Vento me venta
Quero me enveredar
Em você,
Ser o teu doce ar
Que embala
E flui
Infinito.
Sua música
Me ultrapassa
E passo
A existir
E sentir
O beijo
Suave.
E então
Sorrio
Por saber
Que você
Está
E estará
Ao meu lado.
Sempre.
Vento me venta
Quero me enveredar
Em você,
Ser o teu doce ar
Que embala
E flui
Infinito.
Sua música
Me ultrapassa
E passo
A existir
E sentir
O beijo
Suave.
E então
Sorrio
Por saber
Que você
Está
E estará
Ao meu lado.
Sempre.
Me amareia os pensamentos
Essa presença pendular.
O privilégio do presente momento
E o sentimento do todo o mar
Me traz. Sua imensidão fluida
Me reflui infinitamente,
Seu abraço de quem cuida,
Seu beijo de quem não mente.
O que mais pedir perto do seu sim?
Para onde ir senão aqui? Enfim,
O seu horizonte me verticaliza,
Não há monte cuja vista suplante,
Não há maior beleza que eu cante,
Pois infinito você quente me abriga.
O homem atrás dos óculos
É sério
Sorridente
E sisudo
Seus olhos veem o mistério
Presente
Em tudo.
Mas seu coração nublado
Duvida
E pergunta.
O seu falar calado
Com a vida
Assunta.
O mundo é uma pintura a óleo
A se mover
Em espirais.
Da morte o grande espólio
Será um ser
Em fractais.
E ele, viva interrogação,
Caminha
E caminha.
O grande apelo do não
Se avizinha,
Se avizinha.
Mergulho na noite,
Nado entre estrelas.
Testemunho o mundo
Vejo raios e trovões
E sopros e vidas.
O vento me leva
Rumo ao infinito
De mim.
Em profunda entrega
Contemplo
Um pequeno gesto,
Um vestido a farfalhar,
O som de passos,
E aceito a beleza
A sorrir.
Em uma amena tarde
Você sente que cada parte
Faz sentido
Tantos sonhos
Em uma praça reunidos,
O sol que ilumina os malabares
A voar,
O vento que distribui beijos,
Os sorrisos que distribuem olhares
Contentes.
Uma música ao fundo
Pessoas a dançar.
O resto cai no olvido
O resto é resto.
Na alma o simples desejo,
De poder continuar contemplando
O mundo que existe
E é bom.
Passantes caminham resolutos
Apressados rumo às nove horas
Escondem os medos e guardam o luto
De ver de uma janela tantas auroras.
A cidade é um corpo que pulsa.
Suas ruas repletas de sentimentos
A alguns causa amarela repulsa
E a outros azul pertencimento.
Eu testemunho o urbano horizonte
Um apressado e constante rumo a
O gosto do mais doce fruto que há.
Ela é minha, a impossível e eterna fonte.
Ao meu chamado ela escuta atenta
E nua e terna se entrega em suave tormenta.
A noite se permite
Para quem se permite
E ela insiste
Em estar junto à mim.
Nao posso,
Enfim,
Não posso dizer não.
Eu mergulho
E me orgulho
De poder ser assim.
O tempo existe
E eu digo sim.
Ela perspectiviza o mundo
Um homem brilhante, um grande escritor?
Não. O corpo grita iracundo
Pedindo apenas instantes sem dor.
Meu reino por esse almejado dia!
É fácil não perceber a leveza
Quando o peso há muito não se via.
Ela, inclemente, mostra pétrea certeza.
Abraçando-a, entretanto, o gosto é mais gosto,
A noite mais noite, a vida mais viva.
Apenas por existir se crispa seu rosto
Quando ela ataca lasciva.
A finitude como possibilidade sempre minha,
O sentido do todo como eterno devir,
O resto é mero resto, e assim se avizinha
A grande possibilidade do profundo sentir.
Olho para o mundo
E vejo-as belas
Mas penso em você
Mais que bela
Sendo você.
Olho-a nua
E vejo a lua
Que me está a sorrir.
Olho-a perto
O desenlace incerto
Do eterno devir.
Nesta grande noite
O suave açoite
Me atinge.
Nestes pequenos versos
Canto a fome insaciável
Da sentinela esfinge.
Meus olhos pintam paisagens
Suavemente impossíveis.
Doce dança de imagens.
Rubras lembranças
Que a alma alcança:
Um passado de cal
E futuro.
Assim penso em você
Para ser
Enfim
Feliz.
Olho para o mundo
E vejo-as belas
Mas penso em você
Mais que bela sendo você.
É de noite
O suave açoite
Existe,
E ele insiste
Na sua lembrança.
Doce dança
De imagens,
Doces memórias,
Vermelhas histórias.
E penso em você
Para ser
Enfim
Feliz.
