chove
as gotas batem nas telhas nas folhas
as ondas do mar continuam
bruxeleantes
riders on the storm na pequena caixinha
de som
chinelos e sunga e uma cadeira de praia
estamos protegidos
o pantera
dorme
as galinhas patos cachorros voltaram
para casa
o céu é de uma cor espetacular
um cinza azul profundo
com algumas poucas nuvens brancas
o horizonte não tem qualquer fim
salvo algumas poucas ilhas
ontem a praia, a cidade
hoje a casa
estamos de férias
ainda bem
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
fotopoema ii
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
la volpe
riguarda il 2003, quando mi laureai
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
arquitetura
(com Pedro)
primeiro a área
em seguida a argumentação guia
que vai te orientar pelo processo
para quando você tiver uma decisão de cunho subjetivo
ele pede a sua volta
pensar o espaço varia muito pelo tipo de projeto
mas eu gosto de pensar o espaço
pelo oco
posicionam-se vazios
e não cheios
os fatores principais para se pensar o espaço
talvez o mais relevante
proporção
depois qualquer tipo de informação que possa alimentar os sentidos
peso, textura, cheiro, visibilidade
permeabilidade, sons
e como ele se relaciona com os espaços adjacentes
e os distantes
na arquitetura três espaços básicos
o externo o interno e o de transição
ao sair do túnel
umas pérgolas
começando a mudar a luz
uma questão de segurança
de cegueira temporária
brise num plano vertical
o espaço da marquise
são três espaços
uma portaria de vidro antes
de chegar ao espaço interno
a permeabilidade
uma das maiores questões:
como tratar o espaço de transição
entre dois espaços?
a espacialidade de um corredor largo e baixo
ou estreito e alto
é opressora
a arquitetura busca enquanto ferramenta estética
a harmonia entre as espacialidades
algumas vezes desarmonizadas
a arquitetura que use a estética do fractal geométrico
gerada com base em algoritmos
zara hadid feita de algoritmos
evolutivos
o desenvolvimento em etapas
iterações ultra complexas feitas de simulação
o conforto possível dentro de um projeto
o conforto subjetivo dentro do ambiental
o entender uma ânsia que não é sua
a boa obra pública
como aquela que garanta a equidade aos seus usuários
o usuário se sentindo dono
o criar essa sensação de pertencimento
sem quaisquer elementos hostis ou desagregadores
e trazer equipamentos que permitam
a sensação de pertencimento
as praças lugar de encontro social
o lugar de troca
o shopping é a anti-praça
mais praças e menos shoppings
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
adriane
(com Caio)
ela me faz
desafiar
o meu lugar comum
quando morando no Rio
morando na novela de Manoel Carlos
vivemos uma lua de mel
eu pensando em trabalho
e ela me perguntando onde está
a minha diversão
ela desafia os meus conceitos
pensar fora da caixa
o meu sentimento
por ela
é avassalador
lá em casa forte
alterna
conheci a mulher mais bonita da festa
talvez a mais bonita que eu conheci
em toda minha vida
eu até hoje em dúvidas
porquê ela me dá bola
a vontade de voltar a esse lugar
ao lado de uma mulher massa
que vale a pena dividir a vida
é um lugar bonito
simples
mas que vale a pena viver
um lugar bom pra caralho
é andar com ela na praia
e conversar sobre tudo
eu sinto a liberdade
a ausência de medo de qualquer crítica
ela, a pessoa mais incrível
bonita
inteligente
trabalhadora
boa de se conviver
nada de amélia
ela bota pra fuder
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
passo
(com Álvaro Braga e Luciana Beviláqua)
é difícil se entregar
dar um salto no desconhecido
pausa
um poema em pessoas
é preciso de humanidade
ao menos com um porco?
um colocar-se no lugar empático
uma alteridade
um outro em nós
e nós nos outros
e só há uma unidade
a autonomia da beira da bolha
sufocante
a tentativa de fazer uma possível mínima diferença
do pulo
mais alto
no ar novo respirável de enxergar
uma realidade que nem sequer existe
em meio à calota cerebral
sábado, 29 de dezembro de 2018
morte
(com Luciana Cabral)
a visão da morte começa com a parte humana
a dor física
os pequenos avisos de dor da morte
até aquela raquetada de dor
sem sonhos
sem lembranças
o julgamento dos outros
foi porque estava com angústia
foi porque não comia
ou trabalhava muito
a morte é só um ciclo que se encerra
mas procuramos sempre um motivo
que só sabe quem morreu
a imagem de todos em volta do caixão
na trombose cerebral
a discussão sobre o erro médico da terceira trombose cerebral
muita demência e desejo não realizado no CTI
a vontade de vingança por um passado não esquecido
o italiano gritando
quero queijo de cabra com coca cola
a noite inteira
a morte não pede licença
não negocia
a sua volta é fóbica
até o reencontro do ciclo da vida
e a perspectiva do tempo do dia
qual é o meu tempo não vendido?
sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
guerra
é preciso sentir as marés
viver maré
ser maré
respirar maré
é preciso sentir a circularidade do tempo
e não sua espiral
é preciso tirar o peso dos ombros
de vez em quando
observar a paisagem
dormir com o barulho salgado na carne
é preciso deixar o sangue escorrer
fazer uma sangria
limpar-se
é preciso amar a coisa mais pérfida
insubstituível e vil
é preciso tomar um banho no escuro
nu com a noite
é preciso descansar
quando a guerra é longa
sábado, 22 de dezembro de 2018
útero
o útero criativo
é quente
lhes asseguro
talvez esteja ao alcance da subida do morro
ali ao lado da glória
onde se toca uma música
com ecos de infinito
desapegados do tempo
aqui acontece o dia e a noite
mas de outra forma
aqui é a força do mundo
o primeiro grito de ar nos pulmões
aqui as coisas acontecem em relógios de dali
aqui se entra na estrofe
aqui não há mais a busca
aqui espera-se que a noite nunca acabe
aqui se sonha mais forte
aqui se busca um pouco mais
aqui não há mais borda
aqui se suspende
e voa
aqui
aqui em santa
teresa
é como um parque de diversões
maravilhoso
acessível acima do morro
um suor pegajoso e bom
naquela noite de verão
ainda horizonte
aqui em santa
teresa
é puro id
são luzes de natal piscando
na bateria
é uma noite pegajosa
borbulhando
aqui é santa
teresa
é um convite
uma pausa
uma versura
que bom ainda possível
que bom ainda podemos
dela desfrutar
que bom dela ainda amar
a onda de Santa
comunitária
empática
multicelular
ouro verde
na beira do Tejo
as comidas cheiram a azeitona líquida
encorpada
os campos as roupas as mãos
cheiram a lagar
e eu ávido
regalado de memórias
trouxe comigo uma garrafa de sonhos
calmos, quentes, vaporosos
para tê-los em minha boca
fotopoema1
é uma árvore
antiga
de tronco firme
que deu sombra há muitos
anos
banhada pelo sol
com dois três dez tons
de verde
às vezes um pouquinho amarelos
disponível ao abraço mãe
vinda do útero da vida
com braços copados
de quantas vidas foi parte?
de quantos dias e noites foi parte?
é uma árvore
antiga
de tronco firme
que muito já viu
e ainda verá muito depois do nosso amanhã
conexão
(para Eduardo Losso)
a busca de um segundo
que desamargue os dias
que desafogue o sufoco
da rotina estafante
a busca de um minuto qualquer
de paz e comunhão
silenciosamente musical
a busca da força do tronco
da árvore verde
vivíssima
a busca de espaço
por dentro do corpo
sem paredes
a tentativa de adiar um pouquinho
essa morte, que há de chegar
mas ainda não
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
idílio
(com Laís Cavalcante)
chegando de cabo frio
em 2014
em niterói
querendo ser
universitária
mas ainda
na dúvida
encontrando pessoas
na rua
meu avô torturado
na ditadura
comecei a estudar em um pré
vestibular
conservador
um tempo gasto
até um professor de geografia
flertando
querendo aprender
me interessando
em um lugar de aprendiz
em um restaurante barato
em Icaraí
com uma blusa do clube da luta
sentei ao lado de um cara
que puxou assunto comigo
a conexão esperada
não naquele dia
mas no dia seguinte
ele, descolado
e eu, nem iniciado
a graduação
sem conhecer ninguém
mas cheguei na casa dele
ele de saia
cozinhando para mim
até que sua saia sujou
a gente fumando
ele tocando no violão
green eyes
ele sabendo sobre todos
os assuntos do mundo
de mãos dadas
na praia de Icaraí
até que na volta
eu travando
com muita roupa
a mãe dele chegou
eu não sei
porquê
fiquei com medo
ele indo para a Espanha
eu com medo sobre o que falar
ele dormiu no filme
ele com chocolate em casa
ele safado
eu gostando
a gente na casa dele
com ele a estranheza
daquele corpo novo
até um tapa na bunda
quando com meus olhos arregalados
ele gozou
após quinze dias de sua ida
ele me contou sobre a sua viagem
e eu falando dele
todo dia
fui me apaixonando
as fotos trocadas
eu mandando músicas cantadas em áudio
ele poemas e fotos
ele deleuziano
eu ainda não conhecia
ele na terça
no balão de capadócia
no café alguém especial
era eu
quando ele voltou
eu aflita
a gente se beijou
a gente namorou
até a sua traição
aparentemente desconstruída
ele com liberdade
enquanto eu não
foi todo o ano de 2016
após tantas inseguranças
eu terminei
bêbada e tão mal
acho todo dia em que eu me masturbo
eu penso nele
ele tão único
eu ainda não superei
eu nos seus olhos
um ser quase mítica
ele me mostrando o mundo
mas também não sei
vou pegar
um cigarro
domingo, 16 de dezembro de 2018
