domingo, 29 de outubro de 2017

Pisoteo

(con Mustafa)

Olvidar
A esta chica
Por lo que te gravas en la retina
No se puede
Aunque haya otro amor igual o más
Fuerte.

Y no lo sé porque.

Es así el amor
Un sentimiento incontrolable
Siento por dentro como si fuera pisoteado
Por ella.

Y en el próximo minuto
Diciendo vamos a tomar uno?

Te digo de pisoteado.

Hay más mujeres en el mundo
Pero se puede repetir
Pues el hombre tropieza dos veces
En la misma piedra.

Solo los hombres
Los animales no.

No veo malla intención en ella
Es más allá
Con esa persona sientes seguro tus secretos
Más secretos

Pero el camino es otro
Y así es
Casi quatro años.

El pingüino japonés cuya hembra murió
El canto del corteo él seguía haciendo
Pero no comía hasta
Que le pusieron al lado
Su foto.

Y por eso que sigo aquí
Viniendo tan lejos
Para decirle
Que aún puedo
Vivir.

Pero por más que intento
Mis pasos no son pasos de ella.

Fue solo una noche
De pocos besos.
Nada más.

Y hasta hoy
Sigo aquí
Con la cabeza en los 19 años de España.

O trem é engraçado

O trem é engraçado:
Quando se senta você escolhe
Para onde olhar.

Você escolhe o presente
A partir de trás, para o modo
Como chegamos até aqui, ou
A partir da frente, em busca
De alguma coisa a surgir.

A partir da dúvida curiosa
Sempre sedenta e peregrina,
Ou da lembrança saudade
No momento exato
Em que é saudade.

Não se pode olhar
O presente,
Isso não!

O trem inclemente
Rasga a noite fria com seus faróis e luz e máquina
Solta fumaça cheiros suspiros e lamentos
Rodas metálicas deslizando em trilhos afiados
E em você existe a árvore que será passado
Ou a árvore passada que se tornará borrão.

Às vezes na sua frente
Uma pessoa olha para o outro lado
Atenta
Até que desatenta
Seus pés encontram os seus
E de repente a história toda é contada.

Mas o presente é sempre fugaz
Há que olhá-lo de soslaio no trem
Enquanto nos esquecemos
Ou enquanto não queremos esquecido.

The quiet train

The train is quiet
Nobody makes a whistle
Nobody says a word
And the greenish horizon flows like sea
Waves braking on the shore.

The train is quiet
Somebody has a book
Somebody has earplugs
But the bluish horizon gets filled with windmills
Turning arround without knowing time.

The train is quiet
But the mind isn't
But the soul isn't
And the parallel tracks passes like an endless
River to any uncertain destination.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Para os nossos seis anos

(com Paulo Lontra)

Nosso futuro é tão
Expectativa
Mas na verdade
Estamos dando um puta
Passo.

Ela é uma pessoa
Com a qual basta comunicar
Sempre aberta, sempre em
Parceria, com conversas importantes,
Com uma profundidade que ultrapassa em muito
A página dois.

Ela que consegue olhar a pessoa e ver
O rosto atrás de qualquer
Máscara, ela, com quem eu vou
Me casar.

Pensar na família
Como um time, buscando crescer
Melhor juntos, sempre disposta a falar
O que é preciso, querendo um dia
Algo mais.

A cada ano com mais
Confiança, entendimento, somos duas partes
Independentes e ainda partes,
De algo que cresce.

Dicionário de Bolso

(com Paulo Lontra e Tatiana Cohen)

Amor:
Uma experiência interior
Que olha pra dentro olhando pra fora.

Família:
A proteção de valores
De gerações e gerações.

Generosidade:
O dar sem nada
Esperar de volta.

Prazer:
A efemeridade dos sentidos,
O equilíbrio difícil.

Viagem:
Olhar de fora
Para dentro e ressignificar.

Cultura:
Óculos para
O mundo.

Fim:
Um conceito abstrato, inexistente,
O esquecimento.