Vejo que te inquietas,
Cara amiga,
Pela escolha tomada
Em uma encruzilhada.
Não viste as setas,
Cantando doce cantiga,
Olhaste apenas as estrelas
E não o chão.
O vento soprava suave,
Mas agora forte
Te fazes recuar.
Não culpe a sorte,
Altiva dama dos olhos vendados,
Não culpe o destino,
Ancião de alfarrábios empoeirados,
Tampouco culpe a ti,
Que buscava apenas encontrar
A tua nesga de céu.
Se tua escolha te aproxima de ti,
Ela é boa.
Se ao contrário, te sentes mais longe,
E tua vida se cobriu com um azulado véu,
Sorria:
Os deuses te deram um presente.
Lembre-se que os grifos e as sereias
Há muito
Nos deixaram
(ou deixamos-los nós).
Não há perigo.
Aceite
A beleza
Da vida
Que é
Aprender.
Contratos e caixas decerto
Um caminhão de mudança
O perto futuro incerto
A dúvida que a alma alcança.
Embalo sonhos,
Empacoto frustrações,
Guardo ilusões,
Encaixoto momentos risonhos
E tristes.
O olhar em riste
Vê um horizonte
De possibilidades.
Controlo o medo
E sigo cedo
Rumo ao atraente
Desconhecido.
Noite.
Longa.
Distante.
Venta.
O teu negrume
Impessoal.
O cheiro de estrume
Das vidas insípidas.
Chove.
E venta.
O teu infinito
Canto
Encanta
E inebria.
O pesado manto
Do pedido dito
Mas perdido no ar.
Troveja.
Chove.
E venta.
Me pedes muito
Te posso pouco:
Os ouvidos moucos
Me dão razão.
Me queres junto
Mas teu toque áspero
É o ponto final.
Eu sei, espero
O óleo abismal,
Quente,
Para lavar-me do frio
De estar junto a ti.
A alma escura
Pergunta,
Mas em um relampejo
A fina tessitura
Se esvai.
Eu sinto,
Eu sou.
No horizonte
Nasce o sol.
Trovejo.
Chovo.
E vento.
Ser poesia
É existir
E sentir
Que o Todo
Se afirma
E confirma
O grande rogo
Da alma
Que diz:
Sim,
Simplesmente sim.
O mundo se basta
Mas você não basta
Para a beleza que há.
O sonhado dia
Se aproxima.
Você desconfia
Mas enfim se entrega.
Então tão em cima
O pulo.
O vôo.
Liberdade.
Vejo minha cidade se aproximando
Pequena, em uma janela pequena,
Distante ainda, mas cada vez mais minha.
Minha amante, minha amada,
Meu paraíso, minha gaiola dourada,
Aquele berço dos meus sonhos,
E fico me perguntando
Se caberei no velho eu.
Itaca foi a razão e o propósito,
Ela me deu uma viagem única
Ela não pode me dar nada mais.
Não posso cobrá-la.
Meus olhos veem pessoas sorrisos abraços.
Minha alma não vê nada,
Seu voo está atrasado.
Quando tudo é simples, tudo é sim,
Tudo é o mais puro significado,
E a vida em sua beleza sem fim
Se mostra, nesse momento dado,
De um leve sentimento agridoce
O coração se apossa: guardá-lo,
De um lado, como se eterno fosse,
E de outro desfrutar o regalo.
Sabendo chegar o inclemente algoz,
A alma observa cada mínimo detalhe
E a toda leve impressão dá voz.
Então ele se esvai, como esperado.
Leva consigo um profundo entalhe,
Mas entrega um prazer azulado.
Escrever é pegar um pingo
De chuva
Com uma pinça
E eternizá-lo no papel.
É fotografar o vento,
Parar um rio em movimento,
E fazer do passado e do futuro
Tempo presente.
É ouvir o canto das musas,
Mergulhar com as ninfas,
E exercer a existência.
É saber calar e saber dar voz.
É mergulhar na profunda foz
De todos os medos e sentimentos.
De lá sair largo
E se estreitar
Para poder
Comunicar.
É criar o sonho de todos,
E sonhá-lo
Como se fosse
Só seu.
E cantando
E sorrindo
Viver como se sonha.
O mundo se mostra.
Eu abro os olhos
E vejo.
A vida demonstra
Ser trágica e bela.
O ser é tão leve
Que de leve se torna grave.
A gravidade é tão séria,
Que de grave se torna leve.
O existir é um privilégio,
O porvir é agora.
A hora presente,
Contém tudo.
Uma manhã ensolarada,
Uma praça, um jardim.
Eu existo
E sou feliz.
Poeta, sonhe por nós,
O mundo é mais doce com seu canto,
O mundo é mais mundo com sua voz.
