sábado, 29 de dezembro de 2018

morte

(com Luciana Cabral)

a visão da morte começa com a parte humana
a dor física
os pequenos avisos de dor da morte
até aquela raquetada de dor
sem sonhos
sem lembranças

o julgamento dos outros
foi porque estava com angústia
foi porque não comia
ou trabalhava muito
a morte é só um ciclo que se encerra
mas procuramos sempre um motivo
que só sabe quem morreu

a imagem de todos em volta do caixão
na trombose cerebral

a discussão sobre o erro médico da terceira trombose cerebral

muita demência e desejo não realizado no CTI
a vontade de vingança por um passado não esquecido

o italiano gritando
quero queijo de cabra com coca cola
a noite inteira

a morte não pede licença
não negocia

a sua volta é fóbica
até o reencontro do ciclo da vida
e a perspectiva do tempo do dia

qual é o meu tempo não vendido?

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

guerra

é preciso sentir as marés
viver maré
ser maré
respirar maré
é preciso sentir a circularidade do tempo
e não sua espiral
é preciso tirar o peso dos ombros
de vez em quando
observar a paisagem
dormir com o barulho salgado na carne
é preciso deixar o sangue escorrer
fazer uma sangria
limpar-se
é preciso amar a coisa mais pérfida
insubstituível e vil
é preciso tomar um banho no escuro
nu com a noite
é preciso descansar
quando a guerra é longa

sábado, 22 de dezembro de 2018

útero

o útero criativo
é quente
lhes asseguro
talvez esteja ao alcance da subida do morro
ali ao lado da glória
onde se toca uma música
com ecos de infinito
desapegados do tempo
aqui acontece o dia e a noite
mas de outra forma
aqui é a força do mundo
o primeiro grito de ar nos pulmões
aqui as coisas acontecem em relógios de dali
aqui se entra na estrofe
aqui não há mais a busca
aqui espera-se que a noite nunca acabe
aqui se sonha mais forte
aqui se busca um pouco mais
aqui não há mais borda
aqui se suspende
e voa

aqui

aqui em santa
teresa
é como um parque de diversões
maravilhoso
acessível acima do morro
um suor pegajoso e bom
naquela noite de verão
ainda horizonte

aqui em santa
teresa
é puro id
são luzes de natal piscando
na bateria
é uma noite pegajosa
borbulhando

aqui é santa
teresa
é um convite
uma pausa
uma versura
que bom ainda possível
que bom ainda podemos
dela desfrutar
que bom dela ainda amar
a onda de Santa
comunitária
empática
multicelular

ouro verde

na beira do Tejo
as comidas cheiram a azeitona líquida
encorpada
os campos as roupas as mãos
cheiram a lagar
e eu ávido
regalado de memórias
trouxe comigo uma garrafa de sonhos
calmos, quentes, vaporosos
para tê-los em minha boca

fotopoema1

é uma árvore
antiga
de tronco firme
que deu sombra há muitos
anos
banhada pelo sol
com dois três dez tons
de verde
às vezes um pouquinho amarelos
disponível ao abraço mãe
vinda do útero da vida
com braços copados

de quantas vidas foi parte?
de quantos dias e noites foi parte?

é uma árvore
antiga
de tronco firme
que muito já viu
e ainda verá muito depois do nosso amanhã

conexão

(para Eduardo Losso)

a busca de um segundo
que desamargue os dias
que desafogue o sufoco
da rotina estafante

a busca de um minuto qualquer
de paz e comunhão
silenciosamente musical

a busca da força do tronco
da árvore verde
vivíssima

a busca de espaço
por dentro do corpo
sem paredes

a tentativa de adiar um pouquinho
essa morte, que há de chegar
mas ainda não

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

idílio

(com Laís Cavalcante)

chegando de cabo frio
em 2014
em niterói
querendo ser
universitária
mas ainda
na dúvida
encontrando pessoas
na rua
meu avô torturado
na ditadura
comecei a estudar em um pré
vestibular
conservador
um tempo gasto
até um professor de geografia
flertando
querendo aprender
me interessando
em um lugar de aprendiz

em um restaurante barato
em Icaraí
com uma blusa do clube da luta
sentei ao lado de um cara
que puxou assunto comigo
a conexão esperada
não naquele dia
mas no dia seguinte

ele, descolado
e eu, nem iniciado
a graduação
sem conhecer ninguém
mas cheguei na casa dele
ele de saia
cozinhando para mim
até que sua saia sujou
a gente fumando
ele tocando no violão
green eyes
ele sabendo sobre todos
os assuntos do mundo
de mãos dadas
na praia de Icaraí
até que na volta
eu travando
com muita roupa

a mãe dele chegou
eu não sei
porquê
fiquei com medo

ele indo para a Espanha
eu com medo sobre o que falar
ele dormiu no filme
ele com chocolate em casa
ele safado
eu gostando

a gente na casa dele
com ele a estranheza
daquele corpo novo
até um tapa na bunda
quando com meus olhos arregalados
ele gozou

após quinze dias de sua ida
ele me contou sobre a sua viagem
e eu falando dele
todo dia
fui me apaixonando
as fotos trocadas
eu mandando músicas cantadas em áudio
ele poemas e fotos
ele deleuziano
eu ainda não conhecia

ele na terça
no balão de capadócia
no café alguém especial
era eu

quando ele voltou
eu aflita
a gente se beijou
a gente namorou
até a sua traição
aparentemente desconstruída
ele com liberdade
enquanto eu não

foi todo o ano de 2016
após tantas inseguranças
eu terminei
bêbada e tão mal

acho todo dia em que eu me masturbo
eu penso nele
ele tão único
eu ainda não superei

eu nos seus olhos
um ser quase mítica
ele me mostrando o mundo

mas também não sei
vou pegar
um cigarro

domingo, 16 de dezembro de 2018

verde

(para Diego Pansani)

poesia é um modo de se olhar para o mundo
as árvores intervalo de verde
e sol em um domingo à tarde

girassol

quantas cores tem o girassol de van gogh?
quantos perfumes traz a primavera
a florir despretensiosa?

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

amor de irmão

(com Thaís Mandarino)

eu adoro ter irmão
por mesmo que não seja de sangue
irmão se torna irmandade
o encontro de almas
conhecida há tempos
muito bonita

porque ele compartilha a tua vida contigo
mesmo as mais vergonhosas
as mais impiedosas
você conta

o amor de irmão
muito profundo
marcado de dentro na pele
eu tenho grandes amigos, mas como

dar a vida como se fosse a tua

domingo, 9 de dezembro de 2018

nosso país

vivemos em um país objeto histórico
do palhaço político
onde o bordão é pior que tá, não fica

vivemos em um país de escândalos de twitter
de juízes políticos
onde o argumento supera o fato

vivemos em um país de escândalos diários
cada dia mais impossíveis
onde esqueceu-se completamente do real

vivemos em um país inverossímil
cada dia mais inacreditável
onde esqueceu-se do simples lembrar

vivemos em um país famélico
de pão e de teto
onde é amarelo o verde-azul

vivemos em um país a latifundiar
qualquer esperança
nesse canto por deus esquecido

vivemos em um país passado
tornado presente
nessa terra formada de sangue e húmus

vivemos um pesadelo sem fim
uma vontade de acordar
desesperadora

vivemos em um pais só fígado
nas fontes pútridas
espalhadas pelas praças

vivemos em um país bad trip
do não pode ser
verdade, isso

vivemos em um país necessidade de dormir
e desligar-se e ao menos amar
e tentar dançar em meio ao caos

vivemos em um país em brasas
ardentes no estômago
vazio talvez para sempre

domingo, 2 de dezembro de 2018

sete

hoje me cuidei
dormi o sono atrasado
tomei meu café
da manhã mais calmo
olhei de xícara na mão
os passantes na rua

hoje acordei
tarde, espreguiçado
o sol mais alto
a barba de baba da noite
o vento do início do verão

hoje fiz amor
sorridente, dei amor
recebi
tirei o atraso de mim
respirei

hoje Internet
não teve salvo por motivo
prático, não teve
ruído, poucas pessoas
na tarde justa

hoje cuidei do meu corpo
tomei meus remédios
todos, na hora certa
comi, bem, saudável
bebi uma água de coco

hoje depois
do almoço a sesta, satisfeito
nu, com o toque do lençol
e da pele quente que me sorria
ao meu lado na cama

hoje lavei louça
ajudei na comida
fui no mercado
caminhei por Copacabana
despudoradamente tranquilo

hoje deixei de lutar
só por hoje
uma pausa, deixei o fim
do mundo depois das flores
penduradas na janela

hoje fiquei feliz
hoje comecei um livro
hoje abaixei a guarda
hoje fiz um poema
hoje pude descansar

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Dark Side

tomo uma cerveja no Osbar
mais uma vez
hoje a trilha sonora é Dark
Side, olho para cima
são linhas paralelas
quase se encontrando no céu
azul quase sem nuvens

tomo uma cerveja no Osbar
outra vez
começou a tocar Money
e me pergunto por que
seria tão importante esse papel
impresso que só compra angústia
ou desilusão

é, aqui no Osbar, tem cerveja
tem uma alegria invisível
ou quase
tem o ponto de fuga
da altura infinita
e acima esta fileira de casulos
quase todos já apagados
quase todos com um tubinho asceptico

mesmo no centro do Rio
de Janeiro, megalópole maníaca
ainda resta alguma pausa
ainda que de roupa social
que ainda despretensiosa
faça algum sentido

o sax e o piano do Us
and Them, acompanham o vento
do final de tarde
enquanto no gramado algumas folhas
novas balançam, enquanto o pedinte de bermuda azul e cachaça na mão
entra nesse poema por ouvir a música
que vocês também
ainda que silenciosamente
estão ouvindo

passam grupos saindo do trabalho
mulheres de salto
poc poc poc poc
homens de calça e camisa e orgulho
vazio, ruidosos homens
ao lado táxis esperam
esperançosamente qualquer um que queira ir para qualquer lugar
mas de mãos dadas às suas
prefiro não

tem alguém na minha cabeça
mas não sou eu
the lunatic is in my head
the lunatic is in my head
ouve seus risos?
venha comigo
ao lado escuro da lua

sábado, 24 de novembro de 2018

dúvida

por que ainda fazer poemas
por que ainda dizer
por que ainda falar alguma
coisa, não deixar-se
calar, por que ainda escrever
qualquer linha que seja
um rasgo no espaço em branco
da página, por que ainda lutar
por que tentar agir
por quem ainda não tem absolutamente
nada, por que ainda
acordar e ficar de pé
levantar-se e caminhar
dar e receber um abraço
um beijo, um toque
por que não simplesmente desistir
entregar-se ao nada
vazio e calmo
por que correr
e não andar devagarinho
passo
antepasso
por que não tentar
observar
a beleza firme da noite
ferina
obscura
e lâmina
e deixar
de perguntar?

