sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A Beleza

A beleza não se compra, não se troca,
A beleza não se busca, não se encontra,
A beleza se mostra
A quem tem olhos abertos.

Em beleza não há respostas:
Cessa o próprio ato de perguntar.
Não traz soluções nem caminhos,
Apenas a profunda certeza,
Inexprimível.

A beleza se experimenta sozinho,
Ao lado de alguém ou não.
Ofusca os olhos não acostumados
Com sua luz contumaz.

Em beleza não há o tempo,
Não há espaço só há o momento,
Qualquer intento em qualquer direção
Morre em face da sua Verdade.

Em beleza há uma pura saciedade,
Há a plenitude do transbordamento,
Que se afirma
E que confirma
O existir.

Mas como em um mergulho
Da beleza se volta,
Respiramos o comum ar,
Olhamos em nossa volta,
E nada mais nos resta
Além de agradecer.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A infância da inteligência

Na infância da inteligência
A ironia desponta,
Nasce a dúvida,
Assim como a dúvida do duvidar.

A alma abre os olhos a contemplar
A vida em toda sua veemência,
E também o horizonte que aponta
O eterno caminhar.

A alegria por ser produto de muitas eras
De pensamentos e ideias,
A humildade de saber-se
Ignorante
E a certeza de que a verdade
Não se encontra, mas se busca.

Nesse despertar
As noites se mostram insones
Em todo seu vazio abissal.

O homem que outrora se era
Desmanchou-se em conceber
O projeto que se é
Nesse instante.

O paradoxo de existir
Se afirma.
O momento presente
Como a grande possibilidade,
O movediço solo da pergunta
Em sua emoção virginal.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Sim

Aceite as pessoas
Como se aceita a chuva,
Como se aceita o sol.

Aceite os descaminhos
Como o beijo do vento
E o carinho das ondas.

Aceite a roda da fortuna,
O moinho do mundo,
A pedra inoportuna,
O fel imundo,
Como se néctar fosse,
Como um sabor doce,
Como o pássaro que trouxe
O seu suave cantar.

Aceite a dor,
A angústia e as lágrimas,
Elas encharcam o seco solo
E o preparam
Para a colheita que há de vir.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Línguas

Será que a palavra realmente
Expressa tudo que deve?
Será que ela não mente,
Será ela pura como a neve?

Em silêncio há a Experiência
Mas pela língua se pensa,
Através da língua se faz ciência.
Nela arraigadas estão as crenças
Mais profundas e vivas,
As lembranças mais futuras,
As ideias mais lascivas,
E as imagens de pura candura.

Uma língua é uma visão de mundo,
Uma tomada de posição,
Uma tentativa de expressar o mudo
Da alma, um conjunto de sins e nãos.

Ela é uma verdade estabelecida,
Um conjunto de caminhos ao devir,
E assim aprender novas línguas
É expandir as possibilidades do sentir.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A Pergunta

Busco a coerência inexistente em meus atos,
A continuidade pressuposta em um conjunto de fatos,
Mas só me deparo com o vazio,
Só encaro o vento frio.
Medito sobre a pergunta em que estou,
Quem sou?
Um amálgama de frágeis certezas,
Uma imagem baça em um espelho baço,
Alguém disposto a pequenas grandezas,
Um desenho gasto de rude traço,
Uma tela de tintas derramada,
Um sorriso sorrindo sorridente,
Um grito da alma calada,
O eterno e atual presente.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Gaiolas

O mundo já é uma gaiola
Suficientemente pequena para se viver
Então por que construir outra gaiola
Ainda menor
Pintada com dourados ornamentos
Uma nesga de céu para se ver
E com o vazio para ouvir os lamentos?

Como abri-la sabe-se de cor
Mas é mais fácil não perceber
No abismo não há conforto
Apenas fortes ventos e vertigens
Apenas o chamado da origem.
Ter que se arriscar? Para quê?
Se o conforto é confortavelmente aceitável,
Se louco é aquele que faz o gesto louvável
De abrir sua gaiola e voar?

