domingo, 1 de dezembro de 2013

Caixa

a alma que se expande
não quer se contrair
quando se torna grande
deseja no infinito rio fluir

mas o pé que cresce de repente
encontra apertado o sapato
não mais conforto sente
o incômodo passa a ser um fato

assim a insensata rotina obriga
recolocar em uma caixa o espírito
tamanhas possibilidades não abriga

é mister podar-se pelas beiradas
engolir seco o amargo grito
uma identidade a flutuar no nada

Eu

com uma agulha a costurar
minha identidade feita de retalhos
me busco como quem busca ar
experimentos de definição? falhos

nesse multicolor pano tento
o constante viço do novo
um novo ponto invento
afasto o canto do corvo

ao lavar esse manto de trapos
que sou, ele fluido se dissolve
vou em sua caça em todos os atos

seu bordado é a borda de mim
sua forma nunca se resolve
uma agulha a fiar sem fim

Pertencimento

em um súbito instante
o ser transbordou
impossível seguir adiante
sem dizer o que se passou

na beira do mar corria
verdes montanhas no horizonte
ondas os meus pés beijavam
a luz do sol entre nuvens, era dia
suave brisa em minha fronte
lânguidos murmúrios me lembravam
que eu estava só

então a Natureza a pergunta me fez
a gota d'água em cheia taça
e tomado da mais pura sensatez
como um fiel cão que não foge à caça
lhe respondi: Sim

dois, cinco, centenas à minha volta
em revoada gaivotas, quero-queros
me entreguei como quem solta
eu vos quero
eu vos quero

sem nome e sem limites eu era
sozinho não estava
tinha tudo que se espera
tinha tudo e cantava
sorria alegremente por ser
olhava alegremente por ver
caminhava levemente por perceber
que tudo simplesmente é

chamou-me o infinito
e eu lhe disse ainda não
em profundo grito
de contentamento
estava são

a vida se descortina em possibilidades
é preciso abraçá-las
abrir a mais profunda subjetividade
emudecer as contrárias falas

o longínquo céu próximo estava
flutuando na úmida areia quente
a alegria de quem sente
pertencer

Realidades

não quero uma realidade
da qual eu tenha que fugir
esquecer-me da verdade
nada esperando do porvir

em constante experiência
buscando um simples instante
para tampar a ausência
em uma busca inconstante

quero uma realidade
para a qual eu queira voltar
sempre na flor da idade

me sentindo e feliz ser
junto dos pássaros cantar
a aguda alegria de viver

Possibilidades

é preciso em ressonância
com o mundo entrar
deixar-se com eurus ir
mas com zéfiro voltar

transbordar a viva ânsia
de viver
chorar pela marítima beleza
cantar pelo luar de platina
pelo dourado sol sorrir

ser um com a natureza
sem limites, sem bordas
só soluços da mais pura alegria
flutuando sem cordas
em um palco a brilhar

Uma Simples Flor de Lótus

toda a beleza do mundo
cabe numa simples flor de lótus
num simples instante

um momento onde vibram fundo
as cordas mais agudas do coração
não há como capturá-lo em fotos
não há como transmiti-lo ao maior amante

bebemos a água dos rios em grandes goles
os ventos nos perpassam em grandes foles
as montanhas nos engolem em profunda oração

campos de arroz com chapéus prostrados
cantos de pássaros em verdejante floresta
cheia lua com seu alvo véu encantado
amplo sorriso que felicidade atesta

dizemos sim
em uma simples flor de lótus

De Frente para a Noite

a solidão que ataca no negrume da noite
é inclemente
imperdoável algoz das felizes lembranças
sentimos no rosto as marcas do açoite
no coração a dor do ser ausente
nos ouvidos ecos das vozes das crianças
que nunca tivemos
que há muito fomos

sentimos no corpo o ardor do vazio
neste momento de profundo estio
da alma
olhamos de frente o abismo
com sua fresca brisa invernal
não há calma para sairmos do mutismo
que emerge de nosso âmago, abissal

em meio ao grande nada
ouvimos ao longe o canto
de um pássaro
e outros, e outros, uma revoada
o mundo se recobre de rubro manto
uma chaleira apita
uma mãe diz que não se repita
um bebê se agita
e somos felizes por atravessar mais uma alvorada

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Abismal Companhia

Cedo ou tarde ele vem
Por mais que tentemos nos esconder
Por mais que finjamos não o ver
Queiramos ou não somos reféns

O negro fantasma da solidão
Não perdoa, inclemente
O bem quisto ausente
É suficiente condição

Mais eis que chega o dia
Quando de repente o abraçamos
Muito gentilmente o tratamos
Ele, surpreso, desconfia

Lhe entregamos nosso maior valor
Mostramos o que corre em nossas veias
De presentes suas mãos cheias
O fazem ficar sem dissabor

De início ele gosta de tantos mimos
De início ele sorrindo se recosta
Mas esse cuidado frustra sua aposta
Não acostumado a modos tão finos

Então assim como chegou ele parte
Em busca de alguém que dele fuja
Fica à espreita como a noturna coruja
Esperando o momento de mostrar sua arte

Sua ausência quase não se nota:
Transbordamos de nós e somos
Nos banhamos de chuva e vamos
Ficamos felizes em companhia nossa

