sábado, 28 de junho de 2014

Existem tantas histórias para serem contadas, poemas a serem escritos... Eles simplesmente estão lá, à espera de que alguém os dê atenção. Calmamente, tranquilamente, aguardam. Se ninguém der atenção a eles, morrerrão como nasceram: silenciosos. Mas eles ficam lá, firmes, crédulos, com a certeza de que alguém os escreverá.
Escrever não é como pintar, colocar várias camadas de tinta sobre uma tela branca. Escrever é como esculpir, fazer falar o material que já está lá. O escritor é apenas um intermediário: o objeto já falou a quem lhe deu ouvidos. Ele apenas dá forma ao objeto.
E as histórias, e as poesias, ficam lá. Material bruto agurdando seu lapidador.

Eleonora

André e Lucas eram melhores amigos. O que um pensava, o outro falava. Conheciam-se há anos, um simples olhar já era um longo diálogo. Não se separavam, não havia motivo que se pudesse pensar para gerar uma briga entre os dois.
Mas às vezes Lucas se sentia mal. André sempre tinha mulheres deslumbrantes ao seu lado, mulheres dignas de uma pintura. Lucas não entendia como. André! Logo ele, um pintor realista! Realista! Ele havia parado na técnica do XIX! Lucas, por outro lado, era um escritor contemporâneo, escrevia contos, buscava dialogar com as várias tendências, metalinguagem, autoficção, realismo fantástico, e assim sentia-se latino americano. Como André, que estava ultrapassado, conseguia aquilo? Lucas não se conformava, precisava de uma explicação para aquilo. O realismo morreu! Mas as mulheres de Lucas pareciam cegas, não viam isso. Essas mulheres sempre tinham um passado nebuloso, difícil de explicar, mas agradavam ao olhar como nenhuma outra.
Certo dia André apresentou a Lucas a deslumbrante Eleonora. Do alto do seu 1,50 m de altura se via tudo que era necessário ver. O seu sorriso de canto de boca era mais perfeito que o mais perfeito dos sorrisos, os seus cabelos alegres eram mais alegres que os mais livres cabelos. Seu olhar brilhante ofuscava mais que a luz mais ofuscante, sua liberdade era mais livre do que um escravo liberto. Era ela, Eleonora, completa.
Lucas ficou boquiaberto. Precisava dela ao seu lado. E mais nada. Abriria mão de tudo para tê-la junto a si. Não aguentou. Sabia que nas mãos de André ela seria só mais uma história entre tantas. Mas com ele, Eleonora não seria só mais uma, mas seria Ela. Sua vida seria dela.
Aos poucos, Lucas foi se aproximando de Eleonora. Ela, misteriosa, apenas contava histórias obtusas, o que o deixava ainda mais interessado. Ele, entregue, sentia-se responsável por não deixar essa mulher ser mais um brinquedo nas mãos de André.
Foi então que Lucas percebeu que já havia visto aqueles olhos brincalhões em algum lugar. Achou estranho, sentiu um dejà vu, sabia que conhecia Eleonora. Mas de onde? Curiosa aquela sensação, buscou lembrar-se das últimas namoradas do amigo, todas belas, distantes, dignas de uma pintura. Fez um esforço em sua memória e se deu conta que André sempre pintava mulheres estonteantes. Achava que aquele olhar penetrante de Eleonora já fora retratado pelo amigo.
Ele fez um plano: entraria na casa de André e descobriria o que estava acontecendo.
Certa noite, quando André estava em um bar com amigos em comum, Lucas entrou em sua casa, sorrateiramente. Na penumbra viam-se cavaletes, pincéis, bisnagas de tinta. Ele seguiu em frente, até o quarto que era utilizado como estúdio. Impressionava-o a imensa quantidade de pinturas que estavam sempre cobertas por um pano escuro. Naquele momento, não havia nenhuma pintura que mostrasse suas cores, todas estavam ocultas, o que o deixou bastante inquieto. Chegando próximo ao quadro que estava em um cavalete no centro da sala, Lucas puxou o pano.
