O encontro da praça
Das múltiplas possibilidades
Dos impossíveis talvez
Da troca improbilíssima
E vai pra Jah
E vai pra longe
E vai
Hoje eu tô feliz
Hoje eu tô contente
E vai palpitação
E vai pra praça
E vai pra perto
E vai tão longe
E vai tão
Perto.
domingo, 14 de janeiro de 2018
Praça
sábado, 13 de janeiro de 2018
Iemanjá
Em meio ao fim
Do mundo,
Há uma casa quente,
Ela está aqui,
Está em todo lugar,
Em meio ao ritmo
Sem fim,
Há um teto, seco,
Ela está aqui,
Está em todo lugar,
Em meio às caixas
E alfaias
E agogôs
E agbês
E ganzares
E saias
E pernas
E passos
Há uma esperança,
Ela está aqui,
Está em todo lugar,
Em meio as barbas
E brincos
E cabelos
E tatuagens
E marcas
E baques
E tambores
Há o Maracutaia,
Ela está aqui,
Está em todo lugar.
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
Cili
(com Maria)
Ela nasceu em Miracema,
Interior do Rio
De Janeiro, norte,
De família bem grande,
Morando em uma fazenda chamada
Lagoa Preta,
Humilhada e maltratada pelos irmãos,
Namorando com o meu pai desde os onze,
Inicialmente professora mas abandonou a profissão
Para cuidar das filhas,
Para cuidar da casa,
Mas sempre se sentindo inferior
Por não ter renda,
Apesar do apoio do meu pai.
Quando eu me casei,
E tive meus primeiros dois filhos,
Ela teve muito amor a eles,
Sempre foi uma mãe muito dedicada
Até que descobriu
Com 58 anos de idade
Seu câncer
E o seu medo de morrer
A fazia esconder a doença.
Mesmo após operar,
A metástase no útero,
Em dois anos ela se foi.
Ela gostava de viver,
Ela gostava de cozinhar
Todo final de semana,
Ela gostava de ir à praia,
De cuidar das crianças,
De pintar seus quadros,
Da irmã Júlia,
De beber a cervejinha dela,
De bossa nova
E do Chico Buarque.
Segurando na minha mão,
Quase sem lucidez,
Chamando 'minha filha',
No quarto do hospital
Definhando
Ela se foi.
Ela queria viver
Mas não tinha mais forças.
Me lembro dos vários pratos
Na casa da minha avó
Rabada com agrião,
Sempre fazia os nossos aniversários,
Ela gostava.
Me lembro do sítio da tia Julinha
Em Itaboraí
As crianças todas,
A piscina,
O churrasco,
O violão do meu pai
Acompanhado por sua voz.
Era Menino Vadio
Do Chico,
Eles faziam um dueto.
Quando fiquei grávida
Pela primeira vez,
Seu carinho,
Me abraçava,
Seu carinho,
Sua força,
Tanto na gravidez quanto no nascimento.
As saudades ficam,
O amor fica,
A falta dela
Quase diariamente,
Mas dela guardo
E continuo
A preocupação com as pessoas,
O gênio um pouco forte,
Talvez um pouco de aprovação.
Seu zelo passou a mim
Que passei a meus filhos
E espero que continue.
sábado, 30 de dezembro de 2017
Antônio Pinto dos Reis
(com Leandro Quintela)
Meu avô veio de Portugal
Para o Brasil tentar a vida
Já com trinta anos
Quase sem estudo
Formal
Mas curioso
Aprendeu sozinho
A fazer de tudo um pouco:
Trabalhava com marcenaria,
Trabalhava com obra,
Trabalhava com eletricidade,
Trabalhava com hidráulica,
E acabou ficando muito bom nisso.
Conheceu aqui no Rio minha avó
Maria Virgínia,
De pais nordestinos,
Quase sem saber ler,
Sem sobrenome,
Ambos sem família
Perto,
Casaram,
Quatro filhos.