Números

Cansada de sua rotina, pensava constantemente no que poderia libertá-la. Um novo amor? Mais viagens? Festejar com as amigas? Nada disso trazia uma mudança significativa, já havia tentado muitas vezes. A alegria do novo se dissipava na sistematicidade do seu dia a dia. Discutia com sua consciência e se consolava repetindo para si mesma que aluguel não se paga sozinho. Não era suficiente, não havia sentido, seus olhos estavam se tornando opacos.
Era funcionária de repartição. Carimbos, relatórios, instruções, memorandos, despachos, encaminhamentos, solicitações, e-mails, faxes, telefonemas, setor de serviços especiais bom dia, boa tarde setor de serviços especiais em que posso ajuda-lo, 1430 boa tarde setor de serviços especiais. Papeis, papeis, papeis. O computador a ajudava em sua organização, mas a quantidade de processos aumentava inclemente.
Segunda-feira não se encontravam sorrisos na repartição, a sombra do fim de semana escurecia as almas. Seu crachá de identificação trazia a marca do jugo: número de cadastro 1430. Retirá-lo da bolsa na negra segunda era a certeza de que os próximos cinco dias seriam longos.
O número de cadastro era utilizado para todas as solicitações e serviços da repartição. Pedido de cópia? 1430. Envio de documento? 1430. Despacho urgente? 1430. Às vezes atendia o celular e respondia sem pestanejar: 1430 bom dia. A dúvida do outro lado da linha trazia a lembrança de seu nome, muitas vezes perdido em uma pilha de papeis.
Estava em casa preparando a janta quando uma reportagem despretensiosa chamou sua atenção. Um motorista havia sido preso por adulterar sua placa com uma singela fita isolante, trocando o 0 por um 8. Surgiu instantaneamente um sorriso de canto de boca, os olhos se fecharam um pouco.
No dia seguinte suava em bicas ao chegar ao prédio tão conhecido. Sacou o crachá com as mãos tremendo. Não sabia o que poderia acontecer, foi só um equívoco, foi sem querer, não se repetirá, mas o frisson das possibilidades lhe fazia seguir em frente. Respirou fundo e de olhos fechados posicionou o crachá em frente ao leitor ótico. Um bip eletrônico. Quando voltou a si viu a mensagem na tela de cristal líquido: Bom Dia 1438, Elevador 3.

As intermináveis reuniões ocupavam quase toda sua agenda. Ia de sala em sala como fugidios beijos carnavalescos vão de boca em boca. Todos queriam saber sua opinião, o silêncio imperava quando começava a falar, elogios se acumulavam em sua gaveta. A mesa limpa, papeis que podiam ser contados nos dedos, aprendera a delegar e a se fazer obedecer.
Sua ideia havia sido um sucesso, nunca imaginara trabalhar no 18º, andar destinado apenas aos membros daquela elite que só conhecia de longe. O elevador a conduziu até a recepção da diretoria, esse tempo, que calor, uma pergunta de soslaio, os engarrafamentos estão piorando, e descobriu onde era sua nova sala.
Nas primeiras semanas uma alegria misturada ao medo de ser descoberta tomava conta de si. Ninguém pareceu perceber: todos a tratavam com decoro e se descobriu confortável nessa nova posição.
Entretanto os meses foram passando, sua nova rotina era deveras corrida, se cansou de ter de sorrir sempre. Nada conseguia tirar uma ideia da cabeça: 1488. Por que não?
Nunca poderia imaginar que esse movimento não teria volta, um passo que iria transformar sua vida para sempre. Comprou tinta especial e com a prática suas delicadas mãos conseguiam escrever qualquer número.
Deixou de ficar muito tempo em cada lugar, mudava constantemente. Havia estabelecido que o prazo máximo era de uma semana e assim em um mesmo mês carimbava, carregava documentos, dava ordens, elaborava petições, assessorava reuniões, juntava papel reciclável.
Certo dia sua entrada foi bloqueada pelo leitor ótico. Um olhar de espanto rapidamente disfarçado com um sorriso nervoso. De novo. 2531. Negado. Antes que os seguranças percebessem voltou correndo para casa pensando no que teria acontecido. Será que havia sido descoberta, e agora, o aluguel, as contas da casa, o plano de saúde de sua mãe doente, o que fazer, se entregar, fugir?
Pouco mais de uma hora depois, mais calma, se lembrou de um detalhe quase insignificante: sua repartição possuía 2322 funcionários. Escreveu um novo número de cadastro, utilizou o secador de cabelo para terminar o trabalho mais rápido e nervosa como do primeiro dia enfrentou o leitor ótico. Um bip eletrônico, Bom Dia 1762, Elevador 5.
Os meses se passavam e ela já havia se acostumado a sua nova rotina. Às vezes, por coincidência, trabalhava no mesmo setor por semanas seguidas, apenas trocava a mesa onde estava sentada. Entediada por já conhecer todos os setores da repartição começou a pensar se valeria a pena voltar para alguns números que gostara, possuía uma lista com os 10 que mais lhe agradaram. Uma ideia a atingiu de frente. Sorriu.
Dia seguinte, Bom Dia -320, Escada 3. Deu certo. Curiosa foi então descobrir onde isso iria levá-la. Encontrou um setor onde todos eram segunda pela manhã, não aguentou nem uma semana. Bem, se esse número funcionou...
Bom Dia, 5/8, Elevador Expresso 2. Foi parar no Setor de Engenharia. Calculadoras, planilhas, projetos, cronogramas, orçamentos.
Bom Dia, √2, Esteira 1. Setor de Relações Governamentais.
Bom dia, 2i, Tobogã 2. Setor de Criação de Novos Projetos. Oompa loompas com seus cabelos verdes andando de um lado para o outro.
Bom dia, 5i + 3, À Direita no Elevador 3 subir um Lance da Escada 2 e em seguida Deslizar pelo Escorrega 5. Planejamento Estratégico.
Resolveu arriscar, as possibilidades do novo eram muito superiores às garantias do que já havia descoberto. Bom dia, 0. Elevador 1. Tudo bem minha senhora? diz o prestativo ascensorista, o primeiro que havia visto na repartição. Saiu na cobertura do prédio, o entorno envidraçado permitia ver todo o centro da cidade. Diretoria Geral.
Já chegara até aí, precisava da derradeira tentativa. Era mais forte que ela, não conseguia conter a vontade que tomava conta de si. Desenhou cuidadosamente oo  em seu crachá e despediu-se de casa.
Pensava em sua família, namorados, grandes amigas, viagens longas, livros, festas. O tempo passava incessante do lado de fora da repartição. Lembrou-se de seu nome, quase não o utilizava mais, deixava-o anotado na porta da geladeira para não se confundir.

Encostou o crachá no leitor ótico, a tela se desligou. Uma a uma as luzes se apagaram, todos correram para ligar seu celular e não ficar no escuro. Com um semi-sorriso ela deu meia volta e depositou o crachá na caixa de achados e perdidos.

