segunda-feira, 27 de maio de 2019

vela

vejo o frio da noite de livro na mão e saudades no bolso
e penso suave por sorte em um tempo ainda não esquecido
quando as coisas faziam sentido e tínhamos um futuro
para chamar de horizonte utopia amanhã esperança certeza
ou qualquer coisa que nos movimentava para frente em busca
de um não sei o que, de algo inapreensível, de uma aventura
do novo, da dúvida, mas lembro que  estamos vivos
de pé, apesar de tantos pesares revezes impropérios pulsões
de morte em nossos rostos vomitados por uma escória
moral de uma sociedade orgulhosamente doente e vã
e lembro que é tempo de luta, de levar as palavras ao front
à beira de onde se trava a batalha por uma visão
de mundo menos tacanha e vazia e metálica e vil
ser então não o sol, mas a vela que vê a noite e sabe
que ainda pequena há de ver o dia raiar mais uma vez

sábado, 25 de maio de 2019

futuro

(com Álvaro Braga)

por mais que tentemos
fingir que não
por mais que lutemos gritemos
por mais que ainda acordemos
cada dia de novo
tentando fazer, tentando falar
a cada aniversário
a cada outro esquecido
a cada desordem em uma rotina organizada
tentando fugir do não penso, logo
existo, a tentativa da argamassa
do tecido social, do ser-junto
o futuro é apenas pedra, areia e esquecimento

domingo, 12 de maio de 2019

É sábado

e então nessa noite
em Santa, me lembro dos 3,5 chocolates
apresentados como corte no orçamento
da educação

e então nessa noite
me lembro do sonho da Mega-Sena
talvez para fugir dessa
distopia

e nessa ausência
microfônica
talvez duplo ou metáfora
dos tempos

e nessa inverossimilhança
impossível de contar em qualquer livro
minimamente crível

mas percebo o agora útero
e quente
feito de arte, de amigos
e de um caminhão
de carinho

a noite é também
ainda
um pouco
sinuosa
apenas o suficiente
para seguir

em busca dessas
noites quentes
acordamos a cada dia
atrás de um novo amanhã

domingo, 17 de março de 2019

é noite

os morcegos voam
é noite
quase não chove
tanto
uma mulher atravessa a rua vazia
o abismo da mudez chama sorrateiro

é noite
poucas pessoas caminham
ou carros
um bar de esquina está aberto
ainda

é noite
poças de água escura
as árvores com cheiro de chuva
há algo de incerteza
nesta esquina curva
de vento

é noite
há um teto
seco
não se está com fome
uma cama quente espera
você derrubar as inquietações
os dedos do mundo não tocam as janelas

ela volta
manda um beijo do outro lado da rua
carrega uma sacola na mão
entra na portaria
vou abrir
ela chegou

domingo, 3 de março de 2019

fotopoema iii

domingo à tarde
o sol forte ilumina as folhas verdes
algumas poucas flores rosamarelas
ao fundo o mar sonoro
de ondas permanentes
maggot brain ao fundo
passam borboletas laranjamarelas
o portão, esse sim, amarelo
ainda está trancado: não fomos à praia
hoje, mas já estamos saindo

nada parece fora de seu lugar
nada parece ruim
o som das folhas verde escuras
o encaixe das peças do quebra-cabeça
o círculo
devorando a própria cauda
indubitável

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

fotopoema ii

chove
as gotas batem nas telhas nas folhas
as ondas do mar continuam
bruxeleantes
riders on the storm na pequena caixinha
de som
chinelos e sunga e uma cadeira de praia
estamos protegidos
o pantera
dorme
as galinhas patos cachorros voltaram
para casa
o céu é de uma cor espetacular
um cinza azul profundo
com algumas poucas nuvens brancas
o horizonte não tem qualquer fim
salvo algumas poucas ilhas
ontem a praia, a cidade
hoje a casa
estamos de férias
ainda bem

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

la volpe

(partendo dalla storia di Desideria Santella)


riguarda il 2003, quando mi laureai
a maggio di quell’anno partii per l’Egitto
avevo bisogno in quel periodo de fare qualcosa di diverso
di intagliare un legame col mondo naturale

vivevo vicino al mare
in una piccola casa, una sorta di bungalow

mi capitava di andare in aeroporto di notte
mi capitava di incontrare la notte

quello che ricordo di quel periodo
è una sensazione forte che si è insidiata nel mio cuore

quella notte uscendo dalla mia stanza
mi sono fermata a guardare la luna
vicina, compatta
pienamente luminosa

io l’ho guardata
lei mi ha guardato

e’ stato un attimo, durato per lungo tempo
nella memoria della mia vita

ho sempre amato le volpi
vederla aveva portato la mia mente
al deserto
in lei resiede la sabbia
e la roccia brulla

conservo questa immagine
la luna
la volpe
immobili

non ho mai più visto una volpe
come quella

c’è una sensazione di armonia con la natura, perfetta
di equilibrio, di incontro
la tranquillità di un’emozione
c’è l’altra parte di me stessa

