sábado, 27 de outubro de 2018

Ho'oponopono

(com Thiago Rodrigues)

meu antigo relacionamento
nove anos com a ex
e um término traumático
nós quase vizinhos, com amigos
em comum, ela começou a sair
com uma pessoa próxima

a mãe dele, me dizia
Thiago, eu te entendo, se eu fosse
você, eu daria
um soco nele

foram três dias
de um período morte
consumido por uma energia negativa muito forte
eu cheio de ódio saí para correr

na volta, um amigo mandou
ho'oponopono

a ruptura abrupta
de certa forma inexplicável
do ódio à leveza
ho'oponopono

entoando esse mantraum estalo no corpo
uma quebra
ho'oponopono

domingo terminamos,
quarta a notícia do outro
sexta o mantra

após o ódio
um choro de felicidade
um riso
uma ligação para a minha ex
pedindo perdão pelos pensamentos

podem nos fazer mal
mas importa é como recebemos

como reagir ao outro?

então comecei a entender o não
julgar o não
criticar

um mês depois conheci minha esposa
atual, em um samba, a chamei Ana
Luisa, para dançar, e nunca mais
nos desgrudamos

uma sucessão de coisas maravilhosas
tem acontecido desde então
momentos maravilhosos
de energias boas
um ano juntos

meus sogros músicos, pessoas do bem

mesmo que um dia terminemos
nesse curto período de tempo em que estamos juntos
ela tem me ajudado a crescer como pessoa
como ser humano
e eu vejo o carinho que meu filho tem por ela

eu encontrei uma joia
uma água pura no deserto
o carinho, o amor e tudo que ela traz
de bom, um êxtase, uma efervescência
uma sensação de pura
felicidade

Coragem

(com P.R.)

minha mãe advogada
com um sócio
que começou a sabotá-la
assim que começaram a ganhar dinheiro

na briga
na divisão de processos
a princípio
era assim:
par de um lado
ímpar de outro
mas na calada da noite
ele desviava alguns para ele

ela o desmascarou
ameaçou abrir com barra de ferro o escritório
toda vez que ele fechasse

uma vez
minha mãe toda vestida de branco
roupa, blazer, sapato
cabelo com gel, com joia
em seu maior grau de vaidade

ela me disse:
hoje eu vou de branco
pois hoje quem vai me defender é Oxalá

nesse dia foi um matador de aluguel
no escritório
dois tiros
um na bochecha
e outro na escápula
mas apenas no músculo

minha irmã
que estava no cômodo
ao ver o sangue no blazer branco
gritou: ela morreu

ela abriu os olhos
e disse: não morri

minha mãe cheia de sangue
disse para o motorista da ambulância
passar em frente ao fórum

chegando lá, gritou:
A., eu vou te botar na cadeia!

ele foi preso
o irmão ficou foragido
e morreu

hoje minha mãe continua com o escritório

às vezes é meio loucura
ser corajoso
mas não podemos nos acovardar
em prol da verdade
e daquilo em que acreditamos

Primeira Vez

(com Paulo Sérgio)

eu sou de uma cidade pequena
lá do interior de São Paulo
no jardim perto de casa
na sombra da figueira
com onze anos
eu e um amigo
cujo tio trazia uns catecismos
ficávamos sentado na árvore
lendo aquelas revistinhas desenhadas
do Carlos Zéfiro

com onze anos
nunca tinha me masturbado
mas fiquei com aquele negócio na cabeça
aquilo ativava a imaginação
e fui tomar banho

pela primeira vez:
ejaculei
aquele negócio branco
pensei:
pequei!
pequei!

o mundo acabou para mim
fui para o inferno

saí do banheiro com cara de choro
e fui falar com meu pai

- pai, pequei
- pecou moleque?
- fui no banheiro
saiu um negócio branco
dentro de mim
- aaaah, para com isso
só vai com cuidado

no dia seguinte
começou a vida

Um Mexicano

(com Marine Gicqueau)

no México, em uma festa
chique
e esse banqueiro mexicano me disse
que queria mudar para os Estados
Unidos
e queria subir de nível

mas eu questionei
perguntei
por que você não quer
ficar no seu país
duvidando
dessa fascinação pelos Estados
Unidos

e ele me disse
para subir
ter um trabalho importante
é diferente da França
posso enfrentar
problemas de corrupção
chantagem
problemas com narcotraficantes

desde então percebi a minha sorte
que não enfrento os mesmos problemas
dos outros
e que existem razões imperceptíveis
à primeira vista
e que devo ouvir mais
sem julgamentos

domingo, 21 de outubro de 2018

a água implícita

(com Natasha)

o que eu mais desejo
o que eu mais tenho
vontade, é aprender a amar

ainda sinto
tanto medo
mas tanto medo
que não deixo
e não consigo
saber
sentir
perceber
qualquer coisa, como é o amor

