sábado, 25 de agosto de 2018

Melbourne

(com N.)

eu tinha quatroze anos
e você tinha quinze
a gente virou amigo e depois começamos a namorar
isso durou cinco anos
depois cinco anos separados
nos encontramos na rua
voltamos
mais cinco anos
eu tive que ir embora
do Brasil
você não foi

o nosso primeiro fim
não estava dando
certo, um término mais
normal
traição, desconfiança

eu estava em um carro
ajudando um amigo na mudança
conversando
ao lado do Copacabana Palace
mas alguma coisa real me fez olhar para a direita
e eu vi uma pessoa andando sozinha
às duas horas da manhã andando sozinha
cantando
gesticulando com os braços
e nesse momento passou um ônibus
e eu gritei o seu nome
e você olhou para o céu
e eu gritei o seu nome de novo
e você entrou no meu carro
na nossa primeira conversa depois de cinco anos separados
e voltamos

o nosso segundo fim,
eu em Melbourne e você aqui
um fim distante, frio
estranho


hoje você achou um novo amor
mas ainda penso em você todos os dias
e virei um fantasma
um fantasma do amor

meu coração acelera quando falo disso
sinto uma certa angústia no peito
depois de dezesseis anos
você ainda foi meu único amor

eu não tive um encerramento
você teve
e seguiu com a sua vida

das suas risadas, da sua alegria
do seu sorriso eu me lembro
a maior parte da minha vida eu passei vivendo esse namoro com você
uma história que não foi para frente

pelo menos eu sei o que é amor
enquanto muita gente não sabe
pelo menos eu sei o que é a perda
ainda que em vida
pelo menos eu sei o que é o conforto
com alguém, o que é ter frio
na barriga ao ver alguém

eu queria poder operar o meu cérebro e tirar a sua memória
eu penso todos os dias com uma espécie de culpa
alguma coisa mal resolvida
a forma do fim
à distância
a gente não conseguia se separar
mas só lá em Melbourne
com um oceano de distância
foi possível

eu sonho com um dia sem pensar em você
e então eu vou estar realmente livre
pensar em outras coisas, em projetos, em ideias
e você não estar entre eles
e isso já tem três anos
os mais difíceis da minha vida
que me fizeram tentar entender melhor quem eu sou
me fizeram me aproximar mais do amor eterno
de pessoas, de amigos

mesmo se você quisesse voltar
eu também estou em outra
penso em focar em mim
e tentar realizar meus sonhos sem você
mas ainda com um pé atrás
em relação a qualquer namoro
e sem uma mínima
leveza, sem um sentido a mais ao lado de alguém
não vou me envolver
de novo

eu desejo que a sua alegria continue
e que essa nova pessoa em sua vida te dê
segurança
e amor

Peque

(com Luis Pedríquez)

o nome dela é Peque
ela tem 5 anos
nós trouxemos ela desde Venezuela

a princípio eu não tinha muita vontade de ter um cachorro
- tudo bem, eles são fofos, tem uma nobleza -
eu não ficava muito bom com a ideia de ter um cachorro
mas a minha esposa sí

onde minha esposa trabalhava lá na Venezuela
chegaram duas cachorras grávidas
e elas tiveram doze cachorros
e nós cuidamos delas
uma se despreocupou dos filhotes
mas a outra ficou

levamos no veterinário
recebemos ajuda de uma ONG que trabalha pela defesa dos animais
demos vacinas, remédios

quase todos os cachorros foram dados para a adoção
mas a Peque sempre ficava escondida
era mais tímida
e a Isis gostava dela

levamos a Peque para a praia
e com o tempo fiquei apaixonado pela Peque
ela ficou muito agradecida
comecei a amá-la como uma filha
a única coisa que ela falta por fazer é falar

agora comecei a falar com ela em português
e ela entende

um cachorro sempre pensa em dar amor
ele não conhece infidelidade
ele não conhece preconceito
ele ama uma pessoa sem se importar com sua posição
política, econômica, social
e já está demonstrado que eles tem tanto amor ao seu
pai humano que a si mesmos
então eu fico comovido
porque se todas as pessoas fossem iguais aos cachorros
o  mundo seria muito mais amável
não existiria a guerra
não existiria a indiferença

com um cachorro um aprende todos os dias
como devemos ser mais agradecidos
como valem pouco as coisas materiais
que devemos ser mais humildes
que quando uno pasa para o outro lado
tudo fica aqui

e eu sempre recomendo
que se alguém quer ficar mais feliz, não ter depressão
tem que ter um cachorro

