terça-feira, 24 de abril de 2012

Escolhas

I

Estava voltando para casa depois de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios. Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.

Chegou em casa, abriu a porta devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava sozinha.

Entrou no quarto e viu-a com outro homem.

Gritava impropérios, xingava o homem de todos os nomes. Os dois começaram a brigar, rolaram no chão. Estavam na sala, retratos quadros vasos caindo e se despedaçando. O homem sacou uma arma do paletó que estava na cadeira e deu-lhe dois tiros. O sangue escorria, molhando as rosas que o marido trouxera, seria uma surpresa. Morreu na hora.

II

Estava voltando para casa depois de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios. Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.

Chegou em casa, abriu a porta devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava sozinha.

Sabia que simplesmente entrar no quarto não ia dar certo. Puxou a arma do paletó, descarregou-a. Guardava na cozinha um taco de beisebol, para emergências.

Entrou no quarto e viu-a com outro homem.

Não se deu o trabalho de abrir a boca. Depois de cinco minutos batendo no homem com o taco, deixou-o irreconhecível. Sentiu-se aliviado.

Sua esposa foi embora no mesmo dia. Uma semana depois, estava na portaria de seu prédio, indo para o trabalho. De repente parou em sua frente uma moto preta, dois homens. Foi tanta bala que o velório foi feito com caixão fechado.

III

Estava voltando para casa depois de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios. Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.

Chegou em casa, abriu a porta devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava sozinha.

Sabia que simplesmente entrar no quarto não ia dar certo. Puxou a arma do paletó, descarregou-a. Guardava na cozinha um taco de beisebol, para emergências.

Pensou, sabia que um flagrante não adiantaria. Revistou os bolsos do paletó, encontrou um cartão de identificação: Aquiles Barroso, Almirante. Anotou todos os dados, colocou-o de volta.

O taco deixou em um local visível. Saiu sem fazer barulho.

Aquiles não percebeu o taco, a mulher sim, mas preferiu não falar nada. Ele achou muitíssimo estranho sua arma estar descarregada mas apressado que estava pensou que era coisa da sua cabeça.

No mesmo dia, Odílio ligou para um amigo seu que era militar. Buscou saber mais informações sobre esse almirante, onde morava, se tinha família. Descobriu que a esposa dele estava buscando um professor de inglês. Estava um pouco enferrujado, mas nada impossível de contornar.

Marcou aulas nos horários de almoço. Era uma correria, mas valia a pena. Certo dia viu a filha de seu inimigo, linda como a mãe que já mostrava avanços na nova língua.

Cada dia se aproximava mais de seu objetivo. Conquistaria a esposa de seu inimigo, assim como ele havia feito com a sua, e iria mostrar que o melhor para todos seria fingir que nada havia acontecido. Todos retornariam para seus lares satisfeitos.

Seu projeto ia de vento em popa. Não percebeu que sua mulher começou a desconfiar, batom na gola da camisa, perfume de mulher. Pediu para Aquiles providenciar alguém que o seguisse. E que surpresa não foi quando descobriram onde Odílio passava seus horários de almoço.

Sabia que era uma vingança justa, mas mesmo assim Aquiles foi cruel. Ligou para algumas pessoas, arranjou a demissão de Odílio. Deixou-o na penúria, sem emprego, sem mulher. De sobra, contratou algumas pessoas para lhe darem uma surra.

IV

Estava voltando para casa depois de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios. Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.

Chegou em casa, abriu a porta devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava sozinha.

Sabia que simplesmente entrar no quarto não ia dar certo. Puxou a arma do paletó, descarregou-a. Guardava na cozinha um taco de beisebol, para emergências.

Pensou, sabia que um flagrante não adiantaria. Revistou os bolsos do paletó, encontrou um cartão de identificação: Aquiles Barroso, Almirante. Anotou todos os dados, colocou-o de volta.

O taco deixou em um local visível. Saiu sem fazer barulho.

Aquiles não percebeu o taco, a mulher sim, mas preferiu não falar nada. Ele achou muitíssimo estranho sua arma estar descarregada mas apressado que estava pensou que era coisa da sua cabeça.

No mesmo dia, Odílio ligou para um amigo seu que era militar. Buscou saber mais informações sobre esse almirante, onde morava, se tinha família. Descobriu que a esposa dele estava buscando um professor de inglês. Estava um pouco enferrujado, mas nada impossível de contornar.