domingo, 11 de novembro de 2018

Casamento

na casa da praia
no domingo de sol
à tarde e vento
tudo é possível

na casa do horizonte esmeralda e barulho de mar
o céu se abre
na passagem das nuvens e ondas
nos lírios gigantes

de ontem, era casamento
um pouco de amor nesses dias cinzas
um pouco de alegria desurbanizada
um pouco da mari e do cássio

a voz e violão
a ressaca da festa de ontem
a lembrança de uma noite feliz

estamos juntos
ombro a ombro
sonhando
um novo mundo

sábado, 27 de outubro de 2018

Ho'oponopono

(com Thiago Rodrigues)

meu antigo relacionamento
nove anos com a ex
e um término traumático
nós quase vizinhos, com amigos
em comum, ela começou a sair
com uma pessoa próxima

a mãe dele, me dizia
Thiago, eu te entendo, se eu fosse
você, eu daria
um soco nele

foram três dias
de um período morte
consumido por uma energia negativa muito forte
eu cheio de ódio saí para correr

na volta, um amigo mandou
ho'oponopono

a ruptura abrupta
de certa forma inexplicável
do ódio à leveza
ho'oponopono

entoando esse mantraum estalo no corpo
uma quebra
ho'oponopono

domingo terminamos,
quarta a notícia do outro
sexta o mantra

após o ódio
um choro de felicidade
um riso
uma ligação para a minha ex
pedindo perdão pelos pensamentos

podem nos fazer mal
mas importa é como recebemos

como reagir ao outro?

então comecei a entender o não
julgar o não
criticar

um mês depois conheci minha esposa
atual, em um samba, a chamei Ana
Luisa, para dançar, e nunca mais
nos desgrudamos

uma sucessão de coisas maravilhosas
tem acontecido desde então
momentos maravilhosos
de energias boas
um ano juntos

meus sogros músicos, pessoas do bem

mesmo que um dia terminemos
nesse curto período de tempo em que estamos juntos
ela tem me ajudado a crescer como pessoa
como ser humano
e eu vejo o carinho que meu filho tem por ela

eu encontrei uma joia
uma água pura no deserto
o carinho, o amor e tudo que ela traz
de bom, um êxtase, uma efervescência
uma sensação de pura
felicidade

Coragem

(com P.R.)

minha mãe advogada
com um sócio
que começou a sabotá-la
assim que começaram a ganhar dinheiro

na briga
na divisão de processos
a princípio
era assim:
par de um lado
ímpar de outro
mas na calada da noite
ele desviava alguns para ele

ela o desmascarou
ameaçou abrir com barra de ferro o escritório
toda vez que ele fechasse

uma vez
minha mãe toda vestida de branco
roupa, blazer, sapato
cabelo com gel, com joia
em seu maior grau de vaidade

ela me disse:
hoje eu vou de branco
pois hoje quem vai me defender é Oxalá

nesse dia foi um matador de aluguel
no escritório
dois tiros
um na bochecha
e outro na escápula
mas apenas no músculo

minha irmã
que estava no cômodo
ao ver o sangue no blazer branco
gritou: ela morreu

ela abriu os olhos
e disse: não morri

minha mãe cheia de sangue
disse para o motorista da ambulância
passar em frente ao fórum

chegando lá, gritou:
A., eu vou te botar na cadeia!

ele foi preso
o irmão ficou foragido
e morreu

hoje minha mãe continua com o escritório

às vezes é meio loucura
ser corajoso
mas não podemos nos acovardar
em prol da verdade
e daquilo em que acreditamos

Primeira Vez

(com Paulo Sérgio)

eu sou de uma cidade pequena
lá do interior de São Paulo
no jardim perto de casa
na sombra da figueira
com onze anos
eu e um amigo
cujo tio trazia uns catecismos
ficávamos sentado na árvore
lendo aquelas revistinhas desenhadas
do Carlos Zéfiro

com onze anos
nunca tinha me masturbado
mas fiquei com aquele negócio na cabeça
aquilo ativava a imaginação
e fui tomar banho

pela primeira vez:
ejaculei
aquele negócio branco
pensei:
pequei!
pequei!

o mundo acabou para mim
fui para o inferno

saí do banheiro com cara de choro
e fui falar com meu pai

- pai, pequei
- pecou moleque?
- fui no banheiro
saiu um negócio branco
dentro de mim
- aaaah, para com isso
só vai com cuidado

no dia seguinte
começou a vida

Um Mexicano

(com Marine Gicqueau)

no México, em uma festa
chique
e esse banqueiro mexicano me disse
que queria mudar para os Estados
Unidos
e queria subir de nível

mas eu questionei
perguntei
por que você não quer
ficar no seu país
duvidando
dessa fascinação pelos Estados
Unidos

e ele me disse
para subir
ter um trabalho importante
é diferente da França
posso enfrentar
problemas de corrupção
chantagem
problemas com narcotraficantes

desde então percebi a minha sorte
que não enfrento os mesmos problemas
dos outros
e que existem razões imperceptíveis
à primeira vista
e que devo ouvir mais
sem julgamentos

domingo, 21 de outubro de 2018

a água implícita

(com Natasha)

o que eu mais desejo
o que eu mais tenho
vontade, é aprender a amar

ainda sinto
tanto medo
mas tanto medo
que não deixo
e não consigo
saber
sentir
perceber
qualquer coisa, como é o amor

eu não sei o que é amar

são quase 30 anos buscando
amor
amor
amor
amor

mas quando tu tem a troca
algo acontece com você

e às vezes eu fico pensando
que isso não é para mim

quero saber sentir o que eu sinto

viver com medo é viver sozinha

apenas um ano e meio
convivendo
compartilhando
intimidade

a busca
por mim ainda
não encontrada
é de alguém que me encontre em mim

pois isso é tudo o que eu desejo

só o que eu queria é o cotidiano
compartilhar com alguém
o cotidiano, compartilhar
o todo a vivência o amor

essa solidão absurda
que te deixa paralisada
em face do medo da resistência
da rejeição

tenho um desejo de estar com alguém
um desejo que me move
mas eu mesma me digo
- eu mesma minha inimiga número um -
que não mereço

um sentimento de atraso
uma demora para viver
uma corporidade tardia

apenas uma paixão na vida
com 25 anos
um não namorado incompreendido
da paixão que eu lhe dava

quando tu é mulher
tu não tem desejo tu não pode isso
e então vivi uma demora
para poder desejar

mas agora eu quero pele
eu quero pantufa
eu quero a história da tua vó
eu quero as tuas fotos de família
eu quero o teu dente quebrado na 6a série
eu quero amar
para não existir apenas
mas viver

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

a sinédoque gente

(com Álvaro Braga)

quando você se acha vivo
mas asombra o outro
algo que está morta
está muito mais viva hoje
como algo na história
ou outros tão escuros de luz
tornaram-se
pedra
o rinoceronte brutal
impermeável
de convivência mínima
quando você cospe no próprio coração da sala
um acovardar-se
para enfrentar o oceano
o resseio de se afogar
e de viver pela simplificação
um não amadurecimento talvez
de despossuir
ficar nu
de um mínimo preconceito
de nunca experimentar uma minimamente nova possibilidade
um bombom mínimo
deixado ao lado
um enxergar um pouco além do mínimo
a simplificação extrema dos modos de vida
um não viver nunca uma rota de fuga
que se esquece
do versículo

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Maria vai?


(com Álvaro Braga)

essa viagem foi maneira para caralho
fudemos nossa coluna
mas vivendo mais intensamente com outra pessoa
criamos um vínculo com essa pessoinha
que talvez seja indissolúvel para sempre
aquelas coisas que vão ficar muito marcadas a ferro e fogo

a viagem foi linda pela possibilidade de estranhamento
ser um alienígena de nós mesmos
forçar alguma coisa que possa ser boa
após a barreira inicial
ser intenso no usufruir
ao brincar no parquinho
no videogame
no mergulho naquele momento
absoluto intenso com a pessoa o lugar
a potencialidade máxima do ser vivo
conectando-se com todas as dimensões

mas voltamos e somos macacos sem psicanalista
que necessitamos
de forma
ur
   gen
          te
                canalizar a nossa pouca sapiência
                                                                          para aprender a viver junto

o limiar que separa
as crianças
                   dos adultos
os covardes
                    e os fortes
aqueles que optamos pelo caminho mais difícil
                                                                             já que há um caminho que precisa ser trilhado

se tivesse
                 pensamento crítico
                                                 será que Maria
                                                                            iria com as outras?

Disco Voador

(com M.F.)

os dias de hoje estão
imersos em uma avalanche
rinocerôntica
e a pergunta
que vale um
milhão de dólares
como não alimentar
os rinocerontes?
como não deixá-los proliferar?

essa falta incorrigível
de formação ética
limita qualquer possibilidade
de qualquer problema econômico

esse pêndulo
até que talvez paremos de rodar essa Terra
e repensar os nortes
porque senão
além do fundo do poço
um pântano pegajoso incaminhável irrespirável enxofre um peso nos braços um barro no seu olho
mas aberta a possibilidade
incansável de novos modos de vida
que possam fazer uma quebra
no mundo
para transformá-lo
verdadeiramente
em um paraíso
essa sorte tão grande de uma posição nem tão
perto nem tão
longe do sol
de estar nessa sorte incrível sem perceber
de um bilhete de loteria
premiado
dentro da gaveta
- esquecemos que jogamos -
uma sorte cósmica incrível

(com C.L.)

a sorte
é a possibilidade
de após fazer tantas merdas
e ainda se dar bem
e ser feliz
e sair bem na fita
não ser prejudicado
por fazer tudo o que é contrário ao normal

na minha adolescência
uma amiga porra-loca total
adolescente em Carangola de Minas
família tradicional brasileira
ela saía descompromissada
e os pais não descobriam
e eu não acreditava
e eu inveja
sem poder sair daquele mundo
Carangola de 30 mil habitantes
aquela cidade onde hoje
passeata pró
Bolsonaro
meu pai
por ignorância
mas meu irmão
por mau caratismo
que só agora
eu vi acontecer
de forma tão latente
na minha adolescência
uma menina rebelde
que já questionava
tudo
sem com quem extravazar
até chegar no Rio com 18 anos

então na FND
me descobri
como pessoa, toda a realidade
do mundo, toda a política
e me formei no bar
nas conversas
os amigos até hoje
há outros 18 anos

uma metade tentando se libertar sem conseguir
a cidade inteira vendo novela às 21:00
contestadora de não poder sair por ser mulher
e a outra metade
perseguindo um mínimo de justiça social
igualdade, fraternidade
não a liberdade americana
mas uma liberdade social
à educação cultura saúde
não aguentar ver nenhuma criança em estado de pobreza
quem sabe evoluí
mas espero ser melhor amanhã
para ser um pouco mais feliz
pela felicidade do outro

