(Com Reinaldo Gomes Santos)
Comecei com
Dezesseis anos,
Em 1982.
Não tinha como continuar os estudos
Aqui em Igatu.
Meu pai me levava
Pequenininho
Para ficar lá no garimpo com ele
A brincar,
Junto do meu avô, minha avó, minha sogra,
Além de quatro
Dos meus seis irmãos.
Às vezes um ano inteiro sem nada
Até encontrar um grão de feijão
Que mal pagava os gastos todos.
A emoção
De poder pagar as dívidas,
De poder comprar alguma coisa
Que precisava lá em casa.
Meu primeiro sonho
Era comprar uma bicicleta:
Consegui uma 79,
Com apenas três anos de uso.
Depois trocava de bicicleta todo ano.
Em 84 comprei um carrinho usado,
Um Corcel 77,
Com dois diamantes
Lá do rio Baiano
Lá perto de Andaraí,
Um com dez
Outro onze quilates.
O patrão não vendeu eles brutos
Mas lapidou
E ganhou uma grana.
O carro acabou vendido por outro patrão
Em Goiás
A uma borracharia.
Os patrões sempre passavam a gente para trás.
Ja garimpei em Goiás,
Na Bahia e no Piauí.
Quando vieram as dragas
De Mato Grosso, Minas Gerais,
Trabalhávamos em grupos de sete,
Seis no garimpo e um na cozinha.
Cada um ficava com 5%
E o patrão com 65%.
Mas o patrão comprava por três mil
Um diamante que valia dez
E a gente tinha que aceitar.
O rio Paraguaçu é muito rico.
Quando era época
Para ajudar na renda
A gente colhia sempre-viva,
Uma flor
Que o pessoal vinha e comprava.
A sensação de estar no garimpo
É muito boa,
Às vezes dormia na serra cinco, seis noites,
Ia dormir tarde contando histórias,
Comendo feijão com mocotó,
De manhã café e farofa
E cada um para o seu garimpo.
Às vezes dá saudades
Daqueles momentos bons
Que a gente passou com os colegas.
Garimpei até 2000
E vim para o turismo.
Minha casa mesmo
Eu construí depois de garimpar.
Meus irmãos parou primeiro que eu,
Dois foi para São Paulo
Um para Aracaju,
E mais três em Igatu.
Meu pai hoje aposentado.
Amigo que se deu bem
Eu nunca vi não,
Nem os próprios compradores:
Não sei o que acontece com o diamante.
As nossas riquezas
Os gringo levou tudo para fora.
Tem garimpeiro
Que não volta nem pra visitar
De tanta raiva.
É uma febre,
É um jogo,
É uma aposta,
Conseguir o próximo diamante.
Se alguém me pedir um conselho
Para garimpar
Ia dizer para não fazer,
Não é boa ideia não:
Não ia conseguir nada
E ia destruir a natureza.
Já perdi um amigo
O gaúcho Ademir Fontana
Quando garimpava com um motor
Na gruta da Serra Alta.
Sua mulher tinha largado ele
Porque ele não voltava do garimpo.
Hoje tem um gringo
Da Dinamarca
Que já vendeu tudo
Para continuar garimpando
Com a peneira manual.
Meu primeiro patrão,
Baiano que tinha Mercedes
E trocava de carro todo ano,
Perdeu tudo e
Acabou vendendo coisas
Na rodoviária.
Outro,
Um patrão que chegou a ter oito dragas,
Vendeu tudo para continuar garimpando
E hoje vive de aposentadoria.
Os filhos estão por aí.
O que está melhorzinho
Abriu uma pequena
Borracharia.
No garimpo
É assim:
Não tem final feliz.