Enquanto seus olhos veem encanto,
Apenas para baixo olham os nossos.
Lançamos pedras, mas não se incomode
São nossos medos e rogos,
De quem, como você, vive e sofre.
Por que trabalharia a formiga,
Sem a cigarra e sua beleza,
Sem tão suave cantiga?
Assim, em um momento certo,
Nós nos voltaremos à sua certeza,
Nós o leremos e ficaremos mais perto.
Aqueles acostumados ao conforto,
Chegam ao deserto e tem medo.
Não deixam o tentacular seguro porto,
Sempre é tarde, ou demasiado cedo.
Mas você que subiu as grandes montanhas
Viu que é passageiro todo deserto,
Viu no horizonte prodigiosas façanhas,
Viu mais longe e estava certo
Do seu caminho. Ítaca continuará
Em seu lugar, pacientemente aguardando,
Você sabe, e sua alma lhe diz, doce, vá!
Então colocando o pé na areia escaldante,
Um fresco frisson arrepia quando
Você diz sim, nunca mais como antes.
O mar sopra infinito:
Olha-lo é uma entrega.
Elixir para o coração aflito,
De tanta beleza se cega.
Seu cheiro sopra lembranças
Agradavelmente doces.
Suas ondas em suave dança,
Como se o beijo do amante fosse.
Seu verde azulado pequeno
Nos faz, seu toque suave
É de um brilho ameno.
Sinto a tua falta com todo meu ser.
Estar em ti é a chave
Para finalmente pertencer.
Olho a lua,
Olho o rio,
E vejo o reflexo
Do que eu nunca esqueci.
Olho-a nua,
Olho, confio,
E vejo-a perto,
Em semblante feliz.
O não não existe,
O futuro insiste
Em estar todo aqui.
E me volto às estrelas
E à rainha amarela
Em um sorriso que diz.
Em uma fresca tarde de setembro
Abri os olhos e pude ver.
Você, é claro, eu me lembro,
Junto a mim, sem se mover.
Todo o verde à minha frente,
Era um belo presente seu,
Todo o azul acima somente
Me deixava a certeza do eu
Não existir. Pássaros em revoada.
Passantes, um cigarro, um beijo.
O doce sabor de não ser nada,
E só contemplar. O vento ruidoso
Soprava, e em meu peito o doce desejo
De morrer embalado nesse gozo.
Observo o mundo e estou de acordo.
Vejo a beleza nos galhos balançando,
No uivar do vento e nas bicicletas passando,
No gosto desta água sem gosto,
Nos passantes caminhando sem rosto,
Nas badaladas que anunciam a chegada do meio dia,
Nos pássaros em revoada com a partida do verão,
E nesse buquê de flores indo para uma casa singela e cuidadosamente decorada.
Meu sorriso diz sim,
O mundo pergunta e eu concordo.
Meu olhar diz sim,
O mundo se mostra e eu recordo
Como é bom viver,
Como é belo ser.
Tocam os sinos, é uma hora.
Devo voltar.
A experiência é passageira no tempo,
Mas duradoura na alma.
Como agir
Quando todos se comportam?
Como sentir
Quando faltam aqueles que se importam?
Como aproveitar calado
O benefício de ver?
O que fazer
Quando o seu pensamento
Só encontra eco nos grandes
Mas eles estão grandiosamente distantes
E não mostram qualquer terno sentimento,
Apenas razão e aridez.
A sensatez não te basta
Apenas os outros afasta.
Queres conforto,
Mas escolheste o caminho torto,
O caminho de ver
E pensar e perceber.
Queres acolhimento,
Mas os olhos acostumados à escuridão
Vêem na luz negro intento.
A mesma luz que esclarece
Fenece nos olhos dos cegos de coração.
A ausência te marca,
Marca de quem vê.
É o teu modo de ser,
Modo que o infinito abarca.
E caminhando, te transformaste em buscador,
E caminhando, encontraste a dor,
E caminhando, mergulhaste no teu próprio torpor,
E caminhando, caminhaste.
Olho o mundo com os olhos do convalescente,
Que não pensa, que não sabe,
Apenas vê e sente,
E como dentro de si não cabe
Escreve para se alargar.
Não cabe a existência mesma do mar
E não apenas o não-mar.
Não cabem passantes andando despreocupados com seus passos despudoradamente tranquilos
E não apenas algo em direção a.
Não cabem veículos que se movimentam velozmente buscando recuperar o que já se perdeu,
Que simplesmente vão,
Repletos de olhares insistentes fixos em lugar nenhum,
Repletos de gente, de seres
Humanos.
Tão humanos quanto o humano gesto de um palavra de carinho,
Essa palavra que é sempre uma cópia original,
Um modo único dentre as possibilidades em potência,
Uma organização particular de ecos de vozes há muito esquecidas,
Que permitem o humano gesto
E o fim dessa poesia.