Tiagão Punk

(com F.)

em Sorocaba
você andava à tarde
e encontrava umas pessoas
meio doidas na rua

e era uma vez o Tiagão
qual Tiagão?
o Tiagão Punk


ele não tinha família
saiu de casa cedo
por ser punk
e andava muito doidão
com algum disturbío

ele andava meio indignte
sempre se virando na vida
enorme gordão careca
sempre em todos os shows de punk

durante o dia você esbarrava
em qualquer rua do centro de Sorocaba
naquelas oito ruas por oito
o Tiagão Punkum quase vereador

ele andava com uma ratazana de laboratório
branca amarrada em uma coleira
dada por um amigo

de repente um tio dele morreu
deixou uma grana de herença
ele comprou um parque de diversões
ao lado do Shopping Sorocaba

ele, mestre de cerimônias do parque
liberava a catraca para meninos de rua
e gente mais pobre

mas as lojas
tinham contratos antigos
e não gostavam
e tinham prejuízo
com os novos frequentadores

um dia
assassinaram ele
dentro do parque
e tudo levou a crer
que foram os donos
das lojas

desde então
uma profusão de discos punk

em homenagem a ele

em 2017 reuniram a galera que conhecia ele
vários punks velhos se encontraram lá
e todos ficaram lembrando deles
e fizeram uma playlist de músicas
e choraram juntos
em homenagem ao Tiagão

um catálogo de contos surreais
as mil e uma noites
do herói anônimo
de Tiagão Punk

Bom senso

(com Paula)

ontem
após a conferência com os Seus Putos
que denunciam as práticas genocidas no Rio
de Janeiro, as meninas perguntaram para o público:
quando vocês se sentiram trouxa?

por exemplo:
eu me sinto trouxa
quando eu entro no ônibus e ele custa R$ 3,85
e me faltam dez centavos

voltando para casa eu lembrei de quando meu cachorro
teve um problema para o estômago
no fim de semana logo antes da minha prova para entrar no mestrado

era muito forçoso dar água dar comida
alimentada apenas no soro pelo veterinário

meu cachorro não queria se separar de mim
meu pai aceitou levá-la ao veterinário:
não se preocupa, vou resolver isso
a prova
é importante para você

mas não o fez
ele se enrolou para levar o cachorro doenteao ir no mercado e ver promoção de cerveja

eu me senti muito trouxa
de ter dado essa confiança

após a conversa franca, apesar da falta
de bom senso ele passou
a ter mais responsabiliade
uma semana depois
apesar do soro e da promoção de cerveja
ela se recuperou

Judô

(com E.I.C.)

quando eu tinha uns 4
ou 5 anos, minha mãe queria
menina balé
menino judô

meu irmão, dois anos mais velho
foi seguir o seu destino
e fazer judô
em uma turma só de meninos
eles correndo no tatame
descalsos
algo muito tão mais livre  leve
que a minha aulinha de balé

após muito bater o pé
na Rua Emmanuel Kant
onde morava
comecei a frequentar o Lar de Meninos Bom Caminho
onde eu e meu irmão íamos para a aula
de judô

o sensei Neuri
ficou encantado
e começou a trazer as filhas
desestabilizando o gênero dominante

eu virei a mascote daquela turma
uma criança muito fofa de franja grande bota ortopédica bochecha grande e sorriso trincado

as pessoas se definem
nome idade endereço profissão
elementos teoricamente dominantes do sujeito

quando olho para a minha trajetória
eu penso: sou judoca
apesar de uma tendinite patelar
que repete a dor
ite ite ite ite
como algo marcado no meu corpo

nós somos muitas coisas
mas o que eu mais gosto de dizer sobre mim
mesma, é que sou faixa preta de judô
um orgulho de me sentir desbravadora
um corpo estranho, forasteira
para algo que sempre deveria ser
normal em nossa sociedade
patriarcal

domingo, 16 de setembro de 2018

o primeiro

(com J.)

eu me mudei para o Rio
por causa de um cara
o meu primeiro,
que eu conheci no Sul

eu tinha pavor de ficar com alguém
mas o escolhi pois tinha certeza de que nunca mais iria vê-lo
mas ele anotou o meu contato
e começou a vir para Santos

ele na porta
e eu falava para minha mãe
dizer que eu não estava

mas eu me apaixonei
e vim para o Rio
de surpresa
sem explicar

- onde você está morando?
- na General Artigas
- é a minha rua

da rua eu o via da janela
mas não deu certo
ele namorando
quis me ver
mas eu me afastei

ano passado ele me procurou em São Paulo

- vamos jantar
- vamos

ele se separou
mas não rolou
nada, me afastei
não dei
atenção, e eu
apaixonada até hoje

eu, penso hoje, como fui
boba, ingênua
ao menos do lado do telefone
ainda vou dizer
eu te amo

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Pedro II

(com Rafael Arruda)

foi lá que eu aprendi
a diversidade
cultural
de renda social de etnia
de realidade

foi lá que eu aprendi
a importância do acesso à educação
às cotas
que apesar de tudo não compensam todas as desigualdades

foi lá que eu aprendi
que tempo histórico não é igual
a tempo cronológico
que tudo que eu aprendi
um dia por mim será esquecido
mas se eu aprender a pensar
que bom

foi lá que eu aprendi
que a nossa sociedade é marcada por uma dicotomia
entre um poder ser
um poder ter
e um nada
uma desesperança
minimamente melhorada
em sala de aula

foi lá que eu aprendi
a cantar a tabuada
a pular pelo telhado do colégio em busca da libertação
a fazer a fantástica guerra d'água
tomando conta do colégio inteiro
com balões d'água, garrafinhas e copos
a planejar qualquer coisa ainda mais fantástica
não por infelicidade ou revolta
mas pela mais pura alegria
por contar as horas por encontrar os amigos
para finalmente viver um momento onde tudo era possível

foi lá que eu aprendi
a ler, mais de uma vez
a entender a multiplicidade de cada palavra
de cada número, conceito, forma, som e cor
a ser eu, me pensar no mundo

foi lá que eu aprendi
o respeito ao próximo
a visão não isolada sobre si
o contato
a tentar ser apenas um pouquinho
melhor
a ver a diferença que nos marca e que nos define
andando lado a lado com o que nos une

foi lá que eu aprendi
a desaprender o preconceito que nos marca
a cada dia nesse mundo injusto
e a importância do próprio desaprender
para sempre

sábado, 25 de agosto de 2018

Melbourne

(com N.)

eu tinha quatroze anos
e você tinha quinze
a gente virou amigo e depois começamos a namorar
isso durou cinco anos
depois cinco anos separados
nos encontramos na rua
voltamos
mais cinco anos
eu tive que ir embora
do Brasil
você não foi

o nosso primeiro fim
não estava dando
certo, um término mais
normal
traição, desconfiança

eu estava em um carro
ajudando um amigo na mudança
conversando
ao lado do Copacabana Palace
mas alguma coisa real me fez olhar para a direita
e eu vi uma pessoa andando sozinha
às duas horas da manhã andando sozinha
cantando
gesticulando com os braços
e nesse momento passou um ônibus
e eu gritei o seu nome
e você olhou para o céu
e eu gritei o seu nome de novo
e você entrou no meu carro
na nossa primeira conversa depois de cinco anos separados
e voltamos

o nosso segundo fim,
eu em Melbourne e você aqui
um fim distante, frio
estranho


hoje você achou um novo amor
mas ainda penso em você todos os dias
e virei um fantasma
um fantasma do amor

meu coração acelera quando falo disso
sinto uma certa angústia no peito
depois de dezesseis anos
você ainda foi meu único amor

eu não tive um encerramento
você teve
e seguiu com a sua vida

das suas risadas, da sua alegria
do seu sorriso eu me lembro
a maior parte da minha vida eu passei vivendo esse namoro com você
uma história que não foi para frente

pelo menos eu sei o que é amor
enquanto muita gente não sabe
pelo menos eu sei o que é a perda
ainda que em vida
pelo menos eu sei o que é o conforto
com alguém, o que é ter frio
na barriga ao ver alguém

eu queria poder operar o meu cérebro e tirar a sua memória
eu penso todos os dias com uma espécie de culpa
alguma coisa mal resolvida
a forma do fim
à distância
a gente não conseguia se separar
mas só lá em Melbourne
com um oceano de distância
foi possível

eu sonho com um dia sem pensar em você
e então eu vou estar realmente livre
pensar em outras coisas, em projetos, em ideias
e você não estar entre eles
e isso já tem três anos
os mais difíceis da minha vida
que me fizeram tentar entender melhor quem eu sou
me fizeram me aproximar mais do amor eterno
de pessoas, de amigos

mesmo se você quisesse voltar
eu também estou em outra
penso em focar em mim
e tentar realizar meus sonhos sem você
mas ainda com um pé atrás
em relação a qualquer namoro
e sem uma mínima
leveza, sem um sentido a mais ao lado de alguém
não vou me envolver
de novo

eu desejo que a sua alegria continue
e que essa nova pessoa em sua vida te dê
segurança
e amor

Peque

(com Luis Pedríquez)

o nome dela é Peque
ela tem 5 anos
nós trouxemos ela desde Venezuela

a princípio eu não tinha muita vontade de ter um cachorro
- tudo bem, eles são fofos, tem uma nobleza -
eu não ficava muito bom com a ideia de ter um cachorro
mas a minha esposa sí

onde minha esposa trabalhava lá na Venezuela
chegaram duas cachorras grávidas
e elas tiveram doze cachorros
e nós cuidamos delas
uma se despreocupou dos filhotes
mas a outra ficou

levamos no veterinário
recebemos ajuda de uma ONG que trabalha pela defesa dos animais
demos vacinas, remédios

quase todos os cachorros foram dados para a adoção
mas a Peque sempre ficava escondida
era mais tímida
e a Isis gostava dela

levamos a Peque para a praia
e com o tempo fiquei apaixonado pela Peque
ela ficou muito agradecida
comecei a amá-la como uma filha
a única coisa que ela falta por fazer é falar

agora comecei a falar com ela em português
e ela entende

um cachorro sempre pensa em dar amor
ele não conhece infidelidade
ele não conhece preconceito
ele ama uma pessoa sem se importar com sua posição
política, econômica, social
e já está demonstrado que eles tem tanto amor ao seu
pai humano que a si mesmos
então eu fico comovido
porque se todas as pessoas fossem iguais aos cachorros
o  mundo seria muito mais amável
não existiria a guerra
não existiria a indiferença

com um cachorro um aprende todos os dias
como devemos ser mais agradecidos
como valem pouco as coisas materiais
que devemos ser mais humildes
que quando uno pasa para o outro lado
tudo fica aqui

e eu sempre recomendo
que se alguém quer ficar mais feliz, não ter depressão
tem que ter um cachorro