Em Frente

Naqueles momentos das Grandes Perguntas
Quando não se sabe mais dizer Eu
Quando não se sabe como nem por que
Quando a alma se abre e nada vê
É preciso em frente seguir

A noite só existe pois não é dia
Você só existe pelo devir
Ao negrume dessas intermináveis horas
Com a pureza da virginal infância
Se seguirão ensolaradas manhãs

Pois então quando suas chagas
Estiverem abertas purulentas
Jogue-lhes álcool e aplaque a infecção!
Ninguém de dor morreu
Só se morre de doença e de ignorância.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O pequeno grande prazer



O pequeno grande prazer


            Pensamentos mil passam pela sua cabeça. Como foi o seu dia, preocupações para o dia seguinte. Aquela pendência no trabalho que ainda não foi resolvida. Médicos a marcar. Relacionamento. Um barulho distante, o que será? Vozes de vizinhos revolteiam suas ideias. O que você está fazendo? O aluguel vence amanhã, você precisa ir ao banco fazer o pagamento. Contas de luz, gás, telefone. Aquele defeito intermitente no celular que acaba com sua paciência. É preciso mais ter mais calma, seu amigo está precisando de sua ajuda agora. Ele estava lá quando você precisou.
            E você não se apega a nenhum pensamento. Eles fluem em uma torrente independente, interminável e incessante. Desapego: são apenas ideias, obstáculos da mente, tão longe do Eu.
            Inspirar, expirar. Inspirar, expirar. Prestar atenção na respiração.
            Aquele seu chefe que pisou na bola com você. Uma miríade de possibilidades felizes, destinos diferentes, desfilam bem a sua frente, as coisas poderiam ter sido diferentes. Um passo atrás: poderiam mesmo? Outro passo atrás: por que isso me incomoda? Mais um passo atrás: inspirar, expirar.
            O cheiro do incenso embriaga os sentidos. Surge uma alegria interna.
            O agitado mar começa a se acalmar. O fundo, antes turbulento, começa a ficar mais claro.
            A mente começa a se esvaziar. Aos poucos os limites entre o indivíduo e o mundo ficam fluídos, você é o todo.
            Inspirar, expirar. Inspirar, expirar. Coluna reta, postura firme.
            Um arrepio passa pela sua espinha dorsal.
            Não existe mais sujeito e objeto. Pensamentos não se estruturam. Você não apenas está, você é.
            Os limites do ego se dissolvem. Você vislumbra a Vida, a grande Essência, da qual você é uma parte indissociável.
            Inspirar, expirar.
            SILÊNCIO.











            Toca o sino, é hora de fazer o gashô. Seu corpo dói pelo tempo que passou na mesma postura. Você se alonga, seus olhos sorriem.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Fraquezas


Tinha medo de fraco me revelar
Aos escrutinadores olhos doces
Infinitos como o vasto ondulado mar
Daquela que o destino me trouxe.

Poderia eu me apresentar medíocre
Frente à ela que guarda tanta beleza
Que me transforma de argila ocre
Em altivo ser disposto a grande nobreza?

Ela que traz vida a monótono cenário
E alegria aos chuvosos dias de inverno
Me disse, para guardar em dourado relicário:

“Não temas, cavalheiro que desafia a morte,
A grande verdade do sentimento eterno
É descobrindo as fraquezas que o amor se torna forte.”

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Experiências de Infinito - II

Um pedido

Venha onda
Quebre nos afirmativos rochedos
Traga água para mim
Alva espuma para o mar.

Busque em mim amor
Que lá ficou
O tudo existe, não sou
Venha minhas areias banhar
Beije meu corpo longamente.

Em você habita o infinito
De nós.

E me faça feliz.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Experiências de Infinito - I

Vento

Em você pássaros de asas abertas voando com a cabeça rumando o horizonte
Balançam galhos de árvores sem folhas para lá e para cá
Nuvens caminham de um lado para outro avisando que a chuva virá
Telhados de casas alto rangendo no seu belo monte.

Esteja comigo e me acompanhe
Em incontáveis viagens sem volta
Em meu dia a dia me banhe
Com suaves brisas me embale
Em sonhos contigo
Eu quero ficar.

sábado, 28 de julho de 2012

O Dossiê


I

Como aquele dossiê havia surgido? Quem era responsável por ele? E o que continha? Só na reunião que João poderia descobrir. Mas ainda faltavam algumas horas, será que ele não conseguiria nenhuma informação? Já havia tentado todas as instâncias que se lembrava existirem, ninguém havia lhe dado nenhuma nova informação.

Nos Recursos Humanos, nenhuma informação. Andara em círculos, passando de departamento em departamento, até voltar ao primeiro. Três vezes. Não sabiam do que se tratava. Foi no protocolo, administração, nada. Um senhor de óculos fundos que já estava na recepção desde que João se lembrava tocou-o no ombro.

- Você está procurando alguma informação, meu filho? – perguntou-lhe o senhor

- É um dossiê, não consigo encontrá-lo. – respondeu João

- Tome, talvez isso lhe ajude.

O senhor entregou a João um post it com um número anotado. Era o número de uma sala, nunca havia estado nesse andar. João foi para o hall dos elevadores, esperou os costumeiros dez minutos até que conseguiu subir para o andar desejado.

Quando as portas se abriram, João viu um longo corredor, entulhado de papéis, uma parca luz ao fundo. Foi se dirigindo para essa luz, impressionado com a quantidade de documentos, relatórios, instruções, pedidos, recibos, notas e resoluções que via a sua volta. A luz vinha de uma luminária ao lado de uma porta onde se lia “Arquivo Geral”.

Bateu na porta quatro vezes até que ouviu uma rouca voz feminina dizendo-lhe “Entre”.

Era uma sala organizada, uma antiga máquina de escrever fazia parte da decoração. Uma senhora com seus 70 anos e 1,50 perguntou em que poderia ser útil a João.

- É que eu estou procurando um dossiê – João respondeu, e entregou a ela o primeiro e-mail que recebera sobre ele.

- Hmmm – murmurou a arquivista, pensativa. Tentou colocar o número em seu computador, nada. Foi para a lista geral - Dossiê 01.386.410, 01.386.411, 01.386.413. Realmente, o 412 não está aqui.

