quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Ecos

Ouço vozes
Proximamente distantes.
Me pergunto:
Onde está o sentido?
À minha volta gestos,
Ecos de uma repetição atemporal.

Sorrisos simples simpáticos,
Fáceis falsas falas,
Concordâncias concordando em concordar.

Imerso nessa neblina
De pensamentos, que nada ensina,
Sigo buscando o momento,
Sigo mergulhado no intento,
De engolir o todo.

Mas o espontâneo riso de uma criança,
Puro,
Virginal,
Me traz de volta à realidade,
Me traz de volta à verdade.
O sentido está em ver,
O sentido está dentro de mim.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sentir

Sabe-se que sentir é importante
E bom.
Que ver é abertura flagrante
Da alma.
Mas o que se vê e o que se sente?

Sem perder o tom nem a calma,
Lhes digo:
Sente-se a leveza das flores
E o peso do existir.
A fome dos que tem fome
E a saciedade burguesa.
Dos doentes as dores,
Dos sãos o porvir.
A angústia do insone,
O sorriso do repouso.
O distante horizonte da criança,
Do definhante o forçado pouso.
De um banquete a pujança,
Dos desprovidos a esperança.
O juvenil ruído alegre,
O silêncio fundamental.
A ventura do amante
E também suas dúvidas.

Acima de tudo se sabe e se vê
E se mergulha na certeza
Que tudo está certo,
Que tudo é beleza,
Que tudo é.
E assim seja.

Vertigem

Para os loucos,
Loucos são os sãos.
Aos olhos de quem
Não vê,
Cego é quem vê
E não percebe o mundo
Assim como eles
Apenas pelo tato comum
E pelos sons.

A vertigem dos grandes montes
É impiedosa.
Inevitável mal de quem busca,
Inadiável destino de quem vê.
Sem raros dons nem bússola
Sobe-se mais e mais.

O que ficou para trás
Assim ficou.

Os ventos a meia altura
São severos.
As pernas fraquejam,
O corpo fatigado diz não.
Não se pode parar a meia altura:
A meia altura, a vista é meia vista
E inclementes são as intempéries.

É preciso expandir a largura
Do ser.
E ser forte e seguir em frente.
No alto, há paz,
A calmaria do olho do furacão,
A vista que se vê e sente.
Nos píncaros simplesmente se é.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sou

Sou um labirinto de descaminhos
Flutuo no nada
Fito o abismo abstrato
Retrato de constante grito
Trilho cada trilha sozinho
Navego o mar de minha alma
Abraço o infinito
De mim
Digo sim
E sinto.

Estar

Somos mestres em fugir
De nós mesmos
Estamos a nos divertir
Com amigos queridos
Mas a pensar no amanhã
A nos arrepender do ontem
Estamos em qualquer lugar
Menos lá.

O que poderia ser ensolarada manhã
Algo que a alma retém
E por muito tempo traz alegria
Se transforma em ocre nostalgia
Nos sentimos em soturno sonho
Amálgama de pensamentos desconexos.

Acostumados com sombras e reflexos,
Tentamos anuviar a consciência
Tentamos calar a voz
Que nos diz: há algo.
A tratamos como ruído enfadonho
Para escondê-la usamos toda ciência.
Procedimento infâme e atroz!

Para!
Escuta a interior fala,
Acaricia suas incômodas palavras,
Esteja em cada momento.
Não deixe a oportunidade passar.
A vida é a arte do encontro
Mas nessa tela é preciso saber pintar.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Abrir-se

Abrir-se é subir em um para-raios
Em meio à tempestade
Esquecer-se dos medos gregários
Não ver no mundo qualquer maldade
Nem bondade
Simplesmente ver
Chegar ao topo de um farol e saber
Que é possível ir além
Viver e sempre estar aquém
Do sentir
Ouvir sua voz e não reconhecê-la
Apenas a estranheza de ecos de memórias distantes
Mergulhar no mistério constante
Estar presente no instante
Pular em um abismo antes da certeza
De que suas asas irão lhe segurar
Dissolver-se no grande silêncio
Sabendo que é o prenúncio
De algo que está por vir.

Um Homem

Um homem não se define
Pelo que ele fala de si
Pelo que ele acha de si
Ou pelo que falam dele.

Um homem se define pelos seus atos.
Em verdadeiro homem se transformará ele
Se agir.
Parado, a macia cama embotará seu espírito.
Parado, a podridão moral o transformará em rato.

Como você gostará de ser lembrado?
Aja. Calado.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Um Dia

Quando chegar o dia enfim
Será que saberemos parar?
Será que diremos sim
E a velha identidade largar?

Quem não tem olhos acostumados
A ver, se incomoda com a luz.
Por tanto repetir velhos ditados
A tentacular inércia seduz.

Por não subirem as pernas
Montanhas, flácidas se tornam:
Hábito de vidas pequenas.

