terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Abismal Companhia

Cedo ou tarde ele vem
Por mais que tentemos nos esconder
Por mais que finjamos não o ver
Queiramos ou não somos reféns

O negro fantasma da solidão
Não perdoa, inclemente
O bem quisto ausente
É suficiente condição

Mais eis que chega o dia
Quando de repente o abraçamos
Muito gentilmente o tratamos
Ele, surpreso, desconfia

Lhe entregamos nosso maior valor
Mostramos o que corre em nossas veias
De presentes suas mãos cheias
O fazem ficar sem dissabor

De início ele gosta de tantos mimos
De início ele sorrindo se recosta
Mas esse cuidado frustra sua aposta
Não acostumado a modos tão finos

Então assim como chegou ele parte
Em busca de alguém que dele fuja
Fica à espreita como a noturna coruja
Esperando o momento de mostrar sua arte

Sua ausência quase não se nota:
Transbordamos de nós e somos
Nos banhamos de chuva e vamos
Ficamos felizes em companhia nossa

Números

Cansada de sua rotina, pensava constantemente no que poderia libertá-la. Um novo amor? Mais viagens? Festejar com as amigas? Nada disso trazia uma mudança significativa, já havia tentado muitas vezes. A alegria do novo se dissipava na sistematicidade do seu dia a dia. Discutia com sua consciência e se consolava repetindo para si mesma que aluguel não se paga sozinho. Não era suficiente, não havia sentido, seus olhos estavam se tornando opacos.
Era funcionária de repartição. Carimbos, relatórios, instruções, memorandos, despachos, encaminhamentos, solicitações, e-mails, faxes, telefonemas, setor de serviços especiais bom dia, boa tarde setor de serviços especiais em que posso ajuda-lo, 1430 boa tarde setor de serviços especiais. Papeis, papeis, papeis. O computador a ajudava em sua organização, mas a quantidade de processos aumentava inclemente.
Segunda-feira não se encontravam sorrisos na repartição, a sombra do fim de semana escurecia as almas. Seu crachá de identificação trazia a marca do jugo: número de cadastro 1430. Retirá-lo da bolsa na negra segunda era a certeza de que os próximos cinco dias seriam longos.
O número de cadastro era utilizado para todas as solicitações e serviços da repartição. Pedido de cópia? 1430. Envio de documento? 1430. Despacho urgente? 1430. Às vezes atendia o celular e respondia sem pestanejar: 1430 bom dia. A dúvida do outro lado da linha trazia a lembrança de seu nome, muitas vezes perdido em uma pilha de papeis.
Estava em casa preparando a janta quando uma reportagem despretensiosa chamou sua atenção. Um motorista havia sido preso por adulterar sua placa com uma singela fita isolante, trocando o 0 por um 8. Surgiu instantaneamente um sorriso de canto de boca, os olhos se fecharam um pouco.
No dia seguinte suava em bicas ao chegar ao prédio tão conhecido. Sacou o crachá com as mãos tremendo. Não sabia o que poderia acontecer, foi só um equívoco, foi sem querer, não se repetirá, mas o frisson das possibilidades lhe fazia seguir em frente. Respirou fundo e de olhos fechados posicionou o crachá em frente ao leitor ótico. Um bip eletrônico. Quando voltou a si viu a mensagem na tela de cristal líquido: Bom Dia 1438, Elevador 3.

