sábado, 28 de julho de 2012

O Dossiê


I

Como aquele dossiê havia surgido? Quem era responsável por ele? E o que continha? Só na reunião que João poderia descobrir. Mas ainda faltavam algumas horas, será que ele não conseguiria nenhuma informação? Já havia tentado todas as instâncias que se lembrava existirem, ninguém havia lhe dado nenhuma nova informação.

Nos Recursos Humanos, nenhuma informação. Andara em círculos, passando de departamento em departamento, até voltar ao primeiro. Três vezes. Não sabiam do que se tratava. Foi no protocolo, administração, nada. Um senhor de óculos fundos que já estava na recepção desde que João se lembrava tocou-o no ombro.

- Você está procurando alguma informação, meu filho? – perguntou-lhe o senhor

- É um dossiê, não consigo encontrá-lo. – respondeu João

- Tome, talvez isso lhe ajude.

O senhor entregou a João um post it com um número anotado. Era o número de uma sala, nunca havia estado nesse andar. João foi para o hall dos elevadores, esperou os costumeiros dez minutos até que conseguiu subir para o andar desejado.

Quando as portas se abriram, João viu um longo corredor, entulhado de papéis, uma parca luz ao fundo. Foi se dirigindo para essa luz, impressionado com a quantidade de documentos, relatórios, instruções, pedidos, recibos, notas e resoluções que via a sua volta. A luz vinha de uma luminária ao lado de uma porta onde se lia “Arquivo Geral”.

Bateu na porta quatro vezes até que ouviu uma rouca voz feminina dizendo-lhe “Entre”.

Era uma sala organizada, uma antiga máquina de escrever fazia parte da decoração. Uma senhora com seus 70 anos e 1,50 perguntou em que poderia ser útil a João.

- É que eu estou procurando um dossiê – João respondeu, e entregou a ela o primeiro e-mail que recebera sobre ele.

- Hmmm – murmurou a arquivista, pensativa. Tentou colocar o número em seu computador, nada. Foi para a lista geral - Dossiê 01.386.410, 01.386.411, 01.386.413. Realmente, o 412 não está aqui.

Foi verificar se alguém o havia tomado emprestado - nenhum registro.

- Desculpe senhor, mas infelizmente não posso ajudá-lo – respondeu-lhe sentenciosamente a senhora.

Desolado, João voltou para sua baia. O que iria fazer?



II

Já se passavam 18 anos desde que João Alberto começara a trabalhar naquela empresa. Havia pensado muito antes de decidir se faria ou não o concurso público, era uma decisão para a vida inteira. Mas quando viu sua então namorada perder o emprego e o orçamento familiar ser reduzido drasticamente, soube que era o que precisava ser feito.

Foram dois anos de estudo, recompensados. Não havia tempo livre, todo espaço na agenda – durante o almoço, depois do jantar, fins de semana – era utilizado com um só fim – o concurso.

Muitas provas, recursos, anos e cadastros de reserva depois, recebera o telegrama tão esperado.

Nesses 18 anos, havia ocupado diversos cargos nas mais diferentes seções, departamentos, áreas e superintendências da empresa. Conhecia-a talvez mais que a palma de sua mão, para a qual já não olhava há tempos. Sentia que era parte de algo maior, e isso sempre o tranquilizou. Ou tranquilizava.

Agora, tudo parecia vazio. Uma semana atrás recebera um e-mail:

“Ref.: Dossiê 01.386.412

Prezado Senhor João Alberto,

Solicitamos a vossa compreensão para comparecer na sala 2510 na quarta-feira, dia 15, às 17:00.”

Mas que dossiê era esse? E o remetente, oculto. Nem se dignaram de assinar o e-mail, apenas uma mensagem assim, seca. Encaminhara o e-mail para a equipe de TI para tentar descobrir de onde viera essa mensagem – nada.

João tentou se lembrar de fatos importantes que poderiam ter gerado algo assim, mas nada vinha à cabeça. Logo ele, que sempre trabalhara com correção e honradez. Deveria ser um engano.



III

- Você tem visto o João?

- Ultimamente não. Me lembro dele perguntando sobre um dossiê.

- Sim, já fazem algumas semanas. E então?

- E então o quê? Não sei, ele só falava desse assunto. Até que um dia, era de manhã ainda, ele chegou na sua baia com uma cara arrasada. Desligou o computador, pegou o paletó e foi embora.

- Sim, sim, isso eu já sabia. Mas você não notou nada diferente?

- Bem, ele estava muito estranho naquela época. Parecia meio desconectado com o mundo, falava coisas estranhas. Depois daquele dia não sei dele, ele nunca mais voltou.



IV

No dia em que recebeu o e-mail sobre o dossiê, João não conseguiu dormir. Ficou remoendo aquele assunto horas a fio. Os primeiros raios de sol entravam pela janela e ele percebeu que já era manhã. Levantou-se e foi à cozinha tomar um café.

“Deve ser um engano”, afirmava João para si mesmo. “Por que um dossiê assim, tão secreto? Sem nenhuma informação, ninguém sabia de nada. Provavelmente era para outro João, afinal nome tão comum como esse são poucos, talvez José, Antônio, Felipe, mas João deveriam haver mais de 20 em sua empresa. João Alberto nem tanto, mas quem sabe misturaram os nomes...” Esse pensamento o confortava, apesar de não conseguir se convencer que fosse verdade.