La salsa

(com Isis Parra)

a salsa é um ritmo de música
que não é de Venezuela realmente
ela é muito rica, um ritmo muito amplio

tem um movimento que se chama salsa de nueva iorque
que tem um sonido aspero, bem marcado
um pan-pan que é muito marcado

tem também um salsa mais romântica
que na Venezuela se chama salsa erótica

las letras da salsa brava (ou salsa vieja)
tem vida religiosa
tem política, como protesta
e também da vida diária
(por exemplo, tem uma que fala do limoneiro)

mas a salsa erótica
tem um ritmo mais tranquilo
e toda a letra é com respeito a sexualidade
a relação entre pessoas
fala de hotel
quando te conocí te llevé al hotel
mas de certo modo romántico

se diz que é dançada en una baldosa
porque se dança muito perto um do outro

a salsa tem também um ritmo que é muito dominicano
muito alegre
que pode falar das alegrias da vida
um ritmo mais movido, que você pode dançar mais rapidinho

a salsa é um ritmo musical muito grande
muito rico, muito maravilhoso
porque você pode se expressar de diferentes maneiras

se você gosta de dançar solto, pode dançar salsa
se gosta de dançar pertinho, pode dançar salsa

na Venezuela se dança muita salsa
merengue, paso doble en la hora loca
(a las doce de la noche)
Melodicos
Billos Caracas Boys
una música más 70
quinze años
en una boda siempre hay
música de orquestra

el sonido urbano, reggaeton, también hay
pero la salsa...

en Caracas hay una salsa baúl
(como baúl de recuerdos)
que no es tan vieja como la salsa de los 70
y también no es como la salsa erotica

hay la salsa de Puerto Rico, que es diferente
hay la salsa de Nueva Iorque, que es diferente
no me gusta la salsa baúl, ni la erótica
quando salímos y era solamente eso
no bailé, no dançamos nada
porque no hay diversión


la salsa de los 70 tiene un modo diferente de bailar

con la salsa 70
yo siento alegría
me siento desinibida
você pode se expressar
você pode dançar livre
você está girando
e sinto que posso ser eu
e não paro

sábado, 11 de agosto de 2018

Caffe-Bar Barila

quase não há movimento
os carros passam na rua de tijolos
e deixam um barulho distante
pouca gente no bar
uma senhora sozinha
com muletas apoiadas
buscando que o tempo não passe
para não ter de voltar à sua solidão
uma mulher de voz irritante conversa animadamente
com sua avó
que ouve e sorri
três jovens conversam quem sabe sobre o quê
e duas senhoras relembram histórias
para revivê-las novamente

essas são as quatro mesas
no balcão três homens, uma mulher e uma televisão
um deles deve ser o dono
atende os clientes
recebe o pagamento
os jovens se vão
a senhora das muletas
se levanta com dificuldades e parte para um novo abismo
em seu lugar um homem toma café e olha a praça da rua Pirotska
apenas algumas folhas poucas
algumas latas de lixo
e passantes de fim de tarde

todos fumam
a Clarisse vê um filme no celular
eu escrevo
sem muita certeza porquê
o Búlgaro é incompreensível
passa o tram 22
vermelho e branco, de número 4148
na outra direção vem o 22 de número 4160
um avião levando sonhos

o senhor me intriga
na falta de nome
vou chamá-lo de Bóris
sua cabeça já branca
segue os passantes
e balança como aquelas tartarugas de lembrança
sempre dizendo sim sem muita razão
seu café é tomado de gole em gole
não vejo seus olhos
me pergunto se eles perguntam ou afirmam
suas mãos estão cruzadas
parece que já superou sua cota de preocupações
e agora espera paciente
o fim dos dias

um rock toca ao fundo
mais dois amigos sentam no balcão
temos o Bóris, a neta e a avó,
com o rosto da bondade
em seu sorriso calmo e olhar morno
as duas senhoras
que guardam um sorriso de vida
e várias conversas completamente incompreensíveis no balcão

agora a Clarisse está estudando
ela está preocupada com o mestrado
o Bóris olha os aviões passando
talvez os pense caindo
talvez se pense fugindo
ou talvez já saiba
que não se foge da morte

por aqui todo mundo fuma
o alfabeto é cirílico
e seu inventor um santo
e os cachorros passeiam nos parques, ônibus e metrôs
por aqui as fronteiras são novas mas as dores são velhas
por aqui o sol banha os prédios otomanos, imperiais, comunistas e capitalistas
indistintamente
por aqui também se ouve Pearl Jam
enquanto a vida passa não querendo passar

o Bóris se levantou
levando sua xícara
(foi o único daqui que o fez
não sei se por intimidade ou cortesia)
seus olhos são cinza-escuros
cruzaram os meus e se foram
seu rosto é marcado
seus anos já pesam