O céu é das crianças e dos loucos.
À gaiola, caso se queira, se pode voltar:
Lá há água, lá há alpiste.
Mas o que não se deve é se contentar
Em ver desviados os roteiros,
É ter a alma triste
Por ter apenas dois ou três poleiros.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Hoje

Fugir da morte é ir em direção a ela,
Correr de seu fantasma é buscá-lo rapidamente.
Por isso não corro, caminho plácido,
Mergulhado no transitório,
E vejo
O horizonte que almejo dentro de mim,
E sinto
O extinto prazer de ser,
E ouço
O rouco eco tácito,
E sei
Que o sentido que ganhei transborda,
E sou
A borda do mundo,
O riso profundo,
O sol que nasce,
Da lua a outra face,
A grande vaga do mar
Em um poema a cantar.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Manifesto Poético

Não quero uma poesia fria,
Cautelosamente distante.
Descolada do sentir,
Afastada do viver,
Despreocupada com as preocupantes ocupações,
Despreparada e despreparando o homem.

Quero a poesia do instante.
Que ajude no devir,
Que ajude a ver,
Que se esqueça dos senões,
Suave cantar dos anjos que dormem.

As formas padrão? Usarei-as
Quando for belo
E a beleza pedir.
As rimas como grãos de areia
Se acumularão em cada canto singelo
Embalando o espírito no ir e vir.

As formas livres?
Por que não?
Estão aí para serem belas
E transmitir
O inconformável.

Quero a poesia como transbordar.

Nascida de profunda necessidade,
A humana condição
É seu ponto de partida.

Quero a metáfora precisa
Que atinge a fímbria
Da Verdade.

Repudio a palavra tíbia,
Oriunda de métrica sem razão,
Ou a palavra excessivamente polida
Perdida sua dourada folha.

Não há escolha:
A palavra exata
Se faz necessária
Por si própria.

Mas o que seria então o poeta?
Nada mais do que um simples mediador,
Um conjunto de poemas
Sem biografia.

A fonte de significações no leitor
Se encontra, a compreensão ele sempre acerta
Pois está em si e em seus temas,
Em sua biografia.

A poesia precisa ser útil
Também, sucinto gesto do pensar,
Pérola singela e precisa,
Guarda um saber importante,
Guarda um sabor inquietante
Como belo mas fútil vintém
Em descartá-la não se pode pensar.

Mas a utilidade por si só
É a morte da elevada delicadeza
Do cálido toque poético.
A poesia deve ter um quê de metafísica,
Mostrar o desenlace do íntimo nó,
Mostrar em plenitude a natureza,
Que permite profundo mergulho estético,
Que é simples e é certa,
Que nos abre à descoberta
Da íntima e sublime música.

Quero de Baudelaire as flores,
De Pessoa o rebanho e o campo,
De Florbela as dores,
De Vinicius o amoroso manto.

De Clarice suas brisas invernais,
De Drummond a de emoções embriaguez,
De Saramago a viva lucidez,
De Augusto seus anjos infernais.

Mas não os quero simplesmente dados:
Quero digeri-los e vomitá-los
Antropofagicamente.

Quero buscar o sentido,
Quero expandir as possibilidades
Do vir a ser.
Ir muito além do permitido
E subindo nas montanhas sem idade
Verdadeiramente ser.

Equilíbrio

A vida é pequena sem o riso,
O peso existe pois há leveza.
Quando a olhamos com excessivo siso
Lançamos uma flecha sem a corda tesa.

O bom humor relativiza e equilibra,
Re-hierarquiza e realoca prioridades.
Demasiada seriedade é densa fibra,
Massa indigerível em qualquer idade

Antes de cuspir qualquer impropério
Olhemos para dentro a pensar em uma gargalhada:
Inebriante voo da alma alada.

A vida sem peso é um balão de hélio
Subindo aos céus até estourar.
Sem leveza, uma esfera de ferro no fundo do mar.