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
amor de irmão
(com Thaís Mandarino)
eu adoro ter irmão
por mesmo que não seja de sangue
irmão se torna irmandade
o encontro de almas
conhecida há tempos
muito bonita
porque ele compartilha a tua vida contigo
mesmo as mais vergonhosas
as mais impiedosas
você conta
o amor de irmão
muito profundo
marcado de dentro na pele
eu tenho grandes amigos, mas como
dar a vida como se fosse a tua
domingo, 9 de dezembro de 2018
nosso país
do palhaço político
onde o bordão é pior que tá, não fica
vivemos em um país de escândalos de twitter
de juízes políticos
onde o argumento supera o fato
vivemos em um país de escândalos diários
cada dia mais impossíveis
onde esqueceu-se completamente do real
vivemos em um país inverossímil
cada dia mais inacreditável
onde esqueceu-se do simples lembrar
vivemos em um país famélico
de pão e de teto
onde é amarelo o verde-azul
vivemos em um país a latifundiar
qualquer esperança
nesse canto por deus esquecido
vivemos em um país passado
tornado presente
nessa terra formada de sangue e húmus
vivemos um pesadelo sem fim
uma vontade de acordar
desesperadora
vivemos em um pais só fígado
nas fontes pútridas
espalhadas pelas praças
vivemos em um país bad trip
do não pode ser
verdade, isso
vivemos em um país necessidade de dormir
e desligar-se e ao menos amar
e tentar dançar em meio ao caos
vivemos em um país em brasas
ardentes no estômago
vazio talvez para sempre
domingo, 2 de dezembro de 2018
sete
hoje me cuidei
dormi o sono atrasado
tomei meu café
da manhã mais calmo
olhei de xícara na mão
os passantes na rua
hoje acordei
tarde, espreguiçado
o sol mais alto
a barba de baba da noite
o vento do início do verão
hoje fiz amor
sorridente, dei amor
recebi
tirei o atraso de mim
respirei
hoje Internet
não teve salvo por motivo
prático, não teve
ruído, poucas pessoas
na tarde justa
hoje cuidei do meu corpo
tomei meus remédios
todos, na hora certa
comi, bem, saudável
bebi uma água de coco
hoje depois
do almoço a sesta, satisfeito
nu, com o toque do lençol
e da pele quente que me sorria
ao meu lado na cama
hoje lavei louça
ajudei na comida
fui no mercado
caminhei por Copacabana
despudoradamente tranquilo
hoje deixei de lutar
só por hoje
uma pausa, deixei o fim
do mundo depois das flores
penduradas na janela
hoje fiquei feliz
hoje comecei um livro
hoje abaixei a guarda
hoje fiz um poema
hoje pude descansar
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
Dark Side
tomo uma cerveja no Osbar
mais uma vez
hoje a trilha sonora é Dark
Side, olho para cima
são linhas paralelas
quase se encontrando no céu
azul quase sem nuvens
tomo uma cerveja no Osbar
outra vez
começou a tocar Money
e me pergunto por que
seria tão importante esse papel
impresso que só compra angústia
ou desilusão
é, aqui no Osbar, tem cerveja
tem uma alegria invisível
ou quase
tem o ponto de fuga
da altura infinita
e acima esta fileira de casulos
quase todos já apagados
quase todos com um tubinho asceptico
mesmo no centro do Rio
de Janeiro, megalópole maníaca
ainda resta alguma pausa
ainda que de roupa social
que ainda despretensiosa
faça algum sentido
o sax e o piano do Us
and Them, acompanham o vento
do final de tarde
enquanto no gramado algumas folhas
novas balançam, enquanto o pedinte de bermuda azul e cachaça na mão
entra nesse poema por ouvir a música
que vocês também
ainda que silenciosamente
estão ouvindo
passam grupos saindo do trabalho
mulheres de salto
poc poc poc poc
homens de calça e camisa e orgulho
vazio, ruidosos homens
ao lado táxis esperam
esperançosamente qualquer um que queira ir para qualquer lugar
mas de mãos dadas às suas
prefiro não
tem alguém na minha cabeça
mas não sou eu
the lunatic is in my head
the lunatic is in my head
ouve seus risos?
venha comigo
ao lado escuro da lua
sábado, 24 de novembro de 2018
dúvida
por que ainda fazer poemas
por que ainda dizer
por que ainda falar alguma
coisa, não deixar-se
calar, por que ainda escrever
qualquer linha que seja
um rasgo no espaço em branco
da página, por que ainda lutar
por que tentar agir
por quem ainda não tem absolutamente
nada, por que ainda
acordar e ficar de pé
levantar-se e caminhar
dar e receber um abraço
um beijo, um toque
por que não simplesmente desistir
entregar-se ao nada
vazio e calmo
por que correr
e não andar devagarinho
passo
antepasso
por que não tentar
observar
a beleza firme da noite
ferina
obscura
e lâmina
e deixar
de perguntar?