O que viu deixou-o tonto. A pintura se resumia a um contorno detalhadamente ilustrado, mas sem a figura principal, que era um espaço em branco na tela. Ao fundo, um rio, uma floresta, um barco. Mas em primeiro plano, nada. Era como se o objeto de retrato houvesse sido retirado, como se ele não pertencesse mais àquela tela. Um contorno sem personagem: foi o que viu naquela e em várias outras telas que Lucas observou. Foi então que ele viu uma tela que o fez compreender tudo. Ao fundo, uma paisagem idílica: vastos campos de trigo balançando com o forte vento que fazia algumas árvores envergarem, um casebre pequenino ao fundo, um riacho. Algumas vacas pastando calmamente. Mas ao centro, um espaço em branco. Nesse espaço, Lucas tinha certeza: fora lá que ele vira Eleonora anteriormente, ela pertencia àquela tela.
Lucas retirou febrilmente todos os panos escuros que cobriam aquelas dezenas de telas no estúdio de André. E em todas as telas um espaço em branco, marcando um vazio, fazia com que as namoradas de Lucas finalmente tivessem uma origem identificada.
Olhando para o canto da sala, Lucas viu um pote, repleto de mechas de cabelos das mais diferentes cores. Todos os tons que a mais fértil imaginação pode criar estavam lá. E todos haviam sido retirados de mulheres que André construíra em suas pinturas.
Febril por entender aquele macabro enigma, Lucas colocou as mãos em sua cabeça e pensou: era o momento de agir. Retirou o isqueiro do bolso e ateou fogo na tela onde Eleonora havia sido pintada. As outras telas rapidamente começaram a queimar. Com um sorriso sinistro Lucas, que se afastava calmamente, olhou para trás e viu a casa do amigo em chamas. De lá saía um gato preto de patas brancas que, caminhando em sua direção, chegou-se perto dele e olhando diretamente nos seus olhos, perguntou:
- O que você fez? Você conhece as consequências?
Aquilo o deixou assustado. Será que ele tinha noção das consequências? Será que foi a melhor opção? Pensou em Eleonora, com seu sorriso sempre presente, seu toque, seu cheiro. Queria tê-la agora em seus braços, mergulhar naqueles cabelos e esquecer-se de tudo e de todos.
Mas a situação estava insustentável, não poderia permitir que o amigo continuasse com aquilo. Mas e agora, o que ele poderia fazer? Caminhando em direção à sua casa, Lucas olhava o mundo à sua volta como um grande sonho. As luzes dos semáforos e dos faróis perdiam seu foco, não entendia muito bem onde estava. O desgosto fechou a sua garganta e um gosto de bile subiu em sua boca. Sentiu-se tonto, uma pressão foi crescendo dentro de seu peito. E então ele se arrependeu. Não deveria ter feito aquilo, queimar todas as telas foi o maior erro que havia cometido. O que aconteceria com Eleonora? Ele não sabia. Precisava mudar aquela situação e então ele teve uma ideia.
Febril por entender aquele macabro enigma, Lucas colocou as mãos em sua cabeça e pensou: era o momento de agir. Ele encontrou aquela tela onde Eleonora havia sido pintada e levou-a embora. Mostrando-a para Eleonora, sentiu suas lágrimas umedecerem seu ombro.
Lucas, recolocando a pintura no cavalete do amigo, fez com que ele não se desse conta do seu desaparecimento. Ele já havia percebido o afastamento de Eleonora, andava um pouco cabreiro, questionava-se constantemente se não deveria fazer o mesmo que havia feito com as outras namoradas. Mas gostava muito do amigo, Lucas parecia feliz ao sair consigo e com Eleonora. Até que certo dia percebeu uma intimidade excessiva entre os dois e decidiu que já era tempo.
Lucas não ligava mais para ele, mandava sempre mensagens para Eleonora. Sentiu que ele era um simples intermediário para o encontro dos dois. Eles pareciam entender-se tão bem, passavam muito tempo conversando sem nem perceber o mutismo distantemente crítico de André. Ele havia se transformado em um obstáculo: precisava modificar aquela situação.
Fazendo o que já havia feito várias vezes, André enrolou a tela de Eleonora e a colocou em uma grande lata de lixo. Tirou o pacote de fósforos do bolso e ateou fogo. Sabia que com isso, Eleonora desapareceria e Lucas o chamaria rapidamente.
Passaram-se 10 minutos, 20, 30 minutos. Uma hora. Nada. Várias horas se passaram, e nada. O telefone não tocou.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Em uma Segunda-feira

