terça-feira, 30 de setembro de 2014

Tráfego Aéreo

Vejo minha cidade se aproximando
Pequena, em uma janela pequena,
Distante ainda, mas cada vez mais minha.
Minha amante, minha amada,
Meu paraíso, minha gaiola dourada,
Aquele berço dos meus sonhos,
E fico me perguntando
Se caberei no velho eu.

Itaca foi a razão e o propósito,
Ela me deu uma viagem única
Ela não pode me dar nada mais.

Não posso cobrá-la.
Meus olhos veem pessoas sorrisos abraços.
Minha alma não vê nada,
Seu voo está atrasado.

sábado, 27 de setembro de 2014

Mais presente que a vida presente

Quando tudo é simples, tudo é sim,
Tudo é o mais puro significado,
E a vida em sua beleza sem fim
Se mostra, nesse momento dado,

De um leve sentimento agridoce
O coração se apossa: guardá-lo,
De um lado, como se eterno fosse,
E de outro desfrutar o regalo.

Sabendo chegar o inclemente algoz,
A alma observa cada mínimo detalhe
E a toda leve impressão dá voz.

Então ele se esvai, como esperado.
Leva consigo um profundo entalhe,
Mas entrega um prazer azulado.

Escrever

Escrever é pegar um pingo
De chuva
Com uma pinça
E eternizá-lo no papel.
É fotografar o vento,
Parar um rio em movimento,
E fazer do passado e do futuro
Tempo presente.

É ouvir o canto das musas,
Mergulhar com as ninfas,
E exercer a existência.

É saber calar e saber dar voz.
É mergulhar na profunda foz
De todos os medos e sentimentos.
De lá sair largo
E se estreitar
Para poder
Comunicar.

É criar o sonho de todos,
E sonhá-lo
Como se fosse
Só seu.

E cantando
E sorrindo
Viver como se sonha.

Pensamento Passageiro

O mundo se mostra.
Eu abro os olhos
E vejo.
A vida demonstra
Ser trágica e bela.

O ser é tão leve
Que de leve se torna grave.
A gravidade é tão séria,
Que de grave se torna leve.

O existir é um privilégio,
O porvir é agora.
A hora presente,
Contém tudo.

Uma manhã ensolarada,
Uma praça, um jardim.
Eu existo
E sou feliz.

Um pedido

Poeta, sonhe por nós,
O mundo é mais doce com seu canto,
O mundo é mais mundo com sua voz.
Enquanto seus olhos veem encanto,

Apenas para baixo olham os nossos.
Lançamos pedras, mas não se incomode
São nossos medos e rogos,
De quem, como você, vive e sofre.

Por que trabalharia a formiga,
Sem a cigarra e sua beleza,
Sem tão suave cantiga?

Assim, em um momento certo,
Nós nos voltaremos à sua certeza,
Nós o leremos e ficaremos mais perto.

À Beira

Aqueles acostumados ao conforto,
Chegam ao deserto e tem medo.
Não deixam o tentacular seguro porto,
Sempre é tarde, ou demasiado cedo.

Mas você que subiu as grandes montanhas
Viu que é passageiro todo deserto,
Viu no horizonte prodigiosas façanhas,
Viu mais longe e estava certo

Do seu caminho. Ítaca continuará
Em seu lugar, pacientemente aguardando,
Você sabe, e sua alma lhe diz, doce, vá!

Então colocando o pé na areia escaldante,
Um fresco frisson arrepia quando
Você diz sim, nunca mais como antes.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Mar

O mar sopra infinito:
Olha-lo é uma entrega.
Elixir para o coração aflito,
De tanta beleza se cega.

Seu cheiro sopra lembranças
Agradavelmente doces.
Suas ondas em suave dança,
Como se o beijo do amante fosse.

Seu verde azulado pequeno
Nos faz, seu toque suave
É de um brilho ameno.

Sinto a tua falta com todo meu ser.
Estar em ti é a chave
Para finalmente pertencer.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Olhar

Olho a lua,
Olho o rio,
E vejo o reflexo
Do que eu nunca esqueci.

Olho-a nua,
Olho, confio,
E vejo-a perto,
Em semblante feliz.

O não não existe,
O futuro insiste
Em estar todo aqui.

E me volto às estrelas
E à rainha amarela
Em um sorriso que diz.

Ver

Em uma fresca tarde de setembro
Abri os olhos e pude ver.
Você, é claro, eu me lembro,
Junto a mim, sem se mover.

Todo o verde à minha frente,
Era um belo presente seu,
Todo o azul acima somente
Me deixava a certeza do eu

Não existir. Pássaros em revoada.
Passantes, um cigarro, um beijo.
O doce sabor de não ser nada,

E só contemplar. O vento ruidoso
Soprava, e em meu peito o doce desejo
De morrer embalado nesse gozo.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Observo o mundo e estou de acordo

Observo o mundo e estou de acordo.
Vejo a beleza nos galhos balançando,
No uivar do vento e nas bicicletas passando,
No gosto desta água sem gosto,
Nos passantes caminhando sem rosto,
Nas badaladas que anunciam a chegada do meio dia,
Nos pássaros em revoada com a partida do verão,
E nesse buquê de flores indo para uma casa singela e cuidadosamente decorada.

Meu sorriso diz sim,
O mundo pergunta e eu concordo.
Meu olhar diz sim,
O mundo se mostra e eu recordo
Como é bom viver,
Como é belo ser.

Tocam os sinos, é uma hora.
Devo voltar.
A experiência é passageira no tempo,
Mas duradoura na alma.