sábado, 25 de agosto de 2018
Melbourne
eu tinha quatroze anos
e você tinha quinze
a gente virou amigo e depois começamos a namorar
isso durou cinco anos
depois cinco anos separados
nos encontramos na rua
voltamos
mais cinco anos
eu tive que ir embora
do Brasil
você não foi
o nosso primeiro fim
não estava dando
certo, um término mais
normal
traição, desconfiança
eu estava em um carro
ajudando um amigo na mudança
conversando
ao lado do Copacabana Palace
mas alguma coisa real me fez olhar para a direita
e eu vi uma pessoa andando sozinha
às duas horas da manhã andando sozinha
cantando
gesticulando com os braços
e nesse momento passou um ônibus
e eu gritei o seu nome
e você olhou para o céu
e eu gritei o seu nome de novo
e você entrou no meu carro
na nossa primeira conversa depois de cinco anos separados
e voltamos
o nosso segundo fim,
eu em Melbourne e você aqui
um fim distante, frio
estranho
hoje você achou um novo amor
mas ainda penso em você todos os dias
e virei um fantasma
um fantasma do amor
meu coração acelera quando falo disso
sinto uma certa angústia no peito
depois de dezesseis anos
você ainda foi meu único amor
eu não tive um encerramento
você teve
e seguiu com a sua vida
das suas risadas, da sua alegria
do seu sorriso eu me lembro
a maior parte da minha vida eu passei vivendo esse namoro com você
uma história que não foi para frente
pelo menos eu sei o que é amor
enquanto muita gente não sabe
pelo menos eu sei o que é a perda
ainda que em vida
pelo menos eu sei o que é o conforto
com alguém, o que é ter frio
na barriga ao ver alguém
eu queria poder operar o meu cérebro e tirar a sua memória
eu penso todos os dias com uma espécie de culpa
alguma coisa mal resolvida
a forma do fim
à distância
a gente não conseguia se separar
mas só lá em Melbourne
com um oceano de distância
foi possível
eu sonho com um dia sem pensar em você
e então eu vou estar realmente livre
pensar em outras coisas, em projetos, em ideias
e você não estar entre eles
e isso já tem três anos
os mais difíceis da minha vida
que me fizeram tentar entender melhor quem eu sou
me fizeram me aproximar mais do amor eterno
de pessoas, de amigos
mesmo se você quisesse voltar
eu também estou em outra
penso em focar em mim
e tentar realizar meus sonhos sem você
mas ainda com um pé atrás
em relação a qualquer namoro
e sem uma mínima
leveza, sem um sentido a mais ao lado de alguém
não vou me envolver
de novo
eu desejo que a sua alegria continue
e que essa nova pessoa em sua vida te dê
segurança
e amor
Peque
o nome dela é Peque
ela tem 5 anos
nós trouxemos ela desde Venezuela
a princípio eu não tinha muita vontade de ter um cachorro
- tudo bem, eles são fofos, tem uma nobleza -
eu não ficava muito bom com a ideia de ter um cachorro
mas a minha esposa sí
onde minha esposa trabalhava lá na Venezuela
chegaram duas cachorras grávidas
e elas tiveram doze cachorros
e nós cuidamos delas
uma se despreocupou dos filhotes
mas a outra ficou
levamos no veterinário
recebemos ajuda de uma ONG que trabalha pela defesa dos animais
demos vacinas, remédios
quase todos os cachorros foram dados para a adoção
mas a Peque sempre ficava escondida
era mais tímida
e a Isis gostava dela
levamos a Peque para a praia
e com o tempo fiquei apaixonado pela Peque
ela ficou muito agradecida
comecei a amá-la como uma filha
a única coisa que ela falta por fazer é falar
agora comecei a falar com ela em português
e ela entende
um cachorro sempre pensa em dar amor
ele não conhece infidelidade
ele não conhece preconceito
ele ama uma pessoa sem se importar com sua posição
política, econômica, social
e já está demonstrado que eles tem tanto amor ao seu
pai humano que a si mesmos
então eu fico comovido
porque se todas as pessoas fossem iguais aos cachorros
o mundo seria muito mais amável
não existiria a guerra