8:36. Adriana já estava atrasada. Havia colocado o alarme para às 8:00, mas como saíra na noite anterior, ficou apertando soneca até se dar conta de que não podia tê-lo feito. Levantou-se apressada, tomou um banho rápido, engoliu qualquer coisa, colocou a roupa de trabalho e saiu. Mais uma vez atrasada! O que seu chefe iria falar? Não poderia dar margem a reclamações, ela precisava daquele emprego.
Andou a passos largos para o metrô, ficava a cinco minutos de sua casa. Sentiu que havia algo diferente, algo de elétrico no ar, mas pensou que deveria ser coisa de sua cabeça, um pouco tonta ainda da noite anterior. Passou na roleta e enquanto aguardava na plataforma viu um casal conversando em uma língua que não entendia. Pensou que era bom esse turismo, trazia dinheiro para seu país, tornava-o conhecido mundialmente. O trem chegou à plataforma, cheio como sempre, e Adriana ficou feliz por conseguir um lugar de pé em um canto, onde não sofreria aquele empurra-empurra típico de suas manhãs.
Estava verificando sua agenda no celular quando ouviu a Voz anunciando a próxima estação: “Próxima Estação: Siqueira Campos”. Isso a despertou do redemoinho de pensamentos por onde andava sua cabeça, várias coisas para fazer, tarefas, reuniões, documentos, compromissos. Olhou para o lado e viu duas pessoas que conversavam em outra língua que não entendia, começou a achar estranho: o que elas faziam no metrô a essa hora da manhã? Olhou para o outro lado, e para o outro, e percebeu então que ninguém falava a sua língua, cada grupo, casal, família, conversava em uma língua diferente, a maioria das quais não fazia ideia qual era. Começou a sentir uma angústia, algo estranho no peito. Será que alguém ainda falaria português? Em meio a essa torre de babel, Adriana se sentiu deslocada, não sabia o que fazer. Tentou perguntar às horas para uma mulher próxima, idosa, que estava sozinha, mas ela não entendeu sua pergunta. Tentou de novo, fazendo sinais, e apenas quando apontou o seu pulso que a senhora entendeu, e mostrou a ela seu relógio. Será que estaria condenada a se comunicar assim, por sinais? O que seria dela agora, privada de sua língua, privada de comunicação? Como ela poderia dizer: estou com saudades? Ou como falaria: estou com fome? Será que conseguiria ir a um restaurante e comer alguma coisa? Como expressaria dor, como pediria ajuda, como prestaria ajuda? Aquela torrente de pensamentos só aumentava a sua angústia, e ela imóvel, em meio a uma multidão que ela não compreendia e que não a compreendia. Sentiu-se privada de sua identidade mais básica: oi, eu sou Adriana, e as pessoas a olhavam com estranheza. O que fazer então? Emudecer? Será essa uma opção? Será que seria essa a sua única e derradeira alternativa? Foi então que se lembrou de seu trabalho, lá com certeza eles ainda falariam sua língua, lá poderia se expressar livremente, poderia dizer o que pensava, poderia fazer piadas, poderia se sentir confortável. Ainda faltavam três estações, o que ela poderia fazer? Desejaria poder acelerar aquele trem, fazê-lo saltar as estações, chegar direto em seu destino. Aquele sentimento a sufocava, não aguentava mais essa sensação de deslocamento. Em uma segunda-feira, em seu próprio país, indo para o trabalho. Não podia ser! Algo havia acontecido. Será que era um sonho? Será que havia bebido demais na noite anterior? E ela em meio a uma multidão disforme que cada vez mais a oprimia, precisava dar um basta, faltava uma estação ainda. O que fazer? Suava frio ouvindo vozes irreconhecíveis, guturais, que contrastavam com sua ideia de uma plácida manhã de segunda-feira. Estava chegando, pronto, estaria livre dessa prisão. “Próxima estação: Cinelândia” anunciou a Voz. Ufa, poderia então respirar livremente, sentiu o trem desacelerando, já estava na porta e viu a plataforma cada vez mais perto, cada vez mais palpável. Quando as portas abriram não conseguiu resistir. Saiu correndo, desvairadamente, precisava dar um basta àquela situação toda. Atropelava as pessoas na rua e elas reclamavam em idiomas que só faziam Adriana querer correr mais e mais. Pedia desculpas, mesmo sabendo que não seria entendida. E corria. E corria. Até que passou pela portaria do prédio de sua empresa, estaria segura lá dentro. Tirou avidamente o crachá da bolsa, segurando os vários itens que estavam à beira de cair, e passou na catraca. Respirou fundo, aliviada. Encontrou um colega de trabalho.
– Bom dia Felipe! Tudo bem?
– Bonjour?

