domingo, 22 de abril de 2012

Destino

Olhava o mar. O barulho das ondas o acalmava, o horizonte infinito o confortava. Aquele barulho se repetia: ondas quebrando na areia, o mar avançando, recuando, ondas quebrando, o mar avançando, recuando, ondas quebrando. Poucas nuvens no céu, um vento suave batia em seu rosto e trazia com ainda mais força aquele cheiro de maresia que já inebriou gerações.

Pensava em sua esposa. Haviam se conhecido há muitos anos. Vinte, talvez? Se lembrava da primeira vez que a viu, linda, doce, em um vestido verde que combinava com seus olhos. Lânguida. Estava em um grupo de mulheres, um amigo em comum, a ela foi apresentado, você está muito bonita, obrigada, o que você faz?, professora, sou contador, livros, filmes, cinema, você já leu freud?, literatura, poesia, muito interessante, tenho que ir, quer sair amanhã, sim, te busco as nove, combinado. Naquela noite não conseguiu dormir, passou-a em claro pensando naqueles lábios se mexendo tão perto dos seus, esquecia o que ela estava falando e só via os lábios se mexendo. Voltava rapidamente para o assunto para ela não perceber, mas a imagem dos lábios, boca, o nariz levemente arrebitado.

O mar. Azul, imenso. Se casaram dois anos depois. Foram felizes. Dois filhos. Marta era linda, alta como a mãe, olhos verdes como os da mãe. Fred era mais parecido com o pai, deveras introspectivo, um pouco isolado. Era epilético, tinha crises com frequência. Deivid teve uma certa repulsa no início, seu filho doente, nunca se tornaria independente, mas acabou aceitando-o. Os remédios ajudavam a controlar as crises. O pai acabou começando a tomar os seus também, era uma ajuda para os momentos difíceis.

Ondas quebrando. Duas crianças brincam na areia e constroem um castelo. Uma corre atrás da outra. Ondas. Risos. Barulho de ondas. Os remédios não estavam funcionando mais, não para Fred, que se mantinha relativamente bem, mas para o pai. Sua esposa revelou que lhe traia há alguns anos e que queria o divórcio. Iria levar Marta, a filha já havia concordado. Disse que o encantamento simplesmente passou, queria buscar alguma coisa nova. Tantas noites esperando o marido que ficava até tarde na firma. Não entendia a razão, essa mesma firma que agora estava reduzindo custos, se manter competitiva, o custo com pessoal está muito alto, não podemos garantir seu emprego, aceito ganhar menos, não é isso, o que é então, a firma é um organismo vivo e precisa seguir em frente.

Gaivotas voavam, grasnavam. A típica formação em V, elas se alternavam na ponta para todas poderem voar mais. O mar. O que ele havia feito de errado? Não dera carinho suficiente para sua família? Não pensara neles a todo instante, se poupando de roupas novas e restaurantes caros para poder levá-los em viagem? Por que isso acontecia justamente com ele? ‘Eu que sou um homem bom, honesto!’ Não entendia.



Oto se preparava para sua caminhada matinal. Adorava a praia, e por isso havia escolhido morar em Ipanema. Cinco minutos caminhando e chegava à praia, com todo seu movimento, seus banhistas, os vendedores, barraquinhas. Colocou seu chinelo de dedo, uma bermuda, uma camiseta e o dinheiro da água de coco. Só isso. E saiu, seu amigo estava lhe esperando na portaria. Era uma quarta-feira bonita, céu azul, sem nenhuma nuvem.

Adorava esses passeios, pelo menos quatro vezes por semana caminhava pela orla. Às vezes ia até o Posto 12, se sentava, ficava admirando o Leblon e Ipanema. Outras vezes ia até o Arpoador e via com espanto a quantidade de casas no Morro Dois Irmãos. Sempre estava com alguma companhia. Às vezes sua mulher, outras algum amigo que morava próximo. Conhecia muita gente ali na Vinícius, à noite se sentava em um bar e jogava conversa fora.

Tinha uma vida amena, gostosa até. Confortável. Seus pais haviam lhe deixado uma boa herança, além daquele bonito apartamento. Não tinha motivos para se preocupar. Casado há pouco tempo, vivia feliz.



