Que há poesia no sublime,
Disso o mais cético não desconfia.
Não é necessário algo que legitime:
A elevada poesia é filosofia.
Também já se descobriu poesia no baixo:
As flores que nascem no fértil esgoto,
O poético e lamacento compromisso
De ver a beleza em imundo pano roto.
Mas será que há poesia no não poético?
Será que há poesia em um mancal de rolamento,
Em uma interminável tabela Price,
Em uma rotina que embota,
Em uma adutora?
Há uma proposta sedutora:
A poesia pelo olhar faz-se,
A realidade tudo comporta,
Não há que se dizer lamento,
Vendo o todo, tudo é poesia.
Seria então um problema de escala?
Seria então um problema de visão?
Tentadora e rasteira fala.
Quem não frequenta a escola
Da vida, quem não viu o mundo
Defende semelhante gaiola.
Será que se pode cantar
O não poético?
Desfolhar o belo singelo
Que em si carrega e louvá-lo?
Em versos valorar a sua entrega?
Destacá-lo de seu contexto
E em poético texto cantá-lo?
O não poético é a não poesia.
Sua poesia, existindo, é apenas projeção.
Mas o não poético não perde valor
Por não ter poesia.
O não poético é a afirmação da dor
Latentemente constante em nosso dia a dia.
O não poético é a fome
De sentido.
O não poético é a mãe insone
Que o filho perdeu.
O não poético é a realidade mais pungente que a poesia.
Ele existe, ele está lá.
O não poético insiste em se afirmar,
Mas assim como a cor branca é branca
Perto da cor preta
E existe o mar
Porque não é terra, fogo nem ar,
O não poético torna mais poética a poesia,
Não é preciso vê-la em astronômica luneta.
Lado a lado com a poesia, o não poético
Reforça o estético deleite de existir.