quarta-feira, 2 de julho de 2014
Me Chamo Ulisses
sábado, 28 de junho de 2014
Escrever não é como pintar, colocar várias camadas de tinta sobre uma tela branca. Escrever é como esculpir, fazer falar o material que já está lá. O escritor é apenas um intermediário: o objeto já falou a quem lhe deu ouvidos. Ele apenas dá forma ao objeto.
E as histórias, e as poesias, ficam lá. Material bruto agurdando seu lapidador.
Eleonora
Mas a situação estava insustentável, não poderia permitir que o amigo continuasse com aquilo. Mas e agora, o que ele poderia fazer? Caminhando em direção à sua casa, Lucas olhava o mundo à sua volta como um grande sonho. As luzes dos semáforos e dos faróis perdiam seu foco, não entendia muito bem onde estava. O desgosto fechou a sua garganta e um gosto de bile subiu em sua boca. Sentiu-se tonto, uma pressão foi crescendo dentro de seu peito. E então ele se arrependeu. Não deveria ter feito aquilo, queimar todas as telas foi o maior erro que havia cometido. O que aconteceria com Eleonora? Ele não sabia. Precisava mudar aquela situação e então ele teve uma ideia.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Em uma Segunda-feira
terça-feira, 24 de junho de 2014
Distância
Eu sorrio as saudades que tinha
Desejo um beijo mas me paralisa o torpor
Ao ver a noturna alegria que se avizinha.
Aquele amarelo que eu não resisto,
Para mim a vida ganha sentido,
Para mim a vida se resume a isto.
Pálida e fria, e nada mais posso,
Em face dessa melodia dissonante,
Se não aceitar o intransponível fosso.
Vê-la entre montanhas no horizonte surgir.
Te darei esta e outras rimas de presente
E agradecendo ficarei a sorrir.
Perguntas
Como agir
Quando todos se comportam?
Como sentir
Quando faltam aqueles que se importam?
Como aproveitar calado
O benefício de ver?
O que fazer
Quando o seu pensamento
Só encontra eco nos grandes
Mas eles estão grandiosamente distantes
E não mostram qualquer terno sentimento,
Apenas razão e aridez.
A sensatez não te basta
Apenas os outros afasta.
Queres conforto,
Mas escolheste o caminho torto,
O caminho de ver
E pensar e perceber.
Queres acolhimento,
Mas os olhos acostumados à escuridão
Vêem na luz negro intento.
A mesma luz que esclarece
Fenece nos olhos dos cegos de coração.
A ausência te marca,
Marca de quem vê.
É o teu modo de ser,
Modo que o infinito abarca.
E caminhando, te transformaste em buscador,
E caminhando, encontraste a dor,
E caminhando, mergulhaste no teu próprio torpor,
E caminhando, caminhaste.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Liberdade
O olhar do convalescente
Olho o mundo com os olhos do convalescente,
Que não pensa, que não sabe,
Apenas vê e sente,
E como dentro de si não cabe
Escreve para se alargar.
Não cabe a existência mesma do mar
E não apenas o não-mar.
Não cabem passantes andando despreocupados com seus passos despudoradamente tranquilos
E não apenas algo em direção a.
Não cabem veículos que se movimentam velozmente buscando recuperar o que já se perdeu,
Que simplesmente vão,
Repletos de olhares insistentes fixos em lugar nenhum,
Repletos de gente, de seres
Humanos.
Tão humanos quanto o humano gesto de um palavra de carinho,
Essa palavra que é sempre uma cópia original,
Um modo único dentre as possibilidades em potência,
Uma organização particular de ecos de vozes há muito esquecidas,
Que permitem o humano gesto
E o fim dessa poesia.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Jovem poeta cheio de sonhos
Jovem poeta cheio de sonhos,
Em sua mochila esperanças, ilusões e um caderno.
Levando consigo o amanhã,
Levando consigo o anseio do eterno
E a inocência da doce manhã.