não existiria a indiferença
com um cachorro um aprende todos os dias
como devemos ser mais agradecidos
como valem pouco as coisas materiais
que devemos ser mais humildes
que quando uno pasa para o outro lado
tudo fica aqui
e eu sempre recomendo
que se alguém quer ficar mais feliz, não ter depressão
tem que ter um cachorro
La salsa
a salsa é um ritmo de música
que não é de Venezuela realmente
ela é muito rica, um ritmo muito amplio
tem um movimento que se chama salsa de nueva iorque
que tem um sonido aspero, bem marcado
um pan-pan que é muito marcado
tem também um salsa mais romântica
que na Venezuela se chama salsa erótica
las letras da salsa brava (ou salsa vieja)
tem vida religiosa
tem política, como protesta
e também da vida diária
(por exemplo, tem uma que fala do limoneiro)
mas a salsa erótica
tem um ritmo mais tranquilo
e toda a letra é com respeito a sexualidade
a relação entre pessoas
fala de hotel
quando te conocí te llevé al hotel
mas de certo modo romántico
se diz que é dançada en una baldosa
porque se dança muito perto um do outro
a salsa tem também um ritmo que é muito dominicano
muito alegre
que pode falar das alegrias da vida
um ritmo mais movido, que você pode dançar mais rapidinho
a salsa é um ritmo musical muito grande
muito rico, muito maravilhoso
porque você pode se expressar de diferentes maneiras
se você gosta de dançar solto, pode dançar salsa
se gosta de dançar pertinho, pode dançar salsa
na Venezuela se dança muita salsa
merengue, paso doble en la hora loca
(a las doce de la noche)
Melodicos
Billos Caracas Boys
una música más 70
quinze años
en una boda siempre hay
música de orquestra
el sonido urbano, reggaeton, también hay
pero la salsa...
en Caracas hay una salsa baúl
(como baúl de recuerdos)
que no es tan vieja como la salsa de los 70
y también no es como la salsa erotica
hay la salsa de Puerto Rico, que es diferente
hay la salsa de Nueva Iorque, que es diferente
no me gusta la salsa baúl, ni la erótica
quando salímos y era solamente eso
no bailé, no dançamos nada
porque no hay diversión
la salsa de los 70 tiene un modo diferente de bailar
con la salsa 70
yo siento alegría
me siento desinibida
você pode se expressar
você pode dançar livre
você está girando
e sinto que posso ser eu
e não paro
sábado, 11 de agosto de 2018
Caffe-Bar Barila
quase não há movimento
os carros passam na rua de tijolos
e deixam um barulho distante
pouca gente no bar
uma senhora sozinha
com muletas apoiadas
buscando que o tempo não passe
para não ter de voltar à sua solidão
uma mulher de voz irritante conversa animadamente
com sua avó
que ouve e sorri
três jovens conversam quem sabe sobre o quê
e duas senhoras relembram histórias
para revivê-las novamente
essas são as quatro mesas
no balcão três homens, uma mulher e uma televisão
um deles deve ser o dono
atende os clientes
recebe o pagamento
os jovens se vão
a senhora das muletas
se levanta com dificuldades e parte para um novo abismo
em seu lugar um homem toma café e olha a praça da rua Pirotska
apenas algumas folhas poucas
algumas latas de lixo
e passantes de fim de tarde
todos fumam
a Clarisse vê um filme no celular
eu escrevo
sem muita certeza porquê
o Búlgaro é incompreensível
passa o tram 22
vermelho e branco, de número 4148
na outra direção vem o 22 de número 4160
um avião levando sonhos
o senhor me intriga
na falta de nome
vou chamá-lo de Bóris
sua cabeça já branca
segue os passantes
e balança como aquelas tartarugas de lembrança
sempre dizendo sim sem muita razão
seu café é tomado de gole em gole
não vejo seus olhos
me pergunto se eles perguntam ou afirmam
suas mãos estão cruzadas
parece que já superou sua cota de preocupações
e agora espera paciente
o fim dos dias
um rock toca ao fundo
mais dois amigos sentam no balcão
temos o Bóris, a neta e a avó,
com o rosto da bondade
em seu sorriso calmo e olhar morno
