quinta-feira, 9 de agosto de 2018

revolução

enquanto a bastilha não cair
continuaremos nossa parca dieta
água e brioches
apenas alguns
lançados das varandas dos arranha céus
tão mais distantes do povo
quanto conseguirem

enquanto a bastilha não cair
continuaremos a ser mortos como moscas
pela mais valia, coerção, medo
ou apenas pura vileza
daqueles esquecidos
do sal da terra que os formou

enquanto a bastilha não cair
lutaremos por um espaço de fala
que já deveria ser nosso
lutaremos por um corpo
que nunca deveria ser dócil
fugiremos de balas de borracha rumo a nossos olhos
cassetetes em nossas costas enquanto caídos
bombas de efeito moral em nossos rostos
chutes na barriga no rosto nas bolas nos peitos
torturas oficiais
tentando nos aquebrantar

enquanto a bastilha não cair
seremos escravos sonhando ser livres
jardim sonhando ser selva
felinos sonhando panteras
cães em seus sonhos de lobo
uivando de desespero

enquanto a bastilha não cair
nosso sangue será brinde de poucos
nossa voz a de loucos
e os seus ouvidos moucos
e a sua soberba de doutos
seremos água e óleo
com nossa dureza de chumbo

ah, mas quando ela cair -
pode não ser amanhã nem depois
nem depois de depois de amanhã
mas ela há de cair -
ficaremos face a face com as nossas dúvidas
decidiremos o que quando como porquê
aboliremos fronteiras moedas países
exércitos armas prisões
seremos flecha e arco
buscando o horizonte

quando ela cair
não poderemos permitir a guilhotina
o mínimo vácuo de poder
(não existe vácuo em contato com o ar)
as explicações e explicadores totalizantes
os donos de qualquer coisa que não seja o seu próprio destino
e então festejaremos os dias e as noites
e dançaremos com ou sem luz
e nos consumiremos inteiramente
e criaremos filhos que só conhecerão o que é liberdade
pois nunca terão vivido
em regime de opressão

e eles sonharão suas novas utopias
terão suas novas palavras de ordem
descobrirão novas injustiças
farão sua nova revolução
rumo a um caminho inconcebível para nós
até o fim dos dias, do Tempo
ou do planeta