Foi verificar se alguém o havia tomado emprestado - nenhum registro.

- Desculpe senhor, mas infelizmente não posso ajudá-lo – respondeu-lhe sentenciosamente a senhora.

Desolado, João voltou para sua baia. O que iria fazer?



II

Já se passavam 18 anos desde que João Alberto começara a trabalhar naquela empresa. Havia pensado muito antes de decidir se faria ou não o concurso público, era uma decisão para a vida inteira. Mas quando viu sua então namorada perder o emprego e o orçamento familiar ser reduzido drasticamente, soube que era o que precisava ser feito.

Foram dois anos de estudo, recompensados. Não havia tempo livre, todo espaço na agenda – durante o almoço, depois do jantar, fins de semana – era utilizado com um só fim – o concurso.

Muitas provas, recursos, anos e cadastros de reserva depois, recebera o telegrama tão esperado.

Nesses 18 anos, havia ocupado diversos cargos nas mais diferentes seções, departamentos, áreas e superintendências da empresa. Conhecia-a talvez mais que a palma de sua mão, para a qual já não olhava há tempos. Sentia que era parte de algo maior, e isso sempre o tranquilizou. Ou tranquilizava.

Agora, tudo parecia vazio. Uma semana atrás recebera um e-mail:

“Ref.: Dossiê 01.386.412

Prezado Senhor João Alberto,

Solicitamos a vossa compreensão para comparecer na sala 2510 na quarta-feira, dia 15, às 17:00.”

Mas que dossiê era esse? E o remetente, oculto. Nem se dignaram de assinar o e-mail, apenas uma mensagem assim, seca. Encaminhara o e-mail para a equipe de TI para tentar descobrir de onde viera essa mensagem – nada.

João tentou se lembrar de fatos importantes que poderiam ter gerado algo assim, mas nada vinha à cabeça. Logo ele, que sempre trabalhara com correção e honradez. Deveria ser um engano.



III

- Você tem visto o João?

- Ultimamente não. Me lembro dele perguntando sobre um dossiê.

- Sim, já fazem algumas semanas. E então?

- E então o quê? Não sei, ele só falava desse assunto. Até que um dia, era de manhã ainda, ele chegou na sua baia com uma cara arrasada. Desligou o computador, pegou o paletó e foi embora.

- Sim, sim, isso eu já sabia. Mas você não notou nada diferente?

- Bem, ele estava muito estranho naquela época. Parecia meio desconectado com o mundo, falava coisas estranhas. Depois daquele dia não sei dele, ele nunca mais voltou.



IV

No dia em que recebeu o e-mail sobre o dossiê, João não conseguiu dormir. Ficou remoendo aquele assunto horas a fio. Os primeiros raios de sol entravam pela janela e ele percebeu que já era manhã. Levantou-se e foi à cozinha tomar um café.

“Deve ser um engano”, afirmava João para si mesmo. “Por que um dossiê assim, tão secreto? Sem nenhuma informação, ninguém sabia de nada. Provavelmente era para outro João, afinal nome tão comum como esse são poucos, talvez José, Antônio, Felipe, mas João deveriam haver mais de 20 em sua empresa. João Alberto nem tanto, mas quem sabe misturaram os nomes...” Esse pensamento o confortava, apesar de não conseguir se convencer que fosse verdade.

Chegara no dia marcado bem cedo, alinhado, barba feita. Estava nervoso, mas pelo menos iria saber o motivo daquilo tudo. Ou não.

Ligou o seu computador. Ninguém nas baias vizinhas, um grande silêncio ocupava aquele ambiente de luzes frias. O porta-retratos ao lado da tela do computador lhe trazia boas lembranças. A pequena bandeira de seu time de futebol não lhe deixava esquecer que havia jogo domingo no Maracanã. Os livros que guardava, alguns desde sua faculdade, lhe transmitia uma sensação de poder oriundo do conhecimento que acumulara. E os papéis, muitos papéis, eram a certeza que ainda tinha muito trabalho para fazer.

Entrou no seu e-mail e viu uma nova mensagem, muito parecida com a primeira:

“Ref.: Dossiê 01.386.412

Prezado Senhor João Alberto,

Informamos que o compromisso desta quarta-feira, dia 15, 17:00 está remarcado para amanhã, quinta-feira, dia 16, às 11:00. Solicitamos a vossa compreensão para comparecer na sala 2510 neste dia e horário.”

Foi um choque para ele. A ideia de que poderia ser um engano desmoronou como um castelo de cartas à mais leve brisa. Não era um engano, recebera outro e-mail. Seria então amanhã o dia decisivo.

A noite chegara, mas com ela não veio o sono. Mais uma noite em claro, uma xícara de café na mão, um olhar perdido no horizonte. De seu apartamento João via uma pequena praça, com seus balanços, escorregas, sombras de crianças que não estavam lá mas corriam, riam e brincavam.

Pensava em seu passado na empresa. Trabalhara com tantas coisas diferentes, se defrontou com tantas situações complicadas. Quanto mais adentrava no negrume da noite, essas situações se tornavam quase tangíveis. Lembrou-se da vez em que teve de acobertar um erro de seu chefe. E da vez em que cometera um erro grave em um relatório. Mas foi uma época de tanto trabalho, não tinha tempo de revisar o que fazia. E das vezes em que teve que silenciar. E das vezes em que fez o que não concordava. E das vezes em que

A rua começava a ganhar movimento, a manhã já havia chegado. Fazer barba, tomar banho, mais café para aguentar o dia. Bom dia na recepção, passar o crachá. Andar vazio, luzes frias. Ligar o computador. Ver as horas se arrastando, segundos como minutos, minutos como horas, horas como dias. Tratou de assinar e carimbar uma pilha de papéis que estava esperando por ele há algum tempo. Quem sabe não fazia o relógio andar mais rápido?

Eram às 10:45, faltavam quinze minutos para o horário informado no e-mail. Nenhuma nova mensagem, a reunião aconteceria. Tomou o elevador, sentiu que estava suando frio. Ao chegar no 25º andar, dirigiu-se à recepcionista.

- Você sabe onde é a sala 2510?