as duas senhoras
que guardam um sorriso de vida
e várias conversas completamente incompreensíveis no balcão
agora a Clarisse está estudando
ela está preocupada com o mestrado
o Bóris olha os aviões passando
talvez os pense caindo
talvez se pense fugindo
ou talvez já saiba
que não se foge da morte
por aqui todo mundo fuma
o alfabeto é cirílico
e seu inventor um santo
e os cachorros passeiam nos parques, ônibus e metrôs
por aqui as fronteiras são novas mas as dores são velhas
por aqui o sol banha os prédios otomanos, imperiais, comunistas e capitalistas
indistintamente
por aqui também se ouve Pearl Jam
enquanto a vida passa não querendo passar
o Bóris se levantou
levando sua xícara
(foi o único daqui que o fez
não sei se por intimidade ou cortesia)
seus olhos são cinza-escuros
cruzaram os meus e se foram
seu rosto é marcado
seus anos já pesam
agora temos duas mesas
e o balcão
passa o tram 20, 4145
na outra direção o 22, 4169
para um ônibus de turismo
buscando o Sveta Sofia
está a duas quadras
mas a praça das poucas plantas e latas
de lixo não o deixa passar
hoje eu fiz a barba
no primeiro salão que me recebeu
a navalha no meu pescoço cortava afiada
guiada por um iraniano
simpático
perguntei da sua família
it's there
e como está lá
difícil, light, one or two hours a day
penso no Bóris
já com um pouco de saudades
queria ouvir suas histórias
talvez escrever um poema com elas
ou talvez só sorrir e chorar
queria ouvir a sua voz
ele que nessa meia hora não abriu a boca
talvez só para suspirar pela sombra das folhas na praça
outro dia o Eucanaã disse
que prefere o seu Yuri
também gosto do meu Bóris
ainda que mudo e distante
ele deve estar em casa já
não mora longe
talvez na Stefan Stombolov
deve estar sentado de meias
olhando o mundo de sua varanda
sua mulher faleceu dez anos
atrás, de câncer
seus filhos foram para a Alemanha
ganhar a vida
ligam no natal e aniversário
o Bóris sente saudades
dá época em que o mundo fazia sentido
ou talvez da época em que as coisas não fossem
tão complicadas
ele dorme pouco
mas não gosta de comprar pão pela manhã
o Bóris foi se deitar
já sonha com sua mãe o abraçando
e abre um sorriso de canto de boca
Alive continua tocando
chegam outras pessoas
minha cerveja acabou
já volto
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
revolução
enquanto a bastilha não cair
continuaremos nossa parca dieta
água e brioches
apenas alguns
lançados das varandas dos arranha céus
tão mais distantes do povo
quanto conseguirem
enquanto a bastilha não cair
continuaremos a ser mortos como moscas
pela mais valia, coerção, medo
ou apenas pura vileza
daqueles esquecidos
do sal da terra que os formou
enquanto a bastilha não cair
lutaremos por um espaço de fala
que já deveria ser nosso
lutaremos por um corpo
que nunca deveria ser dócil
fugiremos de balas de borracha rumo a nossos olhos
cassetetes em nossas costas enquanto caídos
bombas de efeito moral em nossos rostos
chutes na barriga no rosto nas bolas nos peitos
torturas oficiais
tentando nos aquebrantar
enquanto a bastilha não cair
seremos escravos sonhando ser livres
jardim sonhando ser selva
felinos sonhando panteras
cães em seus sonhos de lobo
uivando de desespero
enquanto a bastilha não cair
nosso sangue será brinde de poucos
nossa voz a de loucos
e os seus ouvidos moucos
e a sua soberba de doutos
seremos água e óleo
com nossa dureza de chumbo
ah, mas quando ela cair -
pode não ser amanhã nem depois
nem depois de depois de amanhã
mas ela há de cair -
ficaremos face a face com as nossas dúvidas
decidiremos o que quando como porquê
aboliremos fronteiras moedas países
exércitos armas prisões
seremos flecha e arco
buscando o horizonte
quando ela cair
não poderemos permitir a guilhotina
o mínimo vácuo de poder
(não existe vácuo em contato com o ar)
as explicações e explicadores totalizantes
