(com Maria de Fátima Sousa)
Após 53 anos casados, dos quais
49 morando em França,
Morando de emigrado,
Um telefonema:
'Irmã?'
'O que é que se passa?', digo eu
'Tô cá em Portugal, logo à noite vou aí', me respondeu.
Então ele apareceu e contou-me o que estava a passar.
Sua mulher o havia deixado há três meses,
Fruto de um enredo de mentiras
Criada para esconder o amante dela.
Duas semanas depois,
Ainda em fevereiro, no dia 25,
Ele que sempre vinha jantar
Não veio, e lhe telefonei.
Ele disse que não estava bem
E estava na cama.
Fui ao Entroncamento e ao ver sua falta
De ar, fomos ao hospital, e de lá saímos
Com a certeza
De um cancro em seu pulmão.
Uma semana internado,
Seu filho veio,
'Gostaria de ser tratado
Em França?'
'Não, aqui tenho amor e
Carinho, que é o que não tenho tido.
Se eu morrer, que eu morra
Perto da família
Que me ama.'
Eu, irmã 14 anos mais nova,
Era por ele chamada
De mãe.
Fez cá a quimio,
Levei-o a Torres,
Fez cá a rádio,
Levei-o a Santarém,
Cá ficou em casa
Em Vargos,
Por 11 meses
Até quase a morrer.
No natal
Seu filho visitou,
Sua ex-mulher visitou
Antes de ir para uma discoteca em Açores
Com foto divulgada
Com alegria
No Facebook.
Depois, pouco durou.
Em 11 de janeiro
Ele se foi.
A fé me mantém viva,
Por tudo que já passei.
Pelo que fiz por amor
Seu filho Christophe,
Muito querido,
Conseguiu a bênção do papa
Francisco.
Eu acho que fiz o meu dever como irmã
E como pessoa. Sentir que ajudei alguém a partir
Em paz, me faz bem.