sábado, 26 de abril de 2014

Os Grandes

Estar perto dos Grandes
É nunca estar sozinho.
É sentir na angústia deles
O eco das suas angústias,
É perceber nas questões deles
As suas mesmas questões,
É encontrar em inóspita estepe,
Ainda que longe,
Alguém.

Mas estar perto dos Grandes
É afastar-se dos pequenos.

E quem aquecerá a gélida noite?
Quem afagará carinhosamente?
Quem aceitará e dará o perdão?
Não são os Grandes,
Esses com sua impessoalidade
Esfriam o coração frio,
Atormentam o ser atormentado,
Esticam a corda já tesa.

Instaurado o dilema,
A liberdade de escolha se impõe:
Qual rumo tomar?
Andar em qual direção?

Seja pequeno, seja Grande,
Seja quem tu és!

Nós, que escolhemos o lado dos Grandes,
Como solitários lobos caminhando,
Como sorridentes ermitões abandonados,
Subimos os grandes montes e vemos mais longe,
Vemos mais tristeza e mais beleza,
Vemos mais dores e mais amores,
E respondemos à Grande pergunta -
'Quem és tu?' -
Com a única coerente possibilidade:
'Eu sou'.

Ser é algo completo em si mesmo.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Círculo

Após um cemitério de mortas folhas,
Um tapete da cor do poente -
Contra Ela não há escolha -
Chega o frio que a alma sente.

Congeladas lágrimas que não caem,
Graves gritos que não saem,
Austral horizonte que só traz
Sussurros e agonias.

Os dias se tornam escuros,
As noites são um longo infinito,
O açoite do vento deixa aflito.
Os frios olhares proximamente distantes,
A saudade de voltar a ser como antes.

Mas as nuas árvores renascem,
As fundas olheiras se esvaecem,
As cruas lembranças fenecem,
Face à profunda comunhão.

Eis que então surge com seu vigor,
Eis que se esvazia o peito da dor,
Eis que o negrume se curva a seu calor,
E vemos no puro riso da criança
A atendida esperança, chegou o verão.