Ondas. O barulho. “Oi, você vai ter que ir no hospital, o Fred teve uma nova crise, a enfermeira me ligou, eu não vou poder ir lá.” Ele se levantou, estava cansado. Por que ele? Não aguentava mais aquele peso em seus ombros, aquela rotina, era um domingo, não era o dia do descanso? Afinal Deus também não descansou? Por que ele não poderia descansar, só um pouco? Sabia o que iria se seguir, noites em claro no hospital, dias intermináveis na firma, usava o horário de almoço para pelo menos dormir meia hora, grandes copos de café, a gastrite voltava a atacar, mais remédios. Tantas vezes já havia passado por isso, já era automático, conhecia os médicos pelos nomes, tudo bem com o garoto André?, tudo bem foi só mais um susto, pode deixar, eu fico com ele aqui, você quer alguma coisa, não obrigado.

Não seria egoísmo ele pensar em se matar? Justamente quando seu filho precisava dele? Mas ninguém via que ele também precisava de ajuda? Sua esposa não via, ou não queria ver, ou pelo menos não parecia ver. Ela que ultimamente andava com aquele sorriso no rosto, um sorriso cínico, um sorriso de quem já não está mais presente e despreza tudo aquilo. Se ele morresse pelo menos ela cuidaria de Fred, teria que cuidar, não teria como fugir.

Foi trabalhar no dia seguinte, mais uma noite em claro. A barba mal feita, roupa amassada. Foi chamado na sala do chefe, a firma não poderia tolerar este comportamento, você sabe que precisamos demitir funcionários para continuarmos competitivos, pensamos em lhe dar um tempo para conseguir outra coisa mas se comportando desse jeito você será um dos próximos. Saiu, voltou ao trabalho, ficou até tarde, e então foi ao hospital ficar com seu filho.

Não aguentava mais aquela situação, precisava dar um jeito. A mãe cuidaria dos filhos, teria que. E ainda receberia uma pensão, pequena, mas era alguma coisa. Os filhos teriam um novo pai, parecia que ele tinha dinheiro, as coisas se resolveriam. Teria que vender o carro da família, custos do enterro, também sem o emprego não daria mais para pagar as prestações.

Mas que se foda. Quero que essa porra toda exploda, vá para a puta que o pariu. Tô cansado dessa merda. Só o Fred melhorar dessa crise que eu dou um fim nessa vida de merda. Pulo de uma ponte, um tiro na cabeça, sei lá, algo garantido, não quero virar uma bosta de um vegetal. Foda-se a firma, foda-se minha esposa. Filha da puta. Ela que cuide dos filhos agora, vadia. Achava que era só colocar os filhos no mundo, bem sim. Vai aprender uma coisa.



Alô?, sou eu, fala Cabeça!, um vôlei, bora, que horas tá marcado?, beleza, em meia hora no nove?, fechado, abraços Cabeça.

Estava passando o protetor solar, àquela hora o sol era muito forte. Não queria ter um problema na pele, afinal seriam tantos anos ainda na praia, tinha que se cuidar. Roupa leve, clara, chinelo de dedo. Enquanto isso pensava: ok, ele decidiu se matar, agora qual é o melhor jeito? Ponte Rio-Niterói? Chavão. UERJ? Muito longe. Tiro na cabeça? Mas onde? Em casa, no banheiro? E os filhos? Deixou isso de lado, foi jogar vôlei.

À noite no bar levantou o assunto com os amigos, surgiram as mais disparatadas sugestões. ‘Pular do prédio da firma’. Forte impacto emocional, mas não condiz muito com ele. ‘Saltar no trilho do metrô’. Ele não quer chamar a atenção do mundo, só da esposa. ‘Se matar na frente dela’. Não é tão má opção, mas ele não quer prejudicar os filhos. ‘Porra Oto, sei lá então, ele não gosta do mar? Bota ele vendo o mar e dando um tiro na cabeça’.



Fred já havia se recuperado da crise, continuava tomando todos seus remédios. A esposa e a filha se preparavam para a mudança. Cada dia novas malas apareciam, eram preenchidas, e simplesmente sumiam do apartamento. Ele via essas cenas alheio a tudo isso, distante. Seus pais já haviam falecido, não tinha irmãos, então era mais fácil. Apenas quatro cartas, uma para cada um de seus filhos, dizendo que os amava incondicionalmente, uma para sua esposa, cheia de raiva e desprezo, uma para um amigo mais próximo, dizendo que ele tinha chegado ao seu limite.

