quinta-feira, 10 de julho de 2014

Círculo

Eu tinha uma vida que se pode chamar de tranquila. Esposa, uma filha, um emprego bom, pelada com amigos no fim de semana, cerveja nas sextas e sábados. Tudo bem, tudo tranquilo. Mas estava insatisfeito. É difícil explicar de onde ou quando isso surgiu, teria que narrar toda a minha história até eu chegar aqui, uma vez que tudo que eu fiz e que aconteceu comigo de alguma forma me moldou e me fez quem eu sou hoje, mas enfim, o ponto é que eu estava insatisfeito. Era algo que vinha de dentro, forte, escuro.
Essa insatisfação foi crescendo a um ponto que eu não queria mais ir trabalhar, não queria mais sair com meus amigos, por mais que eu amasse a minha filha pequena, não queria dar atenção às suas reclamações incessantes, não queria mais me envolver com ninguém. Mas eu não podia parar minha vida para dar ouvidos a essa insatisfação. Foi então que veio morar comigo um outro eu. Igualzinho a mim, no andar, no penteado, no jeito de falar, tudinho. Ninguém reconheceria a diferença. Coloquei um colchão de ar ao lado da cama de casal que eu dormia com Helena, minha esposa, e ele fez-se em casa. De início foi um pouco desconfortável ter mais uma pessoa morando no pequeno apartamento alugado com tanto esforço, mas nada que não fosse possível se acostumar.
Gostava dele. Quando eu estava um pouco para baixo ele sempre vinha com algo engraçado, sabia como deixar o clima lá em casa mais leve. Jantávamos nós quatro e tudo ia bem, até que aquela insatisfação começou a crescer novamente. Difícil de explicar, mas voltou.
Foi então que um novo eu veio morar conosco. O apartamento que já estava ficando apertado, ficou ainda mais. Esse daí ficou no sofá, na sala mesmo. Mas a cada nova insatisfação surgia um novo eu, e a casa foi ficando inabitável.
Fizemos uma divisão. Um de nós ia trabalhar, outro cuidava da filha, outro dava atenção à Helena, outro era responsável por fazer compras, e assim por diante. Apenas desse modo foi possível gerenciar aquele time que não parava de crescer. Com o tempo, cada um foi ganhando traços característicos, era visível que nós íamos nos diferenciando: um mais sério, outro mais brincalhão, as expressões, o jeito de falar, tudo.
Para alimentar todas aquelas bocas, senti que precisava trabalhar cada vez mais. E assim fiz por bastante tempo. Chegava exausto. Dei meu sangue na empresa, ficava por lá 12, 14 horas seguidas às vezes. Trazia coisas para fazer em casa, trabalhava no final de semana.
Com o tempo, conseguimos nos mudar para um apartamento maior. Quatro quartos, uma salão de festas, um varandão. De dar inveja a qualquer um. Quando fiz uma festa para receber os amigos com os quais antigamente jogava pelada, todos ficaram com inveja. Comprei um carro maior para comportar toda aquela gente, aqueles esportivos bem grandes.
Estava indo tudo bem, se não fosse um detalhe. Era uma terça-feira quando isso aconteceu. Havia tido uma reunião muito difícil, negociação internacional, fuso horário diferente. Cheguei em casa um pouco depois da meia noite, estavam todos dormindo. Sentei em uma poltrona para respirar um pouco quando minha filha apareceu e me puxando pelo braço, me pediu: “Você pode chamar o papai? Eu não consigo dormir.” Achei estranhíssimo, minha filha não me reconheceu. Argumentei que era eu o papai, mas ela não aceitou. Acabou desistindo e foi dormir sozinha.
Aquilo ficou girando pela minha cabeça por algumas horas. Fui então me olhar no espelho para ver se tinha algo diferente e então não reconheci o homem do outro lado. Não sabia quem era ele, tinha traços diferentes aquele lá, uma expressão dura.
Quem era eu se eu não era ele?
Me lembrei que quase nunca me olhava no espelho, aqueles outros eus que moravam lá em casa sempre me foram suficientes, me via neles e estava tranquilo. A barba só fazia no barbeiro. Espelho era uma raridade... Mas desde quando?
Desde o surgimento daquele primeiro eu. Fora ele o início. Até lá estava tudo bem, não tinha do que reclamar. Mas foi só ele chegar que toda a dinâmica da minha vida mudou, que passei a trabalhar mais, que vieram os outros.
Então tomei uma decisão: iria matá-lo naquela noite mesmo.
Entrei em seu quarto sorrateiramente e o sufoquei com um travesseiro. Enquanto fazia isso senti uma dor profunda, mas sabia que era necessário. Ele se debateu mais do que eu esperava, mas consegui segurá-lo e terminar o que havia me proposto.
Saí do quarto mais leve. Fiz o que era preciso.
Dormi no sofá mesmo, um sono tranquilo. Sonhei que era criança ainda e que brincava com meus irmãos. Acordei já tarde, tomei um banho sem pressa. Ao me olhar no espelho novamente, percebi que alguma coisa naquele rosto me era familiar.
Quando fui visitar o quarto, vi que estava arrumado, alguém deveria tê-lo limpado enquanto eu dormia.
A sensação foi tão boa e prazerosa que algo me disse que não poderia parar. Foi então que um a um fui matando aqueles vários eus que moravam lá em casa. Inventava maneiras novas, facas, venenos, tudo o que pudesse imaginar.
Me olhava no espelho e já conseguia me reconhecer, via aquela marca de nascença, aquele sorriso de canto de boca que me era tão característico.
Sobrou só um, o que eu era mais ligado. Chamei-o então para darmos um passeio no parque e antes que ele percebesse qualquer coisa, empurrei-o da ponte.
Pronto. Estava terminado. Só morariam naquela casa eu, Helena e nossa filha. Ninguém mais.
Chegando em casa abracei Helena e estava feliz. Perguntei o que ela achava daquele apartamento e ela me disse que era muito grande para nós três, se sentia sozinha.
Voltamos então para o pequeno apartamento alugado. Eu troquei de emprego, não precisava trabalhar tanto para ajudar nas contas de só três pessoas. Vendi o carro, ali onde morávamos dava para usar o metrô. Voltei a jogar pelada, voltei a tomar cerveja nas sextas e sábados. A insatisfação não voltou.