Meu tio fotógrafo
Em busca do melhor ângulo
Em cima de uma cachoeira
Na Floresta da Tijuca
Morreu.
O Virgínia acabou passando
Da vida para os filhas,
O Antônio de seu nome
Para os filhos
Os filhos tiveram filhos,
Os netos agora esperam bisnetos.
Ele que nunca reclamou de nada,
Que sempre estava sorrindo
Mesmo passando
Dificuldades,
Em um quarto e sala com quatro crianças e um neto criado pela minha tia que engravidou jovem do meu primo,
Com um pai sumido como tantos.
Mas hoje estão todos encaminhados.
O aniversário dele eu não perco por nada
Pois sei que falta pouco.
Ele é o porque da família ser
O que é hoje,
É dele que vem
Nossa união.
Com 77 anos ele fez toda a obra
Da casa da minha mãe
De 8:00 às 19:00,
Com 80 anos fazendo os armários
Projetados de lá
Desenhando tudo
Antes de montar
Sem nunca pedir nada
Em troca
E ele hoje com 92
Apesar de não acompanhar
Tanto,
Seu sotaque permanece,
Nas reuniões
De família
Ele transborda
De felicidade,
Presente,
Em seu sorriso uma inspiração
Silenciosa
No agir e no viver
Para todos.
domingo, 24 de dezembro de 2017
Rasgam-se os ventos
Os carros rasgam o vento
Que toca o rosto
Em um passeio na Av Atlântica,
Esse vento de seda quente,
Esse vento de mil línguas
E noites sem fim.
A bicicleta rasga o vento
E a boca de sal e de sol
E o azul turquesa do mar
E ao fundo os Dois Irmãos
Verdes,
Estamos no 11, o 12 no horizonte,
Na avenida quase vazia
Do domingo à tarde.
A bicicleta rasga o vento
E os corpos e as saias e os óculos,
A bicicleta rasga o vento
E os toques e os beijos e os tantos
Caminhos em meio ao mar.
É certo, é certo
É chegada a hora,
Da dissolução.
sábado, 23 de dezembro de 2017
Mais uma noite
Mais uma noite em Santa
Mais uma noite que canta
E dança,
Mais uma noite que dia,
Mais uma noite não fria
Mas quente,
Não um espaço mais pouco,
Não um espaço que rouco
E surdo,
Não um espaço pequeno,
Não um espaço ameno
Mas tensionado
Mas em busca
Mas sem sombra,
Mais uma noite em Santa,
Mais uma noite que canta.
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
Giram
E giram as saias
E giram os cabelos
E giram os vestidos
E giram
E giram.
E giram as flores
E giram os sorrisos
E giram os abraços
E giram
E giram
E giram.
E giram os sonhos
E giram os perfumes
E gira o amanhã
E gira
E gira
E gira
E gira.
Luta
Por um mundo mais justo,
Por um mundo mais sincero,
Por um mundo
Mais mundo
Acordo cada manhã.
Por um dia
Em que estudar não seja barreira,
Em que trabalhar não seja sonho,
Em que a dignidade
Seja o mínimo
Entrego meus dias e noites.
Pela certeza
De devolver um pouquinho do privilégio que tive,
De garantir um pequeno sorriso em quem o mundo não faz sorrir,
De buscar aquela pequena diferença que talvez ainda seja insuficiente,
Mas seja alguma diferença,
Quero dedicar
Meu ontem
E meu amanhã.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
O quase
Um quasepoema
Como um
Poema
Que não aconteceu.
Que ficou à beira de
Mas não,
Que tocou a margem
Mas não mergulhou.
Um quasepoema
Como um quaseacontecimento,
Um quasepossível
Mas não.
Um quaselampejo
Quaselá
Quaseprovável
Um porpouco.
Logo vê-se:
Sem sangue não há vísceras,
Sem dor não há glória,
Sem sono ou travesseiro
A acalmar a história
Recém inventada.