La salsa

(com Isis Parra)

a salsa é um ritmo de música
que não é de Venezuela realmente
ela é muito rica, um ritmo muito amplio

tem um movimento que se chama salsa de nueva iorque
que tem um sonido aspero, bem marcado
um pan-pan que é muito marcado

tem também um salsa mais romântica
que na Venezuela se chama salsa erótica

las letras da salsa brava (ou salsa vieja)
tem vida religiosa
tem política, como protesta
e também da vida diária
(por exemplo, tem uma que fala do limoneiro)

mas a salsa erótica
tem um ritmo mais tranquilo
e toda a letra é com respeito a sexualidade
a relação entre pessoas
fala de hotel
quando te conocí te llevé al hotel
mas de certo modo romántico

se diz que é dançada en una baldosa
porque se dança muito perto um do outro

a salsa tem também um ritmo que é muito dominicano
muito alegre
que pode falar das alegrias da vida
um ritmo mais movido, que você pode dançar mais rapidinho

a salsa é um ritmo musical muito grande
muito rico, muito maravilhoso
porque você pode se expressar de diferentes maneiras

se você gosta de dançar solto, pode dançar salsa
se gosta de dançar pertinho, pode dançar salsa

na Venezuela se dança muita salsa
merengue, paso doble en la hora loca
(a las doce de la noche)
Melodicos
Billos Caracas Boys
una música más 70
quinze años
en una boda siempre hay
música de orquestra

el sonido urbano, reggaeton, también hay
pero la salsa...

en Caracas hay una salsa baúl
(como baúl de recuerdos)
que no es tan vieja como la salsa de los 70
y también no es como la salsa erotica

hay la salsa de Puerto Rico, que es diferente
hay la salsa de Nueva Iorque, que es diferente
no me gusta la salsa baúl, ni la erótica
quando salímos y era solamente eso
no bailé, no dançamos nada
porque no hay diversión


la salsa de los 70 tiene un modo diferente de bailar

con la salsa 70
yo siento alegría
me siento desinibida
você pode se expressar
você pode dançar livre
você está girando
e sinto que posso ser eu
e não paro

sábado, 11 de agosto de 2018

Caffe-Bar Barila

quase não há movimento
os carros passam na rua de tijolos
e deixam um barulho distante
pouca gente no bar
uma senhora sozinha
com muletas apoiadas
buscando que o tempo não passe
para não ter de voltar à sua solidão
uma mulher de voz irritante conversa animadamente
com sua avó
que ouve e sorri
três jovens conversam quem sabe sobre o quê
e duas senhoras relembram histórias
para revivê-las novamente

essas são as quatro mesas
no balcão três homens, uma mulher e uma televisão
um deles deve ser o dono
atende os clientes
recebe o pagamento
os jovens se vão
a senhora das muletas
se levanta com dificuldades e parte para um novo abismo
em seu lugar um homem toma café e olha a praça da rua Pirotska
apenas algumas folhas poucas
algumas latas de lixo
e passantes de fim de tarde

todos fumam
a Clarisse vê um filme no celular
eu escrevo
sem muita certeza porquê
o Búlgaro é incompreensível
passa o tram 22
vermelho e branco, de número 4148
na outra direção vem o 22 de número 4160
um avião levando sonhos

o senhor me intriga
na falta de nome
vou chamá-lo de Bóris
sua cabeça já branca
segue os passantes
e balança como aquelas tartarugas de lembrança
sempre dizendo sim sem muita razão
seu café é tomado de gole em gole
não vejo seus olhos
me pergunto se eles perguntam ou afirmam
suas mãos estão cruzadas
parece que já superou sua cota de preocupações
e agora espera paciente
o fim dos dias

um rock toca ao fundo
mais dois amigos sentam no balcão
temos o Bóris, a neta e a avó,
com o rosto da bondade
em seu sorriso calmo e olhar morno
as duas senhoras
que guardam um sorriso de vida
e várias conversas completamente incompreensíveis no balcão

agora a Clarisse está estudando
ela está preocupada com o mestrado
o Bóris olha os aviões passando
talvez os pense caindo
talvez se pense fugindo
ou talvez já saiba
que não se foge da morte

por aqui todo mundo fuma
o alfabeto é cirílico
e seu inventor um santo
e os cachorros passeiam nos parques, ônibus e metrôs
por aqui as fronteiras são novas mas as dores são velhas
por aqui o sol banha os prédios otomanos, imperiais, comunistas e capitalistas
indistintamente
por aqui também se ouve Pearl Jam
enquanto a vida passa não querendo passar

o Bóris se levantou
levando sua xícara
(foi o único daqui que o fez
não sei se por intimidade ou cortesia)
seus olhos são cinza-escuros
cruzaram os meus e se foram
seu rosto é marcado
seus anos já pesam

agora temos duas mesas
e o balcão
passa o tram 20, 4145
na outra direção o 22, 4169
para um ônibus de turismo
buscando o Sveta Sofia
está a duas quadras
mas a praça das poucas plantas e latas
de lixo não o deixa passar

hoje eu fiz a barba
no primeiro salão que me recebeu
a navalha no meu pescoço cortava afiada
guiada por um iraniano
simpático
perguntei da sua família
it's there
e como está lá
difícil, light, one or two hours a day

penso no Bóris
já com um pouco de saudades
queria ouvir suas histórias
talvez escrever um poema com elas
ou talvez só sorrir e chorar
queria ouvir a sua voz
ele que nessa meia hora não abriu a boca
talvez só para suspirar pela sombra das folhas na praça
outro dia o Eucanaã disse
que prefere o seu Yuri
também gosto do meu Bóris
ainda que mudo e distante

ele deve estar em casa já
não mora longe
talvez na Stefan Stombolov
deve estar sentado de meias
olhando o mundo de sua varanda
sua mulher faleceu dez anos
atrás, de câncer
seus filhos foram para a Alemanha
ganhar a vida
ligam no natal e aniversário
o Bóris sente saudades
dá época em que o mundo fazia sentido
ou talvez da época em que as coisas não fossem
tão complicadas
ele dorme pouco
mas não gosta de comprar pão pela manhã

o Bóris foi se deitar
já sonha com sua mãe o abraçando
e abre um sorriso de canto de boca
Alive continua tocando
chegam outras pessoas
minha cerveja acabou
já volto

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

revolução

enquanto a bastilha não cair
continuaremos nossa parca dieta
água e brioches
apenas alguns
lançados das varandas dos arranha céus
tão mais distantes do povo
quanto conseguirem

enquanto a bastilha não cair
continuaremos a ser mortos como moscas
pela mais valia, coerção, medo
ou apenas pura vileza
daqueles esquecidos
do sal da terra que os formou

enquanto a bastilha não cair
lutaremos por um espaço de fala
que já deveria ser nosso
lutaremos por um corpo
que nunca deveria ser dócil
fugiremos de balas de borracha rumo a nossos olhos
cassetetes em nossas costas enquanto caídos
bombas de efeito moral em nossos rostos
chutes na barriga no rosto nas bolas nos peitos
torturas oficiais
tentando nos aquebrantar

enquanto a bastilha não cair
seremos escravos sonhando ser livres
jardim sonhando ser selva
felinos sonhando panteras
cães em seus sonhos de lobo
uivando de desespero

enquanto a bastilha não cair
nosso sangue será brinde de poucos
nossa voz a de loucos
e os seus ouvidos moucos
e a sua soberba de doutos
seremos água e óleo
com nossa dureza de chumbo

ah, mas quando ela cair -
pode não ser amanhã nem depois
nem depois de depois de amanhã
mas ela há de cair -
ficaremos face a face com as nossas dúvidas
decidiremos o que quando como porquê
aboliremos fronteiras moedas países
exércitos armas prisões
seremos flecha e arco
buscando o horizonte

quando ela cair
não poderemos permitir a guilhotina
o mínimo vácuo de poder
(não existe vácuo em contato com o ar)
as explicações e explicadores totalizantes
os donos de qualquer coisa que não seja o seu próprio destino
e então festejaremos os dias e as noites
e dançaremos com ou sem luz
e nos consumiremos inteiramente
e criaremos filhos que só conhecerão o que é liberdade
pois nunca terão vivido
em regime de opressão

e eles sonharão suas novas utopias
terão suas novas palavras de ordem
descobrirão novas injustiças
farão sua nova revolução
rumo a um caminho inconcebível para nós
até o fim dos dias, do Tempo
ou do planeta

terça-feira, 7 de agosto de 2018

consolo

todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
seja império ou colônia
democracia
de verdade ou mentirinha
totalitarismos
pequenos ou grandes
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe

todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
podemos dormir alimentados
com sede
ou com fome de dias
podemos dormir sob um teto
sob as estrelas ou uma ponte
podemos ter nossos corpos
à nossa disposição
ou continuarmos dóceis
sob algum Estado ou instituição
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe

todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
podemos ainda usar dinheiro
desigualmente
ou então solidariedade
podemos conviver com muitas espécies
ou as termos dizimado
podemos ser uma grande união
falando esperanto ou a novalíngua
ou então quinhentos países irrequietos
podemos fazer a guerra atômica
ou a seguinte
de paus e de pedras
pode existir a camada de ozônio
ou apenas algumas manchas
esparsas
podemos ainda pisar sobre a Terra
ou sermos areia
pode ainda haver sonhos
ou só tempestade
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe

segunda-feira, 30 de julho de 2018

memória

relevar e esquecer
o que aconteceu nos Bálcãs
os campos de concentração
os 1395 dias de cerco aos civis
de Sarajevo
o genocídio de Srebrenica
os massacres sob os olhos das nações
'unidas' (sic)
os militares holandeses em missão de
'paz'
impedindo a entrada de milhares de refugiados em seu quartel
o bebê morto
    na frente da família
       no forno
          pois chorava
            e seu cheiro de carne queimada e aparência de leitão
as cidades patrimônio mundial (sic)
destruídas
as pessoas
sendo protegidas por quem?

