Um pedido
Venha onda
Quebre nos afirmativos rochedos
Traga água para mim
Alva espuma para o mar.
Busque em mim amor
Que lá ficou
O tudo existe, não sou
Venha minhas areias banhar
Beije meu corpo longamente.
Em você habita o infinito
De nós.
E me faça feliz.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Experiências de Infinito - I
Vento
Em você pássaros de asas abertas voando com a cabeça rumando o horizonte
Balançam galhos de árvores sem folhas para lá e para cá
Nuvens caminham de um lado para outro avisando que a chuva virá
Telhados de casas alto rangendo no seu belo monte.
Esteja comigo e me acompanhe
Em incontáveis viagens sem volta
Em meu dia a dia me banhe
Com suaves brisas me embale
Em sonhos contigo
Eu quero ficar.
Em você pássaros de asas abertas voando com a cabeça rumando o horizonte
Balançam galhos de árvores sem folhas para lá e para cá
Nuvens caminham de um lado para outro avisando que a chuva virá
Telhados de casas alto rangendo no seu belo monte.
Esteja comigo e me acompanhe
Em incontáveis viagens sem volta
Em meu dia a dia me banhe
Com suaves brisas me embale
Em sonhos contigo
Eu quero ficar.
sábado, 28 de julho de 2012
O Dossiê
I
Como aquele dossiê havia surgido? Quem era
responsável por ele? E o que continha? Só na reunião que João poderia
descobrir. Mas ainda faltavam algumas horas, será que ele não conseguiria
nenhuma informação? Já havia tentado todas as instâncias que se lembrava
existirem, ninguém havia lhe dado nenhuma nova informação.
Nos Recursos Humanos, nenhuma informação. Andara em
círculos, passando de departamento em departamento, até voltar ao primeiro.
Três vezes. Não sabiam do que se tratava. Foi no protocolo, administração,
nada. Um senhor de óculos fundos que já estava na recepção desde que João se
lembrava tocou-o no ombro.
- Você está procurando alguma informação, meu
filho? – perguntou-lhe o senhor
- É um dossiê, não consigo encontrá-lo. – respondeu
João
- Tome, talvez isso lhe ajude.
O senhor entregou a João um post it com um número
anotado. Era o número de uma sala, nunca havia estado nesse andar. João foi
para o hall dos elevadores, esperou os costumeiros dez minutos até que
conseguiu subir para o andar desejado.
Quando as portas se abriram, João viu um longo
corredor, entulhado de papéis, uma parca luz ao fundo. Foi se dirigindo para
essa luz, impressionado com a quantidade de documentos, relatórios, instruções,
pedidos, recibos, notas e resoluções que via a sua volta. A luz vinha de uma
luminária ao lado de uma porta onde se lia “Arquivo Geral”.
Bateu na porta quatro vezes até que ouviu uma rouca
voz feminina dizendo-lhe “Entre”.
Era uma sala organizada, uma antiga máquina de
escrever fazia parte da decoração. Uma senhora com seus 70 anos e 1,50
perguntou em que poderia ser útil a João.
- É que eu estou procurando um dossiê – João
respondeu, e entregou a ela o primeiro e-mail que recebera sobre ele.
- Hmmm – murmurou a arquivista, pensativa. Tentou
colocar o número em seu computador, nada. Foi para a lista geral - Dossiê
01.386.410, 01.386.411, 01.386.413. Realmente, o 412 não está aqui.
Foi verificar se alguém o havia tomado emprestado -
nenhum registro.
- Desculpe senhor, mas infelizmente não posso
ajudá-lo – respondeu-lhe sentenciosamente a senhora.
Desolado, João voltou para sua baia. O que iria
fazer?
II
Já se passavam 18 anos desde que João Alberto
começara a trabalhar naquela empresa. Havia pensado muito antes de decidir se
faria ou não o concurso público, era uma decisão para a vida inteira. Mas
quando viu sua então namorada perder o emprego e o orçamento familiar ser
reduzido drasticamente, soube que era o que precisava ser feito.
Foram dois anos de estudo, recompensados. Não
havia tempo livre, todo espaço na agenda – durante o almoço, depois do jantar,
fins de semana – era utilizado com um só fim – o concurso.
Muitas provas, recursos, anos e cadastros de
reserva depois, recebera o telegrama tão esperado.
Nesses 18 anos, havia ocupado diversos cargos nas
mais diferentes seções, departamentos, áreas e superintendências da empresa.
Conhecia-a talvez mais que a palma de sua mão, para a qual já não olhava há
tempos. Sentia que era parte de algo maior, e isso sempre o tranquilizou. Ou
tranquilizava.
Agora, tudo parecia vazio. Uma semana atrás
recebera um e-mail:
“Ref.: Dossiê 01.386.412
Prezado Senhor João Alberto,
Solicitamos a vossa compreensão para comparecer na
sala 2510 na quarta-feira, dia 15, às 17:00.”
Mas que dossiê era esse? E o remetente, oculto. Nem
se dignaram de assinar o e-mail, apenas uma mensagem assim, seca. Encaminhara o
e-mail para a equipe de TI para tentar descobrir de onde viera essa mensagem –
nada.
João tentou se lembrar de fatos importantes que
poderiam ter gerado algo assim, mas nada vinha à cabeça. Logo ele, que sempre
trabalhara com correção e honradez. Deveria ser um engano.
III
- Você tem visto o João?
- Ultimamente não. Me lembro dele perguntando sobre
um dossiê.
- Sim, já fazem algumas semanas. E então?
- E então o quê? Não sei, ele só falava desse
assunto. Até que um dia, era de manhã ainda, ele chegou na sua baia com uma
cara arrasada. Desligou o computador, pegou o paletó e foi embora.
- Sim, sim, isso eu já sabia. Mas você não notou
nada diferente?
- Bem, ele estava muito estranho naquela época.
Parecia meio desconectado com o mundo, falava coisas estranhas. Depois daquele
dia não sei dele, ele nunca mais voltou.
IV
No dia em que recebeu o e-mail sobre o dossiê, João
não conseguiu dormir. Ficou remoendo aquele assunto horas a fio. Os primeiros
raios de sol entravam pela janela e ele percebeu que já era manhã. Levantou-se
e foi à cozinha tomar um café.
“Deve ser um engano”, afirmava João para si mesmo. “Por
que um dossiê assim, tão secreto? Sem nenhuma informação, ninguém sabia de
nada. Provavelmente era para outro João, afinal nome tão comum como esse são
poucos, talvez José, Antônio, Felipe, mas João deveriam haver mais de 20 em sua
empresa. João Alberto nem tanto, mas quem sabe misturaram os nomes...” Esse
pensamento o confortava, apesar de não conseguir se convencer que fosse
verdade.
Chegara no dia marcado bem cedo, alinhado, barba
feita. Estava nervoso, mas pelo menos iria saber o motivo daquilo tudo. Ou não.
Ligou o seu computador. Ninguém nas baias vizinhas,
um grande silêncio ocupava aquele ambiente de luzes frias. O porta-retratos ao
lado da tela do computador lhe trazia boas lembranças. A pequena bandeira de
seu time de futebol não lhe deixava esquecer que havia jogo domingo no
Maracanã. Os livros que guardava, alguns desde sua faculdade, lhe transmitia
uma sensação de poder oriundo do conhecimento que acumulara. E os papéis,
muitos papéis, eram a certeza que ainda tinha muito trabalho para fazer.
Entrou no seu e-mail e viu uma nova mensagem, muito
parecida com a primeira:
“Ref.: Dossiê 01.386.412
Prezado Senhor João Alberto,
Informamos que o compromisso desta quarta-feira,
dia 15, 17:00 está remarcado para amanhã, quinta-feira, dia 16, às 11:00. Solicitamos
a vossa compreensão para comparecer na sala 2510 neste dia e horário.”
Foi um choque para ele. A ideia de que poderia ser
um engano desmoronou como um castelo de cartas à mais leve brisa. Não era um
engano, recebera outro e-mail. Seria então amanhã o dia decisivo.
A noite chegara, mas com ela não veio o sono. Mais
uma noite em claro, uma xícara de café na mão, um olhar perdido no horizonte.
De seu apartamento João via uma pequena praça, com seus balanços, escorregas,
sombras de crianças que não estavam lá mas corriam, riam e brincavam.
Pensava em seu passado na empresa. Trabalhara com
tantas coisas diferentes, se defrontou com tantas situações complicadas. Quanto
mais adentrava no negrume da noite, essas situações se tornavam quase
tangíveis. Lembrou-se da vez em que teve de acobertar um erro de seu chefe. E
da vez em que cometera um erro grave em um relatório. Mas foi uma época de
tanto trabalho, não tinha tempo de revisar o que fazia. E das vezes em que teve
que silenciar. E das vezes em que fez o que não concordava. E das vezes em que
A rua começava a ganhar movimento, a manhã já havia
chegado. Fazer barba, tomar banho, mais café para aguentar o dia. Bom dia na recepção,
passar o crachá. Andar vazio, luzes frias. Ligar o computador. Ver as horas se
arrastando, segundos como minutos, minutos como horas, horas como dias. Tratou
de assinar e carimbar uma pilha de papéis que estava esperando por ele há algum
tempo. Quem sabe não fazia o relógio andar mais rápido?