Sem horizonte não há amanhã,
Sem noite não há dia,
Sem quimera não há sonho,
Sem luz não há possível
Manhã.
Sem carne não há pele,
Sem sopro não há vida,
Sem céu não há nada
A se esperar.
Mas sem qualquer aguardo há o hoje
Frio, amargo e quente
A borbulhar doce e transparente
No túnel sem qualquer
Fim.
Roy, o poeta
Roy, o poeta,
Esse epíteto vazio,
Esse aposto
Com vírgula,
Esse talvez
Distante,
Esse tão outro,
O poeta,
Mas o que é ser
Poeta,
Essa dúvida,
Esse talvez,
Ser poeta
Quem sabe é sofrer
Enquanto todos riem,
Ser poeta quem sabe é sorrir
Enquanto acaba
O mundo,
Mas não há
Mundo
Então pode se acabar,
Ser poeta quem sabe
É ver sempre
O fundo do copo,
A guimba
E o sangue
Pisado,
Ser poeta
Quem sabe
É fazer perguntas
Quando todos tem
Respostas,
Ser poeta
Quem sabe
Talvez seja
Amar o mundo
Que te faz
Ser outro,
Que te faz
Ser pária,
Que te faz
Ser algo
Distante,
Ser poeta quem sabe
Talvez seja
Isso:
Um constante talvez
Em meio a um mundo
Dúbio,
Uma constante certeza,
Uma sempre esperança
Em meio a um mundo
Frio,
Ser poeta é isso:
Ser quente
Enquanto é oceano
O mundo.
domingo, 19 de novembro de 2017
Garimpo
(Com Reinaldo Gomes Santos)
Comecei com
Dezesseis anos,
Em 1982.
Não tinha como continuar os estudos
Aqui em Igatu.
Meu pai me levava
Pequenininho
Para ficar lá no garimpo com ele
A brincar,
Junto do meu avô, minha avó, minha sogra,
Além de quatro
Dos meus seis irmãos.
Às vezes um ano inteiro sem nada
Até encontrar um grão de feijão
Que mal pagava os gastos todos.
A emoção
De poder pagar as dívidas,
De poder comprar alguma coisa
Que precisava lá em casa.
Meu primeiro sonho
Era comprar uma bicicleta:
Consegui uma 79,
Com apenas três anos de uso.
Depois trocava de bicicleta todo ano.
Em 84 comprei um carrinho usado,
Um Corcel 77,
Com dois diamantes
Lá do rio Baiano
Lá perto de Andaraí,
Um com dez
Outro onze quilates.
O patrão não vendeu eles brutos
Mas lapidou
E ganhou uma grana.
O carro acabou vendido por outro patrão
Em Goiás
A uma borracharia.
Os patrões sempre passavam a gente para trás.
Ja garimpei em Goiás,
Na Bahia e no Piauí.
Quando vieram as dragas
De Mato Grosso, Minas Gerais,
Trabalhávamos em grupos de sete,
Seis no garimpo e um na cozinha.
Cada um ficava com 5%
E o patrão com 65%.
Mas o patrão comprava por três mil
Um diamante que valia dez
E a gente tinha que aceitar.
O rio Paraguaçu é muito rico.
Quando era época
Para ajudar na renda
A gente colhia sempre-viva,
Uma flor
Que o pessoal vinha e comprava.
A sensação de estar no garimpo
É muito boa,
Às vezes dormia na serra cinco, seis noites,
Ia dormir tarde contando histórias,
Comendo feijão com mocotó,
De manhã café e farofa
E cada um para o seu garimpo.
Às vezes dá saudades
Daqueles momentos bons
Que a gente passou com os colegas.
Garimpei até 2000
E vim para o turismo.
Minha casa mesmo
Eu construí depois de garimpar.
Meus irmãos parou primeiro que eu,
Dois foi para São Paulo
Um para Aracaju,
E mais três em Igatu.
Meu pai hoje aposentado.