Marcou aulas nos horários de almoço. Era uma correria, mas valia a pena. Certo dia viu a filha de seu inimigo, linda como a mãe que já mostrava avanços na nova língua.

Refletiu um instante, perguntou sobre a filha. Vinte e dois anos, fazia faculdade de música. Tocava flauta transversa. Alta, mãos delicadas. Não gostaria de estudar inglês? Pois sim, duas vezes na semana atendia a mãe, duas vezes atendia a filha.

Começou a se interessar por essa jovem mulher de um sorriso cativante. Sempre presente nas aulas, sempre trazia um novo tema. Ouvira Chopin, Rachmaninoff. Na pintura, gostava do modernismo. Baudelaire revolucionou a poesia, lera toda sua obra.

Que mãos delicadas. Longas, suaves. Pareciam dançar em cada movimento. Perdiam os contornos. Voz aveludada, um pouco rouca, levemente apenas. Lábios carnudos, um olhar penetrante.

Em menos de um mês esqueceu-se de Aquiles, esqueceu-se de sua esposa. Só pensava em suas aulas de inglês com aquela ninfa. A mãe se cansara, livrara-se do professor empurrando-o para a filha.

Odílio pediu o divórcio, não fazia mais sentido aquela relação. Engatou o namoro com sua flautista. Aquiles ficou furioso, mas acabou sendo convencido a aceitar. Feliz que estava, trabalhava com afinco. Foi promovido.

domingo, 22 de abril de 2012

Destino

Olhava o mar. O barulho das ondas o acalmava, o horizonte infinito o confortava. Aquele barulho se repetia: ondas quebrando na areia, o mar avançando, recuando, ondas quebrando, o mar avançando, recuando, ondas quebrando. Poucas nuvens no céu, um vento suave batia em seu rosto e trazia com ainda mais força aquele cheiro de maresia que já inebriou gerações.

Pensava em sua esposa. Haviam se conhecido há muitos anos. Vinte, talvez? Se lembrava da primeira vez que a viu, linda, doce, em um vestido verde que combinava com seus olhos. Lânguida. Estava em um grupo de mulheres, um amigo em comum, a ela foi apresentado, você está muito bonita, obrigada, o que você faz?, professora, sou contador, livros, filmes, cinema, você já leu freud?, literatura, poesia, muito interessante, tenho que ir, quer sair amanhã, sim, te busco as nove, combinado. Naquela noite não conseguiu dormir, passou-a em claro pensando naqueles lábios se mexendo tão perto dos seus, esquecia o que ela estava falando e só via os lábios se mexendo. Voltava rapidamente para o assunto para ela não perceber, mas a imagem dos lábios, boca, o nariz levemente arrebitado.

O mar. Azul, imenso. Se casaram dois anos depois. Foram felizes. Dois filhos. Marta era linda, alta como a mãe, olhos verdes como os da mãe. Fred era mais parecido com o pai, deveras introspectivo, um pouco isolado. Era epilético, tinha crises com frequência. Deivid teve uma certa repulsa no início, seu filho doente, nunca se tornaria independente, mas acabou aceitando-o. Os remédios ajudavam a controlar as crises. O pai acabou começando a tomar os seus também, era uma ajuda para os momentos difíceis.

Ondas quebrando. Duas crianças brincam na areia e constroem um castelo. Uma corre atrás da outra. Ondas. Risos. Barulho de ondas. Os remédios não estavam funcionando mais, não para Fred, que se mantinha relativamente bem, mas para o pai. Sua esposa revelou que lhe traia há alguns anos e que queria o divórcio. Iria levar Marta, a filha já havia concordado. Disse que o encantamento simplesmente passou, queria buscar alguma coisa nova. Tantas noites esperando o marido que ficava até tarde na firma. Não entendia a razão, essa mesma firma que agora estava reduzindo custos, se manter competitiva, o custo com pessoal está muito alto, não podemos garantir seu emprego, aceito ganhar menos, não é isso, o que é então, a firma é um organismo vivo e precisa seguir em frente.

Gaivotas voavam, grasnavam. A típica formação em V, elas se alternavam na ponta para todas poderem voar mais. O mar. O que ele havia feito de errado? Não dera carinho suficiente para sua família? Não pensara neles a todo instante, se poupando de roupas novas e restaurantes caros para poder levá-los em viagem? Por que isso acontecia justamente com ele? ‘Eu que sou um homem bom, honesto!’ Não entendia.