agora temos duas mesas
e o balcão
passa o tram 20, 4145
na outra direção o 22, 4169
para um ônibus de turismo
buscando o Sveta Sofia
está a duas quadras
mas a praça das poucas plantas e latas
de lixo não o deixa passar

hoje eu fiz a barba
no primeiro salão que me recebeu
a navalha no meu pescoço cortava afiada
guiada por um iraniano
simpático
perguntei da sua família
it's there
e como está lá
difícil, light, one or two hours a day

penso no Bóris
já com um pouco de saudades
queria ouvir suas histórias
talvez escrever um poema com elas
ou talvez só sorrir e chorar
queria ouvir a sua voz
ele que nessa meia hora não abriu a boca
talvez só para suspirar pela sombra das folhas na praça
outro dia o Eucanaã disse
que prefere o seu Yuri
também gosto do meu Bóris
ainda que mudo e distante

ele deve estar em casa já
não mora longe
talvez na Stefan Stombolov
deve estar sentado de meias
olhando o mundo de sua varanda
sua mulher faleceu dez anos
atrás, de câncer
seus filhos foram para a Alemanha
ganhar a vida
ligam no natal e aniversário
o Bóris sente saudades
dá época em que o mundo fazia sentido
ou talvez da época em que as coisas não fossem
tão complicadas
ele dorme pouco
mas não gosta de comprar pão pela manhã

o Bóris foi se deitar
já sonha com sua mãe o abraçando
e abre um sorriso de canto de boca
Alive continua tocando
chegam outras pessoas
minha cerveja acabou
já volto

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

revolução

enquanto a bastilha não cair
continuaremos nossa parca dieta
água e brioches
apenas alguns
lançados das varandas dos arranha céus
tão mais distantes do povo
quanto conseguirem

enquanto a bastilha não cair
continuaremos a ser mortos como moscas
pela mais valia, coerção, medo
ou apenas pura vileza
daqueles esquecidos
do sal da terra que os formou

enquanto a bastilha não cair
lutaremos por um espaço de fala
que já deveria ser nosso
lutaremos por um corpo
que nunca deveria ser dócil
fugiremos de balas de borracha rumo a nossos olhos
cassetetes em nossas costas enquanto caídos
bombas de efeito moral em nossos rostos
chutes na barriga no rosto nas bolas nos peitos
torturas oficiais
tentando nos aquebrantar

enquanto a bastilha não cair
seremos escravos sonhando ser livres
jardim sonhando ser selva
felinos sonhando panteras
cães em seus sonhos de lobo
uivando de desespero

enquanto a bastilha não cair
nosso sangue será brinde de poucos
nossa voz a de loucos
e os seus ouvidos moucos
e a sua soberba de doutos
seremos água e óleo
com nossa dureza de chumbo

ah, mas quando ela cair -
pode não ser amanhã nem depois
nem depois de depois de amanhã
mas ela há de cair -
ficaremos face a face com as nossas dúvidas
decidiremos o que quando como porquê
aboliremos fronteiras moedas países
exércitos armas prisões
seremos flecha e arco
buscando o horizonte

quando ela cair
não poderemos permitir a guilhotina
o mínimo vácuo de poder
(não existe vácuo em contato com o ar)
as explicações e explicadores totalizantes
os donos de qualquer coisa que não seja o seu próprio destino
e então festejaremos os dias e as noites
e dançaremos com ou sem luz
e nos consumiremos inteiramente
e criaremos filhos que só conhecerão o que é liberdade
pois nunca terão vivido
em regime de opressão

e eles sonharão suas novas utopias
terão suas novas palavras de ordem
descobrirão novas injustiças
farão sua nova revolução
rumo a um caminho inconcebível para nós
até o fim dos dias, do Tempo
ou do planeta

terça-feira, 7 de agosto de 2018

consolo

todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
seja império ou colônia
democracia
de verdade ou mentirinha
totalitarismos
pequenos ou grandes
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe

todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
podemos dormir alimentados
com sede
ou com fome de dias
podemos dormir sob um teto
sob as estrelas ou uma ponte
podemos ter nossos corpos
à nossa disposição
ou continuarmos dóceis
sob algum Estado ou instituição
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe

todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
podemos ainda usar dinheiro
desigualmente
ou então solidariedade
podemos conviver com muitas espécies
ou as termos dizimado
podemos ser uma grande união
falando esperanto ou a novalíngua
ou então quinhentos países irrequietos
podemos fazer a guerra atômica
ou a seguinte
de paus e de pedras
pode existir a camada de ozônio
ou apenas algumas manchas
esparsas
podemos ainda pisar sobre a Terra
ou sermos areia
pode ainda haver sonhos
ou só tempestade
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe