de voz embargada
e garganta ainda
fechada
com vontade de chorar
viro a última página
d'o peso do pássaro morto
da Aline Bei
outro dia recebi
uma mensagem no face
book dizendo mais
ou menos: quer
um livro meu? 35
reais já com
frete e eu
sem conhecer imaginar conceber
é claro, me manda seus dados
bancários?
cara, que livro
foda
que merda esse
mundo machista branco
heteronormativo excludente
que nos atravessa
que epopéia contemporânea
romance narrativa poesia
que soco
no estômago
embrulhado
que texto
necessário
que possibilidade
técnica verbal humana
de início marcando versos
de lápis
abandonei-o
de início duvidando
abandonei-as
de início sem muita
certeza nesse solo
novo
eu, no lugar do privilegio dessa sociedade desigual,
sofri
e sofro
pela ficção tão possível
nesse mundo
imundo
injusto
sempre pior
para muitos
não sei
se continuarei o mesmo
espero que não
não sei quantos lerão
espero que muitos
não sei como agradecer
o destino deus musas ou caminhos
que trouxeram esse livro
às minhas mãos
não sei quanto
de revolta dor e beleza
agora tenho no peito
não sei quanto mais
a Aline nos permitirá
ler, espero que vários
já que a palavra
ainda que pouca é luz de vela
em meio à escuridão
que pouco a pouco nos cerca