Eram às 10:45, faltavam quinze minutos para o
horário informado no e-mail. Nenhuma nova mensagem, a reunião aconteceria. Tomou
o elevador, sentiu que estava suando frio. Ao chegar no 25º andar, dirigiu-se à
recepcionista.
- Você sabe onde é a sala 2510?
Percebeu o olhar de espanto da moça, e isso o
assustou. Seus olhos esbugalhados, seus lábios entreabertos, não eram um bom sinal.
Tentou novamente, dessa vez mais seco:
- Por acaso você sabe onde é a sala 2510?
Apenas um suspiro da parte dela, nenhum movimento,
nenhuma outra reação. O que estava acontecendo?
Andou pelos corredores e começou a perguntar às
pessoas sobre a sala 2510. Todos a quem se dirigia o recebiam com a mesma
expressão. Uma mulher chegou a levantar as sobrancelhas e colocar a mão à boca
em sinal de espanto. Os homens a quem perguntava abriam os olhos e se desviavam
dele sem pensar duas vezes. Já havia feito a mesma pergunta a umas vinte
pessoas quando viu um senhor mais velho, já com barba e cabelos completamente brancos,
sentado em uma mesa vazia. Não tinha nada a perder, repetiu a mesma pergunta.
Ao contrário do que João esperava, o senhor se
levantou calmamente e lhe disse: “Venha comigo”. Ele tirou da gaveta um pesado
molho de chaves, pegou sua bengala e caminhou, manco, pelos corredores
labirínticos daquela seção.
As mãos de João começavam a tremer, o colarinho
completamente empapado de suor. Os e-mails, o espanto das pessoas, a calma
daquele senhor. Era um pesadelo, não poderia estar acontecendo.
Dez longos minutos se passaram até que o senhor usou
uma de suas chaves para abrir a porta da sala 2510. “É aqui”, disse-lhe, e
começou o caminho de volta para sua mesa com a mesma marcha que havia utilizado.
João engoliu em seco uma saliva quase não
existente. Viu o suor de sua mão na maçaneta da porta. Olhou o relógio, 11:05.
Precisava entrar.
A sala estava vazia. Uma mesa com dez cadeiras. Um
objeto coberto com um pano em um canto. João se aproxima, seu nome está escrito
em um papel colado no pano.
Ele sente a maciez do tecido vermelho, aveludado,
lhe traz boas lembranças de tempos imemoriais. Com um leve puxão, o objeto se
desnuda.
João vê a imagem de um homem de meia-idade, um
crachá no pescoço. Quem será aquele homem? O número 412 no crachá. Um espelho.
domingo, 10 de junho de 2012
Pintura
A aula já havia começado. Colocou correndo os
pincéis e as tintas em sua mochila, pegou sua pasta com esboços, engoliu um pão
e saiu correndo. Segunda-feira era muito difícil chegar na hora, aquela aula sempre
tão cedo. Pelo menos morava perto da universidade, pegou um ônibus na Praça
Saens Peña e em quinze minutos estava na sala de aula.
Olhar duro de sua professora. Abaixou a cabeça,
dirigiu-se para o seu cavalete. Um vaso de flores no centro da sala. De novo
aquilo. Sabia que precisava se ater a certas convenções, a professora lhe
reprovaria caso não o fizesse. Tudo bem, vamos lá. Uma ninfa de longos cabelos
tirava a sua atenção, mas não poderia deixar de se concentrar no vaso. De
flores, é claro.
As horas se passavam, desprezava o resultado que
surgia à sua frente, mas sabia que não tinha opção. Precisava se formar. Já
repetira essa matéria, não poderia fazê-la de novo.
Fim da aula, história da arte. Pelo menos não teria
que fazer algo com o qual não se identificava. Tanta gente importante, às vezes
embaralhava os nomes.
Voltou para casa para almoçar, a próxima aula
começaria em uma hora. Lavou o rosto, olhou-se no espelho. Sorriu.
O ano do vestibular havia sido uma guerra em sua
casa. Seus pais lhe rogavam para fazer qualquer coisa séria – direito,
administração, engenharia, medicina. Até psicologia, serviço social. Mas artes?
Não poderia ser! Como ganharia dinheiro? Como sustentaria uma família?
Impossível!
Contra tudo e contra todos, não voltou atrás em sua
decisão. Queria pintar, sabia que era sua vocação. Um dia de cada vez, se
esforçava para cumprir bem suas obrigações na universidade. O futuro se
resolveria.
Agora que estava quase se formando começava a
refletir se havia tomado a decisão certa. Realmente, não havia mercado. Conseguir
trabalho não estava fácil. Iria fazer mestrado, pelo menos ganhava uma bolsa.
Pequena, mas já era alguma coisa, não morreria de fome.
Aquele ano seria o último, precisava estudar para a
prova do mestrado. Não poderia repetir nenhuma matéria ou não conseguiria sua
tão almejada bolsa.
Às segundas-feiras tinha aula de manhã e de tarde. Sentia
cansaço, mas naquele dia também sentia certa leveza. Difícil de descrever,
estava simplesmente de acordo com o mundo.
Almoçou rapidamente, precisava voltar para a aula.
Olhou-se no espelho, viu-se Demoiselles d'Avignon, viu-se arte. Entendeu e sorriu.
Chegando à sala de aula, olhou o relógio de parede.
Percebeu que ele estava um pouco disforme. Tirou seu pincel do bolso e pintou-o
derretendo. Assim ficava melhor.
Precisava terminar o vaso de flores. Decidiu que
aquelas eram um pouco feias. Acercou-se à mesa de tampo vermelho onde elas se
encontravam e pintou-as como um buquê de girassóis. Voltou para seu cavalete,
precisava terminar o trabalho para entregá-lo ainda hoje.
Ao final da aula, foi com um amigo para a Lagoa. Estavam
chegando perto do píer quando viram uma pessoa gritando. O céu vermelho dava um
toque especial. Aproximou-se daquela pessoa e pintou-a sinuosa. Assim ficava
melhor. Que cena bonita!
A fome apertava de novo, o amigo precisou ir
embora. Foi a um restaurante que gostava muito, viu uma longa mesa com treze
pessoas partilhando pão e vinho. Engraçado, todas do mesmo lado da mesa. Sentou
em lugar próximo. Comeu, bebeu e estava feliz.
Quando estava saindo, percebeu que uma mulher lhe
observava onde quer que fosse. Interessante, aquele sorriso enigmático, o olhar
profundo, um braço repousando sobre o outro. Ao sair do restaurante, pintou-lhe
rapidamente um grande bigode antes de tomar o caminho de casa.
Que noite estrelada! Caminhava pela praia de
Copacabana e percebeu que as luzes refletiam no mar, um céu sem lua, os postes no
horizonte. Faltava só um casal perto de dois barcos, providenciou-o
rapidamente.
Chegou ao cruzamento da Barata Ribeiro com Siqueira
Campos, iria tomar o metrô para voltar para casa. Percebeu que o asfalto estava
cheio de traços coloridos, dispersos, fortes. Pintou alguns mais e entrou na
estação.
Sentou-se e pensava na vida. As estações passavam.
Viu um anúncio de um tipo de sopas em conservas que nunca havia visto. Interessante,
ficariam melhores lado a lado.
Ao sair na Saens Peña, percebeu que haviam
esquecido um mictório. Ainda bem que não precisava deles. Como ninguém reclamou,
o colocaram no centro da praça.
Via as vitrines, já estavam escuras àquela hora. De
repente viu seu reflexo, lhe faltava um pedaço da orelha.
domingo, 13 de maio de 2012
O Dia e a Noite
Caminhava pela praia olhando o pôr do sol róseo de
uma tarde de verão. Sentia-se privilegiado por poder assistir a um espetáculo
tão bonito, em plena quarta-feira, enquanto todos estavam ocupados ele molhava
seus pés no mar de Ipanema.
Todos os seus sentidos estavam tomados por uma
sensação de leveza e calma. Uma aveludada brisa em seu rosto, o doce barulho das
ondas, o céu infinito a se descortinar, a água de coco que refrescava sua alma,
o suave cheiro de mar. Plenitude.
Quando voltou a si a lua já aparecera, assim como
as primeiras estrelas. Percebeu que a poucos metros de onde estava caminhava uma
mulher com seus vinte e poucos anos, alta, cabelo escuro, embevecida como ele
pelo espetáculo ao qual estavam assistindo.
Ela percebeu que estava sendo observada. Retirou
seu olhar do céu. Achou interessante aquele homem, abriu-lhe um sorriso.
Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente. Estava
ainda dominado pela sensação de leveza. Quem seria aquela mulher? A maresia
ainda impregnava suas narinas. Aos poucos foi distinguindo realidade de sonho,
percebeu que foi simplesmente um sonho. Bom, mas sonho. Era hora de se
levantar, não poderia chegar atrasado ao trabalho. Chovia, o engarrafamento
seria ainda pior.
Reuniões, ligações, discussões. Tinha que comprar o
presente da filha, seu aniversário acontecera dois dias antes, não conseguiu ir
à festa. No horário do almoço. Será que conseguiria almoçar? Não, reunião
urgente. Talvez o comprasse amanhã. Ligou para a ex-mulher, tentando explicar a
situação. Dois ‘ahãs’ secos, ela havia desistido de reclamar dele há tempos.
Chegou em casa esgotado, sem ter almoçado, sem o
presente da filha. Engoliu qualquer coisa que estava na geladeira, tomou uma
ducha e deitou-se.
Respondeu ao sorriso.
- Lindo, não é? – disse José.
- Sim, sim, muito bonito. Incrível como ninguém para
pra ver. – respondeu a mulher.
E a conversa se seguiu. Chamava-se Júlia, havia se
mudado recentemente. Estava fazendo pós-graduação, achou que o Rio seria uma
opção interessante. Inspiradora.
José, nosso conhecido. Morava no Leblon, vivia de
renda. Solteiro, não se casara pois ainda buscava a mulher certa. Conseguira
comprar alguns apartamentos antes do boom imobiliário. Alugava-os e assim tinha
uma vida tranquila.
Foram para um bar na Visconde de Pirajá. Dois
chopes, por favor. Nos intervalos da conversa os olhares se cruzavam curiosos.
Trocaram telefones, marcaram de assistir o pôr do sol juntos no dia seguinte na
Pedra do Arpoador.
Tocou o alarme, José desligou-o rapidamente. Que
legal, o sonho continuou! Será que... Não, seria muita coincidência. Já estava
feliz com a lembrança que Júlia lhe representava. Um oásis no deserto. Mas e se
ela voltasse?
Tentou afastar o pensamento da cabeça. Pois sim,
Leblon. Ele que morava a duas horas do Centro, sem trânsito. Não poderia perder
aquele emprego, o aluguel já estava atrasado. Sua ex-mulher já havia se cansado
desta situação, voltou para a casa da mãe com os dois filhos.
A chuva piorara, um engarrafamento sem fim. Ligou
para o chefe, avisou que iria se atrasar. Conversamos quando você chegar aqui.
Mau sinal.
Um dia pior que o outro, escutara a bronca do chefe
cabisbaixo. Mais um dia sem almoço, chegou em casa tarde. A geladeira estava vazia,
deitou-se com fome.
Olhava o teto sem conseguir dormir. Desejava com
toda sua força que Julia voltasse. Seria pedir muito? Um pouquinho de
felicidade, pelo menos enquanto dormia. Foram várias horas até que suas
pálpebras decidiram se fechar.
Andava pelo calçadão do Arpoador. Finalmente, havia
conseguido, iria ver Julia de novo. Olhou para sua mão e percebeu que carregava
uma boneca Barbie.
Assustou-se. Isso não deveria pertencer a este
mundo! Deu-a para uma menina de rua que passava próxima.
Viu ao longe a silhueta de Julia, ela já estava
sentada na Pedra, olhando o mar. O coração palpitou. Ajeitou-se, parou para
respirar um instante. Não queria parecer nervoso.
Dois beijinhos no rosto. Bom te ver. Você também. Tão
lindo quanto ontem? Melhor, está vendo aquelas nuvens? Sim. Quando o sol se pôr
elas vão ficar vermelhas como o fogo. Como os seus lábios? Não, ainda mais.
O sol descia no horizonte. Eles estavam de mãos
dadas. Sim, o céu estava mais bonito que no dia anterior. Ele olhava... Tocou o
alarme, José desligou-o rapidamente.
Queria voltar a dormir, não poderia. Chefe, aluguel,
contas a pagar. Levantou-se com raiva. Pelo menos amanhã seria sábado, poderia
dormir até mais tarde. Voltando para casa, à noite, teve uma ideia: iria tomar
um remédio para dormir, poderia ficar com Julia mais tempo. A ideia seria boa,
se não fosse um porém: teve um sono sem sonhos. Acordou no meio da tarde de
sábado, arrependido. De nada adiantou, teria que esperar até a noite para
vê-la.
E assim várias semanas se passaram. Enquanto seu
dia a dia se deteriorava, suas noites eram pura expectativa. Havia começado a
namorá-la, faziam planos juntos. Tentou alguns remédios para dormir, para
entrar cada vez mais nessa outra vida. Não adiantava, não conseguia encontrá-la
quando os tomava.
Um dia estava trabalhando quando percebeu que no
bolso da camisa havia um bilhete rosa. “Saudades. Júlia.” Que lindo, ela havia
feito essa surpresa para ele. Guardou-o. Agradeceu a surpresa à noite. Aos
poucos foi percebendo novos sinais que ela deixava, um vaso de flores aqui, um
novo quadro ali.
Era o dia do aniversário de Júlia. José havia
preparado uma festa surpresa, fora tudo combinado com os amigos dela. Ela era
só felicidade, não conseguia imaginar como ele fizera todos esses preparativos
sem que ela desconfiasse. Foi uma noite de céu estrelado e lua cheia.
Voltando à casa de José, se amaram como poucas
vezes haviam feito. Dormiram nus, abraçados. José teve um sonho estranho, uma
história que ele tinha dois filhos, trabalhava no Centro, a ex-mulher que não
queria falar com ele. Acordou com uma sensação de incômodo, pesadelo ruim.
Olhou para o lado e viu que Julia dormia suavemente junto a si. Sentiu-se
feliz.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Um Dia Típico
Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu
sonho, nada veio à mente. Olhou para o relógio, estava atrasado. Pulou da cama,
vestiu a roupa de trabalho às pressas. Engoliu um copo de leite, trancou a
porta enquanto abotoava a camisa. Desceu o elevador colocando os sapatos.
Quando saiu à rua percebeu que estava chovendo, havia esquecido o guarda-chuva
em casa. Não havia mais tempo, era correr para a estação do metrô.
Não andou nem dez metros e um ônibus passou em uma
poça d’água encharcando Moisés. Ele não acreditava que seu dia começava assim,
tinha a certeza de ter pisado com o pé direito assim que saíra da cama. Não
havia mais tempo, iria para o trabalho assim mesmo.
Olhou o celular. Muito atraso. Uma mensagem. Sua
namorada, precisamos conversar. Depois responderia a mensagem.
Correu até a estação do metrô. Já estava lotada
àquela hora, só conseguiu pegar o segundo trem. Repassava mentalmente o que ele
precisaria falar na apresentação que já deveria ter começado. Pensava também em
uma desculpa pelo atraso. Distraído que estava, não percebeu que lhe levaram o
celular e a carteira. Deu-se conta do fato apenas perto do trabalho, quando foi
buscar seu crachá. Encontrou-o, mas apenas ele, não o restante.
Ficou nervoso, mas precisava focar agora na
apresentação, depois faria um BO. Ficou parado procurando se lhe haviam levado
alguma outra coisa da mochila, o laptop ainda estava lá, mas não havia sido
poupado pelo ônibus – encontrava-se encharcado, assim como Moisés. Será que
ainda funcionaria? Continuava procurando para ver se sentia falta de alguma
outra coisa quando lhe deram uma trombada e ele rolou escada abaixo. Ambos os
cotovelos ralados, um rasgo na camisa. Não acreditava no que lhe acontecia.
Caminhou até o prédio onde trabalhava.
Completamente molhado, roupas esfarrapadas, um fiapo de sangue escorria de sua
testa. Atraía olhares receosos. Sacou seu crachá da mochila, havia quebrado em vários
pedaços na queda. Precisaria pegar um novo. Documento por favor? Não tinha
nenhum.
Não aguentava aquela situação, deu um grito bem
alto. Acordou de sobressalto. Tentou se lembrar de seu sonho, algo sobre um dia
muito estranho lhe veio à mente. Olhou para o relógio, ainda faltavam duas
horas para a reunião que deveria coordenar e se sentia descansado. Ainda bem,
seria um longo dia. Espreguiçou-se e tomou um banho demorado, relaxante. Tinha
tudo na ponta da língua, seria uma grande oportunidade de mostrar seu trabalho.
Desceu o elevador assobiando Beatles. Parou no
sexto andar, entrou a vizinha do 601 que lhe deu um grande sorriso. Ele
respondeu ao sorriso, coçando o anel na mão direita.
Quando saiu à rua percebeu que era um dia de sol.
Colocou seus óculos escuros, ainda faltava mais de meia hora até o horário da
reunião.
Não andou nem dez metros quando um carro parou ao
seu lado e buzinou. Olhou para dentro e percebeu que era seu chefe.
- Moisés, que surpresa vê-lo por aqui.
- É que eu moro aqui do lado. Você também?
