(com Natacha Martinho)
O vazio da morte
Fria
Impessoal
Do mestre
Que era o meu pai.
Fria
Impessoal
Do mestre
Que era o meu pai.
"Vai, salta",
Ele dizia.
Eu sempre tentei
Saltar,
Até certo dia
Em que não saltei
De cabeça
No Tejo
Pois no último degrau
Já de tanto mergulhar
A cabeça doía.
Ele dizia.
Eu sempre tentei
Saltar,
Até certo dia
Em que não saltei
De cabeça
No Tejo
Pois no último degrau
Já de tanto mergulhar
A cabeça doía.
A indignação
Quando tive que voltar
Para casa.
Quando tive que voltar
Para casa.
O homem que nunca chorou,
Militar,
"Vai para o teu quarto
Chorar", ele dizia,
Mas já perto do fim após
Militar,
"Vai para o teu quarto
Chorar", ele dizia,
Mas já perto do fim após
Terem lhe tirado um pedaço
De intestino
Chorou o que nunca havia chorado
Em sua vida.
De intestino
Chorou o que nunca havia chorado
Em sua vida.
Ele sabia que havia
Soprado o anjo frio,
Não mais queria
Não mais queria
Incomodar,
Mas despedir-se, sim:
Contou que viu os horrores
Mas despedir-se, sim:
Contou que viu os horrores
Da guerra e do pouco que faltou
Para o seu sangue encharcar
A terra quente de Moçambique.
Ele deu as mãos à família,
Pediu um caderno para escrever a quem
Faltava,
E agradeceu a vida
Que teve.
Pediu um caderno para escrever a quem
Faltava,
E agradeceu a vida
Que teve.
Um amor bruto
De apertar até doer,
Um coração puro,
Sempre disposto
A compartilhar:
Os doces
Da mercearia da mãe
Eram roubados
Para os amigos.
De apertar até doer,
Um coração puro,
Sempre disposto
A compartilhar:
Os doces
Da mercearia da mãe
Eram roubados
Para os amigos.
Herdei esse roubo puro,
Essa vontade de sorrisos,
Esses despojos de infância
Da mercearia da vó Fernanda
Até que a minha mãe
Apanhou-me.
Essa vontade de sorrisos,
Esses despojos de infância
Da mercearia da vó Fernanda
Até que a minha mãe
Apanhou-me.
A distância da terrinha
Faz-me esquecer
Dos nomes e caras
Tão próximas.
Faz-me esquecer
Dos nomes e caras
Tão próximas.
Ele suava, suava,
Com a pele fria,
E amarela,
Seus pontos que deveriam ser tirados,
Achava eu,
Pela filha heroína,
Que não queria deixá-lo
Morrer,
Mas ao tentar salvá-lo
Sem nunca conseguir
A angústia e o medo
Por nunca mais ver
Essa pessoa que me ensinou
A pular
Para a água,
Para o nada incerto,
Para o desconhecido.
Com a pele fria,
E amarela,
Seus pontos que deveriam ser tirados,
Achava eu,
Pela filha heroína,
Que não queria deixá-lo
Morrer,
Mas ao tentar salvá-lo
Sem nunca conseguir
A angústia e o medo
Por nunca mais ver
Essa pessoa que me ensinou
A pular
Para a água,
Para o nada incerto,
Para o desconhecido.
Nessa noite
De sexta para sábado
Após aquele impessoal amarelo
Ele não reclamava mais de nada,
Seu silêncio ausente de incômodo,
O sonho de uma lembrança
De um funeral,
De sexta para sábado
Após aquele impessoal amarelo
Ele não reclamava mais de nada,
Seu silêncio ausente de incômodo,
O sonho de uma lembrança
De um funeral,
O abraço em minha mãe,
Até que a minha irmã falou:
"Papá está no hospital".
Até que a minha irmã falou:
"Papá está no hospital".
No CTI apenas duas pessoas
Durante dez minutos
Pela coragem
De vê-lo morrer.
Durante dez minutos
Pela coragem
De vê-lo morrer.
Ao chegar
O maquinal daquelas máquinas,
Daquele corpo não presente,
Até o suspiro final
O maquinal daquelas máquinas,
Daquele corpo não presente,
Até o suspiro final
Daqueles olhos cheios,
Daquele rio de águas claras,
Daquele corpo
Que ali ficou
Sem nunca mais pedir
Para eu pular,
Sem nunca mais pedir
A aventura,
Sem nunca mais pedir
Um pouco mais
De vida.
Daquele corpo
Que ali ficou
Sem nunca mais pedir
Para eu pular,
Sem nunca mais pedir
A aventura,
Sem nunca mais pedir
Um pouco mais
De vida.