Amigo que se deu bem
Eu nunca vi não,
Nem os próprios compradores:
Não sei o que acontece com o diamante.
As nossas riquezas
Os gringo levou tudo para fora.
Tem garimpeiro
Que não volta nem pra visitar
De tanta raiva.
É uma febre,
É um jogo,
É uma aposta,
Conseguir o próximo diamante.
Se alguém me pedir um conselho
Para garimpar
Ia dizer para não fazer,
Não é boa ideia não:
Não ia conseguir nada
E ia destruir a natureza.
Já perdi um amigo
O gaúcho Ademir Fontana
Quando garimpava com um motor
Na gruta da Serra Alta.
Sua mulher tinha largado ele
Porque ele não voltava do garimpo.
Hoje tem um gringo
Da Dinamarca
Que já vendeu tudo
Para continuar garimpando
Com a peneira manual.
Meu primeiro patrão,
Baiano que tinha Mercedes
E trocava de carro todo ano,
Perdeu tudo e
Acabou vendendo coisas
Na rodoviária.
Outro,
Um patrão que chegou a ter oito dragas,
Vendeu tudo para continuar garimpando
E hoje vive de aposentadoria.
Os filhos estão por aí.
O que está melhorzinho
Abriu uma pequena
Borracharia.
No garimpo
É assim:
Não tem final feliz.
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
Paris
O vento frio
Penetra as várias camadas
De roupa e de pele,
O céu nublado
Vindo diretamente de um quadro de Monet,
De Sisley, Van Gogh ou Manet,
O outono chegou
À Paris.
Os museus, tantos,
D'Orsay, Louvre, Orangerie,
Il n'est pas possible de toute les connaitre
Dans un seule vie,
Il n'est pas possible de les pas connaitre.
Os cafés prometem
Um descanso para o olhar
E um pouquinho de calor.
Il n'est pas possible
De n'etre pas hereux
Nous sommes à Paris.
Les velos roullent rapide
Il n'y a pas aucun du temp
À perdre.
Os ratos são tantos
A transmitir a Peste
Aos pés de Notre Dame.
Os turistas são tantos
Com suas câmeras e selfies,
Os olhos fechados pelo flash.
A tensão, o exército,
Uma ameaça de bomba
Filha da desigualdade.
As línguas, a sombra
Dos excluídos da felicidade,
Do banquete e do pão.
Mais il n'est pas possible
De n'etre pas hereux
Nous sommes à Paris.
Un héroe dans le metro
Chante son vers,
La famine feraux
Est oublie pour la fête.
As bandeiras da França,
A arquitetura monumental
Feita de distância e luz,
Os prédios com blocos de gelo
Amarelo, as bailarinas de Degas,
O Quartier Latin
Erguido por vidas e páginas,
O Senna e as pontes
Cheias de pedidos aprisionados
Talvez para sempre.
Os garçons secos
Oferecem sonhos para a boca
Du cannard, du patisserie, du frommage, du foie
Gras, a tantos e tantos
Olhares febris.
Dans le Jardín des Tulleries
Les oiseuaus chantent
Son cri étranger et patethyque
Mais sont les plus sympathiques
Quand il a du pain.
Les courbeaux chantent
Et nous rapellent tout le temp
Qui la mort est froide
Et proche.
Mais il n'est pas possible
De n'etre pas hereux
Nous sommes à Paris.
No horizonte a torre
Com seus halos
Brancos em meio à escuridão.
À noite passamos a porta
Do inferno e todos
Os gatos são pardos
À procura de alguma diversão,
De vinho e tabaco,
Absinto e corpos.
Il y a Le Chat Noir, Le Moulin Rouge,
Et une infinité d'opcions
Qu'il ne será pas vrai
Si on dit qu'il n'avait pas sourri
Un petit peu
À Paris.
Trinquons à la vieille dame
Avant de faire du marketing
J'étais infirmière
Et un jour
Dans un service de pneumologie
Quelque chose est arrivée.
