Cansada de sua rotina, pensava
constantemente no que poderia libertá-la. Um novo amor? Mais viagens? Festejar
com as amigas? Nada disso trazia uma mudança significativa, já havia tentado
muitas vezes. A alegria do novo se dissipava na sistematicidade do seu dia a
dia. Discutia com sua consciência e se consolava repetindo para si mesma que
aluguel não se paga sozinho. Não era suficiente, não havia sentido, seus olhos
estavam se tornando opacos.
Era funcionária de repartição.
Carimbos, relatórios, instruções, memorandos, despachos, encaminhamentos,
solicitações, e-mails, faxes, telefonemas, setor de serviços especiais bom dia,
boa tarde setor de serviços especiais em que posso ajuda-lo, 1430 boa tarde
setor de serviços especiais. Papeis, papeis, papeis. O computador a ajudava em
sua organização, mas a quantidade de processos aumentava inclemente.
Segunda-feira não se encontravam
sorrisos na repartição, a sombra do fim de semana escurecia as almas. Seu
crachá de identificação trazia a marca do jugo: número de cadastro 1430.
Retirá-lo da bolsa na negra segunda era a certeza de que os próximos cinco dias
seriam longos.
O número de cadastro era
utilizado para todas as solicitações e serviços da repartição. Pedido de cópia?
1430. Envio de documento? 1430. Despacho urgente? 1430. Às vezes atendia o
celular e respondia sem pestanejar: 1430 bom dia. A dúvida do outro lado da
linha trazia a lembrança de seu nome, muitas vezes perdido em uma pilha de
papeis.
Estava em casa preparando a janta
quando uma reportagem despretensiosa chamou sua atenção. Um motorista havia
sido preso por adulterar sua placa com uma singela fita isolante, trocando o 0
por um 8. Surgiu instantaneamente um sorriso de canto de boca, os olhos se
fecharam um pouco.
No dia seguinte suava em bicas ao
chegar ao prédio tão conhecido. Sacou o crachá com as mãos tremendo. Não sabia
o que poderia acontecer, foi só um equívoco, foi sem querer, não se repetirá,
mas o frisson das possibilidades lhe fazia seguir em frente. Respirou fundo e
de olhos fechados posicionou o crachá em frente ao leitor ótico. Um bip
eletrônico. Quando voltou a si viu a mensagem na tela de cristal líquido: Bom
Dia 1438, Elevador 3.
As intermináveis reuniões
ocupavam quase toda sua agenda. Ia de sala em sala como fugidios beijos
carnavalescos vão de boca em boca. Todos queriam saber sua opinião, o silêncio
imperava quando começava a falar, elogios se acumulavam em sua gaveta. A mesa
limpa, papeis que podiam ser contados nos dedos, aprendera a delegar e a se
fazer obedecer.
Sua ideia havia sido um sucesso,
nunca imaginara trabalhar no 18º, andar destinado apenas aos membros daquela
elite que só conhecia de longe. O elevador a conduziu até a recepção da
diretoria, esse tempo, que calor, uma pergunta de soslaio, os engarrafamentos
estão piorando, e descobriu onde era sua nova sala.
Nas primeiras semanas uma alegria
misturada ao medo de ser descoberta tomava conta de si. Ninguém pareceu
perceber: todos a tratavam com decoro e se descobriu confortável nessa nova
posição.
Entretanto os meses foram
passando, sua nova rotina era deveras corrida, se cansou de ter de sorrir
sempre. Nada conseguia tirar uma ideia da cabeça: 1488. Por que não?
Nunca poderia imaginar que esse
movimento não teria volta, um passo que iria transformar sua vida para sempre.
Comprou tinta especial e com a prática suas delicadas mãos conseguiam escrever
qualquer número.
Deixou de ficar muito tempo em
cada lugar, mudava constantemente. Havia estabelecido que o prazo máximo era de
uma semana e assim em um mesmo mês carimbava, carregava documentos, dava
ordens, elaborava petições, assessorava reuniões, juntava papel reciclável.
Certo dia sua entrada foi
bloqueada pelo leitor ótico. Um olhar de espanto rapidamente disfarçado com um
sorriso nervoso. De novo. 2531. Negado. Antes que os seguranças percebessem
voltou correndo para casa pensando no que teria acontecido. Será que havia sido
descoberta, e agora, o aluguel, as contas da casa, o plano de saúde de sua mãe
doente, o que fazer, se entregar, fugir?
Pouco mais de uma hora depois,
mais calma, se lembrou de um detalhe quase insignificante: sua repartição
possuía 2322 funcionários. Escreveu um novo número de cadastro, utilizou o
secador de cabelo para terminar o trabalho mais rápido e nervosa como do
primeiro dia enfrentou o leitor ótico. Um bip eletrônico, Bom Dia 1762,
Elevador 5.
Os meses se passavam e ela já
havia se acostumado a sua nova rotina. Às vezes, por coincidência, trabalhava
no mesmo setor por semanas seguidas, apenas trocava a mesa onde estava sentada.
Entediada por já conhecer todos os setores da repartição começou a pensar se
valeria a pena voltar para alguns números que gostara, possuía uma lista com os
10 que mais lhe agradaram. Uma ideia a atingiu de frente. Sorriu.
Dia seguinte, Bom Dia -320, Escada
3. Deu certo. Curiosa foi então descobrir onde isso iria levá-la. Encontrou um
setor onde todos eram segunda pela manhã, não aguentou nem uma semana. Bem, se
esse número funcionou...
Bom Dia, 5/8, Elevador Expresso
2. Foi parar no Setor de Engenharia. Calculadoras, planilhas, projetos,
cronogramas, orçamentos.
Bom Dia, √2, Esteira 1. Setor de
Relações Governamentais.
Bom dia, 2i, Tobogã 2. Setor de
Criação de Novos Projetos. Oompa loompas com seus cabelos verdes andando de um
lado para o outro.
Bom dia, 5i + 3, À Direita no
Elevador 3 subir um Lance da Escada 2 e em seguida Deslizar pelo Escorrega 5.
Planejamento Estratégico.
Resolveu arriscar, as
possibilidades do novo eram muito superiores às garantias do que já havia
descoberto. Bom dia, 0. Elevador 1. Tudo bem minha senhora? diz o prestativo
ascensorista, o primeiro que havia visto na repartição. Saiu na cobertura do
prédio, o entorno envidraçado permitia ver todo o centro da cidade. Diretoria
Geral.
Já chegara até aí, precisava da
derradeira tentativa. Era mais forte que ela, não conseguia conter a vontade
que tomava conta de si. Desenhou cuidadosamente oo em seu crachá e despediu-se de casa.
Pensava em sua família,
namorados, grandes amigas, viagens longas, livros, festas. O tempo passava
incessante do lado de fora da repartição. Lembrou-se de seu nome, quase não o
utilizava mais, deixava-o anotado na porta da geladeira para não se confundir.
Encostou o crachá no leitor
ótico, a tela se desligou. Uma a uma as luzes se apagaram, todos correram para
ligar seu celular e não ficar no escuro. Com um semi-sorriso ela deu meia volta
e depositou o crachá na caixa de achados e perdidos.