domingo, 13 de maio de 2012

O Dia e a Noite


Caminhava pela praia olhando o pôr do sol róseo de uma tarde de verão. Sentia-se privilegiado por poder assistir a um espetáculo tão bonito, em plena quarta-feira, enquanto todos estavam ocupados ele molhava seus pés no mar de Ipanema.

Todos os seus sentidos estavam tomados por uma sensação de leveza e calma. Uma aveludada brisa em seu rosto, o doce barulho das ondas, o céu infinito a se descortinar, a água de coco que refrescava sua alma, o suave cheiro de mar. Plenitude.

Quando voltou a si a lua já aparecera, assim como as primeiras estrelas. Percebeu que a poucos metros de onde estava caminhava uma mulher com seus vinte e poucos anos, alta, cabelo escuro, embevecida como ele pelo espetáculo ao qual estavam assistindo.

Ela percebeu que estava sendo observada. Retirou seu olhar do céu. Achou interessante aquele homem, abriu-lhe um sorriso.



Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente. Estava ainda dominado pela sensação de leveza. Quem seria aquela mulher? A maresia ainda impregnava suas narinas. Aos poucos foi distinguindo realidade de sonho, percebeu que foi simplesmente um sonho. Bom, mas sonho. Era hora de se levantar, não poderia chegar atrasado ao trabalho. Chovia, o engarrafamento seria ainda pior.

Reuniões, ligações, discussões. Tinha que comprar o presente da filha, seu aniversário acontecera dois dias antes, não conseguiu ir à festa. No horário do almoço. Será que conseguiria almoçar? Não, reunião urgente. Talvez o comprasse amanhã. Ligou para a ex-mulher, tentando explicar a situação. Dois ‘ahãs’ secos, ela havia desistido de reclamar dele há tempos.

Chegou em casa esgotado, sem ter almoçado, sem o presente da filha. Engoliu qualquer coisa que estava na geladeira, tomou uma ducha e deitou-se.



Respondeu ao sorriso.

- Lindo, não é? – disse José.

- Sim, sim, muito bonito. Incrível como ninguém para pra ver. – respondeu a mulher.

E a conversa se seguiu. Chamava-se Júlia, havia se mudado recentemente. Estava fazendo pós-graduação, achou que o Rio seria uma opção interessante. Inspiradora.

José, nosso conhecido. Morava no Leblon, vivia de renda. Solteiro, não se casara pois ainda buscava a mulher certa. Conseguira comprar alguns apartamentos antes do boom imobiliário. Alugava-os e assim tinha uma vida tranquila.

Foram para um bar na Visconde de Pirajá. Dois chopes, por favor. Nos intervalos da conversa os olhares se cruzavam curiosos. Trocaram telefones, marcaram de assistir o pôr do sol juntos no dia seguinte na Pedra do Arpoador.



Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente. Que legal, o sonho continuou! Será que... Não, seria muita coincidência. Já estava feliz com a lembrança que Júlia lhe representava. Um oásis no deserto. Mas e se ela voltasse?

Tentou afastar o pensamento da cabeça. Pois sim, Leblon. Ele que morava a duas horas do Centro, sem trânsito. Não poderia perder aquele emprego, o aluguel já estava atrasado. Sua ex-mulher já havia se cansado desta situação, voltou para a casa da mãe com os dois filhos.

A chuva piorara, um engarrafamento sem fim. Ligou para o chefe, avisou que iria se atrasar. Conversamos quando você chegar aqui. Mau sinal.

Um dia pior que o outro, escutara a bronca do chefe cabisbaixo. Mais um dia sem almoço, chegou em casa tarde. A geladeira estava vazia, deitou-se com fome.

Olhava o teto sem conseguir dormir. Desejava com toda sua força que Julia voltasse. Seria pedir muito? Um pouquinho de felicidade, pelo menos enquanto dormia. Foram várias horas até que suas pálpebras decidiram se fechar.



Andava pelo calçadão do Arpoador. Finalmente, havia conseguido, iria ver Julia de novo. Olhou para sua mão e percebeu que carregava uma boneca Barbie.

Assustou-se. Isso não deveria pertencer a este mundo! Deu-a para uma menina de rua que passava próxima.

Viu ao longe a silhueta de Julia, ela já estava sentada na Pedra, olhando o mar. O coração palpitou. Ajeitou-se, parou para respirar um instante. Não queria parecer nervoso.

