domingo, 16 de setembro de 2018

o primeiro

(com J.)

eu me mudei para o Rio
por causa de um cara
o meu primeiro,
que eu conheci no Sul

eu tinha pavor de ficar com alguém
mas o escolhi pois tinha certeza de que nunca mais iria vê-lo
mas ele anotou o meu contato
e começou a vir para Santos

ele na porta
e eu falava para minha mãe
dizer que eu não estava

mas eu me apaixonei
e vim para o Rio
de surpresa
sem explicar

- onde você está morando?
- na General Artigas
- é a minha rua

da rua eu o via da janela
mas não deu certo
ele namorando
quis me ver
mas eu me afastei

ano passado ele me procurou em São Paulo

- vamos jantar
- vamos

ele se separou
mas não rolou
nada, me afastei
não dei
atenção, e eu
apaixonada até hoje

eu, penso hoje, como fui
boba, ingênua
ao menos do lado do telefone
ainda vou dizer
eu te amo

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Pedro II

(com Rafael Arruda)

foi lá que eu aprendi
a diversidade
cultural
de renda social de etnia
de realidade

foi lá que eu aprendi
a importância do acesso à educação
às cotas
que apesar de tudo não compensam todas as desigualdades

foi lá que eu aprendi
que tempo histórico não é igual
a tempo cronológico
que tudo que eu aprendi
um dia por mim será esquecido
mas se eu aprender a pensar
que bom

foi lá que eu aprendi
que a nossa sociedade é marcada por uma dicotomia
entre um poder ser
um poder ter
e um nada
uma desesperança
minimamente melhorada
em sala de aula

foi lá que eu aprendi
a cantar a tabuada
a pular pelo telhado do colégio em busca da libertação
a fazer a fantástica guerra d'água
tomando conta do colégio inteiro
com balões d'água, garrafinhas e copos
a planejar qualquer coisa ainda mais fantástica
não por infelicidade ou revolta
mas pela mais pura alegria
por contar as horas por encontrar os amigos
para finalmente viver um momento onde tudo era possível

foi lá que eu aprendi
a ler, mais de uma vez
a entender a multiplicidade de cada palavra
de cada número, conceito, forma, som e cor
a ser eu, me pensar no mundo

foi lá que eu aprendi
o respeito ao próximo
a visão não isolada sobre si
o contato
a tentar ser apenas um pouquinho
melhor
a ver a diferença que nos marca e que nos define
andando lado a lado com o que nos une

foi lá que eu aprendi
a desaprender o preconceito que nos marca
a cada dia nesse mundo injusto
e a importância do próprio desaprender
para sempre