Não quero uma poesia fria,
Cautelosamente distante.
Descolada do sentir,
Afastada do viver,
Despreocupada com as preocupantes ocupações,
Despreparada e despreparando o homem.
Quero a poesia do instante.
Que ajude no devir,
Que ajude a ver,
Que se esqueça dos senões,
Suave cantar dos anjos que dormem.
As formas padrão? Usarei-as
Quando for belo
E a beleza pedir.
As rimas como grãos de areia
Se acumularão em cada canto singelo
Embalando o espírito no ir e vir.
As formas livres?
Por que não?
Estão aí para serem belas
E transmitir
O inconformável.
Quero a poesia como transbordar.
Nascida de profunda necessidade,
A humana condição
É seu ponto de partida.
Quero a metáfora precisa
Que atinge a fímbria
Da Verdade.
Repudio a palavra tíbia,
Oriunda de métrica sem razão,
Ou a palavra excessivamente polida
Perdida sua dourada folha.
Não há escolha:
A palavra exata
Se faz necessária
Por si própria.
Mas o que seria então o poeta?
Nada mais do que um simples mediador,
Um conjunto de poemas
Sem biografia.
A fonte de significações no leitor
Se encontra, a compreensão ele sempre acerta
Pois está em si e em seus temas,
Em sua biografia.
A poesia precisa ser útil
Também, sucinto gesto do pensar,
Pérola singela e precisa,
Guarda um saber importante,
Guarda um sabor inquietante
Como belo mas fútil vintém
Em descartá-la não se pode pensar.
Mas a utilidade por si só
É a morte da elevada delicadeza
Do cálido toque poético.
A poesia deve ter um quê de metafísica,
Mostrar o desenlace do íntimo nó,
Mostrar em plenitude a natureza,
Que permite profundo mergulho estético,
Que é simples e é certa,
Que nos abre à descoberta
Da íntima e sublime música.
Quero de Baudelaire as flores,
De Pessoa o rebanho e o campo,
De Florbela as dores,
De Vinicius o amoroso manto.
De Clarice suas brisas invernais,
De Drummond a de emoções embriaguez,
De Saramago a viva lucidez,
De Augusto seus anjos infernais.
Mas não os quero simplesmente dados:
Quero digeri-los e vomitá-los
Antropofagicamente.
Quero buscar o sentido,
Quero expandir as possibilidades
Do vir a ser.
Ir muito além do permitido
E subindo nas montanhas sem idade
Verdadeiramente ser.