Caminhava pela praia olhando o pôr do sol róseo de
uma tarde de verão. Sentia-se privilegiado por poder assistir a um espetáculo
tão bonito, em plena quarta-feira, enquanto todos estavam ocupados ele molhava
seus pés no mar de Ipanema.
Todos os seus sentidos estavam tomados por uma
sensação de leveza e calma. Uma aveludada brisa em seu rosto, o doce barulho das
ondas, o céu infinito a se descortinar, a água de coco que refrescava sua alma,
o suave cheiro de mar. Plenitude.
Quando voltou a si a lua já aparecera, assim como
as primeiras estrelas. Percebeu que a poucos metros de onde estava caminhava uma
mulher com seus vinte e poucos anos, alta, cabelo escuro, embevecida como ele
pelo espetáculo ao qual estavam assistindo.
Ela percebeu que estava sendo observada. Retirou
seu olhar do céu. Achou interessante aquele homem, abriu-lhe um sorriso.
Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente. Estava
ainda dominado pela sensação de leveza. Quem seria aquela mulher? A maresia
ainda impregnava suas narinas. Aos poucos foi distinguindo realidade de sonho,
percebeu que foi simplesmente um sonho. Bom, mas sonho. Era hora de se
levantar, não poderia chegar atrasado ao trabalho. Chovia, o engarrafamento
seria ainda pior.
Reuniões, ligações, discussões. Tinha que comprar o
presente da filha, seu aniversário acontecera dois dias antes, não conseguiu ir
à festa. No horário do almoço. Será que conseguiria almoçar? Não, reunião
urgente. Talvez o comprasse amanhã. Ligou para a ex-mulher, tentando explicar a
situação. Dois ‘ahãs’ secos, ela havia desistido de reclamar dele há tempos.
Chegou em casa esgotado, sem ter almoçado, sem o
presente da filha. Engoliu qualquer coisa que estava na geladeira, tomou uma
ducha e deitou-se.
Respondeu ao sorriso.
- Lindo, não é? – disse José.
- Sim, sim, muito bonito. Incrível como ninguém para
pra ver. – respondeu a mulher.
E a conversa se seguiu. Chamava-se Júlia, havia se
mudado recentemente. Estava fazendo pós-graduação, achou que o Rio seria uma
opção interessante. Inspiradora.
José, nosso conhecido. Morava no Leblon, vivia de
renda. Solteiro, não se casara pois ainda buscava a mulher certa. Conseguira
comprar alguns apartamentos antes do boom imobiliário. Alugava-os e assim tinha
uma vida tranquila.
Foram para um bar na Visconde de Pirajá. Dois
chopes, por favor. Nos intervalos da conversa os olhares se cruzavam curiosos.
Trocaram telefones, marcaram de assistir o pôr do sol juntos no dia seguinte na
Pedra do Arpoador.
Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente. Que
legal, o sonho continuou! Será que... Não, seria muita coincidência. Já estava
feliz com a lembrança que Júlia lhe representava. Um oásis no deserto. Mas e se
ela voltasse?
Tentou afastar o pensamento da cabeça. Pois sim,
Leblon. Ele que morava a duas horas do Centro, sem trânsito. Não poderia perder
aquele emprego, o aluguel já estava atrasado. Sua ex-mulher já havia se cansado
desta situação, voltou para a casa da mãe com os dois filhos.
A chuva piorara, um engarrafamento sem fim. Ligou
para o chefe, avisou que iria se atrasar. Conversamos quando você chegar aqui.
Mau sinal.
Um dia pior que o outro, escutara a bronca do chefe
cabisbaixo. Mais um dia sem almoço, chegou em casa tarde. A geladeira estava vazia,
deitou-se com fome.
Olhava o teto sem conseguir dormir. Desejava com
toda sua força que Julia voltasse. Seria pedir muito? Um pouquinho de
felicidade, pelo menos enquanto dormia. Foram várias horas até que suas
pálpebras decidiram se fechar.
Andava pelo calçadão do Arpoador. Finalmente, havia
conseguido, iria ver Julia de novo. Olhou para sua mão e percebeu que carregava
uma boneca Barbie.
Assustou-se. Isso não deveria pertencer a este
mundo! Deu-a para uma menina de rua que passava próxima.
Viu ao longe a silhueta de Julia, ela já estava
sentada na Pedra, olhando o mar. O coração palpitou. Ajeitou-se, parou para
respirar um instante. Não queria parecer nervoso.
Dois beijinhos no rosto. Bom te ver. Você também. Tão
lindo quanto ontem? Melhor, está vendo aquelas nuvens? Sim. Quando o sol se pôr
elas vão ficar vermelhas como o fogo. Como os seus lábios? Não, ainda mais.
O sol descia no horizonte. Eles estavam de mãos
dadas. Sim, o céu estava mais bonito que no dia anterior. Ele olhava... Tocou o
alarme, José desligou-o rapidamente.
Queria voltar a dormir, não poderia. Chefe, aluguel,
contas a pagar. Levantou-se com raiva. Pelo menos amanhã seria sábado, poderia
dormir até mais tarde. Voltando para casa, à noite, teve uma ideia: iria tomar
um remédio para dormir, poderia ficar com Julia mais tempo. A ideia seria boa,
se não fosse um porém: teve um sono sem sonhos. Acordou no meio da tarde de
sábado, arrependido. De nada adiantou, teria que esperar até a noite para
vê-la.
E assim várias semanas se passaram. Enquanto seu
dia a dia se deteriorava, suas noites eram pura expectativa. Havia começado a
namorá-la, faziam planos juntos. Tentou alguns remédios para dormir, para
entrar cada vez mais nessa outra vida. Não adiantava, não conseguia encontrá-la
quando os tomava.
Um dia estava trabalhando quando percebeu que no
bolso da camisa havia um bilhete rosa. “Saudades. Júlia.” Que lindo, ela havia
feito essa surpresa para ele. Guardou-o. Agradeceu a surpresa à noite. Aos
poucos foi percebendo novos sinais que ela deixava, um vaso de flores aqui, um
novo quadro ali.
Era o dia do aniversário de Júlia. José havia
preparado uma festa surpresa, fora tudo combinado com os amigos dela. Ela era
só felicidade, não conseguia imaginar como ele fizera todos esses preparativos
sem que ela desconfiasse. Foi uma noite de céu estrelado e lua cheia.
Voltando à casa de José, se amaram como poucas
vezes haviam feito. Dormiram nus, abraçados. José teve um sonho estranho, uma
história que ele tinha dois filhos, trabalhava no Centro, a ex-mulher que não
queria falar com ele. Acordou com uma sensação de incômodo, pesadelo ruim.
Olhou para o lado e viu que Julia dormia suavemente junto a si. Sentiu-se
feliz.