Eu tinha uma vida que se pode
chamar de tranquila. Esposa, uma filha, um emprego bom, pelada com amigos no
fim de semana, cerveja nas sextas e sábados. Tudo bem, tudo tranquilo. Mas
estava insatisfeito. É difícil explicar de onde ou quando isso surgiu, teria
que narrar toda a minha história até eu chegar aqui, uma vez que tudo que eu
fiz e que aconteceu comigo de alguma forma me moldou e me fez quem eu sou hoje,
mas enfim, o ponto é que eu estava insatisfeito. Era algo que vinha de dentro,
forte, escuro.
Essa insatisfação foi crescendo
a um ponto que eu não queria mais ir trabalhar, não queria mais sair com meus
amigos, por mais que eu amasse a minha filha pequena, não queria dar atenção às
suas reclamações incessantes, não queria mais me envolver com ninguém. Mas eu
não podia parar minha vida para dar ouvidos a essa insatisfação. Foi então que
veio morar comigo um outro eu. Igualzinho a mim, no andar, no penteado, no
jeito de falar, tudinho. Ninguém reconheceria a diferença. Coloquei um colchão
de ar ao lado da cama de casal que eu dormia com Helena, minha esposa, e ele
fez-se em casa. De início foi um pouco desconfortável ter mais uma pessoa
morando no pequeno apartamento alugado com tanto esforço, mas nada que não
fosse possível se acostumar.
Gostava dele. Quando eu estava
um pouco para baixo ele sempre vinha com algo engraçado, sabia como deixar o
clima lá em casa mais leve. Jantávamos nós quatro e tudo ia bem, até que aquela
insatisfação começou a crescer novamente. Difícil de explicar, mas voltou.
Foi então que um novo eu veio
morar conosco. O apartamento que já estava ficando apertado, ficou ainda mais.
Esse daí ficou no sofá, na sala mesmo. Mas a cada nova insatisfação surgia um
novo eu, e a casa foi ficando inabitável.
Fizemos uma divisão. Um de nós
ia trabalhar, outro cuidava da filha, outro dava atenção à Helena, outro era
responsável por fazer compras, e assim por diante. Apenas desse modo foi
possível gerenciar aquele time que não parava de crescer. Com o tempo, cada um
foi ganhando traços característicos, era visível que nós íamos nos
diferenciando: um mais sério, outro mais brincalhão, as expressões, o jeito de
falar, tudo.
Para alimentar todas aquelas
bocas, senti que precisava trabalhar cada vez mais. E assim fiz por bastante
tempo. Chegava exausto. Dei meu sangue na empresa, ficava por lá 12, 14 horas
seguidas às vezes. Trazia coisas para fazer em casa, trabalhava no final de
semana.
Com o tempo, conseguimos nos
mudar para um apartamento maior. Quatro quartos, uma salão de festas, um
varandão. De dar inveja a qualquer um. Quando fiz uma festa para receber os
amigos com os quais antigamente jogava pelada, todos ficaram com inveja.
Comprei um carro maior para comportar toda aquela gente, aqueles esportivos bem
grandes.
Estava indo tudo bem, se não
fosse um detalhe. Era uma terça-feira quando isso aconteceu. Havia tido uma
reunião muito difícil, negociação internacional, fuso horário diferente.
Cheguei em casa um pouco depois da meia noite, estavam todos dormindo. Sentei em
uma poltrona para respirar um pouco quando minha filha apareceu e me puxando
pelo braço, me pediu: “Você pode chamar o papai? Eu não consigo dormir.” Achei
estranhíssimo, minha filha não me reconheceu. Argumentei que era eu o papai,
mas ela não aceitou. Acabou desistindo e foi dormir sozinha.
Aquilo ficou girando pela minha
cabeça por algumas horas. Fui então me olhar no espelho para ver se tinha algo
diferente e então não reconheci o homem do outro lado. Não sabia quem era ele,
tinha traços diferentes aquele lá, uma expressão dura.
Quem era eu se eu não era ele?
Me lembrei que quase nunca me
olhava no espelho, aqueles outros eus que moravam lá em casa sempre me foram
suficientes, me via neles e estava tranquilo. A barba só fazia no barbeiro.
Espelho era uma raridade... Mas desde quando?
Desde o surgimento daquele
primeiro eu. Fora ele o início. Até lá estava tudo bem, não tinha do que
reclamar. Mas foi só ele chegar que toda a dinâmica da minha vida mudou, que
passei a trabalhar mais, que vieram os outros.
Então tomei uma decisão: iria
matá-lo naquela noite mesmo.
Entrei em seu quarto
sorrateiramente e o sufoquei com um travesseiro. Enquanto fazia isso senti uma
dor profunda, mas sabia que era necessário. Ele se debateu mais do que eu
esperava, mas consegui segurá-lo e terminar o que havia me proposto.
Saí do quarto mais leve. Fiz o
que era preciso.
Dormi no sofá mesmo, um sono
tranquilo. Sonhei que era criança ainda e que brincava com meus irmãos. Acordei
já tarde, tomei um banho sem pressa. Ao me olhar no espelho novamente, percebi
que alguma coisa naquele rosto me era familiar.
Quando fui visitar o quarto, vi
que estava arrumado, alguém deveria tê-lo limpado enquanto eu dormia.
A sensação foi tão boa e
prazerosa que algo me disse que não poderia parar. Foi então que um a um fui
matando aqueles vários eus que moravam lá em casa. Inventava maneiras novas,
facas, venenos, tudo o que pudesse imaginar.
Me olhava no espelho e já
conseguia me reconhecer, via aquela marca de nascença, aquele sorriso de canto
de boca que me era tão característico.
Sobrou só um, o que eu era mais
ligado. Chamei-o então para darmos um passeio no parque e antes que ele
percebesse qualquer coisa, empurrei-o da ponte.
Pronto. Estava terminado. Só morariam
naquela casa eu, Helena e nossa filha. Ninguém mais.
Chegando em casa abracei Helena
e estava feliz. Perguntei o que ela achava daquele apartamento e ela me disse
que era muito grande para nós três, se sentia sozinha.
Voltamos então para o pequeno
apartamento alugado. Eu troquei de emprego, não precisava trabalhar tanto para
ajudar nas contas de só três pessoas. Vendi o carro, ali onde morávamos dava
para usar o metrô. Voltei a jogar pelada, voltei a tomar cerveja nas sextas e
sábados. A insatisfação não voltou.