terça-feira, 24 de junho de 2014

Distância

Você me aparece rubra de amor
Eu sorrio as saudades que tinha
Desejo um beijo mas me paralisa o torpor
Ao ver a noturna alegria que se avizinha.

E então você coloca aquele vestido,
Aquele amarelo que eu não resisto,
Para mim a vida ganha sentido,
Para mim a vida se resume a isto.

Mas em seguida você se mostra distante,
Pálida e fria, e nada mais posso,
Em face dessa melodia dissonante,
Se não aceitar o intransponível fosso.

Mas sei que aguardarei no próximo poente
Vê-la entre montanhas no horizonte surgir.
Te darei esta e outras rimas de presente
E agradecendo ficarei a sorrir.

Perguntas

Como agir
Quando todos se comportam?
Como sentir
Quando faltam aqueles que se importam?

Como aproveitar calado
O benefício de ver?

O que fazer
Quando o seu pensamento
Só encontra eco nos grandes
Mas eles estão grandiosamente distantes
E não mostram qualquer terno sentimento,
Apenas razão e aridez.

A sensatez não te basta
Apenas os outros afasta.
Queres conforto,
Mas escolheste o caminho torto,
O caminho de ver
E pensar e perceber.
Queres acolhimento,
Mas os olhos acostumados à escuridão
Vêem na luz negro intento.

A mesma luz que esclarece
Fenece nos olhos dos cegos de coração.

A ausência te marca,
Marca de quem vê.
É o teu modo de ser,
Modo que o infinito abarca.

E caminhando, te transformaste em buscador,
E caminhando, encontraste a dor,
E caminhando, mergulhaste no teu próprio torpor,
E caminhando, caminhaste.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Liberdade

