domingo, 13 de julho de 2014

João Alguém

Aos meus professores
João queria ser alguém. Ele adorava escrever e pensava que aquele seria o seu modo de ser dono do seu destino. Experimentava formas diferentes, crônicas, poemas, contos. Já havia lido bastante quando começara o curso de letras, ao terminar o curso percebeu que não havia lido nada. São tantos nomes, tantas escolas, movimentos, gerações. A maior sabedoria que ganhara em seu curso foi a consciência da sua ignorância.
Pagava suas contas dando aulas particulares e revisando trabalhos acadêmicos. Isso sustentava seus parcos hábitos, apartamento pequeno, sem carro, poucas viagens, sem esposa nem filhos para criar. Às vezes gastava um pouco mais com uma edição especial de um livro que sabia que utilizaria muito, era seu pequeno prazer proibido. Fazia isso pelo menos uma vez por mês, pedia para embalar para presente. Ao chegar em casa, gostava de jantar olhando o pacote ainda fechado. Apenas terminando o jantar se permitia devorá-lo de sobremesa. De resto, frequentava a biblioteca pública que ficava nas redondezas, saía eventualmente com os amigos nos fins de semana, tinha uma vida pacata.
Conversava frequentemente com seu professor de literatura do colégio. Geraldo sempre cativou os seus alunos com seu jeito espontâneo e apaixonado, fora homenageado em incontáveis formaturas e cerimônias. Sempre com seu jeito bondoso, era impossível não se entregar àquele sorriso constante que era sua marca registrada.
Os dois haviam combinado de se encontrar quarta-feira, em um bar mais ou menos próximo da casa de ambos.
Para não perdermos nosso tempo, saltemos para a parte mais interessante do diálogo. Após colocarem as notícias em dia, eles conversavam sobre arte literatura:
- A arte é maior do que o homem, disse Geraldo. A arte é uma das poucas possibilidades que o homem tem de ser imortal. Por que até hoje lemos epopeias gregas, romanas, milhares de anos depois? Existe algo de fundamentalmente humano que nos conecta a eles e que podemos perceber através da arte.
- Mas e a filosofia?, perguntou João. Ela também não imortaliza o homem? O ser filósofo não permitiria essa ‘imortalidade’ sobre a qual você está falando?
- Tem autores que dizem que sim. Particularmente, eu diria que fazer filosofia pode te projetar à frente do seu tempo, mas que não te imortaliza. Nietzsche tinha consciência que escrevia muito mais para as próximas gerações do que para os seus contemporâneos. Mas será que ainda leremos seus textos daqui a alguns milhares de anos?
- Mas nós ainda não lemos a filosofia grega?
- Sim, ela é um dos fundamentos da nossa cultura ocidental. Existem momentos na história onde o pensamento humano deu um salto, e foram necessários vários séculos para compreender esse salto. Mas a filosofia, pela sua própria constituição, necessariamente deve ser ultrapassada. Conceitos revisados, visões modificadas. Isso acontece na arte com a sua forma, e não com ela em si.
- Não entendi esse pulo.
- No campo da teoria, sempre podemos dizer que alguns conceitos estão ultrapassados, que simplesmente não fazem mais sentido em razão do conhecimento atual que temos. A grande arte, por outro lado, nunca pode nem nunca será ultrapassada.
- O que seria essa grande arte?
- Bem, essa é uma longa discussão. Adorno coloca em sua Teoria Estética que existiria um sentido metafísico que permitiria às obras de arte dialogarem com os novos tempos. Existe uma figura que é quase um lugar comum em estudos literários: a literatura como palimpsesto. Um palimpsesto é um tipo de pergaminho ou papiro que foi reutilizado várias vezes. O texto original era apagado por alguma técnica, mas hoje em dia, com a tecnologia que temos, algumas vezes conseguimos ver os diversos textos que foram escritos naquele palimpsesto, e não apenas o último. A literatura como palimpsesto é uma metáfora dos diferentes níveis de leitura: seria possível uma leitura superficial, onde um determinado sentido fosse construído, além de leituras mais profundas, que permitiriam novas construções de sentido.