Para Rogério Cohen

(com Tatiana Cohen)

Seu temperamento forte
Quase egoísta
Explosivo
Irritado
E ao mesmo tempo tão
Emotivo, inconstante,
Separado tão cedo,
Fazia o básico
Mas eu sei
Eu sei do seu amor.

Eu fortemente ligada à minha mãe,
Ele instável, eu filha única,
O medo de cuidar dele,
Tanto amor e ódio
Até que ele descobriu uma fibrose
No pulmão
Ele pouco a pouco mais cansado
Internado uma vez
Pneumonia
Hospital
Internado uma segunda
Mas na terceira
Na terceira ficou.
Entubado
Sem poder se despedir
Em coma induzido
Um dois três doze dias
Até que sem traqueostomia
Pedido por ele por áudio uma semana atrás
'não deixem',
Não deixamos,
O rim falhou
E ele se foi.

Apesar de achar que eu não iria sentir tanta
Falta,
De repente senti
Tanto mais que eu qualquer dia soube reconhecer
Vi que ele teve depressão
Vi o seu lado generoso
Vi o seu lado bem humorado
Que quando amava amava loucamente
Reafirma todo dia te amo
E eu não dava valor mas sentia
Vergonha, vi como não
Valorizava o seu amor,
Esse seu lado presente mas não enxergado por mim,
O avisar toda viagem 'pai,
Cheguei', pois você estava
Lá.

A toca da onça pintada

A comunidade
Tudo
A seis mãos
No mercado
Na guloseima
Na cerveja
No gasto
Em busca
Dos outros quatro,
Nas derrotas
Nas conversas,
Só sexo não,
E política
Como zona de tensão.

Mas os filmes a seis olhos
As séries,
Todo dia a vida amorosa do Ricardo
É conversada,
No Raul e no Giorgio do Daft Punk,
Pela vida possibilitada
Por esse espaço.

A limpeza a seis braços,
Na feira de comida
No kebab
No suor
Na toca da onça pintada.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Como (2)

Como tudo é amplo
Para o homem que busca.

Como do buraco estreito
Da agulha se faz sol.

Como do completo
Improvável se faz hoje.

Como do complexo
Rio se faz grande.

Como do nublado
Céu se faz simples.

Como da sede infinita
A boca é enfim doce.

Como

Como construir
Um mundo um pouco mais justo,
Um pouco mais belo,
Só um pouquinho mais
Acolhedor?

Como construir
O amanhã apesar de tudo,
O horizonte apesar de tantos
Pesares,
O sol da amanhã apesar
De tantas luas novas?

Nas estrelas
A certeza que somos tão
Pequenos,
Tão parte de um vazio
Muitíssimo maior
E que o tempo inclemente
Nos atravessará.

Stateless era a exposição de hoje,
Literalmente
Os sem Estado,
Sem pátria documentos ou direitos,
Exibidos num museu
Para nos lembrarmos
Que ainda não está bem.

A memória da criança Síria,
Daquela foto da criança Síria,
Morta de bruços em uma praia européia de areias brancas,
Morta pelas nossas mãos cegas.

A certeza que aquele país que chamo de casa,
Aquele país da madeira de lei, ouro, cana de açúcar, soja, carne e minério,
Aquele país da commodity, primária,
Merece chegar no futuro que há tanto
Tempo lhe prometeram.

Como então não gritar
Pela justiça
Nem buscar
Um dia onde
Nunca se negará
Um pedaço de pão e de céu
A ninguém?

Cálculos

O mundo é o modo
Como você olha pra ele.

O muro é o modo
De mastigar a parede.

O mudo é o monge
Sem fome nem sede.

O muito é o monge
Deitado na rede.

O molho é o morto
Injustiçado e verde.

O molho é o morto
Incalculavelmente verdadeiro.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ato

As pessoas
Estão por aí
O que fazem
O que querem?

As telas
Estão por aí
O que fazem
O que querem?

Nós ainda
Estamos por aqui
E fazemos,
E queremos.