Je m'occupais d'une vieille dame,
Elle était très malade
Avec beaucoup d'eau dans ses poumons
Mais étrangement tout le temps
Souriante.
Je l'ai vu toute les matins
Pendant trois semaines
Mais petit a petit
La maladie
A gagné du terrain.
Elle était bien entourée
Avec ses enfants.
Mais bizarrement, personne n'était triste dans sa famille.
Une jour
Je parlais avec elle,
"C'est étrange que vous soyez souriante
Devant la mort"
Elle m'a dit
"Je n'ai pas peur de la mort,
J'ai eu tout ce dont je rêvais
Dans ma vie"
"J'ai eu une mari
Qui m'aimait,
J'ai eu des enfants"
Dans son regard
On pouvait voir
La sérénité
C'est comme ça,
C'est bien comme ça.
Pas de fatalité.
Ses yeux m'on dit
"Je ne changerais
Rien".
Une matin
Elle est décédée
On m'apelle.
Autour de son lit
On se donnait la main
On priait pour elle.
On s'est embrassé
Et on m'a dit
Que ce n'était pas un moment triste
Et que toute les années
Ils iraient boire une verre
Pour célébrer ce moment.
J'espère qu'un jour
Je serai comme elle
A la fin de la vie,
Heureuse avec des choses simples,
Consciente des choses importantes,
Reconnaissante des moments partagés.
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
Gare de Lyon
(com Alexandre Cavalcante)
Aqui trem é algo mais fundo,
É despedida, reencontro.
Às vezes vendo o amor
Parado na estação
Talvez para sempre
E o trem te levando
Involuntariamente.
A força de um trem,
Uma máquina
Desse tamanho
A mais de 300 km/h,
É fantástico.
Repare na luz,
Repare nas gárgolas,
Repare na suntuosidade
Do teto do Le Train Bleu.
Aqui penso num tempo em que
Eu não vivi
E de repente estamos em uma foto
De Doisneau
Sem qualquer dificuldade,
Os beijos, as cartolas.
O trem do futuro
Vence as distâncias há tanto tempo
Que já é passado.
A cicatriz do vento no rosto do trem,
Maltratado pela intempérie
Com suas tantas moscas mortas
Esmagadas em instantes invisíveis.
Uma senhora
Apanhada
A roubar e a gritar
Nos transporta para o presente.
O relógio antigo
Ao lado do painel eletrônico,
A poeira de veludo,
As colunas, o teto,
A luz do sol,
Como uma mulher
Tão bela em suas rugas
Essa estação nos aguarda
Para um último adeus.
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
Três pontos
(com Sara Martinho)
Eu ia para uma colônia
De férias quando era mais nova
E houve um ano em que eu fui
Era 1998, quando conheci um rapaz lá.
Tinha aquelas coisas de adolescente,
Tive uma grande panca por ele,
Mas eu nunca lhe disse.
Éramos só amigos.
Nós continuamos a encontrarnos
Algumas vezes
Apesar dele morar no Barreiro
E em 29 de novembro
Desse ano de 1998
Fomos a um concerto do Marylin
Manson,
Foi a última vez que eu me lembro
De tê-lo visto.
Eu sou muito chegada a datas,
Muito fixa,
Então todos os anos me lembrava dele
Pelo menos em seu aniversário.
Então no ano passado,
Em 2016,
Fui a Paris.
Estava a ler um livro
E dizia a pedir alguma coisa que parecia impossível.
Foram dezoito anos a procura,
A falar com toda gente,
Mas nada.
Foi isso que eu pedi.
Então em 29 de novembro de 2016
Encontrei-o nas redes sociais,
Mas no dia 4 de dezembro fui para o Brasil
E ele a morar na Inglaterra.
Todos os dias nos falávamos,
A tirar o atraso dos dezoito anos
Até que chegamos
Nas pancas da adolescência.
Ele me disse que no concerto
Esteve a um passo de me dar um
Beijo mas teve medo.
