sexta-feira, 30 de março de 2018

Retrato

(com Sergio Allisson)

Ele mora num apartamentozinho
Ela divide com cinco amigas
Ela química
Ele exatas
Ou adm
Cinema ele só conhece
Comercial
Ela não, ela gosta de Almodóvar,
Por exemplo,
Tarantino acha muito violento
Mas sabe o que é.

No final das contas
Ela iria para Indonésia, Marrocos,
Ele só para Miami.
Inclusive ela já foi para Cartagena.

Já fez mochilão pela América
Do sul, já foi ao Peru,
Ela lê Dostoiévski
Ele não lê.

Ela toparia uma relação
Aberta, ela acha que seria possível
Tentar, ele não,
Inclusive
Ele jamais confessaria a ela
Que existe prazer anal
Ele já fumou maconha na vida dele
Mas jamais admitiria que é a favor
Da legalização
Ela não fumou, mas é a favor,
Eles não gostam de luxo
Isso eles tem em comum.

Eles vão dormir na casa dele hoje
Ele mora aqui perto, ela não,
Eles vão andando,
O banheiro deles já uns bons quinze dias
Que não é lavado,
Eles não se importam,
Mas o sexo é muito bom,
Eles tem um encaixe perfeito,
O pau dele é do tamanho que ela gosta,
Inclusive
Porque apesar de tudo
Ele respeita muito o tempo dela,
Isso ela não tem muito do que reclamar não.

Eles vão transar amanhã de manhã
Hoje não
E engraçado que ele é doido para comer uma mulher do trabalho
Mas ele tenta respeitar
Ela por sua vez já deu um beijo em um colega
É bobeira
Mas ele não entenderia.

Mas eu acho
Verdadeiramente
Que eles vão ficar um bom tempo
Mas não muito tempo
Ela sabe que não vai aguentar muito tempo
A caretice dele.

Uma coisa legal que eles fazem
De vez em quando
Eles transam vendo filmes pornôs
Ela gosta de ver uma mulher com dois caras
Para todos os efeitos ele está entrando na onda dela.

Vamos tomar um álcool, né?

sexta-feira, 23 de março de 2018

Gostaria de

Gostaria de
Um livro que fique não deitado
Mas de pé
Que permaneça não deitado
Mas vertical
Enquanto durarem as areias do tempo
Enquanto durarem as palavras
Enquanto durarem as línguas
Escritas ou faladas
Que seja página quando eu for pó
Que seja sonho quando for adeus
Que seja luz quando nem mais
Na escuridão eu puder habitar
Que dure muito, muito mais,
Repleto de arabescos fractais
Vindos de um tempo distante,
Que de tão imperfeito guarde
História, desejos, noites, sei lá,
Que rasgado seja kintsugi,
Falho, frágil, fraco,
Mas com alguma cola dourada,
Que sujo, no lodo, no esgoto,
Ainda guarde algum verso
Passível de sorriso, de choro
Ou de dor.

domingo, 11 de março de 2018

Infância em Sulacap

(com Ana Terra e Clarisse Kloss)

Lá não tinha quase nada,
Tinha muita brincadeira de rua,
Pique pega, pique cola, pique
Esconde, queimado
E futebol.

Bebendo água
Da bica
Para nem entrar
E chegávamos em casa
De pé quente
No piso gelado.

Depois da escola
Sempre tinha alguma criança lá em casa
Porque as mães não podiam vir buscar.

Lá em casa tinha uma escala de banho:
Como todo mundo queria brincar
Ninguém queria ser o primeiro.
Meu pai sorteou:
Ana, Moacyr, Clarisse
E colou na porta do banheiro.
Resolveu.

O Moacyr
Quando começava a bater na gente
Era amarrado na cadeira
E deixado no escuro.

Quando o telefone tocava
Era uma luta
Para ver quem atendia:
Uma puxando o pé da outra,
Se arrastando.
Enquanto isso,
O telefone tocando.

O Fafá estava sempre
Com bolsos cheios de comida
Mas sempre dividia
Com todo mundo.

O Davi uma vez
Atravessando as quatro pistas
Da rua principal
Tropeçou
Mas como não ia conseguir se levantar
Continuou engatinhando.

O mesmo Davi
Em uma das várias vezes que apertamos as campainhas e saímos correndo
Uma lata caiu do seu bolso
E ele teve que voltar.

Jogávamos vôlei na casa da minha mãe
E fazíamos os códigos nas mãos que víamos na TV
- não os entendíamos, é óbvio -
Mas aqueles sinais
Faziam parte do jogo.

Éramos às vezes sádicos
Mas só com as lagartas da casa da minha avó:
Colocávamos no álcool, queimávamos,
Mas só lá.

Nós duas
Colocávamos um mesmo avental
Amarrado
E ficávamos correndo juntas
Para passar o tempo.

Quando abriu a sorveteria
Passávamos o domingo inteiro esperando a hora,
Depois da igreja,
De pedir com os olhos
E a Graça já sabia os sabores sem nem falarmos nada.

Nesses dias se juntavam nove
Crianças
Na casa da vovó Marinete:
Não era muito ordeiro.

Catávamos coquinho
De amendoeira,
Enchíamos sacolas,
E depois comíamos tudo.

Quando alguém tinha que ir no seu Zé ou no seu Horácio
- os dois comércios do outro lado da rua -
Nossa mãe pedia
Na verdade obrigava
A outro ficar sempre de olho
Pela varanda
E ninguém queria
Parar a brincadeira para isso.

Sulacap parecia uma cidade do interior:
Na praça da igreja
Um comércio, um açougue, uma papelaria, uma locadora,
Uma loja de ferragens, uma caixa de correio.

Além da praça
E da academia de polícia,
Tinha um cemitério
Verdinho
Ao lado de um morro verde.

O tédio que tínhamos sempre
Clarisse queria matá-lo subindo o morro
E todo mundo se entreolhava
Nao querendo acompanhar.

Sulacap
Não é um bairro antigo,
Terreno
Da SulAmérica Capitalizações,
Loteado
Recentemente
E as gerações se seguiam
Ainda lá
Uma depois da outra.

Sulacap para a gente
É isso,
A nostalgia de um lugarzinho seguro,
Aconchegante,
Onde toda nossa família estava,
Todo mundo se conhecia.

Hoje não a reconhecemos,
A nossas avós morreram,
Nosso pai não mora mais lá,
Mas Sulacap continua
Nas nossas lembranças.

domingo, 4 de março de 2018

Redenção

Na barra do seu vestido círculo
No seu pé em ponta
No seu sorriso bom dia
No seu pandeiro chorando
Nos seus braços serpentes
No seu corpo negro
E branco e marrom
No seu pescoço pêndulo
Nos seus cabelos teia
Nos seus brincos soltos
E no seu balanço ancestral
A ínfima mas certa
Possibilidade de redenção.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Caetano

Famosos:
Caetano estaciona carro
no Leblon
nesta quinta-feira.

Caetano Veloso se prepara
para atravessar uma rua
do Leblon.

Caetano olha para o fotógrafo
enquanto atravessa a rua
no Leblon.

Caetano espera no estacionamento carioca
nesta quinta-feira
(10).