domingo, 10 de setembro de 2017

Com a Elis

(com Anaê Veronrsi)

Com a barriga inchada
Trabalhei em turno dobrado
De dia escritório,
De noite foto,
Até a inauguração
Do mural do menino do dedo verde.

No primeiro dia
Sem a vida prática
Senti um respiro de liberdade.

Na análise
Às 11 da manhã
De repente a barriga diminuiu:
Chuaaaaaa!

No restaurante
Às 15 horas
Com as minhas guias
Me protegendo.

Às 16 horas
Entrei em um túnel,
No quarto
De joelhos
Com um mantra de fundo
A cada contração:
Relaxa e cede.

Enquanto as entidades
Me protegiam,
E protegiam essa Elis
Que estava a chegar,
Beto ao meu lado,
E eu apenas
Esperava,
Esperava,
Entregue.

A parteira me disse:
Vamos, precisamos
Ir para o hospital.

No carro, o primeiro medo:
Eu posso não ver
A minha filha, será que
Ela vai nascer bem?

Essas dúvidas,
Esses medos,
Permaneceram
Até o Marcos
Obstetra e guia
Chegar a mim do outro lado,
Me dar a mão,
E me trazer para fora do túnel.

O impulso final
É tão fora da lógica
Que não apenas um filho nasce
Mas se toca um dos limites da vida,
Vida e morte, alívio e amor,
A sensação da borda.

Ao nascer
Os seus olhos de jabuticaba
Sem lágrimas
Me olharam
E nunca mais fui eu.
Morri e renasci
Com a Elis.