Jovem poeta cheio de sonhos,
Em sua mochila esperanças, ilusões e um caderno.
Levando consigo o amanhã,
Levando consigo o anseio do eterno
E a inocência da doce manhã.
Jovem poeta cheio de sonhos,
Seus cabelos ventam ventanias,
Suas palavras falam grandiloquência,
Seu olhar sobrevoa a cidade,
Seus dedos semeiam alegrias,
Suas verdades trazem insistências,
Sua pena traz liberdade.
Jovem poeta cheio de sonhos,
Seus pés preferem a virgem grama
Do que o asfáltico solo.
O caminho faz ele caminhando.
Interessa-lhe somente o impossível,
Pois o possível já se pode alcançar.
Jovem poeta cheio de sonhos,
Deixe queimar a vigorosa chama,
Aqueles embalados no colo
Das musas, resistem ao fogo cantando.
Alimente a pira com seu risonho combustível,
Mergulhe e renasça no fecundo mar.
Jovem poeta cheio de sonhos,
Seja mais alto e nos conte,
Seja mais belo e encontre
A rima certa e a expressão perfeita.
Seus braços abraçam o mundo
E neles quero descansar.
Tal qual girassol em um dia de sol,
Tal qual rosa em um pôr do sol,
Se é,
Plenamente
Existir se é,
Somente se é,
Apenas se é.
O sopro de um vento distante,
A luz de uma lua radiante,
A aurora que se mostra constante,
O mergulho no puro instante.
Existir se é,
Somente se é,
Apenas se é.
E lá no fundo está Ela,
Aquela de quem fugindo nos aproximamos,
Aquela contra quem sempre lutamos,
Aquela que tranquila, aguarda.
Seu sorriso plácido,
Nosso rosto de pavor.
Seu beijo ácido,
Nossa expressão de dor.
Seu amoroso gesto,
A esperança de não recebê-lo.
Sua presença indigesta,
Arrepiam espinha e cabelos.
E ela, tranquila, aguarda.
Quando chegará?
Hoje, amanhã?
Em 30 anos?
Que importa...
Uma semana, um ano, uma década,
São a mesma coisa,
Um sopro em face da eternidade.
Ela, tranquila, aguarda.
Belo corvo que me ronda
Não tenhas medo,
Sei que me sonda
A grande noite.
Não chegaste cedo,
Teu amargo açoite
É doce para quem viveu.
Venha, pouse aqui
Em meu ombro.
Já há muito te aguardo,
Já há muito sei que virias.
Quem Dela ri,
Quem Dela o tombo
Não teme,
Não treme com seu fardo,
E flutua em mar de agonias.
Estar perto dos Grandes
É nunca estar sozinho.
É sentir na angústia deles
O eco das suas angústias,
É perceber nas questões deles
As suas mesmas questões,
É encontrar em inóspita estepe,
Ainda que longe,
Alguém.
Mas estar perto dos Grandes
É afastar-se dos pequenos.
E quem aquecerá a gélida noite?
Quem afagará carinhosamente?
Quem aceitará e dará o perdão?
Não são os Grandes,
Esses com sua impessoalidade
Esfriam o coração frio,
Atormentam o ser atormentado,
Esticam a corda já tesa.
Instaurado o dilema,
A liberdade de escolha se impõe:
Qual rumo tomar?
Andar em qual direção?
Seja pequeno, seja Grande,
Seja quem tu és!
Nós, que escolhemos o lado dos Grandes,
Como solitários lobos caminhando,
Como sorridentes ermitões abandonados,
Subimos os grandes montes e vemos mais longe,
Vemos mais tristeza e mais beleza,
Vemos mais dores e mais amores,
E respondemos à Grande pergunta -
'Quem és tu?' -
Com a única coerente possibilidade:
'Eu sou'.
Ser é algo completo em si mesmo.
Após um cemitério de mortas folhas,
Um tapete da cor do poente -
Contra Ela não há escolha -
Chega o frio que a alma sente.
Congeladas lágrimas que não caem,
Graves gritos que não saem,
Austral horizonte que só traz
Sussurros e agonias.
Os dias se tornam escuros,
As noites são um longo infinito,
O açoite do vento deixa aflito.
Os frios olhares proximamente distantes,
A saudade de voltar a ser como antes.
Mas as nuas árvores renascem,
As fundas olheiras se esvaecem,
As cruas lembranças fenecem,
Face à profunda comunhão.
Eis que então surge com seu vigor,
Eis que se esvazia o peito da dor,
Eis que o negrume se curva a seu calor,
E vemos no puro riso da criança
A atendida esperança, chegou o verão.