eu não sei o que é amar

são quase 30 anos buscando
amor
amor
amor
amor

mas quando tu tem a troca
algo acontece com você

e às vezes eu fico pensando
que isso não é para mim

quero saber sentir o que eu sinto

viver com medo é viver sozinha

apenas um ano e meio
convivendo
compartilhando
intimidade

a busca
por mim ainda
não encontrada
é de alguém que me encontre em mim

pois isso é tudo o que eu desejo

só o que eu queria é o cotidiano
compartilhar com alguém
o cotidiano, compartilhar
o todo a vivência o amor

essa solidão absurda
que te deixa paralisada
em face do medo da resistência
da rejeição

tenho um desejo de estar com alguém
um desejo que me move
mas eu mesma me digo
- eu mesma minha inimiga número um -
que não mereço

um sentimento de atraso
uma demora para viver
uma corporidade tardia

apenas uma paixão na vida
com 25 anos
um não namorado incompreendido
da paixão que eu lhe dava

quando tu é mulher
tu não tem desejo tu não pode isso
e então vivi uma demora
para poder desejar

mas agora eu quero pele
eu quero pantufa
eu quero a história da tua vó
eu quero as tuas fotos de família
eu quero o teu dente quebrado na 6a série
eu quero amar
para não existir apenas
mas viver

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

a sinédoque gente

(com Álvaro Braga)

quando você se acha vivo
mas asombra o outro
algo que está morta
está muito mais viva hoje
como algo na história
ou outros tão escuros de luz
tornaram-se
pedra
o rinoceronte brutal
impermeável
de convivência mínima
quando você cospe no próprio coração da sala
um acovardar-se
para enfrentar o oceano
o resseio de se afogar
e de viver pela simplificação
um não amadurecimento talvez
de despossuir
ficar nu
de um mínimo preconceito
de nunca experimentar uma minimamente nova possibilidade
um bombom mínimo
deixado ao lado
um enxergar um pouco além do mínimo
a simplificação extrema dos modos de vida
um não viver nunca uma rota de fuga
que se esquece
do versículo

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Maria vai?


(com Álvaro Braga)

essa viagem foi maneira para caralho
fudemos nossa coluna
mas vivendo mais intensamente com outra pessoa
criamos um vínculo com essa pessoinha
que talvez seja indissolúvel para sempre
aquelas coisas que vão ficar muito marcadas a ferro e fogo

a viagem foi linda pela possibilidade de estranhamento
ser um alienígena de nós mesmos
forçar alguma coisa que possa ser boa
após a barreira inicial
ser intenso no usufruir
ao brincar no parquinho
no videogame
no mergulho naquele momento
absoluto intenso com a pessoa o lugar
a potencialidade máxima do ser vivo
conectando-se com todas as dimensões

mas voltamos e somos macacos sem psicanalista
que necessitamos
de forma
ur
   gen
          te
                canalizar a nossa pouca sapiência
                                                                          para aprender a viver junto

o limiar que separa
as crianças
                   dos adultos
os covardes
                    e os fortes
aqueles que optamos pelo caminho mais difícil
                                                                             já que há um caminho que precisa ser trilhado

se tivesse
                 pensamento crítico
                                                 será que Maria
                                                                            iria com as outras?

Disco Voador

(com M.F.)

os dias de hoje estão
imersos em uma avalanche
rinocerôntica
e a pergunta
que vale um
milhão de dólares
como não alimentar
os rinocerontes?
como não deixá-los proliferar?

essa falta incorrigível
de formação ética
limita qualquer possibilidade
de qualquer problema econômico

esse pêndulo
até que talvez paremos de rodar essa Terra
e repensar os nortes
porque senão
além do fundo do poço
um pântano pegajoso incaminhável irrespirável enxofre um peso nos braços um barro no seu olho
mas aberta a possibilidade
incansável de novos modos de vida
que possam fazer uma quebra
no mundo
para transformá-lo
verdadeiramente
em um paraíso
essa sorte tão grande de uma posição nem tão
perto nem tão
longe do sol
de estar nessa sorte incrível sem perceber
de um bilhete de loteria
premiado
dentro da gaveta
- esquecemos que jogamos -
uma sorte cósmica incrível

(com C.L.)