Por isso é preciso ser pleno.
Os velhos medos um dia retornam,
Mas então lhes daremos doce veneno.

Poesia

Fala-se em prosa
Ou fala-se em poesia?
A linguagem poética existe
Fora da poesia?

Será pura afetação?
Será a língua em maestria?
Por que a palavra escrita insiste
Em rimar?
Será o melhor modo de mostrar?
O trabalho com a língua compensa?
O que recebe o papel tinto:
Emoções ou elucubrações?

São tantas questões
Que as deixo para quem pensa
Eu simplesmente sinto
E transbordo poesia

sábado, 14 de dezembro de 2013

A Grande Morte

O invólucro que dava coerência e unidade a esse eu fragmentário está se dissolvendo.
Vivo a grande morte.
Amigos, dizei-me, quem sou eu?
Me olho no espelho e vejo um estranho me encarando.
Toco minhas mãos, meu rosto, meu peito.
De quem será essas mãos, esse rosto, esse peito?
Tudo é silêncio e ecos
Emudeci

Silêncio

Chegou o momento derradeiro:
Estou à beira de mim.
Não distingo o falso do verdadeiro,
Não sei dizer sou assim.

Posso dizer-lhes o que fui
Ontem, o que me trouxe
Aqui, o vazio não se intui,
O nada é amargamente doce.

A consciência do abismo se sente,
A angústia de quem ousou ousar.
Gritos das profundezas reticentes

Ecoam, mas se perdem ao longe
Como dobrado barco ao mar.
Escuto o silêncio de calmo monge.

No Mar

uma ostra
sem grão de areia
é só uma ostra sem grão de areia
mas quando encontra-o
sente estranheza
e transforma o incômodo em jóia

o corpo calma anseia
foge das tribulações da alma
por isso perde a beleza
por isso perde a glória
sua curta memória
- ele não faz por mal,
ele que por tudo receia -
tentando ser uma pá de cal
consegue apenas ocultar
os grãos que irão se multiplicar

todos temos nossos grãos de areia
pequenos, grandes, coloridos
sentimos o incômodo doídos
mas é preciso tomar muito cuidado
não aceitar o grão dado
mas escolher aquele mais puro
pois se não ao invés de produzir jóias
aquilo que belo seria
- e isso eu asseguro -
será transformado em reles bijuteria

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Doce Morte

doce morte, sente-se
lhe esperava curioso
seu gélido hálito sente-se
seu toque de frescor e gozo

espera-se bem distante
mas me diga o que a traz aqui
um café, açúcar, adoçante?
lhe escuto, pode prosseguir

estava só de passagem?
apenas dois dedos de prosa
após cansativa viagem?

mas volte, de braços abertos
estarei, você me traz carinhosa
a certeza diante de um mundo incerto

Descanso

não quero terrenal sepultura
procissão, choro, cova, reza
minha memória futura
- se houver -
não será lápide, aqui jaz, que privilégio
é por ali, aquele corredor, chegamos
mas sim o grande sortilégio
de abrir os olhos e ver

com minhas coisas façam o bem
mas que posso eu querer
quando não estiver mais aqui?
não estando mais aqui
tudo que meu foi ficará
o eco dos significados que lhes dei
se apagará como uma doce canção de ninar

mas porque repousaria eu na finita terra
quando tenho o infinito mar?
depois que de mim aproveitarem tudo o que se puder aproveitar
joguem minhas cinzas na imensidão azul
assim ao invés de me levantar daqui a não sei quantos mil anos
quando do alto da pedra do Arpoador o sol começar a iluminar o negrume do existir
eu estarei lá, renascendo a cada dia

Festa

no dia derradeiro quero que celebrem
não chorem, cantem
à memória de alguém cujo único arrependimento
é não ter nenhum arrependimento
cuja maior alegria
é ter tido alegrias

alguém que viu
mergulhou na realidade e aceitou-a
sua coroa de louros foi o céu e as estrelas
seu vermelho tapete os verdes campos
o vento seu maior confidente
a chuva seu dourado manto
o olhar inocente para sempre ver o novo
no que é
no que existe

alguém que transbordou
que se entregou, que sorriu, que sofreu
que amou, que chorou, que se deu
e assim com festivos ares
possam fazer o último brinde
a alguém que viveu

