(com Stefanie Pereyra Peralta)
O câncer:
Uma bolinha de gude
Autogerada
Aqui no seio esquerdo
Bem junto
Ao coração.
Eu que queria me sentir necessitada,
Queria ser mãe,
Cuidar amorosamente
Bem junto ao meu colo quente,
Agora triste descubro
Uma nova maternidade
Não do útero
Mas de uma bolinha de gude
Autogerada
Feita de células
Vorazes e imperdoáveis.
Os tratamentos
Sem fim,
Remédios
Sem fim,
Cansaço
Sem fim,
Só o cabelo
Tem fim.
Esse pedaço mutilado de mim
Que quer levar junto a si
O meu ser mulher.
Mas em meio à lama
Descubro
Algo novo,
Em meio às dúvidas
Da maternidade
De uma bolinha de gude irregular
Autogerada,
De repente pude
Ver
A oportunidade de me
Conhecer e ser mais.
Descobri
Algo novo
Que havia dormido
Com a morte da minha mãe.
Ela, que também morreu de câncer,
Quase levou
Meu desejo de viver.
Ela, também mãe de uma bolinha de gude,
Autogerada,
Minha irmã defeituosa,
Me deixou com um ano de dolo,
Um ano de dor,
Até aceitar a sua distância sem fim.
Passaram-se os anos
E de repente a notícia:
Era 2 de setembro de 2016,
Ao lado de Felipe.
Entrei sozinha no consultório
Com a esperança
De não ser nada.
O médico triste:
Seu rosto me disse tudo:
Nena, te dio mal.
Sí, tenés cáncer.
Silêncio, muito silêncio.
A partir disso, tudo mudou.
Tudo foi duríssimo,
Um vidro para o qual se corre
Sem se ver,
Um espelho sem ninguém
Do outro lado,
Cacos
Que rasgaram tudo
Dos pés à cabeça.
O tempo me trouxe
Da morte companhia calma,
Mas por ver a minha mãe,
Tinha medo da dor.
Pouco a pouco alguns focos de luz
Em meio aos óculos baços,
Pouco a pouco alguma nesga de céu
Em meio aos dias chuvosos:
Deixei as pessoas os pesos as correntes
Que me afastavam de mim
E busquei aqui dentro
O diploma de psicóloga,
Busquei aqui dentro
Mais fundo que qualquer agregado imperfeito,
A oportunidade de ajudar as pessoas
Nisso que passo.
O câncer é uma porcaria,
Não posso agradecê-lo,
Mas o que posso agradecer
É estar viva
E poder seguindo a fazer algo
Não só por mim
Mas por outros,
Outros pais e mães
De filhos autogerados,
O que posso agradecer
É estar viva
E poder seguindo a fazer algo
Ao lado de Felipe, meu anjo aqui na terra.
Assim, em meio às lágrimas e às dúvidas,
Compreendi que tudo o que fiz
Até hoje
Fiz para ter paz
No momento de partir.