Sensação de Mar

Depois daquelas areias macias
Que pisam macio meus pés,
Vem aquela água infinita
Que habita as maiores profundezas,
Visão de calma beleza

Dentro dela o êxtase
Se sente, um toque suave
De uma mão carinhosa
Que passa bondosa
Deixando impressão.

Dentro dela o grande abraço
Afasta o cansaço em merecido repouso,
O pouso de uma ave após longa viagem,
Deixam brilhantes os olhos de emoção.

O abraço pode ser frio ou quente
Dependendo da temperatura da entrega:
Em plenitude, o frio quente se sente.

Em plenitude, a pergunta é ausente,
Apenas se é.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Sentido

Onde estará ele?
Aquele fim de toda ação,
Aquele pelo qual dizemos sim e não,
Aquele início e fim em si mesmo?

O sentido está em tudo.
Em um minúsculo grão de areia,
Na infinita melodia das ondas do mar,
No vento que vem nossos corpos beijar,
Na chuva que vem nossa alma lavar,
No existir.

O sentido está.
A nós, meros mortais,
Basta-nos apenas
Abrir os olhos
E ser.

Pequeno Momento

Como é bela a noite brilhante!
Como é eterno o infinito a que pertenço!
Meus olhos mergulhados na pureza cintilante,
Meu corpo entregue em espasmo intenso.

Estrelado céu em mim.
Entoando cânticos sublimes
Vi estrelas mil e assisti assim
A morte do eu em lânguido crime.

A brisa marinha mariseava
Minhas emoções mareadas.
Com o mar aprendi a ventura
Que é a aventura de amar.

Orgulho

O orgulho o homem cega,
Lhe faz pensar ser mais
Do que é, a sua entrega
Faz sonhar capaz o incapaz.

Nuvem de ilusões ele cria,
Transforma o ato em prepotente,
Afogar-se no lago auxilia,
A si ele verdadeiro mente.

Impede a honesta empatia,
Afasta o autêntico encontro,
Proíbe a sincera partilha.

Mata esse vil sentimento!
Encontra em si o central ponto
Sem tal fétido excremento.

Celebremos

Celebremos o fim das guerras,
Uma vacina revolucionária,
A enfim divisão das terras,
Nenhum homem em condição precária.

Celebremos o espírito augusto
Em evolução, a constante busca,
O justo sono do justo,
A ética que a injustiça ofusca.

Mas ao invés disso celebramos pungentemente
A ignorância nossa de cada dia.
A alienação é natural entorpecida a mente.

Celebrando o incelebrável feito,
A alma seca estia.
Torpe ato barbaramente perfeito.

Há poesia no não poético?

Que há poesia no sublime,
Disso o mais cético não desconfia.
Não é necessário algo que legitime:
A elevada poesia é filosofia.

Também já se descobriu poesia no baixo:
As flores que nascem no fértil esgoto,
O poético e lamacento compromisso
De ver a beleza em imundo pano roto.

Mas será que há poesia no não poético?

Será que há poesia em um mancal de rolamento,
Em uma interminável tabela Price,
Em uma rotina que embota,
Em uma adutora?

Há uma proposta sedutora:
A poesia pelo olhar faz-se,
A realidade tudo comporta,
Não há que se dizer lamento,
Vendo o todo, tudo é poesia.

Seria então um problema de escala?
Seria então um problema de visão?

Tentadora e rasteira fala.
Quem não frequenta a escola
Da vida, quem não viu o mundo
Defende semelhante gaiola.

Será que se pode cantar
O não poético?
Desfolhar o belo singelo
Que em si carrega e louvá-lo?
Em versos valorar a sua entrega?
Destacá-lo de seu contexto
E em poético texto cantá-lo?

O não poético é a não poesia.
Sua poesia, existindo, é apenas projeção.

