(com Anaê Veronrsi)
Com a barriga inchada
Trabalhei em turno dobrado
De dia escritório,
De noite foto,
Até a inauguração
Do mural do menino do dedo verde.
No primeiro dia
Sem a vida prática
Senti um respiro de liberdade.
Na análise
Às 11 da manhã
De repente a barriga diminuiu:
Chuaaaaaa!
No restaurante
Às 15 horas
Com as minhas guias
Me protegendo.
Às 16 horas
Entrei em um túnel,
No quarto
De joelhos
Com um mantra de fundo
A cada contração:
Relaxa e cede.
Enquanto as entidades
Me protegiam,
E protegiam essa Elis
Que estava a chegar,
Beto ao meu lado,
E eu apenas
Esperava,
Esperava,
Entregue.
A parteira me disse:
Vamos, precisamos
Ir para o hospital.
No carro, o primeiro medo:
Eu posso não ver
A minha filha, será que
Ela vai nascer bem?
Essas dúvidas,
Esses medos,
Permaneceram
Até o Marcos
Obstetra e guia
Chegar a mim do outro lado,
Me dar a mão,
E me trazer para fora do túnel.
O impulso final
É tão fora da lógica
Que não apenas um filho nasce
Mas se toca um dos limites da vida,
Vida e morte, alívio e amor,
A sensação da borda.
Ao nascer
Os seus olhos de jabuticaba
Sem lágrimas
Me olharam
E nunca mais fui eu.
Morri e renasci
Com a Elis.