- Não, não. Eu fui a um médico aqui perto. Quer uma
carona?
- Claro!
- Entra aí.
Olhou o celular. Havia tempo, de carro chegaria em
menos de dez minutos. Uma mensagem. Sua namorada, dizendo que lhe amava.
Respondeu carinhosamente dizendo que também a amava e que já estava com
saudades.
Abriu o laptop, ficou conversando com o chefe sobre
a apresentação. Este gostou muito, e prometeu se lembrar disso na próxima
promoção.
Estava feliz. Acordou de sobressalto. Tentou se
lembrar de seu sonho, algo sobre um dia muito estranho lhe veio à mente...
domingo, 6 de maio de 2012
Na Rede
Peri era um menino curioso. Olhos bem abertos, sempre tentando capturar o mundo. Seus pais se orgulhavam, contavam anedotas dele o tempo todo. Peri brincando, Peri comendo, Peri descobrindo um formigueiro, Peri explicando porque deveria poder brincar durante as 24 horas do dia.
Nove meses na barriga da mãe e nada aconteceu. Peri
nasceu de quase dez meses, com cara de sono. Dormia praticamente o dia inteiro.
Quando começou a andar sempre corria para a rede onde descansava o pai. Gostava
de ficar lá balançando e contando as estrelas. Eram muitas, poderia ficar assim
a vida inteira e não chegaria ao fim.
Já estava se aproximando o momento da cerimônia.
Seu quinto aniversário aconteceria em dois dias, pouco antes da lua cheia. Ele
estava sendo preparado.
No dia da celebração, toda a família se reuniu. Esperaram
o céu escurecer. A lua iluminava todo o campo, não precisavam de nenhuma outra
luz. Abriram espaço para o patriarca da família, seu bisavô que já alcançava 102
anos. Ele veio com seu olhar pastoso e sua mão enrugada, tocou a cabeça do
menino. Todos fizeram silêncio.
Ninguém lembrava há quanto tempo isso havia
começado, nem o porquê. Era um ritual, todos participavam e sabiam que seus
filhos iriam participar. Seus netos também, seus bisnetos também. Sempre no
quinto aniversário da criança, a família se reunia. Decoravam o recinto, faziam
diversos preparativos. Chegava o patriarca da família, só precisava de uma meia
luz e, se o céu permitisse, da lua. No momento em que ele pousava a mão na
cabeça da criança ela descobria quantos anos teria de vida. Não falava com
ninguém, essa era a tradição. Simplesmente sabia, e isso lhe permitia se
preparar e preparar seus familiares quando se aproximassem seus momentos
finais.
Ficavam imaginando como seria se as pessoas não
soubessem quando iriam morrer. Que loucura não saber do dia da morte! Com
certeza essas pessoas aproveitariam muito mais, afinal cada dia poderia ser o
último. Como poderiam ter filhos se não tivessem a certeza de que estariam lá
quando eles precisassem? Deveria ser uma vida tão intensa, tão forte, tão
prazerosa. Imagine! Um gole de água de coco e de repente, no minuto seguinte,
tudo acabado. Várias noites de amor que poderiam ser a última! Não saber do
amanhã, só poder acreditar no dia de hoje.
Quantas possibilidades isso abriria! Sem saber o
dia da morte, para quê viver no futuro? Seria o dia presente a cada dia. Falar
a todos quanto se ama, não deixar nenhuma pendência. Constantemente. Respirar
como se não houvesse uma próxima inspiração. O beijo que seria sempre um
possível último, o abraço que talvez não se repetisse. Sem pendências, a
liberdade. Sem o peso da certeza do dia da morte, apenas o eterno presente.
Era uma possibilidade tão pungente que todos tinham
medo. Não tinham coragem de pular o ritual. Tinha que ser feito. Sempre foi
assim, deveria continuar assim. Eram inconcebíveis as consequências caso o
ritual não acontecesse.
O patriarca da família de Peri se preparava para o
grande dia. Seria a última cerimônia da qual ele participaria, o ano seguinte
seria o de sua morte. O primo de Peri tinha três anos, algum novo patriarca
faria sua iniciação. Isso tornava essa cerimônia ainda mais especial.
Chegando ao lugar onde Peri se encontrava, o
patriarca se emocionou. Lembrou-se de todas as cerimônias que havia participado,
lembrou-se da sua própria. Pensou que 103 anos seria muito tempo e de repente
já estava quase na hora. Anotava mentalmente tudo que deveria fazer até o ano
seguinte, os preparativos para a família, os ensinamentos que deveria passar.
Era hora de se concentrar em Peri.
O menino o recebeu com um sorriso, não entendia
exatamente o que estava para acontecer. Achava tudo bonito, todos com roupas
especiais, muito colorido, decorações. Permitiram-lhe escolher suas comidas e
comer quanto quisesse. Quem dera se todos os dias fossem assim! Foi então que o
avô colocou a mão na sua cabeça e ele entendeu. Sentiu um frio na espinha e
passou a saber. Ficou sério por alguns segundos, mas depois voltou a brincar. Não
por muito tempo, já que estava de barriga cheia. Deitou-se poucos minutos
depois.
Quando acordou já estava tudo claro, ele estava em
sua rede. Não dormia mais na rede dos pais, a partir daquele dia já era
menino-homem. Tentou trazer à memória o que havia acontecido no dia anterior.
Aos poucos se lembrou de quanto havia comido e quanto havia brincado. Lembrou-se
da cerimônia, tinha alguma coisa a ver com o dia da morte. Mas quando seria
mesmo? Havia esquecido.
Ficou com medo, e se seus pais descobrissem que ele
se esquecera? O que aconteceria com ele? Preferiu não contar nada e fingir que
sabia. Todos o olhavam de uma maneira diferente agora que ele era menino-homem.
Cresceu brincando muito, como todas as crianças. Virou
exímio pescador, conversava com o rio e sabia onde deveria lançar suas iscas. Sentia-se
um pouco estranho, aquele segredo guardado há tanto tempo. Mas era tão bom, não
poderia compartilhar com ninguém aqueles pequenos prazeres. O banho de rio, e
se não voltasse? O céu estrelado, e se não visse mais um? A lua cheia, e se
fosse a última?
Era maravilhosa aquela sensação de viver tão
intensamente. Sempre com um sorriso no rosto, mergulhando na vida até o fôlego
acabar.
O tempo foi passando e Peri se apaixonou. Casou-se,
teve dois filhos. Ele era o homem mais velho da família, lhe coube o papel de
patriarca. Quando fazia a cerimônia, sem ninguém perceber, deixava a mão
flutuar levemente na cabeça da criança. Não a tocava.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Uma Manhã de Sol
Fabiana estava em casa, procurava desesperada o
GPS. Como ele poderia ter desaparecido, ela sempre o guardava no mesmo lugar.
Abria caixas e mais caixas, tirava todas as roupas dos armários e nada.
Bateu na porta do quarto de sua irmã que ainda
dormia.
- Carol, você sabe onde está o GPS?
- Não está no armário do seu quarto? - respondeu
Carol.
- Não, disse Fabiana, já bufando.
- Não está na estante da sala?
- Não!
- Então não sei, me deixa dormir.
- Acorda! Eu preciso saber onde está o GPS.
Carol se levantou e tentou ajudar a irmã a achar o
bendito aparelho. Todos os armários da cozinha foram abertos, geladeira
esmiuçada, cada pequeno canto da casa foi visto e revisto. Buscaram até dentro
da máquina de lavar roupas. Nada.
Não restou opção a Fabiana. Tomou o elevador,
desceu. Estava um pouco nervosa, mordiscava o lábio, suava. Limpou a garganta e
perguntou ao porteiro como poderia chegar à padaria.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Escolhas
I
Estava voltando para casa depois
de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios.
Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco
mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão
difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.
Chegou em casa, abriu a porta
devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó
de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava
sozinha.
Entrou no quarto e viu-a com
outro homem.
Gritava impropérios, xingava o
homem de todos os nomes. Os dois começaram a brigar, rolaram no chão. Estavam
na sala, retratos quadros vasos caindo e se despedaçando. O homem sacou uma
arma do paletó que estava na cadeira e deu-lhe dois tiros. O sangue escorria,
molhando as rosas que o marido trouxera, seria uma surpresa. Morreu na hora.
II
Estava voltando para casa depois
de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios.
Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco
mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão
difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.
Chegou em casa, abriu a porta
devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó
de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava
sozinha.
Sabia que simplesmente entrar no
quarto não ia dar certo. Puxou a arma do paletó, descarregou-a. Guardava na
cozinha um taco de beisebol, para emergências.
Entrou no quarto e viu-a com
outro homem.
Não se deu o trabalho de abrir a
boca. Depois de cinco minutos batendo no homem com o taco, deixou-o irreconhecível.
Sentiu-se aliviado.
Sua esposa foi embora no mesmo
dia. Uma semana depois, estava na portaria de seu prédio, indo para o trabalho.