relevar e esquecer
os milhões de sírios deslocados
a frieza europeia
as crianças afogadas
tentando viver pelo menos
mais um dia

relevar e esquecer
a primavera árabe tornada inverno
a volta dos regimes ditatoriais
a impossibilidade de qualquer expressão
que não concordância

relevar e esquecer
os bielorrussos apagando o incêndio atômico
com pás e fuzis
a chuva amarela
os isótopos cancerosos e famintos
os pedaços de carne amolecida

relevar e esquecer
o medo cotidiano do estupro
a felicidade de apenas um dia
sem cantada, abuso ou pior
a quase impossibilidade de apropriar-se do próprio corpo
impedida por nós, homens
em busca de poder para poder esquecer
o medo da morte

relevar e esquecer

relevar e esquecer
a Grande Guerra da África
o Kosovo ainda um quasepaís
a Palestina ainda um país refugiado
o Tibet ainda China
a Nicósia ainda dividida ao meio
as ainda favelas, propositais

relevar e esquecer
achar que a guerra acabou em 45
que agora são só conflitos locais
que não se repetirá, temos internet
que nunca ocorrerá, que absurdo
ignorar a maldade humana
o ódio contra o deus deles
as roupas deles
a cor de pele, olhos, nariz, sexo
ou qualquer coisa que nos faça
pisando sobre a pilha de seus cadáveres ainda quentes
ficar um pouco mais perto do céu
olhar as imagens já coloridas das covas coletivas
da fome e desespero
e simplesmente não ver
usar a indiferença como arma
até que ela seja usada contra nós

sexta-feira, 27 de julho de 2018

todo império

todo império irá ruir
todo homem e mulher que um dia puseram os pés nessa terra
serão carbono
tudo que é vivo
morrerá
tudo que um dia foi civilização
evaporará
apesar das inesgotáveis tentativas de lembrar
tudo será esquecido
toda pedra será areia
toda escrita ilegível
todo relógio matéria
toda música silêncio
toda coluna piso
todo amor indiferença
toda religião mitologia
todo verbo substantivo
toda dor alegria
todo sonho passado
toda esperança ilusão
todo pecado imaculado
todo rei ninguém
toda história lenda
toda cultura museu
todo museu pó
até o isótopo radioativo
será comum

nada
resistirá à fome do tempo

quarta-feira, 25 de julho de 2018

à beira

à beira da estrada parece
que o horizonte é um pouquinho mais
belo, interessante
novo, inesperado
à beira da estrada talvez
esteja um pouquinho mais perto da beira
de mim, aqui ao lado a Clarisse
está com a Svetlana
realmente essa tal de pós
modernidade é na verdade
a era das catástrofes
contra o átomo, a pá
realmente esquecer é mais fácil
quando a lembrança é um câncer
em inconveniente metástase
realmente não há história
apenas biografia
à beira da estrada o tempo
é importante
a chuva, o sol
mas o relógio é só
seu
à beira da estrada quem sabe
com mala, mochila e sonhos
talvez
estejamos um pouquinho mais perto
daquela substância mole
quente, amorfa
gelatinosa
que nos constitui
e nos faz dormir a cada dia
querendo acordar

domingo, 22 de julho de 2018

domingo de sol

hoje é um domingo de sol
ameno, a natureza com seus bichos gritando
felizes, e a Galeria Borghese
lotada, reservando apenas para quarta

hoje é um domingo de sol
calmo, tantas pessoas destinos línguas
se cruzam, bicicleta chapéus e garrafinhas
de água, crianças cachorros fones
de ouvido, para quem corre

hoje é um domingo de sol
claro, as sombras e os bancos abrigam
graciosos, ao fundo uma tarantella, um Andrea
Bocelli, passa um trenzinho branco quase
vazio, e continua despudorado

hoje é um domingo de sol:
não me parece que ainda haja qualquer
preocupação, não me parece que reste alguma angústia
noturna, nesta manhã de um domingo de sol
Roma acordou contente

quarta-feira, 11 de julho de 2018

O peso do pássaro morto

de voz embargada
e garganta ainda
fechada
com vontade de chorar
viro a última página
d'o peso do pássaro morto
da Aline Bei

outro dia recebi
uma mensagem no face
book dizendo mais
ou menos: quer
um livro meu? 35
reais já com
frete e eu
sem conhecer imaginar conceber
é claro, me manda seus dados
bancários?

cara, que livro
foda
que merda esse
mundo machista branco
heteronormativo excludente
que nos atravessa
que epopéia contemporânea
romance narrativa poesia
que soco
no estômago
embrulhado
que texto
necessário
que possibilidade
técnica verbal humana
de início marcando versos
de lápis
abandonei-o
de início duvidando
abandonei-as
de início sem muita
certeza nesse solo
novo
eu, no lugar do privilegio dessa sociedade desigual,
sofri
e sofro
pela ficção tão possível
nesse mundo
imundo
injusto
sempre pior
para muitos

não sei
se continuarei o mesmo
espero que não
não sei quantos lerão
espero que muitos
não sei como agradecer
o destino deus musas ou caminhos
que trouxeram esse livro
às minhas mãos
não sei quanto
de revolta dor e beleza
agora tenho no peito
não sei quanto mais
a Aline nos permitirá
ler, espero que vários
já que a palavra
ainda que pouca é luz de vela
em meio à escuridão
que pouco a pouco nos cerca

sábado, 30 de junho de 2018

Uma ode ao novo

(com Álvaro Braga)

Talvez a mudança
Seja a coisa importante
E não a forma
Na qual se aprisiona
E não se encontra a chave
Ao sair.

É muito importante esse mergulho
No incontornável
Se tudo estiver moldado
A gente está fudido.

É na verdade um brinde ao novo
Uma ode ao novo
Ao que a gente deveria
De vez em quando buscar
E não envelhecer.

Hope and Dreams

(com Gonzalo Manrique)

Eu era professor do ensino médio
na Venzuela
e à noite
trabalhava como motorista de táxi.

A situação política da Venezuela
hace unos tres años
complicó.
A ese momento tinha o meu filho
Luís
e a minha filha Sabrina
que tinha 1 ano
a ese tiempo.

Então empecé a observar y escuchar
que ya praticamente no podría conversar con ninguem en la rua
sobre la situación política.

O costo de comida de todo estava una cosa
inaceptable
pero sí se hablava de eso
había grupos de personas que ficavam ofendidos
y querían te bater.

El problema fue la maldición del petróleo
ninguém investió en la infraestrutura de la nación.

Yo sigo morando aquí
casi cuatro años
yo vine aqui para la Copa
vení sozinho a Manaus
mandé dinero a mi família
ellos vinieran
pedí ayuda a la FAB
mi hija enferma
yo viví aqui con dificuldades.

Mí esposa y mis hijos nunca habían salido de mi país
yo sí, habia saído
y les dije:
la vida es corta,
hay que salir
la Venezuela está fechada por enquanto.

Yo vine a Brasil porque estoy convencido que es un país muito grande
yo moré en la Europa, en Estados Unidos
y nunca he visto gente generosa
amistosa
como la gente de Brasil.

Es una cosa que he experimentado acá en Brasil,
cuán acogedor es Brasil,
es increíble el soporte de la gente de la classe trabajadora
es una historia muy comovedora
yo no estoy interesado a ir en Europa.

Acá venieron todos
Brasil es así
como el Cristo
un país muy acogedor
la gente se interesa
por su história.

En mi opinión
acá especificamente en Brasil
no hay xenofobia
hay el elemento humano
por supuesto
y por el elemento humano
hay xenofobia.

Y la criminalidad
coño
Lapa es como Trafalgar Square
pero el gobierno no quiere hacer nada
todo está sendo cerrado
y esto devería ser resgatado,
como que no puedes tener una seguridad mas
estricta?


Hay una mala voluntad
un desinterés
ellos estan se preocupando con otras cosas
que no beneficían la ciudad de Río.

El avarícia humana
el avarícia del político
es como una máquina grande
que vá al Amazonas cortar arboles
y no ve el futuro
y corta la mata
y mata animales
y torna el suelo infertil
y no beneficia nadie
si no la corporación.

Imigramos aquí
porque la gente de mí país está sufriendo
Lapa hoy es como Venezuela:
la inflación de mi país
es mas alta del mondo
el pago del més
no compra un kilo de carne
pero solamente un cartel de huevos.

Tu no ves ninguno
ex-presidente
viviendo en Venezuela
todos sacaran el diñero
y se fueran a Europa y Estados Unidos
y viven en el nido del diablo.
Por qué no se quedan en Venezuela?

Sabéis cuantas nuclear weapons
hay en Estados Unídos, China y Russía?
Hiroshima y Nagasaki fueran
kilotones,
nada. Ahora hay megatones.
Por qué estamos concentrando
tanta inteligencia
en matar a los otros
y no por ejemplo
para la medicina?

El poema
yo lo que puedo decir
es que yo me sinto muy feliz aquí
no tengo interés en la Europa o el Estados Unidos
estoy muy relajado
con mi família
el brasileño es demasiado bonadoso
y acá puedo ser lo que soy.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Na saída

Estou no centro
De um núcleo
De vozes
E vazios
No centro
Do espaço
Logo após
Mais um CEP
No centro
Espiralado
Da saída
Do túnel
Da vida
Rumando
Errática
E flecha
Sangrando
Em cada palavra
Atravessando a garganta
Tentando
Algum ruído de quase silêncio
Que nos impeça de afundar
Em meio à lama
Desses dias só luz.

sábado, 23 de junho de 2018

Um pequeno querer

Eu quero passar a noite inteira
Aqui com vocês
Me esquecer um pouquinho
Dessa vida mesquinha
Onde o sonho é no máximo
Uma mísera
Promoção
Onde é tempo da eterna luz
Eu quero essa noite
De sangue quente
Escorrendo
Eu quero essa dança infernal
Báquica
E no centro do lago
A fogueira azul
Do inominável brilha.

Eu quero esse corpo
Disforme
Sem limites
Atravessado
De luz
Dos ponteiros parados do relógio
Do sorriso do Tom
A brincar no meio da banda
Lembrando que ainda
Logo após a esquina da razão
No cruzamento da dúvida
Com a pergunta
Tudo isso ainda pode
Quem sabe talvez
Fazer algum sentido.