Oto se preparava para sua caminhada matinal. Adorava a praia, e por isso havia escolhido morar em Ipanema. Cinco minutos caminhando e chegava à praia, com todo seu movimento, seus banhistas, os vendedores, barraquinhas. Colocou seu chinelo de dedo, uma bermuda, uma camiseta e o dinheiro da água de coco. Só isso. E saiu, seu amigo estava lhe esperando na portaria. Era uma quarta-feira bonita, céu azul, sem nenhuma nuvem.

Adorava esses passeios, pelo menos quatro vezes por semana caminhava pela orla. Às vezes ia até o Posto 12, se sentava, ficava admirando o Leblon e Ipanema. Outras vezes ia até o Arpoador e via com espanto a quantidade de casas no Morro Dois Irmãos. Sempre estava com alguma companhia. Às vezes sua mulher, outras algum amigo que morava próximo. Conhecia muita gente ali na Vinícius, à noite se sentava em um bar e jogava conversa fora.

Tinha uma vida amena, gostosa até. Confortável. Seus pais haviam lhe deixado uma boa herança, além daquele bonito apartamento. Não tinha motivos para se preocupar. Casado há pouco tempo, vivia feliz.



Ondas. O barulho. “Oi, você vai ter que ir no hospital, o Fred teve uma nova crise, a enfermeira me ligou, eu não vou poder ir lá.” Ele se levantou, estava cansado. Por que ele? Não aguentava mais aquele peso em seus ombros, aquela rotina, era um domingo, não era o dia do descanso? Afinal Deus também não descansou? Por que ele não poderia descansar, só um pouco? Sabia o que iria se seguir, noites em claro no hospital, dias intermináveis na firma, usava o horário de almoço para pelo menos dormir meia hora, grandes copos de café, a gastrite voltava a atacar, mais remédios. Tantas vezes já havia passado por isso, já era automático, conhecia os médicos pelos nomes, tudo bem com o garoto André?, tudo bem foi só mais um susto, pode deixar, eu fico com ele aqui, você quer alguma coisa, não obrigado.

Não seria egoísmo ele pensar em se matar? Justamente quando seu filho precisava dele? Mas ninguém via que ele também precisava de ajuda? Sua esposa não via, ou não queria ver, ou pelo menos não parecia ver. Ela que ultimamente andava com aquele sorriso no rosto, um sorriso cínico, um sorriso de quem já não está mais presente e despreza tudo aquilo. Se ele morresse pelo menos ela cuidaria de Fred, teria que cuidar, não teria como fugir.

Foi trabalhar no dia seguinte, mais uma noite em claro. A barba mal feita, roupa amassada. Foi chamado na sala do chefe, a firma não poderia tolerar este comportamento, você sabe que precisamos demitir funcionários para continuarmos competitivos, pensamos em lhe dar um tempo para conseguir outra coisa mas se comportando desse jeito você será um dos próximos. Saiu, voltou ao trabalho, ficou até tarde, e então foi ao hospital ficar com seu filho.

Não aguentava mais aquela situação, precisava dar um jeito. A mãe cuidaria dos filhos, teria que. E ainda receberia uma pensão, pequena, mas era alguma coisa. Os filhos teriam um novo pai, parecia que ele tinha dinheiro, as coisas se resolveriam. Teria que vender o carro da família, custos do enterro, também sem o emprego não daria mais para pagar as prestações.

Mas que se foda. Quero que essa porra toda exploda, vá para a puta que o pariu. Tô cansado dessa merda. Só o Fred melhorar dessa crise que eu dou um fim nessa vida de merda. Pulo de uma ponte, um tiro na cabeça, sei lá, algo garantido, não quero virar uma bosta de um vegetal. Foda-se a firma, foda-se minha esposa. Filha da puta. Ela que cuide dos filhos agora, vadia. Achava que era só colocar os filhos no mundo, bem sim. Vai aprender uma coisa.



Alô?, sou eu, fala Cabeça!, um vôlei, bora, que horas tá marcado?, beleza, em meia hora no nove?, fechado, abraços Cabeça.

Estava passando o protetor solar, àquela hora o sol era muito forte. Não queria ter um problema na pele, afinal seriam tantos anos ainda na praia, tinha que se cuidar. Roupa leve, clara, chinelo de dedo. Enquanto isso pensava: ok, ele decidiu se matar, agora qual é o melhor jeito? Ponte Rio-Niterói? Chavão. UERJ? Muito longe. Tiro na cabeça? Mas onde? Em casa, no banheiro? E os filhos? Deixou isso de lado, foi jogar vôlei.