Comprou uma arma, não era tão difícil conseguir uma naquela região onde morava. Escolheu o dia, saiu na noite anterior, foi a um bom restaurante. Tantas vezes teve vontade de comer lá, mas sempre pensava em sua família, as prestações do carro, o aluguel. Pediu carne e massa, um vinho importado. Demorou. Comia aos poucos. Seria sua última refeição. Cada mordida era uma onda de prazer e alívio. Limpava a boca. Um gole de vinho. Descia suave. Mais uma mordida. O prato terminou, o último gole, pagou a conta, foi feliz.

Acordou cedo no dia seguinte, pegou o ônibus às quatro da manhã, ponto final General Osório. Andou por aquelas ruas ainda escuras, não era nem cinco e meia, Teixeira de Melo, Vieira Souto, Francisco Bhering, Pedra do Arpoador. Via o mar, toda a praia de Ipanema e do Leblon. Morro dois Irmãos. O céu que clareava aos poucos. O metal frio que estava pendurado em sua cintura lhe trazia arrepios e uma certeza fria.

O barulho das ondas. Não havia crianças naquela hora, não havia ninguém. As luzes dos apartamentos começavam a se acender aos poucos, o sol ainda não aparecera. De azul o céu ganhava uma cor rosácea. Ondas quebrando na areia branca que parecia um leito sublime para se deitar e sentir o mundo tomar conta. Decidiu que iria tomar um banho de mar, o seu último.

Desceu da pedra, tirou sua roupa e entrou no mar. Nu, como veio ao mundo, como quando estava sozinho em casa, como amara tantas vezes sua esposa para a qual sentia hoje tanto desgosto. Um sentimento de compaixão com o mundo tomou conta de si, um sentimento bom por se entregar a algo maior que ele. Viu o sol que começava a despontar no horizonte, era a hora.

Voltou para a areia, viu as marcas que seu pé deixava. Colocou sua roupa de novo que agora colava em seu corpo. A arma estava dentro de seu tênis, não queria que ela emperrasse no momento crucial por estar molhada ou cheia de areia. O sol subia rápido no horizonte, pegou a arma em sua mão. Destravou o gatilho. Quando todo ele aparecesse redondo no céu seria o momento.

Ondas quebravam na areia, lágrimas brotavam em seu rosto. Não sabia se existiria céu ou inferno, e para onde ele iria se isso existisse. Pedia desculpas pelo que iria fazer, havia tentado todo o possível. Pedia desculpas para seus filhos, esperava que eles tivessem uma lembrança boa do pai que fora. Não queria ser lembrado como covarde, tentou mostrar-se forte em suas cartas para eles.

Por que tanta injustiça? Não teria direito à felicidade aquele que buscava sempre agir corretamente? Por que eram felizes pessoas que haviam feito tão pouco e justamente ele, que tanto se esforçara, merecia aquilo? A traição de sua mulher foi uma faca em seu coração. Cada vez que dela ele se lembrava era como se estivesse girando a faca, mais e mais, a dor apenas aumentava.

O sol já estava quase todo acima do horizonte, as ondas quebravam na areia, o dia clareava. Lágrimas escorriam de seu rosto e então ele entendeu o porquê de tanta injustiça. Tomou uma decisão. Quando o sol apareceu todo, majestoso, rubro, ele já estava completamente vestido, arma no bolso, correndo. Francisco Bhering, Vieira Souto. Cada quadra que ele ultrapassava a decisão se estabelecia mais forte dentro de si. Passou a Gomes Carneiro, Teixeira de Melo. Era isso, sabia que agora era a coisa certa a se fazer. Farme de Amoedo, entrou na Vinícius de Moraes.

Atravessou a Prudente de Moraes, era o terceiro prédio à esquerda. O porteiro lhe saudou, não o via há algum tempo. ”Quer que eu interfone para o Dr. Oto?”. “Não precisa, ele está me esperando”, respondeu. Tomou o elevador de serviço, ainda estava um pouco molhado. Apertou o sexto andar. Seu peito arfava, correra várias quadras sem parar. Segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto. As portas do elevador se abriram, ele tomou a direita, correndo ainda, para a última porta do corredor. Reconhecera a porta, ao invés de tocar a campainha empurrou-a com seu pé, com toda força. A porta cedeu sem muito esforço. Foi para o escritório, sabia que ele estaria lá. Encontrou Oto sentado, escrevendo no computador. Assim que ele se levantou deu-lhe dois tiros na cabeça e um no coração. A xícara de café que estava na mesa do computador, ainda fumegante, tomou-a de um gole só.