Chegara no dia marcado bem cedo, alinhado, barba feita. Estava nervoso, mas pelo menos iria saber o motivo daquilo tudo. Ou não.

Ligou o seu computador. Ninguém nas baias vizinhas, um grande silêncio ocupava aquele ambiente de luzes frias. O porta-retratos ao lado da tela do computador lhe trazia boas lembranças. A pequena bandeira de seu time de futebol não lhe deixava esquecer que havia jogo domingo no Maracanã. Os livros que guardava, alguns desde sua faculdade, lhe transmitia uma sensação de poder oriundo do conhecimento que acumulara. E os papéis, muitos papéis, eram a certeza que ainda tinha muito trabalho para fazer.

Entrou no seu e-mail e viu uma nova mensagem, muito parecida com a primeira:

“Ref.: Dossiê 01.386.412

Prezado Senhor João Alberto,

Informamos que o compromisso desta quarta-feira, dia 15, 17:00 está remarcado para amanhã, quinta-feira, dia 16, às 11:00. Solicitamos a vossa compreensão para comparecer na sala 2510 neste dia e horário.”

Foi um choque para ele. A ideia de que poderia ser um engano desmoronou como um castelo de cartas à mais leve brisa. Não era um engano, recebera outro e-mail. Seria então amanhã o dia decisivo.

A noite chegara, mas com ela não veio o sono. Mais uma noite em claro, uma xícara de café na mão, um olhar perdido no horizonte. De seu apartamento João via uma pequena praça, com seus balanços, escorregas, sombras de crianças que não estavam lá mas corriam, riam e brincavam.

Pensava em seu passado na empresa. Trabalhara com tantas coisas diferentes, se defrontou com tantas situações complicadas. Quanto mais adentrava no negrume da noite, essas situações se tornavam quase tangíveis. Lembrou-se da vez em que teve de acobertar um erro de seu chefe. E da vez em que cometera um erro grave em um relatório. Mas foi uma época de tanto trabalho, não tinha tempo de revisar o que fazia. E das vezes em que teve que silenciar. E das vezes em que fez o que não concordava. E das vezes em que

A rua começava a ganhar movimento, a manhã já havia chegado. Fazer barba, tomar banho, mais café para aguentar o dia. Bom dia na recepção, passar o crachá. Andar vazio, luzes frias. Ligar o computador. Ver as horas se arrastando, segundos como minutos, minutos como horas, horas como dias. Tratou de assinar e carimbar uma pilha de papéis que estava esperando por ele há algum tempo. Quem sabe não fazia o relógio andar mais rápido?

Eram às 10:45, faltavam quinze minutos para o horário informado no e-mail. Nenhuma nova mensagem, a reunião aconteceria. Tomou o elevador, sentiu que estava suando frio. Ao chegar no 25º andar, dirigiu-se à recepcionista.

- Você sabe onde é a sala 2510?

Percebeu o olhar de espanto da moça, e isso o assustou. Seus olhos esbugalhados, seus lábios entreabertos, não eram um bom sinal. Tentou novamente, dessa vez mais seco:

- Por acaso você sabe onde é a sala 2510?

Apenas um suspiro da parte dela, nenhum movimento, nenhuma outra reação. O que estava acontecendo?

Andou pelos corredores e começou a perguntar às pessoas sobre a sala 2510. Todos a quem se dirigia o recebiam com a mesma expressão. Uma mulher chegou a levantar as sobrancelhas e colocar a mão à boca em sinal de espanto. Os homens a quem perguntava abriam os olhos e se desviavam dele sem pensar duas vezes. Já havia feito a mesma pergunta a umas vinte pessoas quando viu um senhor mais velho, já com barba e cabelos completamente brancos, sentado em uma mesa vazia. Não tinha nada a perder, repetiu a mesma pergunta.

Ao contrário do que João esperava, o senhor se levantou calmamente e lhe disse: “Venha comigo”. Ele tirou da gaveta um pesado molho de chaves, pegou sua bengala e caminhou, manco, pelos corredores labirínticos daquela seção.

As mãos de João começavam a tremer, o colarinho completamente empapado de suor. Os e-mails, o espanto das pessoas, a calma daquele senhor. Era um pesadelo, não poderia estar acontecendo.

Dez longos minutos se passaram até que o senhor usou uma de suas chaves para abrir a porta da sala 2510. “É aqui”, disse-lhe, e começou o caminho de volta para sua mesa com a mesma marcha que havia utilizado.

João engoliu em seco uma saliva quase não existente. Viu o suor de sua mão na maçaneta da porta. Olhou o relógio, 11:05. Precisava entrar.

A sala estava vazia. Uma mesa com dez cadeiras. Um objeto coberto com um pano em um canto. João se aproxima, seu nome está escrito em um papel colado no pano.

Ele sente a maciez do tecido vermelho, aveludado, lhe traz boas lembranças de tempos imemoriais. Com um leve puxão, o objeto se desnuda.

João vê a imagem de um homem de meia-idade, um crachá no pescoço. Quem será aquele homem? O número 412 no crachá. Um espelho.