À noite no bar levantou o assunto com os amigos, surgiram as mais disparatadas sugestões. ‘Pular do prédio da firma’. Forte impacto emocional, mas não condiz muito com ele. ‘Saltar no trilho do metrô’. Ele não quer chamar a atenção do mundo, só da esposa. ‘Se matar na frente dela’. Não é tão má opção, mas ele não quer prejudicar os filhos. ‘Porra Oto, sei lá então, ele não gosta do mar? Bota ele vendo o mar e dando um tiro na cabeça’.



Fred já havia se recuperado da crise, continuava tomando todos seus remédios. A esposa e a filha se preparavam para a mudança. Cada dia novas malas apareciam, eram preenchidas, e simplesmente sumiam do apartamento. Ele via essas cenas alheio a tudo isso, distante. Seus pais já haviam falecido, não tinha irmãos, então era mais fácil. Apenas quatro cartas, uma para cada um de seus filhos, dizendo que os amava incondicionalmente, uma para sua esposa, cheia de raiva e desprezo, uma para um amigo mais próximo, dizendo que ele tinha chegado ao seu limite.

Comprou uma arma, não era tão difícil conseguir uma naquela região onde morava. Escolheu o dia, saiu na noite anterior, foi a um bom restaurante. Tantas vezes teve vontade de comer lá, mas sempre pensava em sua família, as prestações do carro, o aluguel. Pediu carne e massa, um vinho importado. Demorou. Comia aos poucos. Seria sua última refeição. Cada mordida era uma onda de prazer e alívio. Limpava a boca. Um gole de vinho. Descia suave. Mais uma mordida. O prato terminou, o último gole, pagou a conta, foi feliz.

Acordou cedo no dia seguinte, pegou o ônibus às quatro da manhã, ponto final General Osório. Andou por aquelas ruas ainda escuras, não era nem cinco e meia, Teixeira de Melo, Vieira Souto, Francisco Bhering, Pedra do Arpoador. Via o mar, toda a praia de Ipanema e do Leblon. Morro dois Irmãos. O céu que clareava aos poucos. O metal frio que estava pendurado em sua cintura lhe trazia arrepios e uma certeza fria.

O barulho das ondas. Não havia crianças naquela hora, não havia ninguém. As luzes dos apartamentos começavam a se acender aos poucos, o sol ainda não aparecera. De azul o céu ganhava uma cor rosácea. Ondas quebrando na areia branca que parecia um leito sublime para se deitar e sentir o mundo tomar conta. Decidiu que iria tomar um banho de mar, o seu último.

Desceu da pedra, tirou sua roupa e entrou no mar. Nu, como veio ao mundo, como quando estava sozinho em casa, como amara tantas vezes sua esposa para a qual sentia hoje tanto desgosto. Um sentimento de compaixão com o mundo tomou conta de si, um sentimento bom por se entregar a algo maior que ele. Viu o sol que começava a despontar no horizonte, era a hora.

Voltou para a areia, viu as marcas que seu pé deixava. Colocou sua roupa de novo que agora colava em seu corpo. A arma estava dentro de seu tênis, não queria que ela emperrasse no momento crucial por estar molhada ou cheia de areia. O sol subia rápido no horizonte, pegou a arma em sua mão. Destravou o gatilho. Quando todo ele aparecesse redondo no céu seria o momento.

Ondas quebravam na areia, lágrimas brotavam em seu rosto. Não sabia se existiria céu ou inferno, e para onde ele iria se isso existisse. Pedia desculpas pelo que iria fazer, havia tentado todo o possível. Pedia desculpas para seus filhos, esperava que eles tivessem uma lembrança boa do pai que fora. Não queria ser lembrado como covarde, tentou mostrar-se forte em suas cartas para eles.

Por que tanta injustiça? Não teria direito à felicidade aquele que buscava sempre agir corretamente? Por que eram felizes pessoas que haviam feito tão pouco e justamente ele, que tanto se esforçara, merecia aquilo? A traição de sua mulher foi uma faca em seu coração. Cada vez que dela ele se lembrava era como se estivesse girando a faca, mais e mais, a dor apenas aumentava.