- Como eu poderia fazer uma literatura como palimpsesto?, perguntou João ansioso.
- Ah, essa é uma pergunta de um milhão de dólares. Primeiro, antes de pensar nisso, para pensar em fazer literatura você deve encontrar a sua voz, o que vibra dentro de você. Proust dizia que seu mundo interior era uma mina a qual ele era o único mineiro que tinha acesso. Você deve encontrar essa mina dentro de você, para então dar suas joias ao mundo.
- Eu estava pensando em escrever um conto, mas não sei muito bem o tema...
- Um conto é uma forma interessante, bastante livre. Deixe o tema vir, não o busque. Quando ele vier a você, aí comece a pensar em fazê-lo grande. Particularmente, acho que a arte carrega a sua imortalidade na multiplicidade de sentidos no qual ela é baseada. Por que até hoje ainda falamos de Capitu?
- Mas ela traiu Bentinho, não traiu?
- Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe, brincou o professor. A literatura não é um mundo de certezas e eu sou da opinião de que Machado escreveu esse livro de forma a intencionalmente criar a dúvida. Acho que ele evita tomar partido de um dos lados propositalmente. Utilizando a dúvida como motor da narrativa você multiplica os sentidos que se podem atribuir.
- Entendi. Mas como colocar a dúvida dentro de um conto?
- Bem, no caso de Dom Casmurro, Machado o escreveu como um diário de uma pessoa ciumenta, o que por princípio gera dúvida. Em um conto, as possibilidades são múltiplas. Existem dois gêneros dos quais eu gosto bastante: a metaficção e o fantástico.
- Fantástico é aquele do Todorov?
- Isso mesmo. Segundo esse teórico, o fantástico é um gênero fundado na dúvida. Por exemplo, quando em uma narrativa acontece algo de mágico, como uma cadeira voar. Se aceitamos que a cadeira voa, estamos no âmbito do maravilhoso, que está no mesmo nível dos contos de fadas. É um mundo que segue regras diferentes das nossas. Se, por outro lado, o texto nos dá uma explicação racional para aquele acontecimento estranho, estamos no âmbito do insólito. O fantástico é quando até o final ficamos com a dúvida: será que aconteceu ou será que não? Em qual dos âmbitos o texto se encontra?
- Então a solução é não dar explicações?
- Mais ou menos. É como caminhar sobre o fio de uma navalha sem cair para nenhum dos lados. As explicações podem ser utilizadas para gerar ainda mais dúvida. Ele utiliza como metáfora do fantástico o instante presente, essa parcela de tempo fugidia que está entre o passado e o futuro.
- Entendi. E o outro que você tinha falado?
- É a metaficção. A metaficção é um gênero baseado no uso da metalinguagem, não deixando o leitor esquecer-se de que o texto se trata de uma criação. Podemos utilizar como metáfora as escadas infinitas de Escher, que reforçam nossa ideia de que aquilo é uma pintura. Na metaficção, é possível criar uma sugestão de ruptura entre níveis diferentes – o personagem dialogando com um narrador de terceira pessoa, por exemplo, o que nos sugere indiretamente a possibilidade de ruptura da nossa realidade com algo que estaria atrás ou acima de nós. É um gênero um pouco difícil, mas muitíssimo interessante.
Eles continuaram conversando ainda por bastante tempo, sobre os mais variados temas. João já havia se aproximado de alguns daqueles conceitos durante a sua faculdade, mas ver alguém expô-los assim tão apaixonadamente e de forma tão clara, o deixou empolgado e com a cabeça a mil.
Ao chegar em casa, ele teve uma ideia. Escreveria sobre si, algo de sua história. Um conto rápido, utilizando a metaficção. Dois personagens conversando: um professor e um escritor. O escritor teria uma boa ideia para escrever um conto.