Isto que é aniversário

Mas por que tanto busquei
Quando estava ao alcance
Das mãos
Nem tão assim
Esticadas
Quando bastava abrir
Levantar a cabeça e ver
A coisa acontecendo
Quase inominável
Inapreensível
Inconcebível
Quando bastava esquecer-se
De si e ser oceano
Quente
Pulsando
De vida
Quando estava ao alcance
Dos lábios
Desde que abertos
Ao talvez
Desde que incertos
Permitam
Contando com um sonho de amor
Que faça sorrir
Em frente ao abismo
Que faça voar
Que faça voar
Que faça cantar
A sua morte iminente
Quieto
Resignado
Pois certamente
Terá valido a pena
Cada pequena vícera
Rasgada
Apesar da noite escura
E inquieta
Certo que será corpo
De vida
E vaso de infinito
O seu olhar
Quando esfinge
O mundo.

Aniversário do Ítalo

É aniversário do Ítalo
Depois de bêbados
Falamos de filosofia
Poesia
Mas qual é a função
Do poeta?
Então se recitam
Das noites contadas
Dos tons
Da busca de sentido
Do potlach
Do porquê a coisa é função
E chegamos à música de Jorge
Ben, e chegamos ao conceito
Desse velho mundo
Então o vento lembra
Da música cantada aos berros
À uma da manhã
Com um violão
No Gato de Botas de Vila
Isabel,
Então chegamos à construção
Da religião, dos tempos crus,
Então chegamos no Nietzsche
Pensando na infantilidade dos deuses,
Então é hora de mais
Um cigarro
Já volto.

domingo, 17 de junho de 2018

Um minuto da sua atenção

Cara, eu só queria
Te contar
Que o mundo está pulsando
Firme
Elástico
Abissal
E águia
No centro de um eixo
Acentrico
Eu só queria te mostrar
Te fazer ouvir apenas uma vez
O horizonte é possível
Ainda sofrendo limites
O outro é possível
O eco é possível
Em cada pequeno passo
Em cada pequeno gesto
Rumo ao fundo
Do sentido mais simples
Elástico
Abissal
Sem qualquer capacete
Que impeça sentir alguma
Coisa
No suco de maracujá
Na boca
Então seca
Areia
Argila
Cimento
Mas agora jardim
De qualquer árvore
Que dure algumas
Gerações
Do sonho de alguma
Qualquer coisa
Que seja rio
Que enfim
Nos atravesse.

A noite de Santa

A noite de Santa
Teresa, dos trilhos
Vazios mas cheios
De gente, de som
E de luz
Pouca
Mas em meio ao escuro dos dias sem fim
Noite de Santa
Teresa, dos projetos
E ideias e sonhos
Dos Largos
Dos sorrisos
Por algum amanhã
Sonhado junto
Por alguma história
Ainda futura
Então a cada acordar em cada manhã
Haverá motivo
De ser além de si.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Querer

Quero o amor dos dias sem
Fim, o sonho das noites abertas,
O sorriso das almas sedentas
Por um pouquinho mais
De corpo.

Quero aqueles breves momentos
De cumplicidade simples
Com desconhecidos,
Aquela certeza de que tudo
Vai ficar
Bem
E de que o amanhã
É muito distante
Para se pensar.

Quero ter na minha mão
A sua
Caminhando rumo a um lugar qualquer
Em ruas novas
Que nunca vimos eprovavelmente
Jamais
Voltaremos.

Quero abrir a porta
E ver você correndo
De saudades apertadas
Se pendurando no meu pescoço
Já que desde hoje pela manhã
Não nos falamos.

Quero o gozo do seu corpo
Na ponta dos meus dedos
E língua bruxeleante e caneta
Arfando pela impossibilidade de estarmos um pouco mais
Juntos.

Quero a languidez dos lençóis molhados
Depois de juntarmos o céu e a terra
O sol e a lua
Os beijos e o mar.

E nesse querer sem fim
Me queimo de desejo
E não há mais
Nada além do brilho dos seus olhos de órix
Olhando o calor do deserto sem sombra
Em que me encontro quando estou
Longe.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Algo

É muito bom
Estar aqui
Na onda
Com vocês
Na tentativa diária
De ser algo
Mais
De sentir algo
Mais
Por alguma coisa
Além
Desse dia a dia quotidiano
Desse possível
Quotidiano
Dessa
Insuperável
Esperança
De viver
Nem que seja na porra de um pequeno momento
Algo mais.

sábado, 26 de maio de 2018

Em Machu Picchu

(com Nath)

Fui para o Peru
Para conhecer Machu Picchu
No meu último aniversário
Para fazer novos amigos, conhecer lugares.

Uma série de coincidências me levou a subir Machu Picchu
No dia anterior do meu aniversário
E conheci um cara
Que era aparentemente incrível.

Tivemos ótimos momentos juntos,
Conversamos muito
Sobre muitos assuntos
E vivemos coisas muito legais
Que eu nunca tinha vivido
Com ninguém.

Ele, Holandês,
Eu, carioca,
E você pensa: foi bom enquanto durou.

A gente continuou se comunicando
Mas a forma como ele levava as coisas
Me fez acreditar que aquilo poderia dar certo.

E a gente se gosta bastante,
Não sei se ia dar certo.

E a gente tinha combinado de eu ir visitá-lo,
Mas no dia em que eu falei que eu ia lá
Ele falou:
"Eu estou com medo,
Espera"

Descobri depois
Que ele faz parte dos 10% extremamente religiosos
Da Holanda
E o bicho estava extremamente preocupado de eu não ser
Da religião dele.

E isso para ele foi um problema.

E ele falou que não dava conta,
E a gente se despediu por Skype
Ele aos prantos,
Mas não conseguia,
"A conexão com Deus com a religião
Não era forte", me disse,
E ele quer alguém
Que pense como ele,
Para reforçar a crença.

Ele não quer ser questionado.

E desde então, a gente não se fala,
E ontem, dia em que eu iria viajar para lá,
Saí com uma amiga
E fomos celebrar o enterro
Da ideia do que ele poderia ser na minha vida.

E então, eu acho realmente, que foi
Bom enquanto durou
Mas foi bom não ter ido.

A vida é feita de pequenos momentos
Incríveis
E o fato deles não serem eternos
Não desmerece a magia
E a intensidade dos acontecimentos.

Xenofobia

(com Mohammed el Jazouli)

Um dia, eu e meu amigo,
Queríamos fazer uma associação
Para orientar os imigrantes refugiados
Subsaarianos.

Nós começamos isso porque tem muitas associações
No meu país, mas essa ideia
Nunca foi implantada por ninguém.

Os africanos subsaariano que chegam lá
Moram nos guetos
Entre eles, e tem muita
Dificuldade de se integrar.

Também ocorre um racismo
Contra eles, pois dizem que eles
Roubam o emprego da gente,
Aumentaram o crime,
E o país está em crise.

A gente quer ajudá-los
A se integrar com os marroquinos.

Com muita burocracia,
Ficamos um ano,
E ouvíamos as perguntas:
"Por que você quer ajudá-los?
Precisamos ajudar aqui dentro.
Deixa eles irem para a Europa."

Foi difícil,
Eu sofri muito,
E essa tristeza me empurrou
Para deixar o país.

Nos últimos meses, a gente desistiu,
Ele foi para Omã
E eu vim para o Brasil.

A mesma coisa que eu escutei lá
Sobre africanos subsaarianos
Eu ouço aqui.

Eu gosto do Brasil,
Acho o Brasil
Bom, pois eu ando sempre
Com as pessoas boas.

No Omã,
Ele esqueceu toda a história da associação.

Agora,
A história está voltando.

Agora,
Nós somos refugiados.

Agora,
Vemos a xenofobia.

Eu recebi muita ajuda
De muitos brasileiros
E vejo que recebi essa ajuda
Pois eu também tentei ajudar os outros no meu país.

E agora, estou bem,
Trabalho como professor de francês,
Estou com o Chega Junto,
E conto essa história porque hoje é o dia da África,
E sei que os africanos estão sofrendo muito,
Mesmo que a Europa tenha recursos para receber muito mais imigrantes
Não o fazem.

Lá fora, os brasileiros, latinos,
Sofrem igualmente.

Quando eu cheguei aqui,
Vi como a visão do Brasil
Lá fora
É um estereótipo
E que aqui tem muita diversidade.

Agora estou
Sujeito ao mesmo preconceito contra o qual eu lutava
Lá no meu país.

É um sentimento
Que você nunca pode imaginar
Até que você vive.

Quando eu estava lá
Eu via o sofrimento,
E sofria, mas aqui
Sujeito a esse preconceito,
Você se machuca.

Falta para as pessoas
Pensarem antes de falar
E verem algo além
Da superfície.

Os governos também são culpados
Pois não tem muita discussão
Não tem uma educação da verdade
Não dão muitas oportunidades.

Lá no Marrocos
Sofríamos antes da imigração
O desemprego já havia
O crime já havia
Mas por egoísmo patriótico
Nós queremos ter tudo
E não deixar nada para o outro.

Queremos ficar ricos
À custa dos outros.

Em Candide, Voltaire conta
Sobre um europeu que veio para a América Latina
E tinha diamantes e ouro nas ruas da Bolívia e do Peru.
Ele começou a guardar esses diamantes e ouro.
O imperador do Peru falou
"Você pode ter todo o ouro e diamante que quiser"
E morou no palácio
Rico, com tudo.

Mas dois meses depois,
Ele fala ao imperador
"Eu quero ir para a Europa,
Pegar comigo
Todo o diamante e ouro,
E ir para lá
Onde eu tenho tudo
Que ninguém tem".

Eu, Carmen Martí

(com Carmen Martí)

Antigamente eu vinha aqui de bicicleta
Salvo um mês ou outro,
Há mais de vinte anos venho aqui.

Em agosto de 2012
Eu fui atropelada
No hospital, quando eu vi a situação,
Com as pernas muito enfaixadas
Fiquei com medo de não sair dali.

E muito questionamento com Deus
E nem sempre as enfermeiras tem um papo bondoso
Para lidar a todas as horas.

Foram muitos por quês com Deus,
E Deus levantou uma pessoa
Uma senhora de uma igreja
Que ficou muitas horas comigo na enfermaria onde eu estava deitada.

Por causa do soro eu me movimentava pouco
Foram mais de quatro meses e meio
Até que eu fui para a casa da minha irmã
E continuei sendo medicada.

Fomos insistindo
Conseguimos entrar na Santa Casa
De Misericórdia de São Paulo
Até que fomos parar na área de traumato-ortopedia.

E tenho fluído o tempo assim,
Embora tenha ficado muito triste,
Falando com muitas pessoas,
Muita insistência
Mas pouco resultados.

Por não ter ninguém da família
Que seja advogado
O tempo passa.