O sol já estava quase todo acima do horizonte, as ondas quebravam na areia, o dia clareava. Lágrimas escorriam de seu rosto e então ele entendeu o porquê de tanta injustiça. Tomou uma decisão. Quando o sol apareceu todo, majestoso, rubro, ele já estava completamente vestido, arma no bolso, correndo. Francisco Bhering, Vieira Souto. Cada quadra que ele ultrapassava a decisão se estabelecia mais forte dentro de si. Passou a Gomes Carneiro, Teixeira de Melo. Era isso, sabia que agora era a coisa certa a se fazer. Farme de Amoedo, entrou na Vinícius de Moraes.

Atravessou a Prudente de Moraes, era o terceiro prédio à esquerda. O porteiro lhe saudou, não o via há algum tempo. ”Quer que eu interfone para o Dr. Oto?”. “Não precisa, ele está me esperando”, respondeu. Tomou o elevador de serviço, ainda estava um pouco molhado. Apertou o sexto andar. Seu peito arfava, correra várias quadras sem parar. Segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto. As portas do elevador se abriram, ele tomou a direita, correndo ainda, para a última porta do corredor. Reconhecera a porta, ao invés de tocar a campainha empurrou-a com seu pé, com toda força. A porta cedeu sem muito esforço. Foi para o escritório, sabia que ele estaria lá. Encontrou Oto sentado, escrevendo no computador. Assim que ele se levantou deu-lhe dois tiros na cabeça e um no coração. A xícara de café que estava na mesa do computador, ainda fumegante, tomou-a de um gole só.

Em Copacabana

“Vou anotar isso para colocar na minha história”. Era assim que Marcos vivia, sempre com bloco e caneta ao alcance das mãos, tentando capturar toda e qualquer experiência do mundo e colocá-la em seus textos. Escrevia de tudo, romances, contos, poesias, biografias. Estava sempre olhando o mundo em busca de novos sinais, novos elementos com o qual constantemente se deparava. E naqueles instantes nos quais o tempo para e tudo parece fazer sentido, quando o não formulado se formula de repente, ele tirava bloco e caneta do bolso e começava a anotar, em um frenesi que só parava quando ele achasse que conseguiu colocar no papel tudo o que passava pela sua cabeça. Depois, quando relia essas palavras, normalmente tirava um sentido geral da coisa, mas a sensação de pura formulação ficara em algum outro lugar.

Nesse dia estava tomando cerveja com os amigos no Bip Bip, um bar em Copacabana, quando viu um florista vendendo rosas de mesa em mesa para casais que nem sequer olhavam para ele. Era o florista mais triste que já havia visto, carregava nos ombros o peso do mundo e nas mãos a possibilidade de um prato de comida no dia seguinte. Não dera sorte, naquele bar não lhe compraram nenhuma, e o florista se dirigiu a outro bar para outros casais que também lhe diriam não sem nem olhar em seus olhos.

Marcos percebeu que era exatamente esse caráter de resignação trágica que queria colocar em seu personagem. O peso do mundo o esmagaria e ele aceitaria isso sem reclamar. Precisaria haver alguma morte, isto está claro, para atrair a atenção do leitor, mas por enquanto ainda estava trabalhando na caracterização do seu personagem.



Casado, dois filhos. Auxiliar de escritório, trabalhava em uma empresa no centro da cidade. Dava beijos em seus filhos e em sua mulher, que ainda dormiam, descia a Saint Roman todo dia, bem cedo, e tomava um ônibus para o centro. Ombros caídos, olhar distante. Fazia contas na cabeça e sempre estava preocupado se iria conseguir pagar as contas naquele mês. Eram tantas prestações, ficava difícil conciliar tudo. Voltava sempre bem tarde, nem sempre conseguia ver seus filhos acordados. Nos finais de semana gostava de tomar cerveja. Ia ao Bip Bip, mas como a cerveja lá é cara, só ficava ouvindo as rodas de bossa nova e samba.



Depois continuaria com seu personagem. Seus amigos já estavam reclamando, Marcos que sempre fazia isso e às vezes ficava horas escrevendo em seu bloco sem nem prestar atenção a quem estava na mesa com ele. Levantou-se e foi pegar mais uma cerveja, a sua já tinha acabado há algum tempo.

Mas qual seria o fio narrativo? Sua esposa poderia traí-lo... Não, muito padrão. Morte dos filhos? Também não... Não é tragédia que Marcos queria em sua história, é resignação. Ser demitido? Não seria uma má ideia, mas como desdobrar esse acontecimento?

Dia seguinte, assim que acordou, noite ainda, Marcos se sentou na frente do computador e começou a escrever um conto. Descreveu seu personagem. Ele ia começar mais um dia de trabalho.