De repente parou em sua frente uma moto preta, dois homens. Foi tanta bala que
o velório foi feito com caixão fechado.
III
Estava voltando para casa depois
de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios.
Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco
mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão
difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.
Chegou em casa, abriu a porta
devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó
de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava
sozinha.
Sabia que simplesmente entrar no
quarto não ia dar certo. Puxou a arma do paletó, descarregou-a. Guardava na
cozinha um taco de beisebol, para emergências.
Pensou, sabia que um flagrante não
adiantaria. Revistou os bolsos do paletó, encontrou um cartão de identificação:
Aquiles Barroso, Almirante. Anotou todos os dados, colocou-o de volta.
O taco deixou em um local
visível. Saiu sem fazer barulho.
Aquiles não percebeu o taco, a
mulher sim, mas preferiu não falar nada. Ele achou muitíssimo estranho sua arma
estar descarregada mas apressado que estava pensou que era coisa da sua cabeça.
No mesmo dia, Odílio ligou para
um amigo seu que era militar. Buscou saber mais informações sobre esse
almirante, onde morava, se tinha família. Descobriu que a esposa dele estava
buscando um professor de inglês. Estava um pouco enferrujado, mas nada impossível
de contornar.
Marcou aulas nos horários de
almoço. Era uma correria, mas valia a pena. Certo dia viu a filha de seu
inimigo, linda como a mãe que já mostrava avanços na nova língua.
Cada dia se aproximava mais de
seu objetivo. Conquistaria a esposa de seu inimigo, assim como ele havia feito
com a sua, e iria mostrar que o melhor para todos seria fingir que nada havia
acontecido. Todos retornariam para seus lares satisfeitos.
Seu projeto ia de vento em popa.
Não percebeu que sua mulher começou a desconfiar, batom na gola da camisa,
perfume de mulher. Pediu para Aquiles providenciar alguém que o seguisse. E que
surpresa não foi quando descobriram onde Odílio passava seus horários de
almoço.
Sabia que era uma vingança justa,
mas mesmo assim Aquiles foi cruel. Ligou para algumas pessoas, arranjou a
demissão de Odílio. Deixou-o na penúria, sem emprego, sem mulher. De sobra,
contratou algumas pessoas para lhe darem uma surra.
IV
Estava voltando para casa depois
de uma semana estressante de trabalho. Reuniões, ligações, e-mails, relatórios.
Finalmente havia acabado. Conversou com o chefe que lhe permitiu sair um pouco
mais cedo naquela sexta-feira. Iria fazer uma surpresa para a esposa. Era tão
difícil vê-la, a semana tão corrida. Ela já deveria estar em casa a essa hora.
Chegou em casa, abriu a porta
devagar, não queria que ela percebesse. Na mesa de jantar, encontrou um paletó
de homem em uma das cadeiras. Não era seu. Percebeu que sua esposa não estava
sozinha.
Sabia que simplesmente entrar no
quarto não ia dar certo. Puxou a arma do paletó, descarregou-a. Guardava na
cozinha um taco de beisebol, para emergências.
Pensou, sabia que um flagrante não
adiantaria. Revistou os bolsos do paletó, encontrou um cartão de identificação:
Aquiles Barroso, Almirante. Anotou todos os dados, colocou-o de volta.
O taco deixou em um local
visível. Saiu sem fazer barulho.
Aquiles não percebeu o taco, a
mulher sim, mas preferiu não falar nada. Ele achou muitíssimo estranho sua arma
estar descarregada mas apressado que estava pensou que era coisa da sua cabeça.
No mesmo dia, Odílio ligou para
um amigo seu que era militar. Buscou saber mais informações sobre esse
almirante, onde morava, se tinha família. Descobriu que a esposa dele estava
buscando um professor de inglês. Estava um pouco enferrujado, mas nada impossível
de contornar.
Marcou aulas nos horários de
almoço. Era uma correria, mas valia a pena. Certo dia viu a filha de seu
inimigo, linda como a mãe que já mostrava avanços na nova língua.
Refletiu um instante, perguntou
sobre a filha. Vinte e dois anos, fazia faculdade de música. Tocava flauta
transversa. Alta, mãos delicadas. Não gostaria de estudar inglês? Pois sim,
duas vezes na semana atendia a mãe, duas vezes atendia a filha.
Começou a se interessar por essa jovem
mulher de um sorriso cativante. Sempre presente nas aulas, sempre trazia um
novo tema. Ouvira Chopin, Rachmaninoff. Na pintura, gostava do modernismo.
Baudelaire revolucionou a poesia, lera toda sua obra.
Que mãos delicadas. Longas,
suaves. Pareciam dançar em cada movimento. Perdiam os contornos. Voz aveludada,
um pouco rouca, levemente apenas. Lábios carnudos, um olhar penetrante.
Em menos de um mês esqueceu-se de
Aquiles, esqueceu-se de sua esposa. Só pensava em suas aulas de inglês com
aquela ninfa. A mãe se cansara, livrara-se do professor empurrando-o para a
filha.
Odílio pediu o divórcio, não
fazia mais sentido aquela relação. Engatou o namoro com sua flautista. Aquiles
ficou furioso, mas acabou sendo convencido a aceitar. Feliz que estava,
trabalhava com afinco. Foi promovido.
domingo, 22 de abril de 2012
Destino
Olhava o mar. O barulho das ondas o acalmava, o
horizonte infinito o confortava. Aquele barulho se repetia: ondas quebrando na
areia, o mar avançando, recuando, ondas quebrando, o mar avançando, recuando, ondas
quebrando. Poucas nuvens no céu, um vento suave batia em seu rosto e trazia com
ainda mais força aquele cheiro de maresia que já inebriou gerações.
Pensava em sua esposa. Haviam se conhecido há
muitos anos. Vinte, talvez? Se lembrava da primeira vez que a viu, linda, doce,
em um vestido verde que combinava com seus olhos. Lânguida. Estava em um grupo de
mulheres, um amigo em comum, a ela foi apresentado, você está muito bonita,
obrigada, o que você faz?, professora, sou contador, livros, filmes, cinema,
você já leu freud?, literatura, poesia, muito interessante, tenho que ir, quer
sair amanhã, sim, te busco as nove, combinado. Naquela noite não conseguiu
dormir, passou-a em claro pensando naqueles lábios se mexendo tão perto dos
seus, esquecia o que ela estava falando e só via os lábios se mexendo. Voltava rapidamente
para o assunto para ela não perceber, mas a imagem dos lábios, boca, o nariz
levemente arrebitado.
O mar. Azul, imenso. Se casaram dois anos depois.
Foram felizes. Dois filhos. Marta era linda, alta como a mãe, olhos verdes como
os da mãe. Fred era mais parecido com o pai, deveras introspectivo, um pouco
isolado. Era epilético, tinha crises com frequência. Deivid teve uma certa
repulsa no início, seu filho doente, nunca se tornaria independente, mas acabou
aceitando-o. Os remédios ajudavam a controlar as crises. O pai acabou começando
a tomar os seus também, era uma ajuda para os momentos difíceis.
Ondas quebrando. Duas crianças brincam na areia e
constroem um castelo. Uma corre atrás da outra. Ondas. Risos. Barulho de ondas.
Os remédios não estavam funcionando mais, não para Fred, que se mantinha
relativamente bem, mas para o pai. Sua esposa revelou que lhe traia há alguns
anos e que queria o divórcio. Iria levar Marta, a filha já havia concordado.
Disse que o encantamento simplesmente passou, queria buscar alguma coisa nova.
Tantas noites esperando o marido que ficava até tarde na firma. Não entendia a
razão, essa mesma firma que agora estava reduzindo custos, se manter
competitiva, o custo com pessoal está muito alto, não podemos garantir seu
emprego, aceito ganhar menos, não é isso, o que é então, a firma é um organismo
vivo e precisa seguir em frente.
Gaivotas voavam, grasnavam. A típica formação em V,
elas se alternavam na ponta para todas poderem voar mais. O mar. O que ele
havia feito de errado? Não dera carinho suficiente para sua família? Não pensara
neles a todo instante, se poupando de roupas novas e restaurantes caros para
poder levá-los em viagem? Por que isso acontecia justamente com ele? ‘Eu que
sou um homem bom, honesto!’ Não entendia.
Oto se preparava para sua caminhada matinal. Adorava
a praia, e por isso havia escolhido morar em Ipanema. Cinco minutos caminhando
e chegava à praia, com todo seu movimento, seus banhistas, os vendedores,
barraquinhas. Colocou seu chinelo de dedo, uma bermuda, uma camiseta e o
dinheiro da água de coco. Só isso. E saiu, seu amigo estava lhe esperando na
portaria. Era uma quarta-feira bonita, céu azul, sem nenhuma nuvem.
Adorava esses passeios, pelo menos quatro vezes por
semana caminhava pela orla. Às vezes ia até o Posto 12, se sentava, ficava
admirando o Leblon e Ipanema. Outras vezes ia até o Arpoador e via com espanto
a quantidade de casas no Morro Dois Irmãos. Sempre estava com alguma companhia.