Percebeu o olhar de espanto da moça, e isso o assustou. Seus olhos esbugalhados, seus lábios entreabertos, não eram um bom sinal. Tentou novamente, dessa vez mais seco:

- Por acaso você sabe onde é a sala 2510?

Apenas um suspiro da parte dela, nenhum movimento, nenhuma outra reação. O que estava acontecendo?

Andou pelos corredores e começou a perguntar às pessoas sobre a sala 2510. Todos a quem se dirigia o recebiam com a mesma expressão. Uma mulher chegou a levantar as sobrancelhas e colocar a mão à boca em sinal de espanto. Os homens a quem perguntava abriam os olhos e se desviavam dele sem pensar duas vezes. Já havia feito a mesma pergunta a umas vinte pessoas quando viu um senhor mais velho, já com barba e cabelos completamente brancos, sentado em uma mesa vazia. Não tinha nada a perder, repetiu a mesma pergunta.

Ao contrário do que João esperava, o senhor se levantou calmamente e lhe disse: “Venha comigo”. Ele tirou da gaveta um pesado molho de chaves, pegou sua bengala e caminhou, manco, pelos corredores labirínticos daquela seção.

As mãos de João começavam a tremer, o colarinho completamente empapado de suor. Os e-mails, o espanto das pessoas, a calma daquele senhor. Era um pesadelo, não poderia estar acontecendo.

Dez longos minutos se passaram até que o senhor usou uma de suas chaves para abrir a porta da sala 2510. “É aqui”, disse-lhe, e começou o caminho de volta para sua mesa com a mesma marcha que havia utilizado.

João engoliu em seco uma saliva quase não existente. Viu o suor de sua mão na maçaneta da porta. Olhou o relógio, 11:05. Precisava entrar.

A sala estava vazia. Uma mesa com dez cadeiras. Um objeto coberto com um pano em um canto. João se aproxima, seu nome está escrito em um papel colado no pano.

Ele sente a maciez do tecido vermelho, aveludado, lhe traz boas lembranças de tempos imemoriais. Com um leve puxão, o objeto se desnuda.

João vê a imagem de um homem de meia-idade, um crachá no pescoço. Quem será aquele homem? O número 412 no crachá. Um espelho.

domingo, 10 de junho de 2012

Pintura


A aula já havia começado. Colocou correndo os pincéis e as tintas em sua mochila, pegou sua pasta com esboços, engoliu um pão e saiu correndo. Segunda-feira era muito difícil chegar na hora, aquela aula sempre tão cedo. Pelo menos morava perto da universidade, pegou um ônibus na Praça Saens Peña e em quinze minutos estava na sala de aula.

Olhar duro de sua professora. Abaixou a cabeça, dirigiu-se para o seu cavalete. Um vaso de flores no centro da sala. De novo aquilo. Sabia que precisava se ater a certas convenções, a professora lhe reprovaria caso não o fizesse. Tudo bem, vamos lá. Uma ninfa de longos cabelos tirava a sua atenção, mas não poderia deixar de se concentrar no vaso. De flores, é claro.

As horas se passavam, desprezava o resultado que surgia à sua frente, mas sabia que não tinha opção. Precisava se formar. Já repetira essa matéria, não poderia fazê-la de novo.

Fim da aula, história da arte. Pelo menos não teria que fazer algo com o qual não se identificava. Tanta gente importante, às vezes embaralhava os nomes.

Voltou para casa para almoçar, a próxima aula começaria em uma hora. Lavou o rosto, olhou-se no espelho. Sorriu.



O ano do vestibular havia sido uma guerra em sua casa. Seus pais lhe rogavam para fazer qualquer coisa séria – direito, administração, engenharia, medicina. Até psicologia, serviço social. Mas artes? Não poderia ser! Como ganharia dinheiro? Como sustentaria uma família? Impossível!

Contra tudo e contra todos, não voltou atrás em sua decisão. Queria pintar, sabia que era sua vocação. Um dia de cada vez, se esforçava para cumprir bem suas obrigações na universidade. O futuro se resolveria.

Agora que estava quase se formando começava a refletir se havia tomado a decisão certa. Realmente, não havia mercado. Conseguir trabalho não estava fácil. Iria fazer mestrado, pelo menos ganhava uma bolsa. Pequena, mas já era alguma coisa, não morreria de fome.

Aquele ano seria o último, precisava estudar para a prova do mestrado. Não poderia repetir nenhuma matéria ou não conseguiria sua tão almejada bolsa.

Às segundas-feiras tinha aula de manhã e de tarde. Sentia cansaço, mas naquele dia também sentia certa leveza. Difícil de descrever, estava simplesmente de acordo com o mundo.

Almoçou rapidamente, precisava voltar para a aula. Olhou-se no espelho, viu-se Demoiselles d'Avignon, viu-se arte. Entendeu e sorriu.

Chegando à sala de aula, olhou o relógio de parede. Percebeu que ele estava um pouco disforme. Tirou seu pincel do bolso e pintou-o derretendo. Assim ficava melhor.

Precisava terminar o vaso de flores. Decidiu que aquelas eram um pouco feias. Acercou-se à mesa de tampo vermelho onde elas se encontravam e pintou-as como um buquê de girassóis. Voltou para seu cavalete, precisava terminar o trabalho para entregá-lo ainda hoje.

Ao final da aula, foi com um amigo para a Lagoa. Estavam chegando perto do píer quando viram uma pessoa gritando. O céu vermelho dava um toque especial. Aproximou-se daquela pessoa e pintou-a sinuosa. Assim ficava melhor. Que cena bonita!

A fome apertava de novo, o amigo precisou ir embora. Foi a um restaurante que gostava muito, viu uma longa mesa com treze pessoas partilhando pão e vinho. Engraçado, todas do mesmo lado da mesa. Sentou em lugar próximo. Comeu, bebeu e estava feliz.

Quando estava saindo, percebeu que uma mulher lhe observava onde quer que fosse. Interessante, aquele sorriso enigmático, o olhar profundo, um braço repousando sobre o outro. Ao sair do restaurante, pintou-lhe rapidamente um grande bigode antes de tomar o caminho de casa.