Jovem poeta cheio de sonhos,
Seus cabelos ventam ventanias,
Suas palavras falam grandiloquência,
Seu olhar sobrevoa a cidade,
Seus dedos semeiam alegrias,
Suas verdades trazem insistências,
Sua pena traz liberdade.
Jovem poeta cheio de sonhos,
Seus pés preferem a virgem grama
Do que o asfáltico solo.
O caminho faz ele caminhando.
Interessa-lhe somente o impossível,
Pois o possível já se pode alcançar.
Jovem poeta cheio de sonhos,
Deixe queimar a vigorosa chama,
Aqueles embalados no colo
Das musas, resistem ao fogo cantando.
Alimente a pira com seu risonho combustível,
Mergulhe e renasça no fecundo mar.
Jovem poeta cheio de sonhos,
Seja mais alto e nos conte,
Seja mais belo e encontre
A rima certa e a expressão perfeita.
Seus braços abraçam o mundo
E neles quero descansar.
sábado, 17 de maio de 2014
Existir
Tal qual girassol em um dia de sol,
Tal qual rosa em um pôr do sol,
Se é,
Plenamente
Existir se é,
Somente se é,
Apenas se é.
O sopro de um vento distante,
A luz de uma lua radiante,
A aurora que se mostra constante,
O mergulho no puro instante.
Existir se é,
Somente se é,
Apenas se é.
Ela
E lá no fundo está Ela,
Aquela de quem fugindo nos aproximamos,
Aquela contra quem sempre lutamos,
Aquela que tranquila, aguarda.
Seu sorriso plácido,
Nosso rosto de pavor.
Seu beijo ácido,
Nossa expressão de dor.
Seu amoroso gesto,
A esperança de não recebê-lo.
Sua presença indigesta,
Arrepiam espinha e cabelos.
E ela, tranquila, aguarda.
Quando chegará?
Hoje, amanhã?
Em 30 anos?
Que importa...
Uma semana, um ano, uma década,
São a mesma coisa,
Um sopro em face da eternidade.
Ela, tranquila, aguarda.
sábado, 10 de maio de 2014
Amor
Deixo ela bem perto de mim,
Olho para ela nos olhos,
Ela me fita sem fim.
Não a deixa voltar,
No céu o mais belo astro
Não se queixa em lhe dar
Lhe dão um beijo doce,
Perdem o selvagem intento
Antes de seguir viagem.
Quando a envolvem carinhosamente,
As aves cantam alto e o paraíso
Vindouro se mostra presente.
Eu me entrego todo a ela.
Não há como dela não ser vassalo,
Não há como não notar singela
Ocupa todo o meu ser,
Junto a ela se junta,
Toda a razão do meu viver.
quinta-feira, 8 de maio de 2014
O Corvo
Belo corvo que me ronda
Não tenhas medo,
Sei que me sonda
A grande noite.
Não chegaste cedo,
Teu amargo açoite
É doce para quem viveu.
Venha, pouse aqui
Em meu ombro.
Já há muito te aguardo,
Já há muito sei que virias.
Quem Dela ri,
Quem Dela o tombo
Não teme,
Não treme com seu fardo,
E flutua em mar de agonias.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
sábado, 26 de abril de 2014
Os Grandes
Estar perto dos Grandes
É nunca estar sozinho.
É sentir na angústia deles
O eco das suas angústias,
É perceber nas questões deles
As suas mesmas questões,
É encontrar em inóspita estepe,
Ainda que longe,
Alguém.
Mas estar perto dos Grandes
É afastar-se dos pequenos.
E quem aquecerá a gélida noite?
Quem afagará carinhosamente?
Quem aceitará e dará o perdão?
Não são os Grandes,
Esses com sua impessoalidade
Esfriam o coração frio,
Atormentam o ser atormentado,
Esticam a corda já tesa.
Instaurado o dilema,
A liberdade de escolha se impõe:
Qual rumo tomar?
Andar em qual direção?
Seja pequeno, seja Grande,
Seja quem tu és!