Às vezes sua mulher, outras algum amigo que morava próximo. Conhecia muita
gente ali na Vinícius, à noite se sentava em um bar e jogava conversa fora.
Tinha uma vida amena, gostosa até. Confortável. Seus
pais haviam lhe deixado uma boa herança, além daquele bonito apartamento. Não
tinha motivos para se preocupar. Casado há pouco tempo, vivia feliz.
Ondas. O barulho. “Oi, você vai ter que ir no
hospital, o Fred teve uma nova crise, a enfermeira me ligou, eu não vou poder
ir lá.” Ele se levantou, estava cansado. Por que ele? Não aguentava mais aquele
peso em seus ombros, aquela rotina, era um domingo, não era o dia do descanso? Afinal
Deus também não descansou? Por que ele não poderia descansar, só um pouco?
Sabia o que iria se seguir, noites em claro no hospital, dias intermináveis na
firma, usava o horário de almoço para pelo menos dormir meia hora, grandes
copos de café, a gastrite voltava a atacar, mais remédios. Tantas vezes já
havia passado por isso, já era automático, conhecia os médicos pelos nomes, tudo
bem com o garoto André?, tudo bem foi só mais um susto, pode deixar, eu fico
com ele aqui, você quer alguma coisa, não obrigado.
Não seria egoísmo ele pensar em se matar?
Justamente quando seu filho precisava dele? Mas ninguém via que ele também
precisava de ajuda? Sua esposa não via, ou não queria ver, ou pelo menos não parecia
ver. Ela que ultimamente andava com aquele sorriso no rosto, um sorriso cínico,
um sorriso de quem já não está mais presente e despreza tudo aquilo. Se ele
morresse pelo menos ela cuidaria de Fred, teria que cuidar, não teria como
fugir.
Foi trabalhar no dia seguinte, mais uma noite em
claro. A barba mal feita, roupa amassada. Foi chamado na sala do chefe, a firma
não poderia tolerar este comportamento, você sabe que precisamos demitir
funcionários para continuarmos competitivos, pensamos em lhe dar um tempo para
conseguir outra coisa mas se comportando desse jeito você será um dos próximos.
Saiu, voltou ao trabalho, ficou até tarde, e então foi ao hospital ficar com
seu filho.
Não aguentava mais aquela situação, precisava dar
um jeito. A mãe cuidaria dos filhos, teria que. E ainda receberia uma pensão,
pequena, mas era alguma coisa. Os filhos teriam um novo pai, parecia que ele
tinha dinheiro, as coisas se resolveriam. Teria que vender o carro da família,
custos do enterro, também sem o emprego não daria mais para pagar as prestações.
Mas que se foda. Quero que essa porra toda exploda,
vá para a puta que o pariu. Tô cansado dessa merda. Só o Fred melhorar dessa
crise que eu dou um fim nessa vida de merda. Pulo de uma ponte, um tiro na
cabeça, sei lá, algo garantido, não quero virar uma bosta de um vegetal. Foda-se
a firma, foda-se minha esposa. Filha da puta. Ela que cuide dos filhos agora,
vadia. Achava que era só colocar os filhos no mundo, bem sim. Vai aprender uma
coisa.
Alô?, sou eu, fala Cabeça!, um vôlei, bora, que
horas tá marcado?, beleza, em meia hora no nove?, fechado, abraços Cabeça.
Estava passando o protetor solar, àquela hora o sol
era muito forte. Não queria ter um problema na pele, afinal seriam tantos anos
ainda na praia, tinha que se cuidar. Roupa leve, clara, chinelo de dedo. Enquanto
isso pensava: ok, ele decidiu se matar, agora qual é o melhor jeito? Ponte
Rio-Niterói? Chavão. UERJ? Muito longe. Tiro na cabeça? Mas onde? Em casa, no
banheiro? E os filhos? Deixou isso de lado, foi jogar vôlei.
À noite no bar levantou o assunto com os amigos,
surgiram as mais disparatadas sugestões. ‘Pular do prédio da firma’. Forte
impacto emocional, mas não condiz muito com ele. ‘Saltar no trilho do metrô’.
Ele não quer chamar a atenção do mundo, só da esposa. ‘Se matar na frente dela’.
Não é tão má opção, mas ele não quer prejudicar os filhos. ‘Porra Oto, sei lá
então, ele não gosta do mar? Bota ele vendo o mar e dando um tiro na cabeça’.
Fred já havia se recuperado da crise, continuava
tomando todos seus remédios. A esposa e a filha se preparavam para a mudança. Cada
dia novas malas apareciam, eram preenchidas, e simplesmente sumiam do
apartamento. Ele via essas cenas alheio a tudo isso, distante. Seus pais já
haviam falecido, não tinha irmãos, então era mais fácil. Apenas quatro cartas,
uma para cada um de seus filhos, dizendo que os amava incondicionalmente, uma
para sua esposa, cheia de raiva e desprezo, uma para um amigo mais próximo,
dizendo que ele tinha chegado ao seu limite.
Comprou uma arma, não era tão difícil conseguir uma
naquela região onde morava. Escolheu o dia, saiu na noite anterior, foi a um bom
restaurante. Tantas vezes teve vontade de comer lá, mas sempre pensava em sua
família, as prestações do carro, o aluguel. Pediu carne e massa, um vinho
importado. Demorou. Comia aos poucos. Seria sua última refeição. Cada mordida
era uma onda de prazer e alívio. Limpava a boca. Um gole de vinho. Descia
suave. Mais uma mordida. O prato terminou, o último gole, pagou a conta, foi
feliz.
Acordou cedo no dia seguinte, pegou o ônibus às
quatro da manhã, ponto final General Osório. Andou por aquelas ruas ainda
escuras, não era nem cinco e meia, Teixeira de Melo, Vieira Souto, Francisco
Bhering, Pedra do Arpoador. Via o mar, toda a praia de Ipanema e do Leblon.
Morro dois Irmãos. O céu que clareava aos poucos. O metal frio que estava
pendurado em sua cintura lhe trazia arrepios e uma certeza fria.
O barulho das ondas. Não havia crianças naquela
hora, não havia ninguém. As luzes dos apartamentos começavam a se acender aos
poucos, o sol ainda não aparecera. De azul o céu ganhava uma cor rosácea. Ondas
quebrando na areia branca que parecia um leito sublime para se deitar e sentir
o mundo tomar conta. Decidiu que iria tomar um banho de mar, o seu último.
Desceu da pedra, tirou sua roupa e entrou no mar.
Nu, como veio ao mundo, como quando estava sozinho em casa, como amara tantas
vezes sua esposa para a qual sentia hoje tanto desgosto. Um sentimento de
compaixão com o mundo tomou conta de si, um sentimento bom por se entregar a
algo maior que ele. Viu o sol que começava a despontar no horizonte, era a
hora.
Voltou para a areia, viu as marcas que seu pé
deixava. Colocou sua roupa de novo que agora colava em seu corpo. A arma estava
dentro de seu tênis, não queria que ela emperrasse no momento crucial por estar
molhada ou cheia de areia. O sol subia rápido no horizonte, pegou a arma em sua
mão. Destravou o gatilho. Quando todo ele aparecesse redondo no céu seria o
momento.
Ondas quebravam na areia, lágrimas brotavam em seu
rosto. Não sabia se existiria céu ou inferno, e para onde ele iria se isso
existisse. Pedia desculpas pelo que iria fazer, havia tentado todo o possível.
Pedia desculpas para seus filhos, esperava que eles tivessem uma lembrança boa
do pai que fora. Não queria ser lembrado como covarde, tentou mostrar-se forte
em suas cartas para eles.
Por que tanta injustiça? Não teria direito à
felicidade aquele que buscava sempre agir corretamente? Por que eram felizes
pessoas que haviam feito tão pouco e justamente ele, que tanto se esforçara,
merecia aquilo? A traição de sua mulher foi uma faca em seu coração. Cada vez
que dela ele se lembrava era como se estivesse girando a faca, mais e mais, a
dor apenas aumentava.
O sol já estava quase todo acima do horizonte, as
ondas quebravam na areia, o dia clareava. Lágrimas escorriam de seu rosto e
então ele entendeu o porquê de tanta injustiça. Tomou uma decisão. Quando o sol
apareceu todo, majestoso, rubro, ele já estava completamente vestido, arma no
bolso, correndo. Francisco Bhering, Vieira Souto. Cada quadra que ele
ultrapassava a decisão se estabelecia mais forte dentro de si. Passou a Gomes
Carneiro, Teixeira de Melo. Era isso, sabia que agora era a coisa certa a se
fazer. Farme de Amoedo, entrou na Vinícius de Moraes.
Atravessou a Prudente de Moraes, era o terceiro
prédio à esquerda. O porteiro lhe saudou, não o via há algum tempo. ”Quer que
eu interfone para o Dr. Oto?”. “Não precisa, ele está me esperando”, respondeu.