Acordava bem cedo, como sempre fazia. Não poderia pensar em chegar atrasado, aquele emprego era a única possibilidade de dar uma condição um pouco mais digna para seus filhos. Eram dois, Michele, de 4 anos, e Antônio, de 6. Dormiam ainda, assim como sua esposa. Deu a cada um seu merecido beijo na testa e saiu para mais um dia de trabalho. Estava trancando o portão da casa quando ouviu um tiro.



Marcos também ouviu o tiro, se assustou. Sabia que precisava se mudar, seu apartamento era de frente para a favela. Mas o preço dos alugueis estava tão alto, só conseguia morar ainda em Copacabana pois o seu apartamento lhe havia sido alugado por uma amiga de sua falecida mãe que não cobrava muito por um misto de pena e compaixão.

Ficou inquieto, não conseguiu continuar sua história. Ficava com medo, e se alguma coisa acontecesse com ele? O fim, e depois? Cessar de existir, não se manteria em seus livros pois nenhum havia sido publicado. Não se manteria em seus filhos, não tinha nenhum. Nem esposa, tampouco. Por alguns anos seus amigos ainda se lembrariam de Marcos, aquele escritor fracassado que estava sempre tentando criar a última novidade em literatura. Mas e depois?

Foi até a cozinha, abriu a geladeira. Tomou um copo de leite, torradas com manteiga. Pensava na vida, será que algum dia iria se casar? Fazer a diferença para alguém, dividir o estar no mundo, olhar para frente e ver o mesmo horizonte. Esses pensamentos o deixavam um pouco triste, voltou para seu computador e continuou a escrever.



Estava acostumado ao barulho de tiros. O governo dizia que iria ter mais segurança, mais policiais, mas ainda não havia percebido nenhuma diferença. Desceu a Saint Roman e esperava na Av. N.S.ra de Copacabana para atravessar. Iria tomar seu ônibus para mais um dia de trabalho. O sinal fechou, ele ia atravessar a rua mas viu que um carro não iria parar. O homem ao seu lado não viu o carro, e atravessou. Barulho de freio, impacto. A gabardina bege do homem ficou toda ensanguentada. O saco de compras que carregava voou bem longe.



Marcos estava com fome, só havia duas fatias de pão em sua casa. Era um dia chuvoso, colocou a gabardina e desceu para a padaria. Comprou pão francês, manteiga e leite, itens que não poderiam faltar em sua dispensa. Deixara seu personagem esperando, precisava voltar e continuar a história. Parou na faixa de pedestres, esperaria o sinal fechar para atravessar a avenida. Olhou para sua esquerda e viu um homem simples, roupa gasta, uma expressão tranquila no rosto. Típico trabalhador, provavelmente sua família ainda dormia enquanto ele tentava ganhar o seu sustento.

O sinal de carros fechou. Marcos colocou o primeiro pé na rua. Respirou fundo. Entendeu, não era o momento. Olhou para a direita e viu um carro que ultrapassou o sinal vermelho. Para que a pressa? De nada adiantava, logo em seguida o carro teve que parar no próximo semáforo.

O Grande Baile

Maria estava linda. Todos no baile olhavam para ela. Sua maquiagem delicada marcava seu rosto e alongava seus olhos. O vestido azul lhe dava um porte que não pensara algum dia ter. As mulheres que passavam por ela suspiravam de inveja, os homens suspiravam por imaginar o que estaria atrás daquela roupa.

Seu rosto era só contentamento, um sorriso amplo e complacente, um olhar conciliador. Mãos leves que dançavam ao sabor do vento. Movimentos suaves que lhe traziam uma graça incomparável. Cumprimentava a todos com um leve movimento de cabeça, e todos a cumprimentavam.

Ela se dirigia ao balcão das bebidas, não sem atrair a atenção por onde passava. Tomou nas mãos uma taça de champanhe e nela dava leves bebericadas. As bolhas faziam seu nariz coçar. Estava feliz, olhava o mundo e se sentia parte dele.

Nesse momento viu um homem alto, sério, andar em sua direção. Sentiu suas pernas tremerem. Ele ajeitou a gravata e cada passo que dava

Ouviu o trinco da porta se abrindo, a hóspede estava voltando mais cedo. Maria rapidamente devolveu ao guarda roupas o vestido azul que costumava colocar à sua frente enquanto se olhava no espelho. Rapidamente, antes que a hóspede percebesse.

- Desculpe minha senhora, já estou de saída – disse Maria.

O baile continuará amanhã, nesse mesmo horário.