Queria um poema que pudesse
Lembrar de todos os poetas esquecidos,
Um poema cujas palavras e sangue
Fossem a sombra e o som
Daqueles invisíveis que nos atravessam,
Daqueles sonhos impossíveis sonhados
Tantas vezes quanto as gotas de chuva
Em uma tormenta de verão,
Gotas pesadas e sólidas
De uma tormenta de verão.
Queria um poema que transpirasse
Bile, que atravessasse fígado e estômago,
Para que em cada verso sejam
Lembrados,
Para que em cada rima estejam
Guardados
Todos aqueles que viram a vida comum
E sorridentes viraram as costas,
E altivos buscaram algo
Além, e inconsequentes viveram
A vida, certos que somente o impossível
Importa.
Queria um poema que gritasse
A cada espaço em branco,
Branco intervalo entre dois silêncios,
Que gritasse a cada passo em falso,
Passo em falso na procura de algo além,
Um poema que falasse
Que tudo vai ficar bem,
Apesar da certeza que não,
Que falasse que amanhã será um novo dia,
Apesar da dúvida se a manhã um dia
Ainda chegará,
Mas só consigo em um poema
Titubear
Procurando
Guardar a lembrança de tantos poetas
Que beberam todas as nossas
Contradições e ebrios pelo gosto
Doce nos fizeram chegar
Até aqui.