Peri era um menino curioso. Olhos bem abertos, sempre tentando capturar o mundo. Seus pais se orgulhavam, contavam anedotas dele o tempo todo. Peri brincando, Peri comendo, Peri descobrindo um formigueiro, Peri explicando porque deveria poder brincar durante as 24 horas do dia.
Nove meses na barriga da mãe e nada aconteceu. Peri
nasceu de quase dez meses, com cara de sono. Dormia praticamente o dia inteiro.
Quando começou a andar sempre corria para a rede onde descansava o pai. Gostava
de ficar lá balançando e contando as estrelas. Eram muitas, poderia ficar assim
a vida inteira e não chegaria ao fim.
Já estava se aproximando o momento da cerimônia.
Seu quinto aniversário aconteceria em dois dias, pouco antes da lua cheia. Ele
estava sendo preparado.
No dia da celebração, toda a família se reuniu. Esperaram
o céu escurecer. A lua iluminava todo o campo, não precisavam de nenhuma outra
luz. Abriram espaço para o patriarca da família, seu bisavô que já alcançava 102
anos. Ele veio com seu olhar pastoso e sua mão enrugada, tocou a cabeça do
menino. Todos fizeram silêncio.
Ninguém lembrava há quanto tempo isso havia
começado, nem o porquê. Era um ritual, todos participavam e sabiam que seus
filhos iriam participar. Seus netos também, seus bisnetos também. Sempre no
quinto aniversário da criança, a família se reunia. Decoravam o recinto, faziam
diversos preparativos. Chegava o patriarca da família, só precisava de uma meia
luz e, se o céu permitisse, da lua. No momento em que ele pousava a mão na
cabeça da criança ela descobria quantos anos teria de vida. Não falava com
ninguém, essa era a tradição. Simplesmente sabia, e isso lhe permitia se
preparar e preparar seus familiares quando se aproximassem seus momentos
finais.
Ficavam imaginando como seria se as pessoas não
soubessem quando iriam morrer. Que loucura não saber do dia da morte! Com
certeza essas pessoas aproveitariam muito mais, afinal cada dia poderia ser o
último. Como poderiam ter filhos se não tivessem a certeza de que estariam lá
quando eles precisassem? Deveria ser uma vida tão intensa, tão forte, tão
prazerosa. Imagine! Um gole de água de coco e de repente, no minuto seguinte,
tudo acabado. Várias noites de amor que poderiam ser a última! Não saber do
amanhã, só poder acreditar no dia de hoje.
Quantas possibilidades isso abriria! Sem saber o
dia da morte, para quê viver no futuro? Seria o dia presente a cada dia. Falar
a todos quanto se ama, não deixar nenhuma pendência. Constantemente. Respirar
como se não houvesse uma próxima inspiração. O beijo que seria sempre um
possível último, o abraço que talvez não se repetisse. Sem pendências, a
liberdade. Sem o peso da certeza do dia da morte, apenas o eterno presente.
Era uma possibilidade tão pungente que todos tinham
medo. Não tinham coragem de pular o ritual. Tinha que ser feito. Sempre foi
assim, deveria continuar assim. Eram inconcebíveis as consequências caso o
ritual não acontecesse.
O patriarca da família de Peri se preparava para o
grande dia. Seria a última cerimônia da qual ele participaria, o ano seguinte
seria o de sua morte. O primo de Peri tinha três anos, algum novo patriarca
faria sua iniciação. Isso tornava essa cerimônia ainda mais especial.
Chegando ao lugar onde Peri se encontrava, o
patriarca se emocionou. Lembrou-se de todas as cerimônias que havia participado,
lembrou-se da sua própria. Pensou que 103 anos seria muito tempo e de repente
já estava quase na hora. Anotava mentalmente tudo que deveria fazer até o ano
seguinte, os preparativos para a família, os ensinamentos que deveria passar.
Era hora de se concentrar em Peri.
O menino o recebeu com um sorriso, não entendia
exatamente o que estava para acontecer. Achava tudo bonito, todos com roupas
especiais, muito colorido, decorações. Permitiram-lhe escolher suas comidas e
comer quanto quisesse. Quem dera se todos os dias fossem assim! Foi então que o
avô colocou a mão na sua cabeça e ele entendeu. Sentiu um frio na espinha e
passou a saber. Ficou sério por alguns segundos, mas depois voltou a brincar. Não
por muito tempo, já que estava de barriga cheia. Deitou-se poucos minutos
depois.
Quando acordou já estava tudo claro, ele estava em
sua rede. Não dormia mais na rede dos pais, a partir daquele dia já era
menino-homem. Tentou trazer à memória o que havia acontecido no dia anterior.
Aos poucos se lembrou de quanto havia comido e quanto havia brincado. Lembrou-se
da cerimônia, tinha alguma coisa a ver com o dia da morte. Mas quando seria
mesmo? Havia esquecido.
Ficou com medo, e se seus pais descobrissem que ele
se esquecera? O que aconteceria com ele? Preferiu não contar nada e fingir que
sabia. Todos o olhavam de uma maneira diferente agora que ele era menino-homem.
Cresceu brincando muito, como todas as crianças. Virou
exímio pescador, conversava com o rio e sabia onde deveria lançar suas iscas. Sentia-se
um pouco estranho, aquele segredo guardado há tanto tempo. Mas era tão bom, não
poderia compartilhar com ninguém aqueles pequenos prazeres. O banho de rio, e
se não voltasse? O céu estrelado, e se não visse mais um? A lua cheia, e se
fosse a última?
Era maravilhosa aquela sensação de viver tão
intensamente. Sempre com um sorriso no rosto, mergulhando na vida até o fôlego
acabar.
O tempo foi passando e Peri se apaixonou. Casou-se,
teve dois filhos. Ele era o homem mais velho da família, lhe coube o papel de
patriarca. Quando fazia a cerimônia, sem ninguém perceber, deixava a mão
flutuar levemente na cabeça da criança. Não a tocava.