A vida me interesa

A vida me interesa.
Não existe arte sem vida,
Não existe vida sem arte.

sábado, 14 de outubro de 2017

Aeroporto

Aeroporto
Sores
Cores
Dores
Flores jogadas ao vento.

Aeroporto
Frio
Cio
Vadio
Aberto e fechado.

Aeroporto
Línguas
Mínguas
Cíntias
E tantos outros a esperar.

Aeroporto
Asas
Ares
Olhares
Esgueiros, abras os teus braços.

Aeroporto
Passagem
Imagem
Coragem
De alguma coisinha nova que seja.

Começou

Começou
O infinito
Espaço
Dentro
De mim.

Começou
A infinita
Dança
Da noite
E do dia.

Começou
O rio
Sem margem
Sem início
Nem fim.

Começou
O mar
Do sol
Do vento
E do gozo.

Começou
O lábio
Sangrando
De prazer
E lâmina.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Lembrança

Queria um poema que pudesse
Lembrar de todos os poetas esquecidos,
Um poema cujas palavras e sangue
Fossem a sombra e o som
Daqueles invisíveis que nos atravessam,
Daqueles sonhos impossíveis sonhados
Tantas vezes quanto as gotas de chuva
Em uma tormenta de verão,
Gotas pesadas e sólidas
De uma tormenta de verão.

Queria um poema que transpirasse
Bile, que atravessasse fígado e estômago,
Para que em cada verso sejam
Lembrados,
Para que em cada rima estejam
Guardados
Todos aqueles que viram a vida comum
E sorridentes viraram as costas,
E altivos buscaram algo
Além, e inconsequentes viveram
A vida, certos que somente o impossível
Importa.

Queria um poema que gritasse
A cada espaço em branco,
Branco intervalo entre dois silêncios,
Que gritasse a cada passo em falso,
Passo em falso na procura de algo além,
Um poema que falasse
Que tudo vai ficar bem,
Apesar da certeza que não,
Que falasse que amanhã será um novo dia,
Apesar da dúvida se a manhã um dia
Ainda chegará,
Mas só consigo em um poema
Titubear
Procurando
Guardar a lembrança de tantos poetas
Que beberam todas as nossas
Contradições e ebrios pelo gosto
Doce nos fizeram chegar
Até aqui.

domingo, 8 de outubro de 2017

Eco

A incrível impossibilidade
Do acontecer
Da vida,
O improvável revelar
Da luz
E da cor,
O inacreditável eco
Do som
Do infinito.

Mar

De movimentos mais pesados,
Mais lentos,
Como uma onda
No mar,
Correndo sob uma gelatina,
O pensamento muito antes
Da fala,
Entorpecimento,
Dormência da pele,
O corpo sensível
De percepção aguçada,
A alma leve pois livre
Do peso, liberdade.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Lázaro, levanta-te!

Levanta-te Lázaro!
Já é mais que tarde
Eu aqui a fazer alarde
O sol na vista arde
Enquanto tu continuas
Deitado aí.

Levanta-te Lázaro!
Aqui fora o teu pai continua louco
Aqui fora o ouvido continua mouco
Aqui fora o rogo continua rouco
De tanto pedir.

Levanta-te Lázaro!
Levanta-te e anda!
Usa essas pernas que são suas
Corra pelos caminhos e ruas
Veja o dia antes que as luas
Passem acima de ti.

Levanta-te Lázaro!
Queres fazer-me repetir até quando
Queres rir-se enquanto eu clamando
Queres sempre faceiro que eu brando
Continue a carpidar.

Lázaro, levanta-te!
Esses dez minutos no soneca nada
Te trarão, até quando nesta maçada
Ficaremos, a tia tão boa que fada
Parece, da escola recebi sua rosada
Caderneta, integralmente anotada
'Atrasado', parece até uma piada
Sem o riso, nessa conversa fiada
Ficamos, mas conheço-te, cobra criada
Sois e conseguiste, está acabada
Minha paciência.

Lázaro Silva, pela última
Vez, levanta-te!