os donos de qualquer coisa que não seja o seu próprio destino
e então festejaremos os dias e as noites
e dançaremos com ou sem luz
e nos consumiremos inteiramente
e criaremos filhos que só conhecerão o que é liberdade
pois nunca terão vivido
em regime de opressão
e eles sonharão suas novas utopias
terão suas novas palavras de ordem
descobrirão novas injustiças
farão sua nova revolução
rumo a um caminho inconcebível para nós
até o fim dos dias, do Tempo
ou do planeta
terça-feira, 7 de agosto de 2018
consolo
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
seja império ou colônia
democracia
de verdade ou mentirinha
totalitarismos
pequenos ou grandes
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
podemos dormir alimentados
com sede
ou com fome de dias
podemos dormir sob um teto
sob as estrelas ou uma ponte
podemos ter nossos corpos
à nossa disposição
ou continuarmos dóceis
sob algum Estado ou instituição
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
podemos ainda usar dinheiro
desigualmente
ou então solidariedade
podemos conviver com muitas espécies
ou as termos dizimado
podemos ser uma grande união
falando esperanto ou a novalíngua
ou então quinhentos países irrequietos
podemos fazer a guerra atômica
ou a seguinte
de paus e de pedras
pode existir a camada de ozônio
ou apenas algumas manchas
esparsas
podemos ainda pisar sobre a Terra
ou sermos areia
pode ainda haver sonhos
ou só tempestade
todo dia o sol nasce
todo dia o sol se põe
segunda-feira, 30 de julho de 2018
memória
relevar e esquecer
o que aconteceu nos Bálcãs
os campos de concentração
os 1395 dias de cerco aos civis
de Sarajevo
o genocídio de Srebrenica
os massacres sob os olhos das nações
'unidas' (sic)
os militares holandeses em missão de
'paz'
impedindo a entrada de milhares de refugiados em seu quartel
o bebê morto
na frente da família
no forno
pois chorava
e seu cheiro de carne queimada e aparência de leitão
as cidades patrimônio mundial (sic)
destruídas
as pessoas
sendo protegidas por quem?
relevar e esquecer
os milhões de sírios deslocados
a frieza europeia
as crianças afogadas
tentando viver pelo menos
mais um dia
relevar e esquecer
a primavera árabe tornada inverno
a volta dos regimes ditatoriais
a impossibilidade de qualquer expressão
que não concordância
relevar e esquecer
os bielorrussos apagando o incêndio atômico
com pás e fuzis
a chuva amarela
os isótopos cancerosos e famintos
os pedaços de carne amolecida
relevar e esquecer
o medo cotidiano do estupro
a felicidade de apenas um dia
sem cantada, abuso ou pior
a quase impossibilidade de apropriar-se do próprio corpo
impedida por nós, homens
em busca de poder para poder esquecer
o medo da morte
relevar e esquecer
relevar e esquecer
a Grande Guerra da África
o Kosovo ainda um quasepaís
a Palestina ainda um país refugiado
o Tibet ainda China
a Nicósia ainda dividida ao meio
as ainda favelas, propositais
relevar e esquecer
achar que a guerra acabou em 45
que agora são só conflitos locais
que não se repetirá, temos internet
que nunca ocorrerá, que absurdo
ignorar a maldade humana
o ódio contra o deus deles
as roupas deles
a cor de pele, olhos, nariz, sexo
ou qualquer coisa que nos faça
pisando sobre a pilha de seus cadáveres ainda quentes
ficar um pouco mais perto do céu
olhar as imagens já coloridas das covas coletivas
da fome e desespero
e simplesmente não ver
usar a indiferença como arma
até que ela seja usada contra nós
sexta-feira, 27 de julho de 2018
todo império
todo império irá ruir
todo homem e mulher que um dia puseram os pés nessa terra
serão carbono
tudo que é vivo
morrerá
tudo que um dia foi civilização
evaporará
apesar das inesgotáveis tentativas de lembrar
tudo será esquecido
toda pedra será areia
toda escrita ilegível
todo relógio matéria
toda música silêncio
toda coluna piso
