30 de setembro de 2017

Onda

A mente brilha
Em meio à noite
É dia.

O mundo balançando
Em meio à noite
Dançando.

O mundo de padrões
Inexistentes
Dulções.

É noite é noite,
Até enfim
Transporte

Para algo além
Do trilho
Tão estreito.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Sublime

O prazer do círculo
Da medida perfeita
Do cálculo restrito
Do corte de sangue
Purulento.

O prazer do beijo do sublime
Tão pequeno
Tão mesmo
Como abrir o peito
A deus a dois e ao mundo.

O prazer da construção perfeita
De repente
De dominós
Inteiramente
Desmantelada.

E se

E se você aguentar
A sujeira humana
E se você engolir a sujeira humana
Em uma noite suja
Funda e impossível
Em um gole tão fundo
E se você fungar
A fundação do fundante do mundo
Do corte preciso
Do corte lâmina
Da pele que abre
Da vida que escorre
Putrefata
Rumo ao concreto
No rio
Agora.

domingo, 24 de setembro de 2017

O doce da noite

Os rostos da noite
Eu quero os rostos da noite
Quero-os esfumaçados
Rostos esfumaçados da esfumaçada noite.

O cheiro da noite
Eu o quero deslizando sob meus pés
Acariciando o brilho frio e máquina
Da esfumaçada noite.

As dúvidas da noite
Eu quero as dúvidas da noite
Quero-as amargas
Dúvidas amargas da amarga noite.

Mas o doce da noite
Eu o quero possível e vero
Possível em verso
Mas nunca, nunca
Tão doce
Em prosa.

domingo, 10 de setembro de 2017

Mario Martinho

(com Natacha Martinho)

O vazio da morte
Fria
Impessoal
Do mestre
Que era o meu pai.

"Vai, salta",
Ele dizia.
Eu sempre tentei
Saltar,
Até certo dia
Em que não saltei
De cabeça
No Tejo
Pois no último degrau
Já de tanto mergulhar
A cabeça doía.

A indignação
Quando tive que voltar
Para casa. 

O homem que nunca chorou,
Militar,
"Vai para o teu quarto
Chorar", ele dizia,
Mas já perto do fim após
Terem lhe tirado um pedaço
De intestino
Chorou o que nunca havia chorado
Em sua vida.

Ele sabia que havia
Soprado o anjo frio,
Não mais queria
Incomodar,
Mas despedir-se, sim:
Contou que viu os horrores
Da guerra e do pouco que faltou
Para o seu sangue encharcar
A terra quente de Moçambique.
Ele deu as mãos à família,
Pediu um caderno para escrever a quem
Faltava,
E agradeceu a vida
Que teve.

Um amor bruto
De apertar até doer,
Um coração puro,
Sempre disposto
A compartilhar:
Os doces
Da mercearia da mãe
Eram roubados
Para os amigos.

Herdei esse roubo puro,
Essa vontade de sorrisos,
Esses despojos de infância
Da mercearia da vó Fernanda
Até que a minha mãe
Apanhou-me.

A distância da terrinha
Faz-me esquecer
Dos nomes e caras
Tão próximas.

Ele suava, suava,
Com a pele fria,
E amarela,
Seus pontos que deveriam ser tirados,
Achava eu,
Pela filha heroína,
Que não queria deixá-lo
Morrer,
Mas ao tentar salvá-lo
Sem nunca conseguir
A angústia e o medo
Por nunca mais ver
Essa pessoa que me ensinou
A pular
Para a água,
Para o nada incerto,
Para o desconhecido.

Nessa noite
De sexta para sábado
Após aquele impessoal amarelo
Ele não reclamava mais de nada,
Seu silêncio ausente de incômodo,
O sonho de uma lembrança
De um funeral,
O abraço em minha mãe,
Até que a minha irmã falou:
"Papá está no hospital".

No CTI apenas duas pessoas
Durante dez minutos
Pela coragem
De vê-lo morrer.

Ao chegar
O maquinal daquelas máquinas,
Daquele corpo não presente,
Até o suspiro final 
Daqueles olhos cheios,
Daquele rio de águas claras,
Daquele corpo
Que ali ficou
Sem nunca mais pedir
Para eu pular,
Sem nunca mais pedir
A aventura,
Sem nunca mais pedir
Um pouco mais
De vida.

Com a Elis

(com Anaê Veronrsi)

Com a barriga inchada
Trabalhei em turno dobrado
De dia escritório,
De noite foto,
Até a inauguração
Do mural do menino do dedo verde.

No primeiro dia
Sem a vida prática
Senti um respiro de liberdade.

Na análise
Às 11 da manhã
De repente a barriga diminuiu:
Chuaaaaaa!

No restaurante
Às 15 horas
Com as minhas guias
Me protegendo.

Às 16 horas
Entrei em um túnel,
No quarto
De joelhos
Com um mantra de fundo
A cada contração:
Relaxa e cede.

Enquanto as entidades
Me protegiam,
E protegiam essa Elis
Que estava a chegar,
Beto ao meu lado,
E eu apenas
Esperava,
Esperava,
Entregue.

A parteira me disse:
Vamos, precisamos
Ir para o hospital.

No carro, o primeiro medo:
Eu posso não ver
A minha filha, será que
Ela vai nascer bem?

Essas dúvidas,
Esses medos,
Permaneceram
Até o Marcos
Obstetra e guia
Chegar a mim do outro lado,
Me dar a mão,
E me trazer para fora do túnel.

O impulso final
É tão fora da lógica
Que não apenas um filho nasce
Mas se toca um dos limites da vida,
Vida e morte, alívio e amor,
A sensação da borda.

