quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Judô

(com E.I.C.)

quando eu tinha uns 4
ou 5 anos, minha mãe queria
menina balé
menino judô

meu irmão, dois anos mais velho
foi seguir o seu destino
e fazer judô
em uma turma só de meninos
eles correndo no tatame
descalsos
algo muito tão mais livre  leve
que a minha aulinha de balé

após muito bater o pé
na Rua Emmanuel Kant
onde morava
comecei a frequentar o Lar de Meninos Bom Caminho
onde eu e meu irmão íamos para a aula
de judô

o sensei Neuri
ficou encantado
e começou a trazer as filhas
desestabilizando o gênero dominante

eu virei a mascote daquela turma
uma criança muito fofa de franja grande bota ortopédica bochecha grande e sorriso trincado

as pessoas se definem
nome idade endereço profissão
elementos teoricamente dominantes do sujeito

quando olho para a minha trajetória
eu penso: sou judoca
apesar de uma tendinite patelar
que repete a dor
ite ite ite ite
como algo marcado no meu corpo

nós somos muitas coisas
mas o que eu mais gosto de dizer sobre mim
mesma, é que sou faixa preta de judô
um orgulho de me sentir desbravadora
um corpo estranho, forasteira
para algo que sempre deveria ser
normal em nossa sociedade
patriarcal