todo amor indiferença
toda religião mitologia
todo verbo substantivo
toda dor alegria
todo sonho passado
toda esperança ilusão
todo pecado imaculado
todo rei ninguém
toda história lenda
toda cultura museu
todo museu pó
até o isótopo radioativo
será comum
nada
resistirá à fome do tempo
quarta-feira, 25 de julho de 2018
à beira
à beira da estrada parece
que o horizonte é um pouquinho mais
belo, interessante
novo, inesperado
à beira da estrada talvez
esteja um pouquinho mais perto da beira
de mim, aqui ao lado a Clarisse
está com a Svetlana
realmente essa tal de pós
modernidade é na verdade
a era das catástrofes
contra o átomo, a pá
realmente esquecer é mais fácil
quando a lembrança é um câncer
em inconveniente metástase
realmente não há história
apenas biografia
à beira da estrada o tempo
é importante
a chuva, o sol
mas o relógio é só
seu
à beira da estrada quem sabe
com mala, mochila e sonhos
talvez
estejamos um pouquinho mais perto
daquela substância mole
quente, amorfa
gelatinosa
que nos constitui
e nos faz dormir a cada dia
querendo acordar
domingo, 22 de julho de 2018
domingo de sol
hoje é um domingo de sol
ameno, a natureza com seus bichos gritando
felizes, e a Galeria Borghese
lotada, reservando apenas para quarta
hoje é um domingo de sol
calmo, tantas pessoas destinos línguas
se cruzam, bicicleta chapéus e garrafinhas
de água, crianças cachorros fones
de ouvido, para quem corre
hoje é um domingo de sol
claro, as sombras e os bancos abrigam
graciosos, ao fundo uma tarantella, um Andrea
Bocelli, passa um trenzinho branco quase
vazio, e continua despudorado
hoje é um domingo de sol:
não me parece que ainda haja qualquer
preocupação, não me parece que reste alguma angústia
noturna, nesta manhã de um domingo de sol
Roma acordou contente
quarta-feira, 11 de julho de 2018
O peso do pássaro morto
de voz embargada
e garganta ainda
fechada
com vontade de chorar
viro a última página
d'o peso do pássaro morto
da Aline Bei
outro dia recebi
uma mensagem no face
book dizendo mais
ou menos: quer
um livro meu? 35
reais já com
frete e eu
sem conhecer imaginar conceber
é claro, me manda seus dados
bancários?
cara, que livro
foda
que merda esse
mundo machista branco
heteronormativo excludente
que nos atravessa
que epopéia contemporânea
romance narrativa poesia
que soco
no estômago
embrulhado
que texto
necessário
que possibilidade
técnica verbal humana
de início marcando versos
de lápis
abandonei-o
de início duvidando
abandonei-as
de início sem muita
certeza nesse solo
novo
eu, no lugar do privilegio dessa sociedade desigual,
sofri
e sofro
pela ficção tão possível
nesse mundo
imundo
injusto
sempre pior
para muitos
não sei
se continuarei o mesmo
espero que não
não sei quantos lerão
espero que muitos
não sei como agradecer
o destino deus musas ou caminhos
que trouxeram esse livro
às minhas mãos
não sei quanto
de revolta dor e beleza
agora tenho no peito
não sei quanto mais
a Aline nos permitirá
ler, espero que vários
já que a palavra
ainda que pouca é luz de vela
em meio à escuridão
que pouco a pouco nos cerca
sábado, 30 de junho de 2018
Uma ode ao novo
(com Álvaro Braga)
Talvez a mudança
Seja a coisa importante
E não a forma
Na qual se aprisiona
E não se encontra a chave
Ao sair.
É muito importante esse mergulho
No incontornável
Se tudo estiver moldado
A gente está fudido.
É na verdade um brinde ao novo
Uma ode ao novo
Ao que a gente deveria
De vez em quando buscar
E não envelhecer.
Hope and Dreams
Eu era professor do ensino médio
na Venzuela
e à noite
trabalhava como motorista de táxi.
A situação política da Venezuela
hace unos tres años
complicó.
A ese momento tinha o meu filho
Luís
e a minha filha Sabrina
que tinha 1 ano
a ese tiempo.
Então empecé a observar y escuchar
que ya praticamente no podría conversar con ninguem en la rua
sobre la situación política.