Dois beijinhos no rosto. Bom te ver. Você também. Tão lindo quanto ontem? Melhor, está vendo aquelas nuvens? Sim. Quando o sol se pôr elas vão ficar vermelhas como o fogo. Como os seus lábios? Não, ainda mais.

O sol descia no horizonte. Eles estavam de mãos dadas. Sim, o céu estava mais bonito que no dia anterior. Ele olhava... Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente.

Queria voltar a dormir, não poderia. Chefe, aluguel, contas a pagar. Levantou-se com raiva. Pelo menos amanhã seria sábado, poderia dormir até mais tarde. Voltando para casa, à noite, teve uma ideia: iria tomar um remédio para dormir, poderia ficar com Julia mais tempo. A ideia seria boa, se não fosse um porém: teve um sono sem sonhos. Acordou no meio da tarde de sábado, arrependido. De nada adiantou, teria que esperar até a noite para vê-la.



E assim várias semanas se passaram. Enquanto seu dia a dia se deteriorava, suas noites eram pura expectativa. Havia começado a namorá-la, faziam planos juntos. Tentou alguns remédios para dormir, para entrar cada vez mais nessa outra vida. Não adiantava, não conseguia encontrá-la quando os tomava.



Um dia estava trabalhando quando percebeu que no bolso da camisa havia um bilhete rosa. “Saudades. Júlia.” Que lindo, ela havia feito essa surpresa para ele. Guardou-o. Agradeceu a surpresa à noite. Aos poucos foi percebendo novos sinais que ela deixava, um vaso de flores aqui, um novo quadro ali.



Era o dia do aniversário de Júlia. José havia preparado uma festa surpresa, fora tudo combinado com os amigos dela. Ela era só felicidade, não conseguia imaginar como ele fizera todos esses preparativos sem que ela desconfiasse. Foi uma noite de céu estrelado e lua cheia.

Voltando à casa de José, se amaram como poucas vezes haviam feito. Dormiram nus, abraçados. José teve um sonho estranho, uma história que ele tinha dois filhos, trabalhava no Centro, a ex-mulher que não queria falar com ele. Acordou com uma sensação de incômodo, pesadelo ruim. Olhou para o lado e viu que Julia dormia suavemente junto a si. Sentiu-se feliz.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Um Dia Típico


Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu sonho, nada veio à mente. Olhou para o relógio, estava atrasado. Pulou da cama, vestiu a roupa de trabalho às pressas. Engoliu um copo de leite, trancou a porta enquanto abotoava a camisa. Desceu o elevador colocando os sapatos. Quando saiu à rua percebeu que estava chovendo, havia esquecido o guarda-chuva em casa. Não havia mais tempo, era correr para a estação do metrô.
Não andou nem dez metros e um ônibus passou em uma poça d’água encharcando Moisés. Ele não acreditava que seu dia começava assim, tinha a certeza de ter pisado com o pé direito assim que saíra da cama. Não havia mais tempo, iria para o trabalho assim mesmo.
Olhou o celular. Muito atraso. Uma mensagem. Sua namorada, precisamos conversar. Depois responderia a mensagem.
Correu até a estação do metrô. Já estava lotada àquela hora, só conseguiu pegar o segundo trem. Repassava mentalmente o que ele precisaria falar na apresentação que já deveria ter começado. Pensava também em uma desculpa pelo atraso. Distraído que estava, não percebeu que lhe levaram o celular e a carteira. Deu-se conta do fato apenas perto do trabalho, quando foi buscar seu crachá. Encontrou-o, mas apenas ele, não o restante.
Ficou nervoso, mas precisava focar agora na apresentação, depois faria um BO. Ficou parado procurando se lhe haviam levado alguma outra coisa da mochila, o laptop ainda estava lá, mas não havia sido poupado pelo ônibus – encontrava-se encharcado, assim como Moisés. Será que ainda funcionaria? Continuava procurando para ver se sentia falta de alguma outra coisa quando lhe deram uma trombada e ele rolou escada abaixo. Ambos os cotovelos ralados, um rasgo na camisa. Não acreditava no que lhe acontecia.
Caminhou até o prédio onde trabalhava. Completamente molhado, roupas esfarrapadas, um fiapo de sangue escorria de sua testa. Atraía olhares receosos. Sacou seu crachá da mochila, havia quebrado em vários pedaços na queda. Precisaria pegar um novo. Documento por favor? Não tinha nenhum.
Não aguentava aquela situação, deu um grito bem alto. Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu sonho, algo sobre um dia muito estranho lhe veio à mente. Olhou para o relógio, ainda faltavam duas horas para a reunião que deveria coordenar e se sentia descansado. Ainda bem, seria um longo dia. Espreguiçou-se e tomou um banho demorado, relaxante. Tinha tudo na ponta da língua, seria uma grande oportunidade de mostrar seu trabalho.
Desceu o elevador assobiando Beatles. Parou no sexto andar, entrou a vizinha do 601 que lhe deu um grande sorriso. Ele respondeu ao sorriso, coçando o anel na mão direita.
Quando saiu à rua percebeu que era um dia de sol. Colocou seus óculos escuros, ainda faltava mais de meia hora até o horário da reunião.
Não andou nem dez metros quando um carro parou ao seu lado e buzinou. Olhou para dentro e percebeu que era seu chefe.
- Moisés, que surpresa vê-lo por aqui.
- É que eu moro aqui do lado. Você também?
- Não, não. Eu fui a um médico aqui perto. Quer uma carona?
- Claro!
- Entra aí.
Olhou o celular. Havia tempo, de carro chegaria em menos de dez minutos. Uma mensagem. Sua namorada, dizendo que lhe amava. Respondeu carinhosamente dizendo que também a amava e que já estava com saudades.
Abriu o laptop, ficou conversando com o chefe sobre a apresentação. Este gostou muito, e prometeu se lembrar disso na próxima promoção.
Estava feliz. Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu sonho, algo sobre um dia muito estranho lhe veio à mente...