Mas o não poético não perde valor
Por não ter poesia.
O não poético é a afirmação da dor
Latentemente constante em nosso dia a dia.
O não poético é a fome
De sentido.
O não poético é a mãe insone
Que o filho perdeu.
O não poético é a realidade mais pungente que a poesia.
Ele existe, ele está lá.

O não poético insiste em se afirmar,
Mas assim como a cor branca é branca
Perto da cor preta
E existe o mar
Porque não é terra, fogo nem ar,
O não poético torna mais poética a poesia,
Não é preciso vê-la em astronômica luneta.
Lado a lado com a poesia, o não poético
Reforça o estético deleite de existir.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Ecos

Ouço vozes
Proximamente distantes.
Me pergunto:
Onde está o sentido?
À minha volta gestos,
Ecos de uma repetição atemporal.

Sorrisos simples simpáticos,
Fáceis falsas falas,
Concordâncias concordando em concordar.

Imerso nessa neblina
De pensamentos, que nada ensina,
Sigo buscando o momento,
Sigo mergulhado no intento,
De engolir o todo.

Mas o espontâneo riso de uma criança,
Puro,
Virginal,
Me traz de volta à realidade,
Me traz de volta à verdade.
O sentido está em ver,
O sentido está dentro de mim.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sentir

Sabe-se que sentir é importante
E bom.
Que ver é abertura flagrante
Da alma.
Mas o que se vê e o que se sente?

Sem perder o tom nem a calma,
Lhes digo:
Sente-se a leveza das flores
E o peso do existir.
A fome dos que tem fome
E a saciedade burguesa.
Dos doentes as dores,
Dos sãos o porvir.
A angústia do insone,
O sorriso do repouso.
O distante horizonte da criança,
Do definhante o forçado pouso.
De um banquete a pujança,
Dos desprovidos a esperança.
O juvenil ruído alegre,
O silêncio fundamental.
A ventura do amante
E também suas dúvidas.

Acima de tudo se sabe e se vê
E se mergulha na certeza
Que tudo está certo,
Que tudo é beleza,
Que tudo é.
E assim seja.

Vertigem

Para os loucos,
Loucos são os sãos.
Aos olhos de quem
Não vê,
Cego é quem vê
E não percebe o mundo
Assim como eles
Apenas pelo tato comum
E pelos sons.

A vertigem dos grandes montes
É impiedosa.
Inevitável mal de quem busca,
Inadiável destino de quem vê.
Sem raros dons nem bússola
Sobe-se mais e mais.

O que ficou para trás
Assim ficou.

Os ventos a meia altura
São severos.
As pernas fraquejam,
O corpo fatigado diz não.
Não se pode parar a meia altura:
A meia altura, a vista é meia vista
E inclementes são as intempéries.

É preciso expandir a largura
Do ser.
E ser forte e seguir em frente.
No alto, há paz,
A calmaria do olho do furacão,
A vista que se vê e sente.
Nos píncaros simplesmente se é.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sou

Sou um labirinto de descaminhos
Flutuo no nada
Fito o abismo abstrato
Retrato de constante grito
Trilho cada trilha sozinho
Navego o mar de minha alma
Abraço o infinito
De mim
Digo sim
E sinto.

Estar

Somos mestres em fugir
De nós mesmos
Estamos a nos divertir
Com amigos queridos
Mas a pensar no amanhã
A nos arrepender do ontem
Estamos em qualquer lugar
Menos lá.

O que poderia ser ensolarada manhã
Algo que a alma retém
E por muito tempo traz alegria
Se transforma em ocre nostalgia
Nos sentimos em soturno sonho
Amálgama de pensamentos desconexos.

Acostumados com sombras e reflexos,
Tentamos anuviar a consciência
Tentamos calar a voz
Que nos diz: há algo.
A tratamos como ruído enfadonho
Para escondê-la usamos toda ciência.
Procedimento infâme e atroz!

Para!
Escuta a interior fala,
Acaricia suas incômodas palavras,
Esteja em cada momento.
Não deixe a oportunidade passar.
A vida é a arte do encontro
Mas nessa tela é preciso saber pintar.