Encostou o cano de sua arma na cabeça de Daniela e deu um tiro sorrindo. Não precisava mais dela. Espantada, ela que acabara de acordar caiu para trás com expressão de horror, olhos abertos e fundos. Ele estava com uma regata branca, agora manchada com o sangue de Daniela. Sentia-se mais vivo do que nunca. Passando o dedo na mancha que se formara em sua blusa ele provou o sangue ainda quente e sentiu aquela rubra gota de liberdade descendo por sua garganta. Estava terminado.
A situação se tornara insustentável. Enquanto ela dormia, ele ligou para um amigo e pediu ajuda. Ramirez era a pessoa certa para se procurar nessas horas, ele conhecia todo o submundo daquela cidade, traficantes, prostitutas, comerciantes de armas. Pediu uma espingarda, o calibre mais grosso que ele pudesse conseguir. Duas horas depois Alberto tinha em suas mãos a sua chave mestra, a chave que lhe traria a tão sonhada liberdade. Sabia exatamente onde ela morava, o porteiro que já o conhecia deixou-o subir. Arrombou a porta sem se preocupar com o barulho e foi diretamente para o quarto onde ela dormia. A luz do computador iluminava o seu rosto insone, havia dormido trabalhando no computador.
Alberto se levantou às 07:00 e foi no banheiro. Tomou uma ducha demorada. Arrumou-se, tomou café da manhã lendo o jornal e foi para o trabalho. Tudo conforme Daniela mandara. Mais um dia de reuniões, ligações, negociações... A apresentação não estava boa? Ele corrigia. O relatório estava incompleto? Ele fazia hora extra para terminá-lo. Um empregado exemplar. Estava voltando tarde quando percebeu que ela dormira. Seria hoje.
Não poderia ser descoberto, essa era a chave da questão. Precisava planejar todos os mínimos detalhes enquanto ela não percebia. Iria atacá-la enquanto dormia, não haveria tempo para nenhuma reação. Mas e se ela acordasse antes? Sentiu uma fisgada no peito, Daniela não poderia suspeitar de nada ou ele seria liquidado. Como planejar tudo sem ela saber? Ela controlava todos os seus movimentos, sabia onde ele ia, com quem estava. Seria isso, em uma das noites em que ela dormisse trabalhando, ligaria para Ramirez.
Naquela noite, saindo do trabalho mais tarde do que o usual e sabendo que Daniela dormira, Alberto resolveu fazer algo diferente. Foi para um bar no subúrbio sobre o qual só ouvira recomendações para não ir. Chegando lá, o local tinha o estilo de um pub, vários bancos junto ao balcão, música alta, muita fumaça. Pediu uma caneca de cerveja e ao seu lado estava um homem alto, com um cavanhaque que se destacava, mal encarado. Se chamava Ramirez, e ao olhar para Alberto abriu um sorriso e lhe disse: “Já estava lhe esperando”. Alberto achou aquilo muito estranho, mas como estava sozinho acabou conversando com ele. Apesar de seu semblante de poucos amigos, Ramirez se mostrou simpático e ao final se despediu dizendo, bem dentro dos olhos de Alberto: “Se você tiver algum problema que precise de uma solução rápida, pode me ligar”.
Sua vida inteira era ditada por Daniela. Seus gostos, suas vontades, tudo. Ele não podia fazer nada se não obedecer. Era o seu destino, a sua sina. Sabia que tinha que fazer alguma coisa para sair dessa armadilha de Sísifo. Mas o que? Como ela reagiria? O que aconteceria com ele? A raiva se acumulava em sua garganta, ele tinha dificuldades em respirar. Ela atribuía isso a uma crise asmática de Alberto, não percebeu que algo estava começando a ser diferente.
Alberto viu sua mulher morrendo bem em sua frente de um ataque fulminante do coração, Daniela não o deixou chamar socorro. Ela queria fazê-lo sofrer, achava que só assim ele poderia verdadeiramente crescer. Um verdadeiro caráter se forma com grandes obstáculos, era uma receita que ouvira do seu avô e que era o seu mantra pessoal. Um dia encontraria uma mulher melhor, Daniela sabia que poderia providenciar uma nova mulher para Alberto e fazê-lo se apaixonar.
Daniela estava sentada em frente ao computador, pensando em seu próximo trabalho. Queria fazer algo que realmente fosse importante, que realmente tocasse as pessoas. Algo que fizesse seu nome ser lembrado por gerações. Teria que fazer o personagem sofrer, mas sofrer mesmo. Já tinha um nome para ele: seria Alberto.

O olhar do convalescente

Olho o mundo com os olhos do convalescente,
Que não pensa, que não sabe,
Apenas vê e sente,
E como dentro de si não cabe
Escreve para se alargar.

Não cabe a existência mesma do mar
E não apenas o não-mar.
Não cabem passantes andando despreocupados com seus passos despudoradamente tranquilos
E não apenas algo em direção a.
Não cabem veículos que se movimentam velozmente buscando recuperar o que já se perdeu,
Que simplesmente vão,
Repletos de olhares insistentes fixos em lugar nenhum,
Repletos de gente, de seres
Humanos.

Tão humanos quanto o humano gesto de um palavra de carinho,
Essa palavra que é sempre uma cópia original,
Um modo único dentre as possibilidades em potência,
Uma organização particular de ecos de vozes há muito esquecidas,
Que permitem o humano gesto
E o fim dessa poesia.