E hoje estou aqui, na frente do Roy,
Vislumbrando um futuro muito mais promissor,
Com sonhos que vão se realizando
E torcemos para que a vida de todos
Os habitantes da Terra
Tenha mais
Qualidade de vida.

É isso que eu desejo para o futuro
E me esforço
A cada dia
Para isso.

Eu, Paulo Mendonça

(com Paulo Mendonça)

Minha história começa em um nascimento complicado,
Minha mãe grávida, no interior, roça, fazenda,
Meu pai trabalhava lá,
Sem médico, a parteira disse:
"Está complicado",
O médico da cidade
Depois de ser procurado
Disse:
"Só se salva um ou outro".
Meu pai fugiu dessa decisão
E acabamos sobrevivendo os dois.

Por isso, criei um vínculo muito forte com a minha mãe
Somos seis irmãos
Cinco mulheres e eu,
Sou o quinto de seis.

Vim de Rio Novo, na beira de uma açude.
Saindo da fazenda fomos para o centro,
Um local pequeno, quatro mil habitantes,
Crescendo nessa cidade
Mínima.

Nunca tinha planejado
Acabei querendo conhecer o mundo
Vim para o Rio,
Com medo do Rio fui para Niterói,
Até que um dia fui para os Estados Unidos,
Iowa.

O que eu estou contando para você?
A minha vontade de ver o mundo.

Sair de um lugar que nada tinha
E querer ver culturas diferentes
Formas diferentes de pensar a vida
Formas diferentes de encarar desafios
De encarar as individualidades e as culturas.

A partir daí nunca mais parei,
E desde então estou rodando o mundo.
Não apenas por prazer,
Eu uso isso para o meu trabalho
Sobre cultura nas organizações.

Em função disso tenho conhecido coisas muito diferentes.

No Japão, fiquei morando um mês,
A maneira como eles vivem,
Respeitam um ao outro, se ajudam,
Respeitam a individualidade e ainda assim as coisas funcionam.

No Irã, um país de onde todo mundo morre
De medo, tem uma cultura riquíssima, eles tem
Uma ancestralidade absurda, estão
No meio dos árabes, falam persa e não
Tem muito a ver com o que está em volta.

E a última, mais maluca,
Foi para o Butão, na Ásia,
Vi que nós, ocidentais, complicamos demais.
A vida na verdade
É fácil e simples.

E por que eu viajo?
Não tenho pretensão de mudar alguma coisa,
Essa situação que a gente vive
No Brasil e no mundo,
É muito complicada,
Mas eu tento
No meu quadrado
Fazer alguma coisa
Melhor.

O Sol e o Vento

(com Antônio, 5 anos)

Era uma vez o sol e o vento,
E eles resolveram fazer uma aposta.
O sol disse:
- Quem conseguir tirar o casaco daquele homem será o mais poderoso!

E o vento começou a soprar a soprar e a soprar
E o homem só colou mais roupas.

Chegou a vez do sol.
Só com um raiozinho, o homem sentiu muito, muito, muito calor.
E o homem tirou todas as roupas!
E ficou só de cueca na caixinha de areia
Sem meia
Como um gato.

E fim!

Histórias

(com Carol)

I
Não sei se fui eu
Ou minha irmã,
Pois eu era pequena
E não me lembro.

Minha vó conta
Que abrimos o armário dela
E tiramos tudo do quarto.

Ela entrou
Na casa
Assustada
E uma de nós falou
Engraxado né vovó?

II
Um dia minha irmã
Tomando banho na banheira
Não queria sair,
Minha tia apagou a luz
Para ver se ela saía,
Mas ela ficou lá quieta,
Meu avô entrou no banheiro
E ela
Pequena
Arregalou os olhos
E disse:
Água!
Luz!
Susto!

III
Minha mãe estava sem dinheiro,
E eu perguntei:
- Mamãe, se a menina pedisse para comprar pirulito,
Você comprava?
- Depende minha filha. A mamãe tá sem dinheiro. São quantos?
- E se fosse um pirulito?

IV
E tem uma outra também:
Minha mãe procurando meu irmão,
Não encontrava,
E ela sentou no sofá
Apoiou a cabeça na mão
E disse não saber o que fazer.

Olhou para debaixo da mesa
E lá estava ele
Com uma lata de biscoitos
Escondido
Sorrindo.

V
No dia de Natal
Após a ceia
Deixamos o pernil em cima da mesa.
E de manhã o mesmo
Cadê o pernil?
Sentada no sofá
Vi embaixo da mesa
Roído o presunto inteiro
Pelo Pity Pity.

VI
Meu irmão ganhou um microscópio
Colocava tudo para lá ver.
Ele quis ver sangue
Minha irmã mais velha a mais corajosa
Furou o dedo para ver
Alguém saiu correndo feliz avisando
"Sangue mãe, sangue!"
Minha mãe desesperada
Veio e viu todas as crianças
Em volta do microscópio.

VII
Eu morava em Aracaju
E deixei na mesa
Uma bandeja de empadinhas
Recém saídas do forno
Mas apenas dez minutos depois
Apenas metade
E o resto comido
Pelo cachorro
Grafite.

VIII
Minha irmã foi cortar
O pelo do cachorro
E o cortou sem querer
Demais.
Resolveu cortar todo o pelo
E ele ficou parecendo um porco.

Quando minha outra irmã
Chegou
Com sua cara de espanto
O cachorro se escondeu
Envergonhado.

IX
A tigela de plástico
Do Pity Pity estragou
E colocamos um prato fundo
Mas minha mãe o quebrou sem querer.

Ele sentou no tapete da cozinha
E seus olhos diziam
Por que eu?
Não vou comer nunca mais!

Eu, Ivan Loutfi

(com Ivan Loutfi)

Meu nome é Ivan,
Minha família,
Descendente de árabes,
Meu pai sírio,
Minha mãe
Brasileira,
Mineira,
Tenho um irmão gêmeo,
Sou o mais novo
Em um total de oito,
Cinco irmãs
E dois irmãos.

Nasci no interior
Mas sempre tive vontade
De sair por aí.

Outro grande amor
É a música.
Crio algumas coisas
No piano,
Algumas coisas ruins, algumas
Boas,
A partir de aulas da minha irmã
Leila, e depois fui praticando.

No piano
Dentro da minha limitação
Tenho a liberdade de criar.

Com 16 sai de Teófilo Otoni
Fui para BH
E agora no Rio.

Sou carioca de coração,
Aqui é o meu lugar,
Mas ainda volto
Para visitar a família.

Adoro
A liberdade da viagem
Em uma explosão de sentidos
Até a volta
Cheia de recordações boas
E uma vida com muito sentido.

Esqueci de falar,
Sou geólogo,
E essa é uma forma de entender como o planeta funciona,
Vejo como um corpo,
Uma anatomia,
E nessa profissão quase  religião,
Vejo como somos um fragmento
De algo tão maior,
Representando quase nada
No universo.

Sei lá,
É isso.

MS

(com Bruna Christina)

Eu conheci um menino
Através da minha prima,
De início, não dava qualquer
Importância.

Começamos a conversar
Por mensagem
Às vezes um pouco demorado.

De repente a sua
Atenção me envolveu,
Ficávamos nos falando
Por mensagem,
Mas ao vivo,
Quase nada.

Ele pediu
Para ficar comigo:
Mas pessoalmente não havia
Iniciativa
De ninguém.

Falávamos disso
Pelo celular
Mas eu tímida,
Nervosa,
Me embolava
À sua frente,
E recuava.

Uns dois anos atrás
Na madrugada do ano novo
Sem nunca nenhum
Beijo entre nós,
Ele me pediu
Em namoro.

Eu travei,
Eu queria
Mas não sabia
O que fazer.

Já à tarde
Ele foi lá na rua
Disposto a falar
Com o meu pai.

Ele desistiu
De não receber nada.

Agora
Eu me arrependo
E quero aproveitar cada momento
E não deixar as coisas boas passarem
E não duvidar quando as coisas estão dando certo.

Eu, Renata Barcelos

(com Renata Barcelos)

Eu, com 18 anos,
Gosto de buscar um jeito
Se realizar meus sonhos,
Desejos,
Sou amiga, simpática,
Gosto de ajudar,
Movida por empatia,
Uma bomba de sentimentos
Bons, pelo mundo,
Quero mostrar alegria,
Com meus pensamentos equilibrados
Vou longe,
Mas se não, fico triste,
Quieta,
Mas então vou
Ler
Um pouco, sair,
Com amigos,
E tudo vai ficar bem.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Os paletós de Brasília

Hoje é segunda:
Não se encontra
Nenhum
Por aqui.

Terça pela manhã
Lotam o saguão do aeroporto
Reformado,
Privatizado.

Um dia de aperto de mãos,
De saudades forçadas,
Um almoço na asa sul,
À tarde nada muito
Diferente.

À noite
Algumas ligações
E chegam no bar do hotel
Sorrisos fáceis
Que o dinheiro
(não muito limpo)
Compra.

Quarta é igual à terça,
Ou praticamente,
Nesse mar negro-gris
Quase sempre homens
Quase sempre brancos
Carecas-grisalhos
E um pouco
Acima do peso.

Na noite de quarta
Lembranças da terça,
Cai cerveja na manga,
No colarinho suor,
Na televisão um jogo
De futebol qualquer.
Comentários sobre as duas
Ou três mulheres das reuniões
Que eram, pelo menos,
Bonitinhas.

Na quinta a gravata já está
Na mala,
O check-out do hotel,
Parece que tem uma greve por aí,
O check-in no voo,
Os abraços apertados
Agora sim sinceros
Pois fará um pouquinho de falta
Essa disneylândia do cerrado.

Na sexta
Estão na lavanderia
Levados por uma empregada qualquer
Cujo nome nem me lembro.

sábado, 19 de maio de 2018

Sente-se

Dentro do útero piscina
Um calor música umbilical,
Um sonho luz oblíquo,
Jorge, salve Jorge,
Um solo infinito,
Um dissolver da pele,
Daqui de dentro é belo
O mundo, ao menos
Um pouco mais,
Daqui de dentro
Refração,
Ajulejos
Saias
E luminárias
Que esfacelam
O horizonte,
Daqui de dentro
O pulsar
Verticalmente
Impossível,
Daqui de dentro
Rachaduras
E a terra
Que firme
Inobliterada
Surge
E a chuva que cai
Neste espaço singelo
Impressionante
Onda
De absoluto
Sentir.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Quarta no Osbar

Tomo uma cerveja no Osbar.
Hoje é quarta mas ninguém
É de ferro, ao fundo toca um Bob
Dylan, Elvis, e um rock que faz sonhar
Com um tempo um pouco mais
Doce, o copo ainda está
Gelado, o Osmar, querido,
Já deixou a garrafinha de água,
Matamos um pouco as saudades,
E me disse que está pensando
Em ampliar, é sorte esse coração
Poder alimentar mais gente
Sedenta de pão e de luz,
É sorte o tempo ameno
E o relógio ter parado
À espera de uma qualquer
Coisa, é sorte ainda haver céu
E sorrisos brancos à espera,
Não sei se ainda resiste
Qualquer metafísica mas também
Não me preocupo, o pastel chegou,
A cerveja está vindo,
O volume da música aumentou,
É quarta mas estamos no Osbar.