Tomou o elevador de serviço, ainda estava um pouco molhado. Apertou o sexto
andar. Seu peito arfava, correra várias quadras sem parar. Segundo, terceiro,
quarto, quinto, sexto. As portas do elevador se abriram, ele tomou a direita,
correndo ainda, para a última porta do corredor. Reconhecera a porta, ao invés
de tocar a campainha empurrou-a com seu pé, com toda força. A porta cedeu sem
muito esforço. Foi para o escritório, sabia que ele estaria lá. Encontrou Oto
sentado, escrevendo no computador. Assim que ele se levantou deu-lhe dois tiros
na cabeça e um no coração. A xícara de café que estava na mesa do computador,
ainda fumegante, tomou-a de um gole só.
Em Copacabana
“Vou anotar isso para colocar na minha história”. Era
assim que Marcos vivia, sempre com bloco e caneta ao alcance das mãos, tentando
capturar toda e qualquer experiência do mundo e colocá-la em seus textos.
Escrevia de tudo, romances, contos, poesias, biografias. Estava sempre olhando
o mundo em busca de novos sinais, novos elementos com o qual constantemente se
deparava. E naqueles instantes nos quais o tempo para e tudo parece fazer
sentido, quando o não formulado se formula de repente, ele tirava bloco e
caneta do bolso e começava a anotar, em um frenesi que só parava quando ele
achasse que conseguiu colocar no papel tudo o que passava pela sua cabeça.
Depois, quando relia essas palavras, normalmente tirava um sentido geral da
coisa, mas a sensação de pura formulação ficara em algum outro lugar.
Nesse dia estava tomando cerveja com os amigos no Bip
Bip, um bar em Copacabana, quando viu um florista vendendo rosas de mesa em
mesa para casais que nem sequer olhavam para ele. Era o florista mais triste
que já havia visto, carregava nos ombros o peso do mundo e nas mãos a
possibilidade de um prato de comida no dia seguinte. Não dera sorte, naquele
bar não lhe compraram nenhuma, e o florista se dirigiu a outro bar para outros
casais que também lhe diriam não sem nem olhar em seus olhos.
Marcos percebeu que era exatamente esse caráter de
resignação trágica que queria colocar em seu personagem. O peso do mundo o
esmagaria e ele aceitaria isso sem reclamar. Precisaria haver alguma morte,
isto está claro, para atrair a atenção do leitor, mas por enquanto ainda estava
trabalhando na caracterização do seu personagem.
Casado, dois filhos. Auxiliar de escritório,
trabalhava em uma empresa no centro da cidade. Dava beijos em seus filhos e em
sua mulher, que ainda dormiam, descia a Saint Roman todo dia, bem cedo, e tomava
um ônibus para o centro. Ombros caídos, olhar distante. Fazia contas na cabeça
e sempre estava preocupado se iria conseguir pagar as contas naquele mês. Eram
tantas prestações, ficava difícil conciliar tudo. Voltava sempre bem tarde, nem
sempre conseguia ver seus filhos acordados. Nos finais de semana gostava de
tomar cerveja. Ia ao Bip Bip, mas como a cerveja lá é cara, só ficava ouvindo
as rodas de bossa nova e samba.
Depois continuaria com seu personagem. Seus amigos
já estavam reclamando, Marcos que sempre fazia isso e às vezes ficava horas
escrevendo em seu bloco sem nem prestar atenção a quem estava na mesa com ele.
Levantou-se e foi pegar mais uma cerveja, a sua já tinha acabado há algum tempo.
Mas qual seria o fio narrativo? Sua esposa poderia
traí-lo... Não, muito padrão. Morte dos filhos? Também não... Não é tragédia
que Marcos queria em sua história, é resignação. Ser demitido? Não seria uma má
ideia, mas como desdobrar esse acontecimento?
Dia seguinte, assim que acordou, noite ainda, Marcos
se sentou na frente do computador e começou a escrever um conto. Descreveu seu
personagem. Ele ia começar mais um dia de trabalho.
Acordava bem cedo, como sempre fazia. Não poderia
pensar em chegar atrasado, aquele emprego era a única possibilidade de dar uma
condição um pouco mais digna para seus filhos. Eram dois, Michele, de 4 anos, e
Antônio, de 6. Dormiam ainda, assim como sua esposa. Deu a cada um seu merecido
beijo na testa e saiu para mais um dia de trabalho. Estava trancando o portão
da casa quando ouviu um tiro.
Marcos também ouviu o tiro, se assustou. Sabia que
precisava se mudar, seu apartamento era de frente para a favela. Mas o preço
dos alugueis estava tão alto, só conseguia morar ainda em Copacabana pois o seu
apartamento lhe havia sido alugado por uma amiga de sua falecida mãe que não
cobrava muito por um misto de pena e compaixão.
Ficou inquieto, não conseguiu continuar sua história.
Ficava com medo, e se alguma coisa acontecesse com ele? O fim, e depois? Cessar
de existir, não se manteria em seus livros pois nenhum havia sido publicado.
Não se manteria em seus filhos, não tinha nenhum. Nem esposa, tampouco. Por
alguns anos seus amigos ainda se lembrariam de Marcos, aquele escritor
fracassado que estava sempre tentando criar a última novidade em literatura.
Mas e depois?
Foi até a cozinha, abriu a geladeira. Tomou um copo
de leite, torradas com manteiga. Pensava na vida, será que algum dia iria se
casar? Fazer a diferença para alguém, dividir o estar no mundo, olhar para frente
e ver o mesmo horizonte. Esses pensamentos o deixavam um pouco triste, voltou
para seu computador e continuou a escrever.
Estava acostumado ao barulho de tiros. O governo
dizia que iria ter mais segurança, mais policiais, mas ainda não havia
percebido nenhuma diferença. Desceu a Saint Roman e esperava na Av. N.S.ra de
Copacabana para atravessar. Iria tomar seu ônibus para mais um dia de trabalho.
O sinal fechou, ele ia atravessar a rua mas viu que um carro não iria parar. O
homem ao seu lado não viu o carro, e atravessou. Barulho de freio, impacto. A
gabardina bege do homem ficou toda ensanguentada. O saco de compras que
carregava voou bem longe.
Marcos estava com fome, só havia duas fatias de pão
em sua casa. Era um dia chuvoso, colocou a gabardina e desceu para a padaria.
Comprou pão francês, manteiga e leite, itens que não poderiam faltar em sua
dispensa. Deixara seu personagem esperando, precisava voltar e continuar a
história. Parou na faixa de pedestres, esperaria o sinal fechar para atravessar
a avenida. Olhou para sua esquerda e viu um homem simples, roupa gasta, uma
expressão tranquila no rosto. Típico trabalhador, provavelmente sua família
ainda dormia enquanto ele tentava ganhar o seu sustento.
O sinal de carros fechou. Marcos colocou o primeiro
pé na rua. Respirou fundo. Entendeu, não era o momento. Olhou para a direita e
viu um carro que ultrapassou o sinal vermelho. Para que a pressa? De nada adiantava,
logo em seguida o carro teve que parar no próximo semáforo.
O Grande Baile
Maria estava linda. Todos no
baile olhavam para ela. Sua maquiagem delicada marcava seu rosto e alongava
seus olhos. O vestido azul lhe dava um porte que não pensara algum dia ter. As
mulheres que passavam por ela suspiravam de inveja, os homens suspiravam por
imaginar o que estaria atrás daquela roupa.
Seu rosto era só contentamento,
um sorriso amplo e complacente, um olhar conciliador. Mãos leves que dançavam ao
sabor do vento. Movimentos suaves que lhe traziam uma graça incomparável.
Cumprimentava a todos com um leve movimento de cabeça, e todos a cumprimentavam.
Ela se dirigia ao balcão das
bebidas, não sem atrair a atenção por onde passava. Tomou nas mãos uma taça de champanhe
e nela dava leves bebericadas. As bolhas faziam seu nariz coçar. Estava feliz,
olhava o mundo e se sentia parte dele.
Nesse momento viu um homem alto,
sério, andar em sua direção. Sentiu suas pernas tremerem. Ele ajeitou a gravata
e cada passo que dava
Ouviu o trinco da porta se
abrindo, a hóspede estava voltando mais cedo. Maria rapidamente devolveu ao guarda
roupas o vestido azul que costumava colocar à sua frente enquanto se olhava no
espelho. Rapidamente, antes que a hóspede percebesse.
- Desculpe minha senhora, já
estou de saída – disse Maria.
