André e Lucas eram melhores amigos. O que um pensava, o outro falava. Conheciam-se
há anos, um simples olhar já era um longo diálogo. Não se separavam, não havia
motivo que se pudesse pensar para gerar uma briga entre os dois.
Mas às vezes Lucas se sentia mal. André sempre tinha mulheres
deslumbrantes ao seu lado, mulheres dignas de uma pintura. Lucas não entendia
como. André! Logo ele, um pintor realista! Realista! Ele havia parado na
técnica do XIX! Lucas, por outro lado, era um escritor contemporâneo, escrevia
contos, buscava dialogar com as várias tendências, metalinguagem, autoficção, realismo
fantástico, e assim sentia-se latino americano. Como André, que estava
ultrapassado, conseguia aquilo? Lucas não se conformava, precisava de uma
explicação para aquilo. O realismo morreu! Mas as mulheres de Lucas pareciam
cegas, não viam isso. Essas mulheres sempre tinham um passado nebuloso, difícil
de explicar, mas agradavam ao olhar como nenhuma outra.
Certo dia André apresentou a Lucas a deslumbrante Eleonora. Do alto do
seu 1,50 m de altura se via tudo que era necessário ver. O seu sorriso de canto
de boca era mais perfeito que o mais perfeito dos sorrisos, os seus cabelos
alegres eram mais alegres que os mais livres cabelos. Seu olhar brilhante
ofuscava mais que a luz mais ofuscante, sua liberdade era mais livre do que um
escravo liberto. Era ela, Eleonora, completa.
Lucas ficou boquiaberto. Precisava dela ao seu lado. E mais nada.
Abriria mão de tudo para tê-la junto a si. Não aguentou. Sabia que nas mãos de
André ela seria só mais uma história entre tantas. Mas com ele, Eleonora não
seria só mais uma, mas seria Ela. Sua vida seria dela.
Aos poucos, Lucas foi se aproximando de Eleonora. Ela, misteriosa,
apenas contava histórias obtusas, o que o deixava ainda mais interessado. Ele,
entregue, sentia-se responsável por não deixar essa mulher ser mais um
brinquedo nas mãos de André.
Foi então que Lucas percebeu que já havia visto aqueles olhos brincalhões
em algum lugar. Achou estranho, sentiu um dejà vu, sabia que conhecia Eleonora. Mas de onde? Curiosa
aquela sensação, buscou lembrar-se das últimas namoradas do amigo, todas belas,
distantes, dignas de uma pintura. Fez um esforço em sua memória e se deu conta
que André sempre pintava mulheres estonteantes. Achava que aquele olhar
penetrante de Eleonora já fora retratado pelo amigo.
Ele fez um plano: entraria na casa de André e descobriria o que estava
acontecendo.
Certa noite, quando André estava em um bar com amigos em comum, Lucas
entrou em sua casa, sorrateiramente. Na penumbra viam-se cavaletes, pincéis,
bisnagas de tinta. Ele seguiu em frente, até o quarto que era utilizado como
estúdio. Impressionava-o a imensa quantidade de pinturas que estavam sempre
cobertas por um pano escuro. Naquele momento, não havia nenhuma pintura que
mostrasse suas cores, todas estavam ocultas, o que o deixou bastante inquieto.
Chegando próximo ao quadro que estava em um cavalete no centro da sala, Lucas
puxou o pano.
O que viu deixou-o tonto. A pintura se resumia a um contorno
detalhadamente ilustrado, mas sem a figura principal, que era um espaço em
branco na tela. Ao fundo, um rio, uma floresta, um barco. Mas em primeiro
plano, nada. Era como se o objeto de retrato houvesse sido retirado, como se
ele não pertencesse mais àquela tela. Um contorno sem personagem: foi o que viu
naquela e em várias outras telas que Lucas observou. Foi então que ele viu uma
tela que o fez compreender tudo. Ao fundo, uma paisagem idílica: vastos campos
de trigo balançando com o forte vento que fazia algumas árvores envergarem, um
casebre pequenino ao fundo, um riacho. Algumas vacas pastando calmamente. Mas ao
centro, um espaço em branco. Nesse espaço, Lucas tinha certeza: fora lá que ele
vira Eleonora anteriormente, ela pertencia àquela tela.