As intermináveis reuniões ocupavam quase toda sua agenda. Ia de sala em sala como fugidios beijos carnavalescos vão de boca em boca. Todos queriam saber sua opinião, o silêncio imperava quando começava a falar, elogios se acumulavam em sua gaveta. A mesa limpa, papeis que podiam ser contados nos dedos, aprendera a delegar e a se fazer obedecer.
Sua ideia havia sido um sucesso, nunca imaginara trabalhar no 18º, andar destinado apenas aos membros daquela elite que só conhecia de longe. O elevador a conduziu até a recepção da diretoria, esse tempo, que calor, uma pergunta de soslaio, os engarrafamentos estão piorando, e descobriu onde era sua nova sala.
Nas primeiras semanas uma alegria misturada ao medo de ser descoberta tomava conta de si. Ninguém pareceu perceber: todos a tratavam com decoro e se descobriu confortável nessa nova posição.
Entretanto os meses foram passando, sua nova rotina era deveras corrida, se cansou de ter de sorrir sempre. Nada conseguia tirar uma ideia da cabeça: 1488. Por que não?
Nunca poderia imaginar que esse movimento não teria volta, um passo que iria transformar sua vida para sempre. Comprou tinta especial e com a prática suas delicadas mãos conseguiam escrever qualquer número.
Deixou de ficar muito tempo em cada lugar, mudava constantemente. Havia estabelecido que o prazo máximo era de uma semana e assim em um mesmo mês carimbava, carregava documentos, dava ordens, elaborava petições, assessorava reuniões, juntava papel reciclável.
Certo dia sua entrada foi bloqueada pelo leitor ótico. Um olhar de espanto rapidamente disfarçado com um sorriso nervoso. De novo. 2531. Negado. Antes que os seguranças percebessem voltou correndo para casa pensando no que teria acontecido. Será que havia sido descoberta, e agora, o aluguel, as contas da casa, o plano de saúde de sua mãe doente, o que fazer, se entregar, fugir?
Pouco mais de uma hora depois, mais calma, se lembrou de um detalhe quase insignificante: sua repartição possuía 2322 funcionários. Escreveu um novo número de cadastro, utilizou o secador de cabelo para terminar o trabalho mais rápido e nervosa como do primeiro dia enfrentou o leitor ótico. Um bip eletrônico, Bom Dia 1762, Elevador 5.
Os meses se passavam e ela já havia se acostumado a sua nova rotina. Às vezes, por coincidência, trabalhava no mesmo setor por semanas seguidas, apenas trocava a mesa onde estava sentada. Entediada por já conhecer todos os setores da repartição começou a pensar se valeria a pena voltar para alguns números que gostara, possuía uma lista com os 10 que mais lhe agradaram. Uma ideia a atingiu de frente. Sorriu.
Dia seguinte, Bom Dia -320, Escada 3. Deu certo. Curiosa foi então descobrir onde isso iria levá-la. Encontrou um setor onde todos eram segunda pela manhã, não aguentou nem uma semana. Bem, se esse número funcionou...
Bom Dia, 5/8, Elevador Expresso 2. Foi parar no Setor de Engenharia. Calculadoras, planilhas, projetos, cronogramas, orçamentos.
Bom Dia, √2, Esteira 1. Setor de Relações Governamentais.
Bom dia, 2i, Tobogã 2. Setor de Criação de Novos Projetos. Oompa loompas com seus cabelos verdes andando de um lado para o outro.
Bom dia, 5i + 3, À Direita no Elevador 3 subir um Lance da Escada 2 e em seguida Deslizar pelo Escorrega 5. Planejamento Estratégico.
Resolveu arriscar, as possibilidades do novo eram muito superiores às garantias do que já havia descoberto. Bom dia, 0. Elevador 1. Tudo bem minha senhora? diz o prestativo ascensorista, o primeiro que havia visto na repartição. Saiu na cobertura do prédio, o entorno envidraçado permitia ver todo o centro da cidade. Diretoria Geral.
Já chegara até aí, precisava da derradeira tentativa. Era mais forte que ela, não conseguia conter a vontade que tomava conta de si. Desenhou cuidadosamente oo  em seu crachá e despediu-se de casa.
Pensava em sua família, namorados, grandes amigas, viagens longas, livros, festas. O tempo passava incessante do lado de fora da repartição. Lembrou-se de seu nome, quase não o utilizava mais, deixava-o anotado na porta da geladeira para não se confundir.

Encostou o crachá no leitor ótico, a tela se desligou. Uma a uma as luzes se apagaram, todos correram para ligar seu celular e não ficar no escuro. Com um semi-sorriso ela deu meia volta e depositou o crachá na caixa de achados e perdidos.

Em Frente

Naqueles momentos das Grandes Perguntas
Quando não se sabe mais dizer Eu
Quando não se sabe como nem por que
Quando a alma se abre e nada vê
É preciso em frente seguir

A noite só existe pois não é dia
Você só existe pelo devir
Ao negrume dessas intermináveis horas
Com a pureza da virginal infância
Se seguirão ensolaradas manhãs

Pois então quando suas chagas
Estiverem abertas purulentas
Jogue-lhes álcool e aplaque a infecção!
Ninguém de dor morreu
Só se morre de doença e de ignorância.