quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Ajuda-me a morrer

(com Maria de Fátima Sousa)

Após 53 anos casados, dos quais
49 morando em França,
Morando de emigrado,
Um telefonema:
'Irmã?'
'O que é que se passa?', digo eu
'Tô cá em Portugal, logo à noite vou aí', me respondeu.

Então ele apareceu e contou-me o que estava a passar.
Sua mulher o havia deixado há três meses,
Fruto de um enredo de mentiras
Criada para esconder o amante dela.

Duas semanas depois,
Ainda em fevereiro, no dia 25,
Ele que sempre vinha jantar
Não veio, e lhe telefonei.
Ele disse que não estava bem
E estava na cama.

Fui ao Entroncamento e ao ver sua falta
De ar, fomos ao hospital, e de lá saímos
Com a certeza
De um cancro em seu pulmão.

Uma semana internado,
Seu filho veio,
'Gostaria de ser tratado
Em França?'

'Não, aqui tenho amor e
Carinho, que é o que não tenho tido.
Se eu morrer, que eu morra
Perto da família
Que me ama.'

Eu, irmã 14 anos mais nova,
Era por ele chamada
De mãe.

Fez cá a quimio,
Levei-o a Torres,
Fez cá a rádio,
Levei-o a Santarém,
Cá ficou em casa
Em Vargos,
Por 11 meses
Até quase a morrer.

No natal
Seu filho visitou,
Sua ex-mulher visitou
Antes de ir para uma discoteca em Açores
Com foto divulgada
Com alegria
No Facebook.

Depois, pouco durou.
Em 11 de janeiro
Ele se foi.

A fé me mantém viva,
Por tudo que já passei.

Pelo que fiz por amor
Seu filho Christophe,
Muito querido,
Conseguiu a bênção do papa
Francisco.

Eu acho que fiz o meu dever como irmã
E como pessoa. Sentir que ajudei alguém a partir
Em paz, me faz bem.