O costo de comida de todo estava una cosa
inaceptable
pero sí se hablava de eso
había grupos de personas que ficavam ofendidos
y querían te bater.
El problema fue la maldición del petróleo
ninguém investió en la infraestrutura de la nación.
Yo sigo morando aquí
casi cuatro años
yo vine aqui para la Copa
vení sozinho a Manaus
mandé dinero a mi família
ellos vinieran
pedí ayuda a la FAB
mi hija enferma
yo viví aqui con dificuldades.
Mí esposa y mis hijos nunca habían salido de mi país
yo sí, habia saído
y les dije:
la vida es corta,
hay que salir
la Venezuela está fechada por enquanto.
Yo vine a Brasil porque estoy convencido que es un país muito grande
yo moré en la Europa, en Estados Unidos
y nunca he visto gente generosa
amistosa
como la gente de Brasil.
Es una cosa que he experimentado acá en Brasil,
cuán acogedor es Brasil,
es increíble el soporte de la gente de la classe trabajadora
es una historia muy comovedora
yo no estoy interesado a ir en Europa.
Acá venieron todos
Brasil es así
como el Cristo
un país muy acogedor
la gente se interesa
por su história.
En mi opinión
acá especificamente en Brasil
no hay xenofobia
hay el elemento humano
por supuesto
y por el elemento humano
hay xenofobia.
Y la criminalidad
coño
Lapa es como Trafalgar Square
pero el gobierno no quiere hacer nada
todo está sendo cerrado
y esto devería ser resgatado,
como que no puedes tener una seguridad mas
estricta?
Hay una mala voluntad
un desinterés
ellos estan se preocupando con otras cosas
que no beneficían la ciudad de Río.
El avarícia humana
el avarícia del político
es como una máquina grande
que vá al Amazonas cortar arboles
y no ve el futuro
y corta la mata
y mata animales
y torna el suelo infertil
y no beneficia nadie
si no la corporación.
Imigramos aquí
porque la gente de mí país está sufriendo
Lapa hoy es como Venezuela:
la inflación de mi país
es mas alta del mondo
el pago del més
no compra un kilo de carne
pero solamente un cartel de huevos.
Tu no ves ninguno
ex-presidente
viviendo en Venezuela
todos sacaran el diñero
y se fueran a Europa y Estados Unidos
y viven en el nido del diablo.
Por qué no se quedan en Venezuela?
Sabéis cuantas nuclear weapons
hay en Estados Unídos, China y Russía?
Hiroshima y Nagasaki fueran
kilotones,
nada. Ahora hay megatones.
Por qué estamos concentrando
tanta inteligencia
en matar a los otros
y no por ejemplo
para la medicina?
El poema
yo lo que puedo decir
es que yo me sinto muy feliz aquí
no tengo interés en la Europa o el Estados Unidos
estoy muy relajado
con mi família
el brasileño es demasiado bonadoso
y acá puedo ser lo que soy.
quinta-feira, 28 de junho de 2018
Na saída
Estou no centro
De um núcleo
De vozes
E vazios
No centro
Do espaço
Logo após
Mais um CEP
No centro
Espiralado
Da saída
Do túnel
Da vida
Rumando
Errática
E flecha
Sangrando
Em cada palavra
Atravessando a garganta
Tentando
Algum ruído de quase silêncio
Que nos impeça de afundar
Em meio à lama
Desses dias só luz.
sábado, 23 de junho de 2018
Um pequeno querer
Eu quero passar a noite inteira
Aqui com vocês
Me esquecer um pouquinho
Dessa vida mesquinha
Onde o sonho é no máximo
Uma mísera
Promoção
Onde é tempo da eterna luz
Eu quero essa noite
De sangue quente
Escorrendo
Eu quero essa dança infernal
Báquica
E no centro do lago
A fogueira azul
Do inominável brilha.
Eu quero esse corpo
Disforme
Sem limites
Atravessado
De luz
Dos ponteiros parados do relógio
Do sorriso do Tom
A brincar no meio da banda
Lembrando que ainda
Logo após a esquina da razão
No cruzamento da dúvida
Com a pergunta
Tudo isso ainda pode
Quem sabe talvez
Fazer algum sentido.