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

arquitetura

(com Pedro)

primeiro a área

em seguida a argumentação guia
que vai te orientar pelo processo
para quando você tiver uma decisão de cunho subjetivo
ele pede a sua volta

pensar o espaço varia muito pelo tipo de projeto
mas eu gosto de pensar o espaço
pelo oco
posicionam-se vazios
e não cheios

os fatores principais para se pensar o espaço
talvez o mais relevante
proporção
depois qualquer tipo de informação que possa alimentar os sentidos
peso, textura, cheiro, visibilidade
permeabilidade, sons
e como ele se relaciona com os espaços adjacentes
e os distantes

na arquitetura três espaços básicos
o externo o interno e o de transição

ao sair do túnel
umas pérgolas
começando a mudar a luz
uma questão de segurança
de cegueira temporária
brise num plano vertical

o espaço da marquise
são três espaços
uma portaria de vidro antes
de chegar ao espaço interno
a permeabilidade

uma das maiores questões:
como tratar o espaço de transição
entre dois espaços?

a espacialidade de um corredor largo e baixo
ou estreito e alto
é opressora

a arquitetura busca enquanto ferramenta estética
a harmonia entre as espacialidades
algumas vezes desarmonizadas

a arquitetura que use a estética do fractal geométrico
gerada com base em algoritmos
zara hadid feita de algoritmos
evolutivos
o desenvolvimento em etapas
iterações ultra complexas feitas de simulação

o conforto possível dentro de um projeto
o conforto subjetivo dentro do ambiental
o entender uma ânsia que não é sua

a boa obra pública
como aquela que garanta a equidade aos seus usuários
o usuário se sentindo dono
o criar essa sensação de pertencimento
sem quaisquer elementos hostis ou desagregadores
e trazer equipamentos que permitam
a sensação de pertencimento
as praças lugar de encontro social
o lugar de troca

o shopping é a anti-praça
mais praças e menos shoppings

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

adriane

(com Caio)

ela me faz
desafiar
o meu lugar comum

quando morando no Rio
morando na novela de Manoel Carlos
vivemos uma lua de mel

eu pensando em trabalho
e ela me perguntando onde está
a minha diversão

ela desafia os meus conceitos
pensar fora da caixa

o meu sentimento
por ela
é avassalador

lá em casa forte
alterna
conheci a mulher mais bonita da festa
talvez a mais bonita que eu conheci
em toda minha vida
eu até hoje em dúvidas
porquê ela me dá bola

a vontade de voltar a esse lugar
ao lado de uma mulher massa
que vale a pena dividir a vida
é um lugar bonito
simples
mas que vale a pena viver
um lugar bom pra caralho

é andar com ela na praia
e conversar sobre tudo
eu sinto a liberdade
a ausência de medo de qualquer crítica

ela, a pessoa mais incrível
bonita
inteligente
trabalhadora
boa de se conviver
nada de amélia
ela bota pra fuder

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

passo

(com Álvaro Braga e Luciana Beviláqua)

é difícil se entregar
dar um salto no desconhecido
pausa

um poema em pessoas
é preciso de humanidade
ao menos com um porco?

um colocar-se no lugar empático
uma alteridade
um outro em nós
e nós nos outros
e só há uma unidade

a autonomia da beira da bolha
sufocante
a tentativa de fazer uma possível mínima diferença
do pulo
                   mais alto
no ar novo respirável de enxergar
uma realidade que nem sequer existe
em meio à calota cerebral

sábado, 29 de dezembro de 2018

morte

(com Luciana Cabral)

a visão da morte começa com a parte humana
a dor física
os pequenos avisos de dor da morte
até aquela raquetada de dor
sem sonhos
sem lembranças

o julgamento dos outros
foi porque estava com angústia
foi porque não comia
ou trabalhava muito
a morte é só um ciclo que se encerra
mas procuramos sempre um motivo
que só sabe quem morreu

a imagem de todos em volta do caixão
na trombose cerebral

a discussão sobre o erro médico da terceira trombose cerebral

muita demência e desejo não realizado no CTI
a vontade de vingança por um passado não esquecido

o italiano gritando
quero queijo de cabra com coca cola
a noite inteira

a morte não pede licença
não negocia

a sua volta é fóbica
até o reencontro do ciclo da vida
e a perspectiva do tempo do dia

qual é o meu tempo não vendido?