O baile continuará amanhã, nesse
mesmo horário.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Escritório
João tinha um sonho: trabalhar em uma multinacional. Desde criança ouvia seus pais lhe dizendo os benefícios que elas traziam, todas as possibilidades que se abriam quando se trabalhava em uma. Seus pais eram engenheiros, os dois eram funcionários de empresas desse tipo. Seu pai, engenheiro químico, trabalhava no setor farmacêutico, e sua mãe, engenheira mecânica, no setor financeiro. Sempre viajavam a serviço, ficavam até tarde em seus escritórios, respondiam chamadas telefônicas que duravam horas mesmo nos fins de semana, mas com isso conseguiam dar muito conforto a João e sua irmã, Josefa. Moravam todos em um belo apartamento de frente para a praia, na Rua Delfim Moreira. Tinham dois carros importados e já planejavam comprar mais um para dar de presente a João em seu próximo aniversário. As viagens internacionais eram constantes, antes dos 18 anos seus filhos já conheciam cinco continentes.
Acostumado a essa vida de luxos, João não podia senão buscar esse padrão. Estudou direito na universidade mais conceituada do Rio de Janeiro e desde cedo focou sua formação para o setor privado. Ele buscava esse frisson, essa possibilidade de construir alguma coisa nova, de estar sempre envolvido com algo. Em sua família todos o apoiavam, menos seu avô materno.
André era um homem calmo, paciente, que morou sua vida toda no interior. Teve três filhas, Joaquina, Joana e Janaína. Cada uma seguiu um caminho diferente. Joaquina assim que terminou o segundo grau foi morar no Rio de Janeiro com um tio-avô. Fez engenharia mecânica, se casou e teve dois filhos: João e Josefa. Já Joana, assim como seu pai, era muito criativa e gostava das artes. Foi para a cidade grande só para fazer o curso de artes plásticas. Assim que se formou, abriu um ateliê ao lado da casa do pai, que o ajudava com seus projetos. Janaína era ainda mais ligada à vida do interior. No colégio, já fez a formação para professora, e dava aulas para alunos dos 4ª e 5ª anos. Até se casarem, Joana e Janaína moravam com seu pai - sua mãe morrera muito cedo e por isso elas ficaram muito apegadas a ele. Mas mesmo após se casarem, as duas passaram a morar a menos de cinco quilômetros de distância e continuaram visitando seu pai com frequência.
Joaquina não procurava manter firmes seus laços paternais. Via em André uma pessoa atrasada, com uma visão de mundo muito restrita. Não entendia como ele conseguia passar seus dias naquilo que ela chamava de uma ‘mesmice morna’. Ficar vendo a água do rio passar, olhar as estrelas, tocar violão ao redor da fogueira, toda essa vida não fazia sentido para ela. Mesmo assim, isso não impediu que seu filho fosse muito apegado a ele. Apesar de raramente se verem, João e André gostavam muito da companhia um do outro. Faziam todo tipo de brincadeiras, conversavam horas a fio. João gostava muito de ouvir as histórias de seu avô de tempos imemoriáveis, aventuras incríveis, uma grande família morando sem nada do que ele estava acostumado – televisão, computador, eletricidade. Era uma outra vida que causava ao mesmo tempo estranhamento e admiração em João.
Sempre que podia, André tentava afastar seu neto do tipo de vida que sua filha seguiu. Olhava bem dentro dos olhos verdes do neto, uma cópia de seus próprios, e dizia:
- Vá trabalhar com alguma coisa que lhe dê bastante tempo livre, algo que lhe permita usar a criatividade! Não fique enfurnado em um escritório enquanto a vida passa do lado de fora. Não desperdice a sua melhor época para não se arrepender depois!
A isso João sempre respondia com uma frase curta como “Talvez, vou pensar vô” ou “Quem sabe”. Ele sempre pensava em como seus pais haviam conquistado aquele apartamento, aqueles carros, como o trabalho deles permitia a eles irem a festas, viajarem. Era um modo de vida que trazia uma marca muito forte.
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, nos diz o ditado. João não parecia nem considerar realmente esse tipo de pensamento, nem seu avô achava que isso fosse dar algum resultado, mas isso acabou sendo muito importante para ele. Veremos.
João se formou aos 24 anos e pouco mais de um mês após receber o título da UERJ, conseguiu uma vaga como trainee da Fuelflex, uma multinacional do setor do petróleo. Ele se achava a pessoa mais feliz do mundo naquele momento, um futuro promissor despontava, o tapete vermelho estava debaixo de seus pés. Já havia trabalhado em escritórios de advocacia, tribunais e outras firmas, mas nunca em uma multinacional. João estava em júbilo.
Foram seis meses de treinamento. Tudo era motivo para festa, ele e seus mais de vinte colegas de trabalho haviam acabado de conseguir aquele emprego. Estudavam durante o dia e saíam para comemorar à noite. Por mais de três meses essa foi a rotina de quase todos os trainees recém-contratados. Aos poucos a alegria inicial foi dando espaço a um sentimento de seriedade e compromisso, a absorção de uma aura que reinava na empresa.
Cada dia ele era apresentado a novas informações, novos dados, a etiqueta da empresa, o código de conduta, as interpretações dos códigos, os principais processos em andamento, todo tipo de informações que de alguma forma poderiam ser úteis a um advogado da Fuelflex. Um advogado sênior e uma advogada associada eram os responsáveis pelo curso em seu primeiro módulo, que durou três meses. Os meses seguintes eram destinados a palestras e apresentações dos advogados de diversos setores da empresa.
Animado com a possibilidade de assistir a essas palestras, no início do segundo módulo João sentava na primeira fileira. Anotava tudo que era falado, cada palavra, cada vírgula. Mas já na primeira semana ele percebeu algo de estranho.
- Você não acha que esse advogado é muito parecido com o que fez a palestra ontem, que também é muito parecido com o que fez a palestra anteontem? – perguntava João a seus colegas mais próximos.
- Você está viajando! – era a resposta mais delicada dentre as que ele ouvia.
A princípio achou que deveria ser alguma coisa da sua cabeça, afinal estava dormindo muito pouco naqueles dias. Mas com o passar das semanas aquela dúvida abriu espaço para uma certeza de aço – aquelas pessoas eram iguais. Por mais que um ou outro tivesse uma gravata mais colorida, ou um corte de cabelo um pouco diferente, os olhos eram todos negros com a mesma frieza, os narizes finos e altivos, o semissorriso escondendo um ar de histeria. Alguma coisa estava errada naquela empresa, e ele iria descobrir.
Essa certeza da qual ninguém compartilhava acabou levando-o a se isolar cada vez mais. Achava estranho como seus colegas não conseguiam ver o que lhe parecia óbvio, como poderia haver tantas pessoas iguais, afinal gêmeos em geral são dois, algumas vezes um pouco mais, mas nunca em uma quantidade tão grande como aqueles que lhe apareciam. Não perdia a esperança de conseguir provar a eles que aquela empresa escondia alguma coisa de muito importante, algum segredo que não podia ser revelado. E assim foi até o final dos seis meses de curso.
Seria o primeiro dia de trabalho, tão esperado. Mas aquela felicidade inicial fora substituída por uma dúvida que lhe corroía, uma necessidade de resolver um tão grande mistério que nunca havia imaginado a possibilidade de realmente existir. Mesmo assim, essa mesma empresa que lhe gerava incômodo pagava seu salário, permitia um futuro promissor, trazia grandes possibilidades. João começou a duvidar se, quando descobrisse o enigma, revelaria a todos. Depois de muito refletir tomou a decisão de que isso iria depender da solução do enigma, de como isso poderia impactar a sociedade como um todo, até que ponto seria ético ou não, ilegal ou não. E assim ele cortou o cabelo, se barbeou, colocou seu melhor terno e foi trabalhar.
O centro do Rio estava um calor infernal. Era uma manhã de verão e às 8:00 os termômetros marcavam 30ºC, e subindo. Só no caminho entre o estacionamento da catedral e a Fuelflex qualquer um já começava a suar. Para não dar uma má impressão justo no primeiro dia, assim que chegou na empresa João foi no banheiro para se ajeitar. Quando foi girar a torneira olhou para o espelho e se viu entrando no banheiro, como se fosse um filme. Igualzinho, idêntico. Seu outro eu passou por João, foi o mictório que estava atrás dele, fez suas necessidades e se dirigiu às pias para lavar a mão. Por todo esse tempo João ficou parado, estático, não acreditando no que estava vendo. E como se isso não fosse suficiente, seu outro eu lhe disse, enquanto lavava as mãos, olhando pelo espelho:
- Bom dia João.
- Bom dia, gaguejou João em resposta.
- Está tudo bem? Você está branco.
- Tudo, tudo bem, novamente gaguejando em um som quase inaudível.
- Não fique tão nervoso. É só nosso primeiro dia. Por mais que tenhamos feito seis meses de treinamento, eles sabem que eu, você e os outros vinte e poucos trainees ainda estamos começando. Vai dar tudo certo.
João olhou para a direita e viu seu outro eu que lhe sorria, secando as mãos e saindo do banheiro em seguida. O que significava aquilo? Quem era ele? João encheu suas mãos de água e molhou o rosto. Era o melhor que ele poderia fazer naquele momento. Pegou algumas toalhas de papel e se secou. No justo momento em que secou seu rosto, olhou para seu reflexo no espelho e viu que seus olhos estavam negros.
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