Lucas retirou febrilmente todos os panos escuros que cobriam aquelas
dezenas de telas no estúdio de André. E em todas as telas um espaço em branco,
marcando um vazio, fazia com que as namoradas de Lucas finalmente tivessem uma
origem identificada.
Olhando para o canto da sala, Lucas viu um pote, repleto de mechas de
cabelos das mais diferentes cores. Todos os tons que a mais fértil imaginação
pode criar estavam lá. E todos haviam sido retirados de mulheres que André
construíra em suas pinturas.
Febril por entender aquele macabro enigma, Lucas colocou as mãos em sua
cabeça e pensou: era o momento de agir. Retirou o isqueiro do bolso e ateou
fogo na tela onde Eleonora havia sido pintada. As outras telas rapidamente
começaram a queimar. Com um sorriso sinistro Lucas, que se afastava calmamente,
olhou para trás e viu a casa do amigo em chamas. De lá saía um gato preto de
patas brancas que, caminhando em sua direção, chegou-se perto dele e olhando
diretamente nos seus olhos, perguntou:
- O que você fez? Você conhece as consequências?
Aquilo o deixou assustado. Será que ele tinha noção das consequências? Será que foi a melhor opção? Pensou em Eleonora, com seu sorriso sempre presente, seu toque, seu cheiro. Queria tê-la agora em seus braços, mergulhar naqueles cabelos e esquecer-se de tudo e de todos.
Mas a situação estava insustentável, não poderia permitir que o amigo continuasse com aquilo. Mas e agora, o que ele poderia fazer? Caminhando em direção à sua casa, Lucas olhava o mundo à sua volta como um grande sonho. As luzes dos semáforos e dos faróis perdiam seu foco, não entendia muito bem onde estava. O desgosto fechou a sua garganta e um gosto de bile subiu em sua boca. Sentiu-se tonto, uma pressão foi crescendo dentro de seu peito. E então ele se arrependeu. Não deveria ter
feito aquilo, queimar todas as telas foi o maior erro que havia cometido. O que
aconteceria com Eleonora? Ele não sabia. Precisava mudar aquela situação e então ele teve uma ideia.
Febril por entender aquele macabro enigma, Lucas colocou as mãos em
sua cabeça e pensou: era o momento de agir. Ele encontrou aquela tela onde
Eleonora havia sido pintada e levou-a embora. Mostrando-a para Eleonora, sentiu
suas lágrimas umedecerem seu ombro.
Lucas, recolocando a pintura no cavalete do amigo, fez com que ele não se
desse conta do seu desaparecimento. Ele já havia percebido o afastamento de
Eleonora, andava um pouco cabreiro, questionava-se constantemente se não
deveria fazer o mesmo que havia feito com as outras namoradas. Mas gostava
muito do amigo, Lucas parecia feliz ao sair consigo e com Eleonora. Até que
certo dia percebeu uma intimidade excessiva entre os dois e decidiu que já era
tempo.
Lucas não ligava mais para ele, mandava sempre mensagens para Eleonora.
Sentiu que ele era um simples intermediário para o encontro dos dois. Eles
pareciam entender-se tão bem, passavam muito tempo conversando sem nem perceber
o mutismo distantemente crítico de André. Ele havia se transformado em um obstáculo:
precisava modificar aquela situação.
Fazendo o que já havia feito várias vezes, André enrolou a tela de
Eleonora e a colocou em uma grande lata de lixo. Tirou o pacote de fósforos do
bolso e ateou fogo. Sabia que com isso, Eleonora desapareceria e Lucas o
chamaria rapidamente.
Passaram-se 10 minutos, 20, 30 minutos. Uma hora. Nada. Várias horas se
passaram, e nada. O telefone não tocou.