Encostou o cano de sua arma na
cabeça de Daniela e deu um tiro sorrindo. Não precisava mais dela. Espantada, ela
que acabara de acordar caiu para trás com expressão de horror, olhos abertos e fundos.
Ele estava com uma regata branca, agora manchada com o sangue de Daniela. Sentia-se
mais vivo do que nunca. Passando o dedo na mancha que se formara em sua blusa ele
provou o sangue ainda quente e sentiu aquela rubra gota de liberdade descendo
por sua garganta. Estava terminado.
A situação se tornara
insustentável. Enquanto ela dormia, ele ligou para um amigo e pediu ajuda.
Ramirez era a pessoa certa para se procurar nessas horas, ele conhecia todo o
submundo daquela cidade, traficantes, prostitutas, comerciantes de armas. Pediu
uma espingarda, o calibre mais grosso que ele pudesse conseguir. Duas horas
depois Alberto tinha em suas mãos a sua chave mestra, a chave que lhe traria a
tão sonhada liberdade. Sabia exatamente onde ela morava, o porteiro que já o
conhecia deixou-o subir. Arrombou a porta sem se preocupar com o barulho e foi
diretamente para o quarto onde ela dormia. A luz do computador iluminava o seu
rosto insone, havia dormido trabalhando no computador.
Alberto se levantou às 07:00 e
foi no banheiro. Tomou uma ducha demorada. Arrumou-se, tomou café da manhã
lendo o jornal e foi para o trabalho. Tudo conforme Daniela mandara. Mais um
dia de reuniões, ligações, negociações... A apresentação não estava boa? Ele
corrigia. O relatório estava incompleto? Ele fazia hora extra para terminá-lo. Um
empregado exemplar. Estava voltando tarde quando percebeu que ela dormira.
Seria hoje.
Não poderia ser descoberto, essa
era a chave da questão. Precisava planejar todos os mínimos detalhes enquanto
ela não percebia. Iria atacá-la enquanto dormia, não haveria tempo para nenhuma
reação. Mas e se ela acordasse antes? Sentiu uma fisgada no peito, Daniela não
poderia suspeitar de nada ou ele seria liquidado. Como planejar tudo sem ela
saber? Ela controlava todos os seus movimentos, sabia onde ele ia, com quem
estava. Seria isso, em uma das noites em que ela dormisse trabalhando, ligaria
para Ramirez.
Naquela noite, saindo do trabalho
mais tarde do que o usual e sabendo que Daniela dormira, Alberto resolveu fazer
algo diferente. Foi para um bar no subúrbio sobre o qual só ouvira recomendações
para não ir. Chegando lá, o local tinha o estilo de um pub, vários bancos junto
ao balcão, música alta, muita fumaça. Pediu uma caneca de cerveja e ao seu lado
estava um homem alto, com um cavanhaque que se destacava, mal encarado. Se
chamava Ramirez, e ao olhar para Alberto abriu um sorriso e lhe disse: “Já
estava lhe esperando”. Alberto achou aquilo muito estranho, mas como estava
sozinho acabou conversando com ele. Apesar de seu semblante de poucos amigos, Ramirez
se mostrou simpático e ao final se despediu dizendo, bem dentro dos olhos de
Alberto: “Se você tiver algum problema que precise de uma solução rápida, pode
me ligar”.
Sua vida inteira era ditada por
Daniela. Seus gostos, suas vontades, tudo. Ele não podia fazer nada se não
obedecer. Era o seu destino, a sua sina. Sabia que tinha que fazer alguma coisa
para sair dessa armadilha de Sísifo. Mas o que? Como ela reagiria? O que
aconteceria com ele? A raiva se acumulava em sua garganta, ele tinha
dificuldades em respirar. Ela atribuía isso a uma crise asmática de Alberto,
não percebeu que algo estava começando a ser diferente.
Alberto viu sua mulher morrendo bem
em sua frente de um ataque fulminante do coração, Daniela não o deixou chamar
socorro. Ela queria fazê-lo sofrer, achava que só assim ele poderia
verdadeiramente crescer. Um verdadeiro caráter se forma com grandes obstáculos,
era uma receita que ouvira do seu avô e que era o seu mantra pessoal. Um dia
encontraria uma mulher melhor, Daniela sabia que poderia providenciar uma nova
mulher para Alberto e fazê-lo se apaixonar.
Daniela estava sentada em frente
ao computador, pensando em seu próximo trabalho. Queria fazer algo que
realmente fosse importante, que realmente tocasse as pessoas. Algo que fizesse
seu nome ser lembrado por gerações. Teria que fazer o personagem sofrer, mas
sofrer mesmo. Já tinha um nome para ele: seria Alberto.