Ao nascer
Os seus olhos de jabuticaba
Sem lágrimas
Me olharam
E nunca mais fui eu.
Morri e renasci
Com a Elis.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A sempre busca

A sempre busca
Por um instante de ar
Bem longe desses dias de merda
E morte e dor
Sempre desigualmente
Distribuídas.

A sempre busca
Por um intervalo no tempo
Bem distante dessa rotina
Massacrante, estafante
E imbecil
Sempre pior
Para alguns.

A sempre busca
Por um pouquinho só
Do que a propaganda nos diz
Cheia de sorrisos e sexo
E viagens e coisas
Sempre exclusivas
Para poucos.

A sempre busca
Por algum sentido nesse mapa sem placas
Nem rotas, vias ou caminhos
Apenas uma grande avenida
Rumo ao vazio
Esquecido
Por muitos.

Bilhete

(com Alvaro Braga)

A possibilidade total
Do infinito,
A possibilidade de ser
Qualquer coisa,
Possibilidade linda
E amedrontadora,
A dificuldade do ser livre,
A facilidade do espaço
Predefinido,
Mas o reconforto
Da autenticidade,
Do próprio caminho,
Da voz de si,,
Filha de lutas e pesos,
Como amadurecimento da vida
Para ser finalmente vivida.

A vossoroca da mesmice
Como pântano magnético,
Sempre a buscar mais um
Robô, mas e se o mundo
Fosse feito de pessoas possíveis
Nessa causalidade tão incrível
Que é uma vida na Terra
Por uma condição tão benéfica
Do acaso, de deus, ou de qualquer
Outra possibilidade que explique
Essa aleatoriedade toda
De uma possibilidade de vida
Tão negligenciada
Como bilhete premiado
Nunca resgatado,
Que você tem,
Não perdeu,
Mas se esqueceu
Em uma gaveta velha.

O poema é aquele
Que te pergunta
Sobre aquela gaveta velha,
Sobre o oxigênio daquele bilhete
Rumo ao mar e ao sol.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Sonhos

Hoje a noite é fria
Hoje a noite é daquelas cheias
De dúvidas, hoje a noite
Parece que vai ser
Interminável.

Ao fundo ouço um instrumento
Elétrico que se toca sem ser tocado:
Parece um violino
Ou um instrumento de cordas e arco
Mas não possui cordas,
Não possui arco,
Apenas antenas
E circuitos.

Enquanto ouço
No violão e teremim
O número 5 das bachianas brasileiras
Me lembro que hoje o Ministro da
Fazenda
Anunciou em documento oficial
A sugestão de acabar
Com o ensino superior gratuito
Das universidades estaduais do Rio.

Ao fundo Clair de Lune
Tocado em um instrumento
Que não se toca,
Ao fundo Once Upon a Time in the West
Tocado sem cordas nem arco,
Ao fundo a modernidade,
Mas hoje foi oficializada
A intenção de acabar
Com o sonho de UERJ que um dia sonhei.

Penso nos veículos elétricos
E lembro da sua mecânica
Tão mais simples,
Nos avanços em baterias,
Nas células a combustível,
E sei que eles já chegaram
E que um dia, talvez tarde demais
Para esse planeta agora tão pequeno,
Após vencer tantos lobbies batalhas jurídicas obstáculos
Vão substituir aqueles outros
Com motor a combustão.

Teremim, ele se chama, e não é sinal
Subproduto ou invenção
Posmoderna, mas filho russo
De quase um século atrás.
De antena circuitos capacitores.

Penso na exploração da lua,
Que não é sonho, já existe,
Inclusive se tornou algo comum,
Penso no computador de bordo
Que carrego no bolso,
Que não é sonho, já existe,
Penso na estação espacial internacional
Que pesa 400 toneladas
E dá uma volta na Terra a cada 90 minutos,
Que não é sonho, já existe,
Penso no carro
Movido a água salgada
Que não é sonho, já existe,
Mas hoje,
Além de apresentar em documento oficial
A defesa pelo fim da UERJ
Enquanto universidade pública estadual
O Ministério da
Fazenda
Também comemora
Uma nova taxa de juros
Que vai aumentar ainda mais
A taxa de juros de um banco público
Nivelando-a ao mercado privado
E às taxas de juros reais mais caras
Do mundo.

Norwegian Wood
Acompanhado de guitarra:
I once had a girl, or should I say,
she once had me.
She showed me her room, isn't it good,
Norwegian wood?

O que vai acontecer na Coreia
Do Norte? Como os Estados
Unidos e a China
Vão se comportar? Que mundo
Restará para os meus filhos?

She asked me to stay
and she told me to sit anywhere,
So I looked around
and I noticed there wasn't a chair.

Duas semanas atrás
O Governo
Federal
Anunciou a privatização
De mais de cinquenta empresas públicas
Inclusive a Casa da Moeda.

I sat on a rug, biding my time,
Drinking her wine.
We talked until two and then she said,
"It's time for bed".

Quanto tempo
Ainda deveremos esperar
Para chamarmos
Esse país de nosso?

She told me she worked in the morning
and started to laugh.
I told her I didn't and crawled off
to sleep in the bath.

Penso no motor de dobra,
Que ainda é sonho,
Na exploração de Marte,
Que ainda é sonho,
Na cura da AIDS,
Que ainda é sonho,
Na erradicação da fome
Que por opção
Ainda é sonho,
E no Brasil república,
Que ainda é sonho.

And when I awoke, I was alone,
this bird had flown
So I lit a fire, isn't it good,
Norwegian wood?