sábado, 5 de setembro de 2020

esquina

esquina da Bulhoes Carvalho
com Julio de Castilhos
sábado de manhã
duas mulheres conversam, um cachorro
duas máscaras
aqui muitas máscaras
passeiam
algumas no queixo
a casa dos marujos ainda vazia
o tempo nublado
cachorros sacolas
de mercado
quase todos de chinelos
bicicletas
é sábado de manhã
o dia de praia
chinelos chinelos chinelos
algum carro
passa
as árvores muito verdes
alguns pássaros
e beija flores
de vez em quando micos sungas e biquínis
aqui parece
tudo bem

sábado, 4 de julho de 2020

hoje vou cuidar de mim

hoje, só hoje, eu vou cuidar de mim
vou aceitar a luta que me cabe
todas as partes que não gosto
em mim, vou lembrar do meu corpo
cada parte dele
e como o meu sangue me constitui

hoje não vou me cobrar
ser diferente, aquilo que algum dia
eu ou alguém, quis
hoje vou perdoar
tantas mágoas e lágrimas e dor
e sorrir por estar

hoje vou respirar fundo
descansar
dormir o sono dos justos
um pouco mais cedo que de costume
que irei deixar de lado
só por hoje

hoje vou abrir mão daqueles pesos
que carrego comigo
há tanto tempo que lisas ficaram
as pedras
e deixá-las em um canto
se não esquecidas
mas ao menos deixadas para depois

hoje eu vou tomar banho
ou não, não sei
não vou adiar o fundamental

não vou correr atrás de nada
absolutamente nada
vou dar uma pausa em tudo
aquilo que não realmente importe
abrir mão de tudo
aquilo que sei
e amar e amar
incomensuravelmente

hoje vou sentir próximo o amigo distante
grata a lembrança passada
vou me deitar ao sol
tomar banho de mar de olhos fechados
e sentir a onda quebrando muito acima
e ouvir o seu ruído forte
e nadar e nadar e nadar e nadar

quando sentir os dedos quentes
debaixo do cobertor
dos pés de um outro corpo
vou saber que hoje, amanhã ou depois
eles vem para ficar
pelo tempo suficiente
de um pedaço de céu

hoje, só hoje, ao menos hoje
eu vou cuidar de mim