Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu
sonho, nada veio à mente. Olhou para o relógio, estava atrasado. Pulou da cama,
vestiu a roupa de trabalho às pressas. Engoliu um copo de leite, trancou a
porta enquanto abotoava a camisa. Desceu o elevador colocando os sapatos.
Quando saiu à rua percebeu que estava chovendo, havia esquecido o guarda-chuva
em casa. Não havia mais tempo, era correr para a estação do metrô.
Não andou nem dez metros e um ônibus passou em uma
poça d’água encharcando Moisés. Ele não acreditava que seu dia começava assim,
tinha a certeza de ter pisado com o pé direito assim que saíra da cama. Não
havia mais tempo, iria para o trabalho assim mesmo.
Olhou o celular. Muito atraso. Uma mensagem. Sua
namorada, precisamos conversar. Depois responderia a mensagem.
Correu até a estação do metrô. Já estava lotada
àquela hora, só conseguiu pegar o segundo trem. Repassava mentalmente o que ele
precisaria falar na apresentação que já deveria ter começado. Pensava também em
uma desculpa pelo atraso. Distraído que estava, não percebeu que lhe levaram o
celular e a carteira. Deu-se conta do fato apenas perto do trabalho, quando foi
buscar seu crachá. Encontrou-o, mas apenas ele, não o restante.
Ficou nervoso, mas precisava focar agora na
apresentação, depois faria um BO. Ficou parado procurando se lhe haviam levado
alguma outra coisa da mochila, o laptop ainda estava lá, mas não havia sido
poupado pelo ônibus – encontrava-se encharcado, assim como Moisés. Será que
ainda funcionaria? Continuava procurando para ver se sentia falta de alguma
outra coisa quando lhe deram uma trombada e ele rolou escada abaixo. Ambos os
cotovelos ralados, um rasgo na camisa. Não acreditava no que lhe acontecia.
Caminhou até o prédio onde trabalhava.
Completamente molhado, roupas esfarrapadas, um fiapo de sangue escorria de sua
testa. Atraía olhares receosos. Sacou seu crachá da mochila, havia quebrado em vários
pedaços na queda. Precisaria pegar um novo. Documento por favor? Não tinha
nenhum.
Não aguentava aquela situação, deu um grito bem
alto. Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu sonho, algo sobre um dia
muito estranho lhe veio à mente. Olhou para o relógio, ainda faltavam duas
horas para a reunião que deveria coordenar e se sentia descansado. Ainda bem,
seria um longo dia. Espreguiçou-se e tomou um banho demorado, relaxante. Tinha
tudo na ponta da língua, seria uma grande oportunidade de mostrar seu trabalho.
Desceu o elevador assobiando Beatles. Parou no
sexto andar, entrou a vizinha do 601 que lhe deu um grande sorriso. Ele
respondeu ao sorriso, coçando o anel na mão direita.
Quando saiu à rua percebeu que era um dia de sol.
Colocou seus óculos escuros, ainda faltava mais de meia hora até o horário da
reunião.
Não andou nem dez metros quando um carro parou ao
seu lado e buzinou. Olhou para dentro e percebeu que era seu chefe.
- Moisés, que surpresa vê-lo por aqui.
- É que eu moro aqui do lado. Você também?
- Não, não. Eu fui a um médico aqui perto. Quer uma
carona?
- Claro!
- Entra aí.
Olhou o celular. Havia tempo, de carro chegaria em
menos de dez minutos. Uma mensagem. Sua namorada, dizendo que lhe amava.
Respondeu carinhosamente dizendo que também a amava e que já estava com
saudades.
Abriu o laptop, ficou conversando com o chefe sobre
a apresentação. Este gostou muito, e prometeu se lembrar disso na próxima
promoção.
Estava feliz. Acordou de sobressalto. Tentou se
lembrar de seu sonho, algo sobre um dia muito estranho lhe veio à mente...