Isto que é aniversário
Mas por que tanto busquei
Quando estava ao alcance
Das mãos
Nem tão assim
Esticadas
Quando bastava abrir
Levantar a cabeça e ver
A coisa acontecendo
Quase inominável
Inapreensível
Inconcebível
Quando bastava esquecer-se
De si e ser oceano
Quente
Pulsando
De vida
Quando estava ao alcance
Dos lábios
Desde que abertos
Ao talvez
Desde que incertos
Permitam
Contando com um sonho de amor
Que faça sorrir
Em frente ao abismo
Que faça voar
Que faça voar
Que faça cantar
A sua morte iminente
Quieto
Resignado
Pois certamente
Terá valido a pena
Cada pequena vícera
Rasgada
Apesar da noite escura
E inquieta
Certo que será corpo
De vida
E vaso de infinito
O seu olhar
Quando esfinge
O mundo.
Aniversário do Ítalo
É aniversário do Ítalo
Depois de bêbados
Falamos de filosofia
Poesia
Mas qual é a função
Do poeta?
Então se recitam
Das noites contadas
Dos tons
Da busca de sentido
Do potlach
Do porquê a coisa é função
E chegamos à música de Jorge
Ben, e chegamos ao conceito
Desse velho mundo
Então o vento lembra
Da música cantada aos berros
À uma da manhã
Com um violão
No Gato de Botas de Vila
Isabel,
Então chegamos à construção
Da religião, dos tempos crus,
Então chegamos no Nietzsche
Pensando na infantilidade dos deuses,
Então é hora de mais
Um cigarro
Já volto.
domingo, 17 de junho de 2018
Um minuto da sua atenção
Cara, eu só queria
Te contar
Que o mundo está pulsando
Firme
Elástico
Abissal
E águia
No centro de um eixo
Acentrico
Eu só queria te mostrar
Te fazer ouvir apenas uma vez
O horizonte é possível
Ainda sofrendo limites
O outro é possível
O eco é possível
Em cada pequeno passo
Em cada pequeno gesto
Rumo ao fundo
Do sentido mais simples
Elástico
Abissal
Sem qualquer capacete
Que impeça sentir alguma
Coisa
No suco de maracujá
Na boca
Então seca
Areia
Argila
Cimento
Mas agora jardim
De qualquer árvore
Que dure algumas
Gerações
Do sonho de alguma
Qualquer coisa
Que seja rio
Que enfim
Nos atravesse.
A noite de Santa
A noite de Santa
Teresa, dos trilhos
Vazios mas cheios
De gente, de som
E de luz
Pouca
Mas em meio ao escuro dos dias sem fim
Noite de Santa
Teresa, dos projetos
E ideias e sonhos
Dos Largos
Dos sorrisos
Por algum amanhã
Sonhado junto
Por alguma história
Ainda futura
Então a cada acordar em cada manhã
Haverá motivo
De ser além de si.
quarta-feira, 6 de junho de 2018
Querer
Quero o amor dos dias sem
Fim, o sonho das noites abertas,
O sorriso das almas sedentas
Por um pouquinho mais
De corpo.
Quero aqueles breves momentos
De cumplicidade simples
Com desconhecidos,
Aquela certeza de que tudo
Vai ficar
Bem
E de que o amanhã
É muito distante
Para se pensar.
Quero ter na minha mão
A sua
Caminhando rumo a um lugar qualquer
Em ruas novas
Que nunca vimos eprovavelmente
Jamais
Voltaremos.
Quero abrir a porta
E ver você correndo
De saudades apertadas
Se pendurando no meu pescoço
Já que desde hoje pela manhã
Não nos falamos.
Quero o gozo do seu corpo
Na ponta dos meus dedos
E língua bruxeleante e caneta
Arfando pela impossibilidade de estarmos um pouco mais
Juntos.
Quero a languidez dos lençóis molhados
Depois de juntarmos o céu e a terra
O sol e a lua
Os beijos e o mar.
E nesse querer sem fim
Me queimo de desejo
E não há mais
Nada além do brilho dos seus olhos de órix
Olhando o calor do deserto sem sombra
Em que me encontro quando estou
Longe.