Todo

a alma vomita o pão
imoral, instável
vive em busca de sentido
ignora o olvido
às garantias diz não
quer experienciar

o corpo a flutuar
sente medo
atrás de um teto
uma mão
busca o certo
absorto por conforto
quer se segurar

a alma que passa fome chora
o corpo que passa frio dói

mas se não somos alma
nem corpo
mas alma e corpo
é preciso ter calma
a um dar segurança
a outro pujança
a um estabilidade
a outro a verdade

o corpo relaxado comemora
a alma saciada sorri

Searching

limits are the highest walls made by ourselves
identities are the finest fictions built by ourselves
morality is the heaviest burden that we choose to carry
constantly trying to reach
and searching our inner self
we try to find meaning
forgetting that the meaning is the search of meaning
that what defines the human being
is the ability to see

walking blindly behind the mask
we look in the mirror faceless
and say to him: that's me
but the face behind the mask is made of flesh
and if even when we're lonely
we don't give it any light
allow it to heal and breathe
touch it and feel the soft skin with our fingertips
it's made of flesh
it rottens

domingo, 1 de dezembro de 2013

Caixa

a alma que se expande
não quer se contrair
quando se torna grande
deseja no infinito rio fluir

mas o pé que cresce de repente
encontra apertado o sapato
não mais conforto sente
o incômodo passa a ser um fato

assim a insensata rotina obriga
recolocar em uma caixa o espírito
tamanhas possibilidades não abriga

é mister podar-se pelas beiradas
engolir seco o amargo grito
uma identidade a flutuar no nada

Eu

com uma agulha a costurar
minha identidade feita de retalhos
me busco como quem busca ar
experimentos de definição? falhos

nesse multicolor pano tento
o constante viço do novo
um novo ponto invento
afasto o canto do corvo

ao lavar esse manto de trapos
que sou, ele fluido se dissolve
vou em sua caça em todos os atos

seu bordado é a borda de mim
sua forma nunca se resolve
uma agulha a fiar sem fim

Pertencimento

em um súbito instante
o ser transbordou
impossível seguir adiante
sem dizer o que se passou

na beira do mar corria
verdes montanhas no horizonte
ondas os meus pés beijavam
a luz do sol entre nuvens, era dia
suave brisa em minha fronte
lânguidos murmúrios me lembravam
que eu estava só

então a Natureza a pergunta me fez
a gota d'água em cheia taça
e tomado da mais pura sensatez
como um fiel cão que não foge à caça
lhe respondi: Sim

dois, cinco, centenas à minha volta
em revoada gaivotas, quero-queros
me entreguei como quem solta
eu vos quero
eu vos quero

sem nome e sem limites eu era
sozinho não estava
tinha tudo que se espera
tinha tudo e cantava
sorria alegremente por ser
olhava alegremente por ver
caminhava levemente por perceber
que tudo simplesmente é

chamou-me o infinito
e eu lhe disse ainda não
em profundo grito
de contentamento
estava são

a vida se descortina em possibilidades
é preciso abraçá-las
abrir a mais profunda subjetividade
emudecer as contrárias falas

o longínquo céu próximo estava
flutuando na úmida areia quente
a alegria de quem sente
pertencer

Realidades

não quero uma realidade
da qual eu tenha que fugir
esquecer-me da verdade
nada esperando do porvir

em constante experiência
buscando um simples instante
para tampar a ausência
em uma busca inconstante

quero uma realidade
para a qual eu queira voltar
sempre na flor da idade

me sentindo e feliz ser
junto dos pássaros cantar
a aguda alegria de viver

Possibilidades

é preciso em ressonância
com o mundo entrar
deixar-se com eurus ir
mas com zéfiro voltar

transbordar a viva ânsia
de viver
chorar pela marítima beleza
cantar pelo luar de platina
pelo dourado sol sorrir

ser um com a natureza
sem limites, sem bordas
só soluços da mais pura alegria
flutuando sem cordas
em um palco a brilhar

Uma Simples Flor de Lótus

toda a beleza do mundo
cabe numa simples flor de lótus
num simples instante

um momento onde vibram fundo
as cordas mais agudas do coração
não há como capturá-lo em fotos
não há como transmiti-lo ao maior amante

bebemos a água dos rios em grandes goles
os ventos nos perpassam em grandes foles
as montanhas nos engolem em profunda oração

campos de arroz com chapéus prostrados
cantos de pássaros em verdejante floresta
cheia lua com seu alvo véu encantado
amplo sorriso que felicidade atesta

dizemos sim
em uma simples flor de lótus

De Frente para a Noite

a solidão que ataca no negrume da noite
é inclemente
imperdoável algoz das felizes lembranças
sentimos no rosto as marcas do açoite
no coração a dor do ser ausente
nos ouvidos ecos das vozes das crianças
que nunca tivemos
que há muito fomos

sentimos no corpo o ardor do vazio
neste momento de profundo estio
da alma
olhamos de frente o abismo
com sua fresca brisa invernal
não há calma para sairmos do mutismo
que emerge de nosso âmago, abissal

em meio ao grande nada
ouvimos ao longe o canto
de um pássaro
e outros, e outros, uma revoada
o mundo se recobre de rubro manto
uma chaleira apita
uma mãe diz que não se repita
um bebê se agita
e somos felizes por atravessar mais uma alvorada