O medo é sempre um estraga prazeres.
Depois eu fui lá visitá-lo
A Leeds quando voltei do Brasil
E voltamos a nos conhecer
Não mais como adolescentes mas
Como adultos
Só que isso
Acabou a estragar o que construímos
Como amigos.
O que é certo é que todas as semanas
Ele me manda uma mensagem a perguntar
Como estou.
Ontem eu percebi
Que devo aceitar,
Me acostumar
O que espero dele,
Ele sentimentalmente indisponível
Antes e agora disponível
Mas não sou
A pessoa que ele procura,
Segundo me disse.
Eu tinha muito isso com ele
De acabar as frases,
De pensar nele quando
Me ligava.
'Estou a tentar desapegar,
Não funciono bem com amizades
Coloridas, estou a procurar a mulher
Da minha vida',
Me disse ele.
Eu lhe respondi:
'Tu pediste-me que te deixasse ir,
E eu deixe-te ir,
Neste momento, sinto que és tu
Que não me deixa ir'.
É isso a minha história:
Houve um princípio, um meio
E um fim com três pontos.
domingo, 5 de novembro de 2017
Guimarães x Benfica
(no clube de Tancos)
Não sei se dava.
Vai vai vai vai caralho,
Golooo!
A um metro e meio.
Não sei, ele apitou antes.
Eu que o ensinei.
Fostes tu?
Foi falta aonde caralho?
Ou sai ou não sai,
Não pode ficar a meio do caminho.
Tu não tens melhor para ficar na baliza,
Tu não tens melhor.
Só os bons guarda redes
É que tomam frango caralho.
Ui, ui.
Olha olha olha olha.
Vamos perder a bola,
A perder a bola.
Tu não vistes o jogo ontem?
Então caralho.
Ui, foda-se.
Então, não está a ouvir as pessoas?
Tira uma Sagres.
Marco, uma Sagres.
Deixa andar o jogo,
Deixa andar o jogo.
Olha ali
Não é pênalti,
Não é pênalti.
Não é?
Foda-se.
É pênalti?
Era.
Tá com cara de mau,
Tá com cara de mau.
Vai vai vai vai vai,
Ah caraças.
Eia, foda-se.
Os gajos vão ganhar
O segundo amarelo.
Não há nada,
Nada nada nada.
Tá aí João,
Me dá essas duas.
Vai cara,
Vai embora.
Isso isso isso.
Golooo!
I love you.
Estás a ver?
O gajo mandou uma bola no jogador do Guimarães.
Estás a ver?
Vai vai vai vai vai vai,
Chuta, chuta.
Goloooo!
Foi o miúdo foi?
Três vezes que o Benfica vai à baliza do Guimarães,
Três gols.
Olha olha olha olha olha olha,
Ah.
O cinco? O cinco?
Tu não és belga?
Vês o jogo,
Vês o jogo.
Mal mal, mal mal mal.
Estás a ver, estás a ver?
Ai ai, ai ai ai.
Tipo assim, tipo assim,
Vai vai vai vai,
Ah, já está.
Benfica está a ganhar,
Então tá.
Andiamo, andiamo,
Tonga
Aiiii.
O melhor jogo que o Benfica vai fazer
Vai ser ganhar ao dragão.
O próximo jogo recebemos o Setúbal
E depois ao dragão.
Mas não é agora,
É depois do feriado.
Eia,
Pênalti.
Como é que este gajo faz um pênalti?
Sem necessidade nenhuma.
Tem nada, o árbitro é um ladrão.
Lado esquerdo ao guarda redes.
Ih, para fora.
Fim de jogo,
3 Benfica, 1 Guimarães.
Vamos a jogar?
Paisagem outonal
À sombra das oliveiras
Balançando com o vento de outono
Passa quase seco
O rio a separar Portugal.
O sol quase aquece as mãos frias,
As árvores quase sombra fazem
Nos bancos vazios,
O canto quase idílico se ouve
Dos pássaros invisíveis.