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

guerra

é preciso sentir as marés
viver maré
ser maré
respirar maré
é preciso sentir a circularidade do tempo
e não sua espiral
é preciso tirar o peso dos ombros
de vez em quando
observar a paisagem
dormir com o barulho salgado na carne
é preciso deixar o sangue escorrer
fazer uma sangria
limpar-se
é preciso amar a coisa mais pérfida
insubstituível e vil
é preciso tomar um banho no escuro
nu com a noite
é preciso descansar
quando a guerra é longa

sábado, 22 de dezembro de 2018

útero

o útero criativo
é quente
lhes asseguro
talvez esteja ao alcance da subida do morro
ali ao lado da glória
onde se toca uma música
com ecos de infinito
desapegados do tempo
aqui acontece o dia e a noite
mas de outra forma
aqui é a força do mundo
o primeiro grito de ar nos pulmões
aqui as coisas acontecem em relógios de dali
aqui se entra na estrofe
aqui não há mais a busca
aqui espera-se que a noite nunca acabe
aqui se sonha mais forte
aqui se busca um pouco mais
aqui não há mais borda
aqui se suspende
e voa

aqui

aqui em santa
teresa
é como um parque de diversões
maravilhoso
acessível acima do morro
um suor pegajoso e bom
naquela noite de verão
ainda horizonte

aqui em santa
teresa
é puro id
são luzes de natal piscando
na bateria
é uma noite pegajosa
borbulhando

aqui é santa
teresa
é um convite
uma pausa
uma versura
que bom ainda possível
que bom ainda podemos
dela desfrutar
que bom dela ainda amar
a onda de Santa
comunitária
empática
multicelular

ouro verde

na beira do Tejo
as comidas cheiram a azeitona líquida
encorpada
os campos as roupas as mãos
cheiram a lagar
e eu ávido
regalado de memórias
trouxe comigo uma garrafa de sonhos
calmos, quentes, vaporosos
para tê-los em minha boca

fotopoema1

é uma árvore
antiga
de tronco firme
que deu sombra há muitos
anos
banhada pelo sol
com dois três dez tons
de verde
às vezes um pouquinho amarelos
disponível ao abraço mãe
vinda do útero da vida
com braços copados

de quantas vidas foi parte?
de quantos dias e noites foi parte?

é uma árvore
antiga
de tronco firme
que muito já viu
e ainda verá muito depois do nosso amanhã

conexão

(para Eduardo Losso)

a busca de um segundo
que desamargue os dias
que desafogue o sufoco
da rotina estafante

a busca de um minuto qualquer
de paz e comunhão
silenciosamente musical

a busca da força do tronco
da árvore verde
vivíssima

a busca de espaço
por dentro do corpo
sem paredes

a tentativa de adiar um pouquinho
essa morte, que há de chegar
mas ainda não

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

idílio

(com Laís Cavalcante)

chegando de cabo frio
em 2014
em niterói
querendo ser
universitária
mas ainda
na dúvida
encontrando pessoas
na rua
meu avô torturado
na ditadura
comecei a estudar em um pré
vestibular
conservador
um tempo gasto
até um professor de geografia
flertando
querendo aprender
me interessando
em um lugar de aprendiz

em um restaurante barato
em Icaraí
com uma blusa do clube da luta
sentei ao lado de um cara
que puxou assunto comigo
a conexão esperada
não naquele dia
mas no dia seguinte

ele, descolado
e eu, nem iniciado
a graduação
sem conhecer ninguém
mas cheguei na casa dele
ele de saia
cozinhando para mim
até que sua saia sujou
a gente fumando
ele tocando no violão
green eyes
ele sabendo sobre todos
os assuntos do mundo
de mãos dadas
na praia de Icaraí
até que na volta
eu travando
com muita roupa

a mãe dele chegou
eu não sei
porquê
fiquei com medo

ele indo para a Espanha
eu com medo sobre o que falar
ele dormiu no filme
ele com chocolate em casa
ele safado
eu gostando

a gente na casa dele
com ele a estranheza
daquele corpo novo
até um tapa na bunda
quando com meus olhos arregalados
ele gozou

após quinze dias de sua ida
ele me contou sobre a sua viagem
e eu falando dele
todo dia
fui me apaixonando
as fotos trocadas
eu mandando músicas cantadas em áudio
ele poemas e fotos
ele deleuziano
eu ainda não conhecia

ele na terça
no balão de capadócia
no café alguém especial
era eu

quando ele voltou
eu aflita
a gente se beijou
a gente namorou
até a sua traição
aparentemente desconstruída
ele com liberdade
enquanto eu não

foi todo o ano de 2016
após tantas inseguranças
eu terminei
bêbada e tão mal

acho todo dia em que eu me masturbo
eu penso nele
ele tão único
eu ainda não superei

eu nos seus olhos
um ser quase mítica
ele me mostrando o mundo

mas também não sei
vou pegar
um cigarro

domingo, 16 de dezembro de 2018

verde

(para Diego Pansani)

poesia é um modo de se olhar para o mundo
as árvores intervalo de verde
e sol em um domingo à tarde

girassol

quantas cores tem o girassol de van gogh?
quantos perfumes traz a primavera
a florir despretensiosa?