Que noite estrelada! Caminhava pela praia de Copacabana e percebeu que as luzes refletiam no mar, um céu sem lua, os postes no horizonte. Faltava só um casal perto de dois barcos, providenciou-o rapidamente.

Chegou ao cruzamento da Barata Ribeiro com Siqueira Campos, iria tomar o metrô para voltar para casa. Percebeu que o asfalto estava cheio de traços coloridos, dispersos, fortes. Pintou alguns mais e entrou na estação.

Sentou-se e pensava na vida. As estações passavam. Viu um anúncio de um tipo de sopas em conservas que nunca havia visto. Interessante, ficariam melhores lado a lado.

Ao sair na Saens Peña, percebeu que haviam esquecido um mictório. Ainda bem que não precisava deles. Como ninguém reclamou, o colocaram no centro da praça.

Via as vitrines, já estavam escuras àquela hora. De repente viu seu reflexo, lhe faltava um pedaço da orelha.

domingo, 13 de maio de 2012

O Dia e a Noite


Caminhava pela praia olhando o pôr do sol róseo de uma tarde de verão. Sentia-se privilegiado por poder assistir a um espetáculo tão bonito, em plena quarta-feira, enquanto todos estavam ocupados ele molhava seus pés no mar de Ipanema.

Todos os seus sentidos estavam tomados por uma sensação de leveza e calma. Uma aveludada brisa em seu rosto, o doce barulho das ondas, o céu infinito a se descortinar, a água de coco que refrescava sua alma, o suave cheiro de mar. Plenitude.

Quando voltou a si a lua já aparecera, assim como as primeiras estrelas. Percebeu que a poucos metros de onde estava caminhava uma mulher com seus vinte e poucos anos, alta, cabelo escuro, embevecida como ele pelo espetáculo ao qual estavam assistindo.

Ela percebeu que estava sendo observada. Retirou seu olhar do céu. Achou interessante aquele homem, abriu-lhe um sorriso.



Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente. Estava ainda dominado pela sensação de leveza. Quem seria aquela mulher? A maresia ainda impregnava suas narinas. Aos poucos foi distinguindo realidade de sonho, percebeu que foi simplesmente um sonho. Bom, mas sonho. Era hora de se levantar, não poderia chegar atrasado ao trabalho. Chovia, o engarrafamento seria ainda pior.

Reuniões, ligações, discussões. Tinha que comprar o presente da filha, seu aniversário acontecera dois dias antes, não conseguiu ir à festa. No horário do almoço. Será que conseguiria almoçar? Não, reunião urgente. Talvez o comprasse amanhã. Ligou para a ex-mulher, tentando explicar a situação. Dois ‘ahãs’ secos, ela havia desistido de reclamar dele há tempos.

Chegou em casa esgotado, sem ter almoçado, sem o presente da filha. Engoliu qualquer coisa que estava na geladeira, tomou uma ducha e deitou-se.



Respondeu ao sorriso.

- Lindo, não é? – disse José.

- Sim, sim, muito bonito. Incrível como ninguém para pra ver. – respondeu a mulher.

E a conversa se seguiu. Chamava-se Júlia, havia se mudado recentemente. Estava fazendo pós-graduação, achou que o Rio seria uma opção interessante. Inspiradora.

José, nosso conhecido. Morava no Leblon, vivia de renda. Solteiro, não se casara pois ainda buscava a mulher certa. Conseguira comprar alguns apartamentos antes do boom imobiliário. Alugava-os e assim tinha uma vida tranquila.

Foram para um bar na Visconde de Pirajá. Dois chopes, por favor. Nos intervalos da conversa os olhares se cruzavam curiosos. Trocaram telefones, marcaram de assistir o pôr do sol juntos no dia seguinte na Pedra do Arpoador.



Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente. Que legal, o sonho continuou! Será que... Não, seria muita coincidência. Já estava feliz com a lembrança que Júlia lhe representava. Um oásis no deserto. Mas e se ela voltasse?

Tentou afastar o pensamento da cabeça. Pois sim, Leblon. Ele que morava a duas horas do Centro, sem trânsito. Não poderia perder aquele emprego, o aluguel já estava atrasado. Sua ex-mulher já havia se cansado desta situação, voltou para a casa da mãe com os dois filhos.

A chuva piorara, um engarrafamento sem fim. Ligou para o chefe, avisou que iria se atrasar. Conversamos quando você chegar aqui. Mau sinal.

Um dia pior que o outro, escutara a bronca do chefe cabisbaixo. Mais um dia sem almoço, chegou em casa tarde. A geladeira estava vazia, deitou-se com fome.

Olhava o teto sem conseguir dormir. Desejava com toda sua força que Julia voltasse. Seria pedir muito? Um pouquinho de felicidade, pelo menos enquanto dormia. Foram várias horas até que suas pálpebras decidiram se fechar.



Andava pelo calçadão do Arpoador. Finalmente, havia conseguido, iria ver Julia de novo. Olhou para sua mão e percebeu que carregava uma boneca Barbie.

Assustou-se. Isso não deveria pertencer a este mundo! Deu-a para uma menina de rua que passava próxima.

Viu ao longe a silhueta de Julia, ela já estava sentada na Pedra, olhando o mar. O coração palpitou. Ajeitou-se, parou para respirar um instante. Não queria parecer nervoso.

Dois beijinhos no rosto. Bom te ver. Você também. Tão lindo quanto ontem? Melhor, está vendo aquelas nuvens? Sim. Quando o sol se pôr elas vão ficar vermelhas como o fogo. Como os seus lábios? Não, ainda mais.

O sol descia no horizonte. Eles estavam de mãos dadas. Sim, o céu estava mais bonito que no dia anterior. Ele olhava... Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente.

Queria voltar a dormir, não poderia. Chefe, aluguel, contas a pagar. Levantou-se com raiva. Pelo menos amanhã seria sábado, poderia dormir até mais tarde. Voltando para casa, à noite, teve uma ideia: iria tomar um remédio para dormir, poderia ficar com Julia mais tempo. A ideia seria boa, se não fosse um porém: teve um sono sem sonhos. Acordou no meio da tarde de sábado, arrependido. De nada adiantou, teria que esperar até a noite para vê-la.



