segunda-feira, 30 de julho de 2018

memória

relevar e esquecer
o que aconteceu nos Bálcãs
os campos de concentração
os 1395 dias de cerco aos civis
de Sarajevo
o genocídio de Srebrenica
os massacres sob os olhos das nações
'unidas' (sic)
os militares holandeses em missão de
'paz'
impedindo a entrada de milhares de refugiados em seu quartel
o bebê morto
    na frente da família
       no forno
          pois chorava
            e seu cheiro de carne queimada e aparência de leitão
as cidades patrimônio mundial (sic)
destruídas
as pessoas
sendo protegidas por quem?

relevar e esquecer
os milhões de sírios deslocados
a frieza europeia
as crianças afogadas
tentando viver pelo menos
mais um dia

relevar e esquecer
a primavera árabe tornada inverno
a volta dos regimes ditatoriais
a impossibilidade de qualquer expressão
que não concordância

relevar e esquecer
os bielorrussos apagando o incêndio atômico
com pás e fuzis
a chuva amarela
os isótopos cancerosos e famintos
os pedaços de carne amolecida

relevar e esquecer
o medo cotidiano do estupro
a felicidade de apenas um dia
sem cantada, abuso ou pior
a quase impossibilidade de apropriar-se do próprio corpo
impedida por nós, homens
em busca de poder para poder esquecer
o medo da morte

relevar e esquecer

relevar e esquecer
a Grande Guerra da África
o Kosovo ainda um quasepaís
a Palestina ainda um país refugiado
o Tibet ainda China
a Nicósia ainda dividida ao meio
as ainda favelas, propositais

relevar e esquecer
achar que a guerra acabou em 45
que agora são só conflitos locais
que não se repetirá, temos internet
que nunca ocorrerá, que absurdo
ignorar a maldade humana
o ódio contra o deus deles
as roupas deles
a cor de pele, olhos, nariz, sexo
ou qualquer coisa que nos faça
pisando sobre a pilha de seus cadáveres ainda quentes
ficar um pouco mais perto do céu
olhar as imagens já coloridas das covas coletivas
da fome e desespero
e simplesmente não ver
usar a indiferença como arma
até que ela seja usada contra nós

sexta-feira, 27 de julho de 2018

todo império

todo império irá ruir
todo homem e mulher que um dia puseram os pés nessa terra
serão carbono
tudo que é vivo
morrerá
tudo que um dia foi civilização
evaporará
apesar das inesgotáveis tentativas de lembrar
tudo será esquecido
toda pedra será areia
toda escrita ilegível
todo relógio matéria
toda música silêncio
toda coluna piso
todo amor indiferença
toda religião mitologia
todo verbo substantivo
toda dor alegria
todo sonho passado
toda esperança ilusão
todo pecado imaculado
todo rei ninguém
toda história lenda
toda cultura museu
todo museu pó
até o isótopo radioativo
será comum

nada
resistirá à fome do tempo

quarta-feira, 25 de julho de 2018

à beira

à beira da estrada parece
que o horizonte é um pouquinho mais
belo, interessante
novo, inesperado
à beira da estrada talvez
esteja um pouquinho mais perto da beira
de mim, aqui ao lado a Clarisse
está com a Svetlana
realmente essa tal de pós
modernidade é na verdade
a era das catástrofes
contra o átomo, a pá
realmente esquecer é mais fácil
quando a lembrança é um câncer
em inconveniente metástase
realmente não há história
apenas biografia
à beira da estrada o tempo
é importante
a chuva, o sol
mas o relógio é só
seu
à beira da estrada quem sabe
com mala, mochila e sonhos
talvez
estejamos um pouquinho mais perto
daquela substância mole
quente, amorfa
gelatinosa
que nos constitui
e nos faz dormir a cada dia
querendo acordar

domingo, 22 de julho de 2018

domingo de sol

hoje é um domingo de sol
ameno, a natureza com seus bichos gritando
felizes, e a Galeria Borghese
lotada, reservando apenas para quarta

hoje é um domingo de sol
calmo, tantas pessoas destinos línguas
se cruzam, bicicleta chapéus e garrafinhas
de água, crianças cachorros fones
de ouvido, para quem corre

hoje é um domingo de sol
claro, as sombras e os bancos abrigam
graciosos, ao fundo uma tarantella, um Andrea
Bocelli, passa um trenzinho branco quase
vazio, e continua despudorado

hoje é um domingo de sol:
não me parece que ainda haja qualquer
preocupação, não me parece que reste alguma angústia
noturna, nesta manhã de um domingo de sol
Roma acordou contente

quarta-feira, 11 de julho de 2018

O peso do pássaro morto

de voz embargada
e garganta ainda
fechada
com vontade de chorar
viro a última página
d'o peso do pássaro morto
da Aline Bei

outro dia recebi
uma mensagem no face
book dizendo mais
ou menos: quer
um livro meu? 35
reais já com
frete e eu
sem conhecer imaginar conceber
é claro, me manda seus dados
bancários?

cara, que livro
foda
que merda esse
mundo machista branco
heteronormativo excludente
que nos atravessa
que epopéia contemporânea
romance narrativa poesia
que soco
no estômago
embrulhado
que texto
necessário
que possibilidade
técnica verbal humana
de início marcando versos
de lápis
abandonei-o
de início duvidando
abandonei-as
de início sem muita
certeza nesse solo
novo
eu, no lugar do privilegio dessa sociedade desigual,
sofri
e sofro
pela ficção tão possível
nesse mundo
imundo
injusto
sempre pior
para muitos

não sei
se continuarei o mesmo
espero que não
não sei quantos lerão
espero que muitos
não sei como agradecer
o destino deus musas ou caminhos
que trouxeram esse livro
às minhas mãos
não sei quanto
de revolta dor e beleza
agora tenho no peito
não sei quanto mais
a Aline nos permitirá
ler, espero que vários
já que a palavra
ainda que pouca é luz de vela
em meio à escuridão
que pouco a pouco nos cerca