Ainda bem.

sábado, 5 de maio de 2018

Sábado à tarde

É tarde
No condomínio América
Em Del Castilho
O sol já baixou
O céu
Ainda claro mas róseo azul
Crianças jogam futebol
Na varanda uma cabeça apoiada
Em um braço apoiado em uma grade
De uma varanda do segundo andar
Observa as crianças jogando futebol
Um muro
Enorme
De apartamentos
Apenas quatro luzes acesas
Ainda é claro
Apenas quatro vidas visíveis
Do lado de fora
Uma churrasqueira solta suas últimas chamas.
É sábado
As pessoas conversam
Com uma certa
Paixão
Dois amigos sorriem discutindo
O próximo jogo
O horizonte quase
Não mais
Alumia.
É sábado
O dia do descanso chegou
E tudo está bem.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Piaf

(com Álvaro braga)

À sombra
Piaf
É mais
Do que ela mesma

A sombra
É claro
Como conceito
É mais que ela mesma

A sombra
Mundo de possibilidades
É como se não fosse
O que não é

Porque o mundo da vida
Por meio das sombras
Surpreendentemente
Convidativamente
Abandona o não.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Retrato

(com Sergio Allisson)

Ele mora num apartamentozinho
Ela divide com cinco amigas
Ela química
Ele exatas
Ou adm
Cinema ele só conhece
Comercial
Ela não, ela gosta de Almodóvar,
Por exemplo,
Tarantino acha muito violento
Mas sabe o que é.

No final das contas
Ela iria para Indonésia, Marrocos,
Ele só para Miami.
Inclusive ela já foi para Cartagena.

Já fez mochilão pela América
Do sul, já foi ao Peru,
Ela lê Dostoiévski
Ele não lê.

Ela toparia uma relação
Aberta, ela acha que seria possível
Tentar, ele não,
Inclusive
Ele jamais confessaria a ela
Que existe prazer anal
Ele já fumou maconha na vida dele
Mas jamais admitiria que é a favor
Da legalização
Ela não fumou, mas é a favor,
Eles não gostam de luxo
Isso eles tem em comum.

Eles vão dormir na casa dele hoje
Ele mora aqui perto, ela não,
Eles vão andando,
O banheiro deles já uns bons quinze dias
Que não é lavado,
Eles não se importam,
Mas o sexo é muito bom,
Eles tem um encaixe perfeito,
O pau dele é do tamanho que ela gosta,
Inclusive
Porque apesar de tudo
Ele respeita muito o tempo dela,
Isso ela não tem muito do que reclamar não.

Eles vão transar amanhã de manhã
Hoje não
E engraçado que ele é doido para comer uma mulher do trabalho
Mas ele tenta respeitar
Ela por sua vez já deu um beijo em um colega
É bobeira
Mas ele não entenderia.

Mas eu acho
Verdadeiramente
Que eles vão ficar um bom tempo
Mas não muito tempo
Ela sabe que não vai aguentar muito tempo
A caretice dele.

Uma coisa legal que eles fazem
De vez em quando
Eles transam vendo filmes pornôs
Ela gosta de ver uma mulher com dois caras
Para todos os efeitos ele está entrando na onda dela.

Vamos tomar um álcool, né?

sexta-feira, 23 de março de 2018

Gostaria de

Gostaria de
Um livro que fique não deitado
Mas de pé
Que permaneça não deitado
Mas vertical
Enquanto durarem as areias do tempo
Enquanto durarem as palavras
Enquanto durarem as línguas
Escritas ou faladas
Que seja página quando eu for pó
Que seja sonho quando for adeus
Que seja luz quando nem mais
Na escuridão eu puder habitar
Que dure muito, muito mais,
Repleto de arabescos fractais
Vindos de um tempo distante,
Que de tão imperfeito guarde
História, desejos, noites, sei lá,
Que rasgado seja kintsugi,
Falho, frágil, fraco,
Mas com alguma cola dourada,
Que sujo, no lodo, no esgoto,
Ainda guarde algum verso
Passível de sorriso, de choro
Ou de dor.

domingo, 11 de março de 2018

Infância em Sulacap

(com Ana Terra e Clarisse Kloss)

Lá não tinha quase nada,
Tinha muita brincadeira de rua,
Pique pega, pique cola, pique
Esconde, queimado
E futebol.

Bebendo água
Da bica
Para nem entrar
E chegávamos em casa
De pé quente
No piso gelado.

Depois da escola
Sempre tinha alguma criança lá em casa
Porque as mães não podiam vir buscar.

Lá em casa tinha uma escala de banho:
Como todo mundo queria brincar
Ninguém queria ser o primeiro.
Meu pai sorteou:
Ana, Moacyr, Clarisse
E colou na porta do banheiro.
Resolveu.

O Moacyr
Quando começava a bater na gente
Era amarrado na cadeira
E deixado no escuro.

Quando o telefone tocava
Era uma luta
Para ver quem atendia:
Uma puxando o pé da outra,
Se arrastando.
Enquanto isso,
O telefone tocando.

O Fafá estava sempre
Com bolsos cheios de comida
Mas sempre dividia
Com todo mundo.

O Davi uma vez
Atravessando as quatro pistas
Da rua principal
Tropeçou
Mas como não ia conseguir se levantar
Continuou engatinhando.

O mesmo Davi
Em uma das várias vezes que apertamos as campainhas e saímos correndo
Uma lata caiu do seu bolso
E ele teve que voltar.

Jogávamos vôlei na casa da minha mãe
E fazíamos os códigos nas mãos que víamos na TV
- não os entendíamos, é óbvio -
Mas aqueles sinais
Faziam parte do jogo.

Éramos às vezes sádicos
Mas só com as lagartas da casa da minha avó:
Colocávamos no álcool, queimávamos,
Mas só lá.

Nós duas
Colocávamos um mesmo avental
Amarrado
E ficávamos correndo juntas
Para passar o tempo.

Quando abriu a sorveteria
Passávamos o domingo inteiro esperando a hora,
Depois da igreja,
De pedir com os olhos
E a Graça já sabia os sabores sem nem falarmos nada.

Nesses dias se juntavam nove
Crianças
Na casa da vovó Marinete:
Não era muito ordeiro.

Catávamos coquinho
De amendoeira,
Enchíamos sacolas,
E depois comíamos tudo.

Quando alguém tinha que ir no seu Zé ou no seu Horácio
- os dois comércios do outro lado da rua -
Nossa mãe pedia
Na verdade obrigava
A outro ficar sempre de olho
Pela varanda
E ninguém queria
Parar a brincadeira para isso.

Sulacap parecia uma cidade do interior:
Na praça da igreja
Um comércio, um açougue, uma papelaria, uma locadora,
Uma loja de ferragens, uma caixa de correio.

Além da praça
E da academia de polícia,
Tinha um cemitério
Verdinho
Ao lado de um morro verde.

O tédio que tínhamos sempre
Clarisse queria matá-lo subindo o morro
E todo mundo se entreolhava
Nao querendo acompanhar.

Sulacap
Não é um bairro antigo,
Terreno
Da SulAmérica Capitalizações,
Loteado
Recentemente
E as gerações se seguiam
Ainda lá
Uma depois da outra.

Sulacap para a gente
É isso,
A nostalgia de um lugarzinho seguro,
Aconchegante,
Onde toda nossa família estava,
Todo mundo se conhecia.

Hoje não a reconhecemos,
A nossas avós morreram,
Nosso pai não mora mais lá,
Mas Sulacap continua
Nas nossas lembranças.

domingo, 4 de março de 2018

Redenção

Na barra do seu vestido círculo
No seu pé em ponta
No seu sorriso bom dia
No seu pandeiro chorando
Nos seus braços serpentes
No seu corpo negro
E branco e marrom
No seu pescoço pêndulo
Nos seus cabelos teia
Nos seus brincos soltos
E no seu balanço ancestral
A ínfima mas certa
Possibilidade de redenção.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Caetano

Famosos:
Caetano estaciona carro
no Leblon
nesta quinta-feira.

Caetano Veloso se prepara
para atravessar uma rua
do Leblon.

Caetano olha para o fotógrafo
enquanto atravessa a rua
no Leblon.

Caetano espera no estacionamento carioca
nesta quinta-feira
(10).

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Caetano dinossauro

Era o Caetano
Sorrindo
Girando
Caetano dinossauro

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Era à noite
Era meu aniversário
Estavam todos
Caetano dinossauro

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Havia música
Havia espaço
Havia um horizonte
Lúdico e real
Caetano dinossauro

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Cae cae Caetano
Gosta de dinossauro
E de vir dançando

Pterodáctilo,
Tiranosssssssauro
Tiranossauro!

Alice

Era um balão laranja
Em meio a sala à noite,

Na verdade
Eram três balões laranjas
Girando
Nas minhas mãos
De sonhos na luz da noite
De sorrisos
Dos meus cabelos ao vento.

Agora dois balões
Em meio a sala à noite
Girando.

As palmas,
A garrafa de água de coco
Gelado,
Era o sorriso da Alice,
Era o copo de água de coco
Era o meu vestido balançando
Era a música em banda
Era noite
Uma noite em que fui feliz
Em que fui criança
Em que fui acarinhado
E vi a vida se descortinando
A meus pés.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

É noite

A noite acontecendo
Agora
Em corpos e cores
E suor
A noite acontecendo
Lá fora
E aqui dentro
Também
A noite acontecendo
As nuvens no horizonte
Os corpos
E a noite enfim
Noite
De quaseluz
E quasecorpos
No quasehorizonte
Da noite.

Sangue

A quase não palavra
Antesala do silêncio
Expectativa de algo
Um fio de luz na noite estrelada
Beirada do infinito
De penhasco tão
Acessível e alto
No instante da beira
Da superação do lapso do tempo
Em um instante de espaço
A sangrar
De um coração de boi
Em uma bancada de mármore
Frio
É a vida que sangra
E se desfaz.