E assim várias semanas se passaram. Enquanto seu dia a dia se deteriorava, suas noites eram pura expectativa. Havia começado a namorá-la, faziam planos juntos. Tentou alguns remédios para dormir, para entrar cada vez mais nessa outra vida. Não adiantava, não conseguia encontrá-la quando os tomava.



Um dia estava trabalhando quando percebeu que no bolso da camisa havia um bilhete rosa. “Saudades. Júlia.” Que lindo, ela havia feito essa surpresa para ele. Guardou-o. Agradeceu a surpresa à noite. Aos poucos foi percebendo novos sinais que ela deixava, um vaso de flores aqui, um novo quadro ali.



Era o dia do aniversário de Júlia. José havia preparado uma festa surpresa, fora tudo combinado com os amigos dela. Ela era só felicidade, não conseguia imaginar como ele fizera todos esses preparativos sem que ela desconfiasse. Foi uma noite de céu estrelado e lua cheia.

Voltando à casa de José, se amaram como poucas vezes haviam feito. Dormiram nus, abraçados. José teve um sonho estranho, uma história que ele tinha dois filhos, trabalhava no Centro, a ex-mulher que não queria falar com ele. Acordou com uma sensação de incômodo, pesadelo ruim. Olhou para o lado e viu que Julia dormia suavemente junto a si. Sentiu-se feliz.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Um Dia Típico


Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu sonho, nada veio à mente. Olhou para o relógio, estava atrasado. Pulou da cama, vestiu a roupa de trabalho às pressas. Engoliu um copo de leite, trancou a porta enquanto abotoava a camisa. Desceu o elevador colocando os sapatos. Quando saiu à rua percebeu que estava chovendo, havia esquecido o guarda-chuva em casa. Não havia mais tempo, era correr para a estação do metrô.
Não andou nem dez metros e um ônibus passou em uma poça d’água encharcando Moisés. Ele não acreditava que seu dia começava assim, tinha a certeza de ter pisado com o pé direito assim que saíra da cama. Não havia mais tempo, iria para o trabalho assim mesmo.
Olhou o celular. Muito atraso. Uma mensagem. Sua namorada, precisamos conversar. Depois responderia a mensagem.
Correu até a estação do metrô. Já estava lotada àquela hora, só conseguiu pegar o segundo trem. Repassava mentalmente o que ele precisaria falar na apresentação que já deveria ter começado. Pensava também em uma desculpa pelo atraso. Distraído que estava, não percebeu que lhe levaram o celular e a carteira. Deu-se conta do fato apenas perto do trabalho, quando foi buscar seu crachá. Encontrou-o, mas apenas ele, não o restante.
Ficou nervoso, mas precisava focar agora na apresentação, depois faria um BO. Ficou parado procurando se lhe haviam levado alguma outra coisa da mochila, o laptop ainda estava lá, mas não havia sido poupado pelo ônibus – encontrava-se encharcado, assim como Moisés. Será que ainda funcionaria? Continuava procurando para ver se sentia falta de alguma outra coisa quando lhe deram uma trombada e ele rolou escada abaixo. Ambos os cotovelos ralados, um rasgo na camisa. Não acreditava no que lhe acontecia.
Caminhou até o prédio onde trabalhava. Completamente molhado, roupas esfarrapadas, um fiapo de sangue escorria de sua testa. Atraía olhares receosos. Sacou seu crachá da mochila, havia quebrado em vários pedaços na queda. Precisaria pegar um novo. Documento por favor? Não tinha nenhum.
Não aguentava aquela situação, deu um grito bem alto. Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu sonho, algo sobre um dia muito estranho lhe veio à mente. Olhou para o relógio, ainda faltavam duas horas para a reunião que deveria coordenar e se sentia descansado. Ainda bem, seria um longo dia. Espreguiçou-se e tomou um banho demorado, relaxante. Tinha tudo na ponta da língua, seria uma grande oportunidade de mostrar seu trabalho.
Desceu o elevador assobiando Beatles. Parou no sexto andar, entrou a vizinha do 601 que lhe deu um grande sorriso. Ele respondeu ao sorriso, coçando o anel na mão direita.
Quando saiu à rua percebeu que era um dia de sol. Colocou seus óculos escuros, ainda faltava mais de meia hora até o horário da reunião.
Não andou nem dez metros quando um carro parou ao seu lado e buzinou. Olhou para dentro e percebeu que era seu chefe.
- Moisés, que surpresa vê-lo por aqui.
- É que eu moro aqui do lado. Você também?
- Não, não. Eu fui a um médico aqui perto. Quer uma carona?
- Claro!
- Entra aí.
Olhou o celular. Havia tempo, de carro chegaria em menos de dez minutos. Uma mensagem. Sua namorada, dizendo que lhe amava. Respondeu carinhosamente dizendo que também a amava e que já estava com saudades.
Abriu o laptop, ficou conversando com o chefe sobre a apresentação. Este gostou muito, e prometeu se lembrar disso na próxima promoção.
Estava feliz. Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu sonho, algo sobre um dia muito estranho lhe veio à mente...

domingo, 6 de maio de 2012

Na Rede


Peri era um menino curioso. Olhos bem abertos, sempre tentando capturar o mundo. Seus pais se orgulhavam, contavam anedotas dele o tempo todo. Peri brincando, Peri comendo, Peri descobrindo um formigueiro, Peri explicando porque deveria poder brincar durante as 24 horas do dia.

Nove meses na barriga da mãe e nada aconteceu. Peri nasceu de quase dez meses, com cara de sono. Dormia praticamente o dia inteiro. Quando começou a andar sempre corria para a rede onde descansava o pai. Gostava de ficar lá balançando e contando as estrelas. Eram muitas, poderia ficar assim a vida inteira e não chegaria ao fim.

Já estava se aproximando o momento da cerimônia. Seu quinto aniversário aconteceria em dois dias, pouco antes da lua cheia. Ele estava sendo preparado.

No dia da celebração, toda a família se reuniu. Esperaram o céu escurecer. A lua iluminava todo o campo, não precisavam de nenhuma outra luz. Abriram espaço para o patriarca da família, seu bisavô que já alcançava 102 anos. Ele veio com seu olhar pastoso e sua mão enrugada, tocou a cabeça do menino. Todos fizeram silêncio.



