quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Cili

(com Maria)

Ela nasceu em Miracema,
Interior do Rio
De Janeiro, norte,
De família bem grande,
Morando em uma fazenda chamada
Lagoa Preta,
Humilhada e maltratada pelos irmãos,
Namorando com o meu pai desde os onze,
Inicialmente professora mas abandonou a profissão
Para cuidar das filhas,
Para cuidar da casa,
Mas sempre se sentindo inferior
Por não ter renda,
Apesar do apoio do meu pai.

Quando eu me casei,
E tive meus primeiros dois filhos,
Ela teve muito amor a eles,
Sempre foi uma mãe muito dedicada
Até que descobriu
Com 58 anos de idade
Seu câncer
E o seu medo de morrer
A fazia esconder a doença.

Mesmo após operar,
A metástase no útero,
Em dois anos ela se foi.

Ela gostava de viver,
Ela gostava de cozinhar
Todo final de semana,
Ela gostava de ir à praia,
De cuidar das crianças,
De pintar seus quadros,
Da irmã Júlia,
De beber a cervejinha dela,
De bossa nova
E do Chico Buarque.

Segurando na minha mão,
Quase sem lucidez,
Chamando 'minha filha',
No quarto do hospital
Definhando
Ela se foi.

Ela queria viver
Mas não tinha mais forças.

Me lembro dos vários pratos
Na casa da minha avó
Rabada com agrião,
Sempre fazia os nossos aniversários,
Ela gostava.

Me lembro do sítio da tia Julinha
Em Itaboraí
As crianças todas,
A piscina,
O churrasco,
O violão do meu pai
Acompanhado por sua voz.
Era Menino Vadio
Do Chico,
Eles faziam um dueto.

Quando fiquei grávida
Pela primeira vez,
Seu carinho,
Me abraçava,
Seu carinho,
Sua força,
Tanto na gravidez quanto no nascimento.

As saudades ficam,
O amor fica,
A falta dela
Quase diariamente,
Mas dela guardo
E continuo
A preocupação com as pessoas,
O gênio um pouco forte,
Talvez um pouco de aprovação.

Seu zelo passou a mim
Que passei a meus filhos
E espero que continue.