O pequeno grande
prazer
Pensamentos mil passam pela sua
cabeça. Como foi o seu dia, preocupações para o dia seguinte. Aquela pendência
no trabalho que ainda não foi resolvida. Médicos a marcar. Relacionamento. Um
barulho distante, o que será? Vozes de vizinhos revolteiam suas ideias. O que
você está fazendo? O aluguel vence amanhã, você precisa ir ao banco fazer o
pagamento. Contas de luz, gás, telefone. Aquele defeito intermitente no celular
que acaba com sua paciência. É preciso mais ter mais calma, seu amigo está
precisando de sua ajuda agora. Ele estava lá quando você precisou.
E você não se apega a nenhum
pensamento. Eles fluem em uma torrente independente, interminável e incessante.
Desapego: são apenas ideias, obstáculos da mente, tão longe do Eu.
Inspirar, expirar. Inspirar,
expirar. Prestar atenção na respiração.
Aquele seu chefe que pisou na bola
com você. Uma miríade de possibilidades felizes, destinos diferentes, desfilam
bem a sua frente, as coisas poderiam ter sido diferentes. Um passo atrás:
poderiam mesmo? Outro passo atrás: por que isso me incomoda? Mais um passo
atrás: inspirar, expirar.
O cheiro do incenso embriaga os
sentidos. Surge uma alegria interna.
O agitado mar começa a se acalmar. O
fundo, antes turbulento, começa a ficar mais claro.
A mente começa a se esvaziar. Aos
poucos os limites entre o indivíduo e o mundo ficam fluídos, você é o todo.
Inspirar, expirar. Inspirar,
expirar. Coluna reta, postura firme.
Um arrepio passa pela sua espinha
dorsal.
Não existe mais sujeito e objeto.
Pensamentos não se estruturam. Você não apenas está, você é.
Os limites do ego se dissolvem. Você
vislumbra a Vida, a grande Essência, da qual você é uma parte indissociável.
Inspirar, expirar.
SILÊNCIO.