sábado, 2 de abril de 2016

A Casa

Como contar o que se passou naquela casa? Como contar o que não consigo entender? Como contar o que não se pode entender? Como contar todos aqueles momentos passados, como contar todas aquelas histórias nas paredes, nos móveis, no espelho, na mesa, na cama, na cama, na cama, como contar as lágrimas sorrisos alegrias saudades que a contaminam? A porta se abre e um mundo de histórias emerge. Por quê? Por quê? Estou tentando entender. A moça do brinco de pérola me olhava. No café da manhã, no almoço, no jantar. Lá estava ela, de perfil, aqueles olhos negros que me perguntavam, me pediam, me davam bom dia e boa noite. Os ciprestes holandeses em brasas queimavam galhos folhas o céu e minha alma. A loucura a loucura a loucura. Escrevia. Escrevia para aliviar o peso, escrevia para buscar o sentido, escrevia para poder respirar. Escrevia. Mas a casa-caverna deixava só uma nesga de céu. A luz lá fora incomoda. Casa-túmulo. Casa-refúgio. Aquele espelho recordação onde mais de uma vez perguntei ‘quem é aquele?’ quando sabia já ser impossível a resposta, espelho-mar espelho-ilusão. Aquela poltrona-abraço-leão-de-chácara da qual não se podia sair. Aquela parede recortes fotos textos citações poemas sobrepostos do piso ao teto. A possibilidade-expressão e a mudez. A horrorosa mudez, intragável. É preciso contar, é preciso e as cinzas e a casa. Uma noite semiluz amigos cigarros bebidas música sorriso, uma noite desejo suor toque prazer, uma tarde almoço bem-vindos sentem-se é um prazer. Mas o passado o passado o passado. Casa-pretérito-imperfeito. Casa por quê? Casa como aconteceu? Casa sem tempo no hoje. E aqueles quadros, e aqueles olhares, e aquela mulher cubana sem nome que me convidava e aquela menina cubana que me olhava e aquela família a óleo. A escada que subia rumo ao centro da terra. Mas a mesa, a mesa-café mesa-almoço mesa-jantar mesa-amor mesa-conversa mesa-suja mesa-suor mesa-sexo mesa-sala mesa-bem-vindos mesa-mesa mesa-madeira-e-vidro-e-textos-e-lembranças. Precisava sair, mas não podia. A casa uma porta só de entrada, casa-labirinto casa-minotauro casa-medusa. Comia as migalhas de pão que havia deixado no caminho para não morrer de inanição. E na floresta comia os livros, devorava-os. Livros-sede livros-água-do-mar, livros-incêndio. Mas atravessei uma ponte de palavras, e agora um sorriso quando do outro lado da rua vejo a casa rubra em chamas.