O castelo do Almourão compõe a paisagem,
Ocre, vertical, retilíneo,
Imponente sobre a curva do Tejo
E seus tantos bancos de areia.
As moscas a zumbir compõe a paisagem,
Impertinentes, afoitas,
Nascidas aflitas no esgoto do Tejo
Despejado calmamente in natura.
Lá longe um trem passa
A marcar as quase estáticas horas,
Lá longe um carro passa
É a Paula a voltar para o almoço,
Lá longe um cão late, dois, três,
Do outro lado do rio.
Do outro lado do rio casas brancas de telhado marrom-vermelho,
Uma igreja a badalar seus sinos,
Um ancoradouro quase vazio
A não ser por um barco herói
Ou esquecido.
No Tejo já se ouviu risos de crianças,
Não há mais,
No Tejo já se fizeram navegações,
O calado é demais,
No Tejo já se aprendeu a nadar,
Não se pode mais,
O Tejo é grande parte lembrança,
História, paisagem
E saudades.
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Sonho
(com Cristiano Fonseca)
Eu estava a jogar
A marcar gols.
Eles me passavam a bola
E eu passava a eles.
Eu é que marcava
Os golos todos.
Ganhamos
Com cento e um golos
A zero.
Se tu tivesses o meu sonho,
Ias sorrir,
Ias ficar contente,
Feliz.
A minha história já acabou
Sabias?
É só isto a minha história.
Era uma história fixe.
Ok, agora podemos ir jogar?
Sueca
(com uma mesa de jogadores)
Vou a mostrar
O que está a acontecer.
Um jogo de cartas
À luz fria de um bar de Tancos
Em Portugal.
O olhar atento
Do seco corte preciso
E agora o que é que jogo?
Oh, es tu?
A puxada é de espadas
Cigarros
Acesos,
Cervejas
E vinhos.
Cartas na mesa.
Ói.
Eeee.
Vieram com todos os pontos.
Ao fundo um pembolim,
O som de um jogo qualquer.
Eu tenho seis trunfos
Eu tenho quatro.
Fiquei quase a jogar aquela.
Vocês são umas bruxas,
O Halloween já passou.
Essa é nossa
Eu joguei a dama.
Você já tinha o jogo livre
Foi isso que fiquei a pensar.
Ainda pensei que estivestes em bisca.
Um grito,
Gol no pembolim.
Tome o teu ponto.
Ganharam
Dez a cinco.
Ser bombeiro
(com João Mesquita)
Ser bombeiro
É bom,
Mas às vezes é um bocado
Desvalorizado,
Somos um bocado
Criticados
E às vezes até um obrigado nos ajuda:
É como se ficássemos ricos.
Nunca sabemos para que sitios vamos.
Quando eu estou no fogo
Apenas um
'Obrigado por aquilo que fizeste'
'Obrigado por nos ajudares'
Nos basta.
Aprendemos a salvarmos uma vida
Apesar de nem sempre conseguirmos
Pela nossa infelicidade.
É uma experiência frustrante
E ainda somos criticados
Apesar de tentarmos de tudo.
Quantas pessoas já salvaste na vida?
Salvar é o dever de nós próprios
E quando o fazemos
Nos sentimos bem.
Infelizmente eu tive o meu melhor amigo
Que andava a aprender a ser bombeiro
Que sempre me diste 'vai ser bombeiro'
E eu dizia 'não',
Mas sua morte súbita
Aos dezesseis,
Me movimenta.
Vou ser bombeiro
Pois eu sinto amor
Me sinto um herói
Necessário
Porque muita gente diz
'Eu faço e aconteço'
Mas não se movimentam.
Nós sentimos
Na pele
O que é o calor,
O que é o frio,
O que é a vida
Apesar de muitas vezes
Não conseguirmos salvar
Aquela que temos nos braços.
Continuo pois
Devo isso às gentes
Como dever meu
De ajudar as pessoas
Seja em que momento for.