a sorte
é a possibilidade
de após fazer tantas merdas
e ainda se dar bem
e ser feliz
e sair bem na fita
não ser prejudicado
por fazer tudo o que é contrário ao normal

na minha adolescência
uma amiga porra-loca total
adolescente em Carangola de Minas
família tradicional brasileira
ela saía descompromissada
e os pais não descobriam
e eu não acreditava
e eu inveja
sem poder sair daquele mundo
Carangola de 30 mil habitantes
aquela cidade onde hoje
passeata pró
Bolsonaro
meu pai
por ignorância
mas meu irmão
por mau caratismo
que só agora
eu vi acontecer
de forma tão latente
na minha adolescência
uma menina rebelde
que já questionava
tudo
sem com quem extravazar
até chegar no Rio com 18 anos

então na FND
me descobri
como pessoa, toda a realidade
do mundo, toda a política
e me formei no bar
nas conversas
os amigos até hoje
há outros 18 anos

uma metade tentando se libertar sem conseguir
a cidade inteira vendo novela às 21:00
contestadora de não poder sair por ser mulher
e a outra metade
perseguindo um mínimo de justiça social
igualdade, fraternidade
não a liberdade americana
mas uma liberdade social
à educação cultura saúde
não aguentar ver nenhuma criança em estado de pobreza
quem sabe evoluí
mas espero ser melhor amanhã
para ser um pouco mais feliz
pela felicidade do outro

Tiagão Punk

(com F.)

em Sorocaba
você andava à tarde
e encontrava umas pessoas
meio doidas na rua

e era uma vez o Tiagão
qual Tiagão?
o Tiagão Punk


ele não tinha família
saiu de casa cedo
por ser punk
e andava muito doidão
com algum disturbío

ele andava meio indignte
sempre se virando na vida
enorme gordão careca
sempre em todos os shows de punk

durante o dia você esbarrava
em qualquer rua do centro de Sorocaba
naquelas oito ruas por oito
o Tiagão Punkum quase vereador

ele andava com uma ratazana de laboratório
branca amarrada em uma coleira
dada por um amigo

de repente um tio dele morreu
deixou uma grana de herença
ele comprou um parque de diversões
ao lado do Shopping Sorocaba

ele, mestre de cerimônias do parque
liberava a catraca para meninos de rua
e gente mais pobre

mas as lojas
tinham contratos antigos
e não gostavam
e tinham prejuízo
com os novos frequentadores

um dia
assassinaram ele
dentro do parque
e tudo levou a crer
que foram os donos
das lojas

desde então
uma profusão de discos punk

em homenagem a ele

em 2017 reuniram a galera que conhecia ele
vários punks velhos se encontraram lá
e todos ficaram lembrando deles
e fizeram uma playlist de músicas
e choraram juntos
em homenagem ao Tiagão

um catálogo de contos surreais
as mil e uma noites
do herói anônimo
de Tiagão Punk

Bom senso

(com Paula)

ontem
após a conferência com os Seus Putos
que denunciam as práticas genocidas no Rio
de Janeiro, as meninas perguntaram para o público:
quando vocês se sentiram trouxa?

por exemplo:
eu me sinto trouxa
quando eu entro no ônibus e ele custa R$ 3,85
e me faltam dez centavos

voltando para casa eu lembrei de quando meu cachorro
teve um problema para o estômago
no fim de semana logo antes da minha prova para entrar no mestrado

era muito forçoso dar água dar comida
alimentada apenas no soro pelo veterinário

meu cachorro não queria se separar de mim
meu pai aceitou levá-la ao veterinário:
não se preocupa, vou resolver isso
a prova
é importante para você

mas não o fez
ele se enrolou para levar o cachorro doenteao ir no mercado e ver promoção de cerveja

eu me senti muito trouxa
de ter dado essa confiança

após a conversa franca, apesar da falta
de bom senso ele passou
a ter mais responsabiliade
uma semana depois
apesar do soro e da promoção de cerveja
ela se recuperou

Judô

(com E.I.C.)

quando eu tinha uns 4
ou 5 anos, minha mãe queria
menina balé
menino judô

meu irmão, dois anos mais velho
foi seguir o seu destino
e fazer judô
em uma turma só de meninos
eles correndo no tatame
descalsos
algo muito tão mais livre  leve
que a minha aulinha de balé

após muito bater o pé
na Rua Emmanuel Kant
onde morava
comecei a frequentar o Lar de Meninos Bom Caminho
onde eu e meu irmão íamos para a aula
de judô

o sensei Neuri
ficou encantado
e começou a trazer as filhas
desestabilizando o gênero dominante

eu virei a mascote daquela turma
uma criança muito fofa de franja grande bota ortopédica bochecha grande e sorriso trincado

as pessoas se definem
nome idade endereço profissão
elementos teoricamente dominantes do sujeito

quando olho para a minha trajetória
eu penso: sou judoca
apesar de uma tendinite patelar
que repete a dor
ite ite ite ite
como algo marcado no meu corpo

nós somos muitas coisas
mas o que eu mais gosto de dizer sobre mim
mesma, é que sou faixa preta de judô
um orgulho de me sentir desbravadora
um corpo estranho, forasteira
para algo que sempre deveria ser
normal em nossa sociedade
patriarcal