Ninguém lembrava há quanto tempo isso havia começado, nem o porquê. Era um ritual, todos participavam e sabiam que seus filhos iriam participar. Seus netos também, seus bisnetos também. Sempre no quinto aniversário da criança, a família se reunia. Decoravam o recinto, faziam diversos preparativos. Chegava o patriarca da família, só precisava de uma meia luz e, se o céu permitisse, da lua. No momento em que ele pousava a mão na cabeça da criança ela descobria quantos anos teria de vida. Não falava com ninguém, essa era a tradição. Simplesmente sabia, e isso lhe permitia se preparar e preparar seus familiares quando se aproximassem seus momentos finais.

Ficavam imaginando como seria se as pessoas não soubessem quando iriam morrer. Que loucura não saber do dia da morte! Com certeza essas pessoas aproveitariam muito mais, afinal cada dia poderia ser o último. Como poderiam ter filhos se não tivessem a certeza de que estariam lá quando eles precisassem? Deveria ser uma vida tão intensa, tão forte, tão prazerosa. Imagine! Um gole de água de coco e de repente, no minuto seguinte, tudo acabado. Várias noites de amor que poderiam ser a última! Não saber do amanhã, só poder acreditar no dia de hoje.

Quantas possibilidades isso abriria! Sem saber o dia da morte, para quê viver no futuro? Seria o dia presente a cada dia. Falar a todos quanto se ama, não deixar nenhuma pendência. Constantemente. Respirar como se não houvesse uma próxima inspiração. O beijo que seria sempre um possível último, o abraço que talvez não se repetisse. Sem pendências, a liberdade. Sem o peso da certeza do dia da morte, apenas o eterno presente.

Era uma possibilidade tão pungente que todos tinham medo. Não tinham coragem de pular o ritual. Tinha que ser feito. Sempre foi assim, deveria continuar assim. Eram inconcebíveis as consequências caso o ritual não acontecesse.



O patriarca da família de Peri se preparava para o grande dia. Seria a última cerimônia da qual ele participaria, o ano seguinte seria o de sua morte. O primo de Peri tinha três anos, algum novo patriarca faria sua iniciação. Isso tornava essa cerimônia ainda mais especial.

Chegando ao lugar onde Peri se encontrava, o patriarca se emocionou. Lembrou-se de todas as cerimônias que havia participado, lembrou-se da sua própria. Pensou que 103 anos seria muito tempo e de repente já estava quase na hora. Anotava mentalmente tudo que deveria fazer até o ano seguinte, os preparativos para a família, os ensinamentos que deveria passar. Era hora de se concentrar em Peri.

O menino o recebeu com um sorriso, não entendia exatamente o que estava para acontecer. Achava tudo bonito, todos com roupas especiais, muito colorido, decorações. Permitiram-lhe escolher suas comidas e comer quanto quisesse. Quem dera se todos os dias fossem assim! Foi então que o avô colocou a mão na sua cabeça e ele entendeu. Sentiu um frio na espinha e passou a saber. Ficou sério por alguns segundos, mas depois voltou a brincar. Não por muito tempo, já que estava de barriga cheia. Deitou-se poucos minutos depois.

Quando acordou já estava tudo claro, ele estava em sua rede. Não dormia mais na rede dos pais, a partir daquele dia já era menino-homem. Tentou trazer à memória o que havia acontecido no dia anterior. Aos poucos se lembrou de quanto havia comido e quanto havia brincado. Lembrou-se da cerimônia, tinha alguma coisa a ver com o dia da morte. Mas quando seria mesmo? Havia esquecido.

Ficou com medo, e se seus pais descobrissem que ele se esquecera? O que aconteceria com ele? Preferiu não contar nada e fingir que sabia. Todos o olhavam de uma maneira diferente agora que ele era menino-homem.

Cresceu brincando muito, como todas as crianças. Virou exímio pescador, conversava com o rio e sabia onde deveria lançar suas iscas. Sentia-se um pouco estranho, aquele segredo guardado há tanto tempo. Mas era tão bom, não poderia compartilhar com ninguém aqueles pequenos prazeres. O banho de rio, e se não voltasse? O céu estrelado, e se não visse mais um? A lua cheia, e se fosse a última?

Era maravilhosa aquela sensação de viver tão intensamente. Sempre com um sorriso no rosto, mergulhando na vida até o fôlego acabar.

O tempo foi passando e Peri se apaixonou. Casou-se, teve dois filhos. Ele era o homem mais velho da família, lhe coube o papel de patriarca. Quando fazia a cerimônia, sem ninguém perceber, deixava a mão flutuar levemente na cabeça da criança. Não a tocava.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Uma Manhã de Sol


Fabiana estava em casa, procurava desesperada o GPS. Como ele poderia ter desaparecido, ela sempre o guardava no mesmo lugar. Abria caixas e mais caixas, tirava todas as roupas dos armários e nada.

O tempo passava e a confusão não parava de aumentar. Em seu quarto todos os armários estavam vazios, roupas espalhadas pelo chão, sapatos jogados no corredor. Papéis começavam a se acumular em um canto, mas nada do GPS. Na sala a confusão era ainda maior, a estante estava revirada, o sofá acumulava os mais diversos enfeites e acessórios.

Bateu na porta do quarto de sua irmã que ainda dormia.

- Carol, você sabe onde está o GPS?

- Não está no armário do seu quarto? - respondeu Carol.

- Não, disse Fabiana, já bufando.

- Não está na estante da sala?

- Não!

- Então não sei, me deixa dormir.

- Acorda! Eu preciso saber onde está o GPS.

Carol se levantou e tentou ajudar a irmã a achar o bendito aparelho. Todos os armários da cozinha foram abertos, geladeira esmiuçada, cada pequeno canto da casa foi visto e revisto. Buscaram até dentro da máquina de lavar roupas. Nada.

Não restou opção a Fabiana. Tomou o elevador, desceu. Estava um pouco nervosa, mordiscava o lábio, suava. Limpou a garganta e perguntou ao porteiro como poderia chegar à padaria.