domingo, 6 de maio de 2012

Na Rede


Peri era um menino curioso. Olhos bem abertos, sempre tentando capturar o mundo. Seus pais se orgulhavam, contavam anedotas dele o tempo todo. Peri brincando, Peri comendo, Peri descobrindo um formigueiro, Peri explicando porque deveria poder brincar durante as 24 horas do dia.

Nove meses na barriga da mãe e nada aconteceu. Peri nasceu de quase dez meses, com cara de sono. Dormia praticamente o dia inteiro. Quando começou a andar sempre corria para a rede onde descansava o pai. Gostava de ficar lá balançando e contando as estrelas. Eram muitas, poderia ficar assim a vida inteira e não chegaria ao fim.

Já estava se aproximando o momento da cerimônia. Seu quinto aniversário aconteceria em dois dias, pouco antes da lua cheia. Ele estava sendo preparado.

No dia da celebração, toda a família se reuniu. Esperaram o céu escurecer. A lua iluminava todo o campo, não precisavam de nenhuma outra luz. Abriram espaço para o patriarca da família, seu bisavô que já alcançava 102 anos. Ele veio com seu olhar pastoso e sua mão enrugada, tocou a cabeça do menino. Todos fizeram silêncio.



Ninguém lembrava há quanto tempo isso havia começado, nem o porquê. Era um ritual, todos participavam e sabiam que seus filhos iriam participar. Seus netos também, seus bisnetos também. Sempre no quinto aniversário da criança, a família se reunia. Decoravam o recinto, faziam diversos preparativos. Chegava o patriarca da família, só precisava de uma meia luz e, se o céu permitisse, da lua. No momento em que ele pousava a mão na cabeça da criança ela descobria quantos anos teria de vida. Não falava com ninguém, essa era a tradição. Simplesmente sabia, e isso lhe permitia se preparar e preparar seus familiares quando se aproximassem seus momentos finais.

Ficavam imaginando como seria se as pessoas não soubessem quando iriam morrer. Que loucura não saber do dia da morte! Com certeza essas pessoas aproveitariam muito mais, afinal cada dia poderia ser o último. Como poderiam ter filhos se não tivessem a certeza de que estariam lá quando eles precisassem? Deveria ser uma vida tão intensa, tão forte, tão prazerosa. Imagine! Um gole de água de coco e de repente, no minuto seguinte, tudo acabado. Várias noites de amor que poderiam ser a última! Não saber do amanhã, só poder acreditar no dia de hoje.

Quantas possibilidades isso abriria! Sem saber o dia da morte, para quê viver no futuro? Seria o dia presente a cada dia. Falar a todos quanto se ama, não deixar nenhuma pendência. Constantemente. Respirar como se não houvesse uma próxima inspiração. O beijo que seria sempre um possível último, o abraço que talvez não se repetisse. Sem pendências, a liberdade. Sem o peso da certeza do dia da morte, apenas o eterno presente.