Nós, que escolhemos o lado dos Grandes,
Como solitários lobos caminhando,
Como sorridentes ermitões abandonados,
Subimos os grandes montes e vemos mais longe,
Vemos mais tristeza e mais beleza,
Vemos mais dores e mais amores,
E respondemos à Grande pergunta -
'Quem és tu?' -
Com a única coerente possibilidade:
'Eu sou'.
Ser é algo completo em si mesmo.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
Círculo
Após um cemitério de mortas folhas,
Um tapete da cor do poente -
Contra Ela não há escolha -
Chega o frio que a alma sente.
Congeladas lágrimas que não caem,
Graves gritos que não saem,
Austral horizonte que só traz
Sussurros e agonias.
Os dias se tornam escuros,
As noites são um longo infinito,
O açoite do vento deixa aflito.
Os frios olhares proximamente distantes,
A saudade de voltar a ser como antes.
Mas as nuas árvores renascem,
As fundas olheiras se esvaecem,
As cruas lembranças fenecem,
Face à profunda comunhão.
Eis que então surge com seu vigor,
Eis que se esvazia o peito da dor,
Eis que o negrume se curva a seu calor,
E vemos no puro riso da criança
A atendida esperança, chegou o verão.
domingo, 23 de março de 2014
Experiência de Chuva
Chove,
Lá fora chove,
Cântaros.
Vejo a vida através de duas janelas úmidas,
O mundo se torna baço
Na entrega a um abraço sem mim
No gotejar pastoso sem fim
Na certeza da permanência da dúvida.
Chove,
Aqui dentro chove,
Coração convertido em pântano,
Torvelinho de folhas a voar.
O cheiro de grama no espesso ar,
Relâmpagos que iluminam meu pasmo olhar
E reafirmam a nossa pequenez,
Matam a insensatez de se pensar dono
De algo, de alguém,
Ou de si.
Assim como veio
Cessa a chuva em alguns instantes
Trazendo de volta o perdido sono,
Trazendo de volta o suave cantar
Dos pássaros, das mulheres e da alma.
Da cidade cessa o silêncio
E a vida volta
A seu lugar.
sábado, 8 de março de 2014
Perguntas
Que olhos são esses que me olham?
Que lábios são esses que me falam
Tudo o que eu não quero ouvir?
Essa barba por fazer há dias,
Esse sorriso insone,
Uma expressão de dicotomia
Marcada pelo labirinto.
Vejo a sua carne crua
A sua pele nua
A máscara há muito se foi.
Eu sinto,
Eu sei.
Ainda descobrirei quem é esse
Do outro lado do espelho.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
A Beleza
A beleza não se compra, não se troca,
A beleza não se busca, não se encontra,
A beleza se mostra
A quem tem olhos abertos.
Em beleza não há respostas:
Cessa o próprio ato de perguntar.
Não traz soluções nem caminhos,
Apenas a profunda certeza,
Inexprimível.
A beleza se experimenta sozinho,
Ao lado de alguém ou não.
Ofusca os olhos não acostumados
Com sua luz contumaz.
Em beleza não há o tempo,
Não há espaço só há o momento,
Qualquer intento em qualquer direção
Morre em face da sua Verdade.
Em beleza há uma pura saciedade,
Há a plenitude do transbordamento,
Que se afirma
E que confirma
O existir.
Mas como em um mergulho
Da beleza se volta,
Respiramos o comum ar,
Olhamos em nossa volta,
E nada mais nos resta
Além de agradecer.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
A infância da inteligência
Na infância da inteligência
A ironia desponta,
Nasce a dúvida,
Assim como a dúvida do duvidar.
A alma abre os olhos a contemplar
A vida em toda sua veemência,
E também o horizonte que aponta
O eterno caminhar.
A alegria por ser produto de muitas eras
De pensamentos e ideias,
A humildade de saber-se
Ignorante
E a certeza de que a verdade
Não se encontra, mas se busca.
Nesse despertar
As noites se mostram insones
Em todo seu vazio abissal.
O homem que outrora se era
Desmanchou-se em conceber
O projeto que se é
Nesse instante.
O paradoxo de existir
Se afirma.
O momento presente
Como a grande possibilidade,
O movediço solo da pergunta
Em sua emoção virginal.