Era uma possibilidade tão pungente que todos tinham medo. Não tinham coragem de pular o ritual. Tinha que ser feito. Sempre foi assim, deveria continuar assim. Eram inconcebíveis as consequências caso o ritual não acontecesse.



O patriarca da família de Peri se preparava para o grande dia. Seria a última cerimônia da qual ele participaria, o ano seguinte seria o de sua morte. O primo de Peri tinha três anos, algum novo patriarca faria sua iniciação. Isso tornava essa cerimônia ainda mais especial.

Chegando ao lugar onde Peri se encontrava, o patriarca se emocionou. Lembrou-se de todas as cerimônias que havia participado, lembrou-se da sua própria. Pensou que 103 anos seria muito tempo e de repente já estava quase na hora. Anotava mentalmente tudo que deveria fazer até o ano seguinte, os preparativos para a família, os ensinamentos que deveria passar. Era hora de se concentrar em Peri.

O menino o recebeu com um sorriso, não entendia exatamente o que estava para acontecer. Achava tudo bonito, todos com roupas especiais, muito colorido, decorações. Permitiram-lhe escolher suas comidas e comer quanto quisesse. Quem dera se todos os dias fossem assim! Foi então que o avô colocou a mão na sua cabeça e ele entendeu. Sentiu um frio na espinha e passou a saber. Ficou sério por alguns segundos, mas depois voltou a brincar. Não por muito tempo, já que estava de barriga cheia. Deitou-se poucos minutos depois.

Quando acordou já estava tudo claro, ele estava em sua rede. Não dormia mais na rede dos pais, a partir daquele dia já era menino-homem. Tentou trazer à memória o que havia acontecido no dia anterior. Aos poucos se lembrou de quanto havia comido e quanto havia brincado. Lembrou-se da cerimônia, tinha alguma coisa a ver com o dia da morte. Mas quando seria mesmo? Havia esquecido.

Ficou com medo, e se seus pais descobrissem que ele se esquecera? O que aconteceria com ele? Preferiu não contar nada e fingir que sabia. Todos o olhavam de uma maneira diferente agora que ele era menino-homem.

Cresceu brincando muito, como todas as crianças. Virou exímio pescador, conversava com o rio e sabia onde deveria lançar suas iscas. Sentia-se um pouco estranho, aquele segredo guardado há tanto tempo. Mas era tão bom, não poderia compartilhar com ninguém aqueles pequenos prazeres. O banho de rio, e se não voltasse? O céu estrelado, e se não visse mais um? A lua cheia, e se fosse a última?

Era maravilhosa aquela sensação de viver tão intensamente. Sempre com um sorriso no rosto, mergulhando na vida até o fôlego acabar.

O tempo foi passando e Peri se apaixonou. Casou-se, teve dois filhos. Ele era o homem mais velho da família, lhe coube o papel de patriarca. Quando fazia a cerimônia, sem ninguém perceber, deixava a mão flutuar levemente na cabeça da criança. Não a tocava.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Uma Manhã de Sol


Fabiana estava em casa, procurava desesperada o GPS. Como ele poderia ter desaparecido, ela sempre o guardava no mesmo lugar. Abria caixas e mais caixas, tirava todas as roupas dos armários e nada.

O tempo passava e a confusão não parava de aumentar. Em seu quarto todos os armários estavam vazios, roupas espalhadas pelo chão, sapatos jogados no corredor. Papéis começavam a se acumular em um canto, mas nada do GPS. Na sala a confusão era ainda maior, a estante estava revirada, o sofá acumulava os mais diversos enfeites e acessórios.

Bateu na porta do quarto de sua irmã que ainda dormia.

- Carol, você sabe onde está o GPS?

- Não está no armário do seu quarto? - respondeu Carol.

- Não, disse Fabiana, já bufando.

- Não está na estante da sala?

- Não!

- Então não sei, me deixa dormir.

- Acorda! Eu preciso saber onde está o GPS.

Carol se levantou e tentou ajudar a irmã a achar o bendito aparelho. Todos os armários da cozinha foram abertos, geladeira esmiuçada, cada pequeno canto da casa foi visto e revisto. Buscaram até dentro da máquina de lavar roupas. Nada.

Não restou opção a Fabiana. Tomou o elevador, desceu. Estava um pouco nervosa, mordiscava o lábio, suava. Limpou a garganta e perguntou ao porteiro como poderia chegar à padaria.